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1964 – Memórias de Abril

Repressão militar contra manisfetantes em defesa da democracia - 1964

Repressão militar contra manisfetantes em defesa da democracia – 1964

No dia primeiro de abril de 1964, centenas de pessoas saíram às ruas do Recife numa passeata de protesto contra a tomada pelo exército do Palácio do Campo das Princesas e a prisão do governador Miguel Arraes. A passeata foi reprimida violentamente por uma tropa do Exército e dois estudantes secundaristas foram mortos. Alguns dos participantes são conhecidos professores, escritores, políticos e jornalistas. Iniciamos hoje um novo bloco em nossa revista, reunindo uma série de crônicas de pessoas que participaram daquela manifestação.

Entrevista com Ivan Rodrigues, assessor de Miguel Arraes

Postado por em ago 6, 2013 em 1964 – Memórias de Abril, Vídeos | 5 comentários

Entrevista com Ivan Rodrigues, assessor de Miguel Arraes

Ivan Rodrigues foi Presidente da CILPE, empresa processadora de leite, na época uma empresa estatal, e um dos assessores políticos do Governador de Pernambuco Miguel Arraes de Alencar.

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Batismo político

Postado por em maio 6, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 13 comentários

Batismo político

Sérgio C. Buarque >  O som do discurso saia pelo janelão e crescia na medida em que eu subia os degraus na entrada da Escola de Engenharia, criando um clima tenso e emotivo, uma agonia por dentro e um calor na cabeça. Vários outros estudantes subiam quase correndo para o auditório no primeiro andar e iam entrando excitados no ambiente abafado e nervoso. No microfone, um jovem baixo de óculos gritava palavras de ordem, interrompido por notícias do rádio informando sobre resistência no sul do país. Grande agitação nos corredores, muita gente pressionando na entrada e um falatório confuso e inquieto, abafado apenas pelo som gritado do microfone. Líderes estudantis, professores e presidentes de sindicatos se revezavam em pronunciamentos à multidão que crescia e se manifestava com grande alvoroço. Momento de exaltação, confiança e medo se mesclavam. Novo orador assumiu a fala e depois de um discurso inflamado e indignado, clamou à saída às ruas. “O exército ocupou o Palácio do Campo das Princesas – informou – e deve ter prendido o governador eleito, nosso companheiro Miguel Arraes. Vamos sair em passeata em direção ao centro exigindo a liberdade de Arraes”. Não houve mais discussão nem votação. A multidão quase me atropelou na saída do auditório com enorme estardalhaço e grande euforia que traduzia a confiança no nosso poder e na nossa capacidade de despertar indignação na população durante a trajetória. Quase correndo, descemos as escadarias ganhando logo a adesão dos que estavam do lado de fora esperando os acontecimentos. Começamos com algumas centenas e, no caminho, a passeata cresceu um pouco e recebeu aplausos de pessoas penduradas nas janelas de repartições e escritórios que ocupavam o pequeno trecho da Avenida Conde da Boa Vista e toda extensão da Guararapes. Crescia a certeza na nossa força e a convicção de que Arraes estaria salvo e o seu governo não seria esmagado pelos militares. Na primeira manifestação política da minha vida, com meus 18 anos, eu me sentia glorioso no meio da história e marchando com o povo brasileiro para resgatar o governador Arraes das mãos dos golpistas naquele primeiro de abril de 1964. Caminhava no meio da multidão e um pouco atrás da linha de frente. Tinha medo, mas a excitação do momento e a fusão com aquela massa de jovens e militantes maduros superava qualquer insegurança, pois me sentia unido à multidão e protegido pela motivação política e por uma imprecisa convicção de propósitos. Cantávamos, gritávamos palavras de ordem, vi uma bandeira brasileira levantada na frente, avistei meu irmão Cristovam nas primeiras linhas, pensei em me aproximar. Me contive, tenso e nervoso, sem saber muito bem o que fazer e decidido a seguir os líderes experientes naquela tarde carregada de simbolismo histórico. A manifestação dobrou à esquerda no final da Guararapes entrando na Avenida Dantas Barreto e ficando em frente ao Palácio do Governo do outro lado da praça. Como vinha no meio da passeata, percebi, antes mesmo de virar a rua, uma mudança no tom e no grau de exaltação, assim como uma diminuição do ritmo da caminhada. Todos os meus sentidos estavam excitados, captando e processando cada sinal: o som que arrefecia, a marcha que freava, os movimentos e os gritos misturando euforia e revolta. Quando fiz a curva das avenidas, eu vi a cena dramática...

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Tempos difíceis

Postado por em abr 29, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 3 comentários

Tempos difíceis

João Alfredo Correa Prado >   No ano de 1964, ingressei na Escola de Engenharia, egresso do Ginásio Pernambucano, onde já existia uma atividade política bastante desenvolvida. Na Universidade, acompanhei  desde o início toda  a efervescência política que estava ocorrendo no Recife e no resto do Brasil Na primeira semana de aula participei de um curso extracurricular de economia, dado pelo Professor Antonio Baltar, cujos ensinamentos ajudaram a alicerçar as minhas convicções políticas, ainda embrionárias. Naquela oportunidade, na primeira semana de março de 1964, o mestre já alertava para o perigo que corria a democracia, devido à ação dos grupos reacionários que não concordavam com as reformas de base que estavam sendo implantadas pelo governo popular de João Goulart. Os presságios do nosso saudoso Professor Baltar se confirmaram na madrugada do dia 31 de março, com o anúncio do deslocamento das tropas de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, comandadas pelo General Olímpio Mourão Filho. No Recife, o General Justino Alves Bastos, que se definia como legalista e empenhara a palavra ao governador de Pernambuco de que cumpriria a Constituição, mudou de lado e resolveu aderir ao golpe, àquela altura já vitorioso, pois o presidente João Goulart tinha abandonado o país para evitar um derramamento de sangue. Pela manhã do dia primeiro de abril, o Diretório Acadêmico de Engenharia, juntamente com o Diretório Central dos Estudantes – DCE, convocou uma assembléia geral, onde seriam discutidos assuntos políticos que estavam ocorrendo em todo país e, principalmente, em nosso estado. A assembléia, realizada na Escola de Engenharia, em clima bastante tenso, foi dirigida pelo Presidente do D.A. de Engenharia, na época o colega Drumond Xavier. Contou também com a presença de diversos dirigentes universitários, principalmente os colegas da Medicina, Direito, Arquitetura e Agronomia. Lembro-me das palavras dos colegas mais experientes, que pediam calma e alertavam para os perigos que corríamos, pois nossa Escola já era bastante visada pelos órgãos de repressão. No meio da assembléia, chegou-nos a notícia da prisão e destituição do governador Miguel Arraes, pois o mesmo tinha se recusado a renunciar ao mandato conferido pelo povo pernambucano. Logo uma proposta foi lançada a todos os presentes, para que fôssemos em comissão ao Palácio do Campo das Princesas, com a finalidade de dialogar com os militares e libertar o nosso governador. Apesar dos dirigentes universitários mais experientes alertarem para a gravidade da situação, e tentarem impedir a saída dos estudantes, o clima emocional já havia superado a razão. Ninguém os atendeu, e, em passeata, saímos em direção ao Palácio do Campo das Princesas para dialogar com os militares. Da Rua do Hospício, tomamos a Rua da Imperatriz e a Rua Nova. Durante o trajeto, palavras de ordem eram lançadas, e a simples idéia de dialogar com os militares para que o governador fosse liberado transformou-se, quase que de imediato, em planos de “libertar o Dr. Arraes das mãos dos golpistas e reacionários”. Nesta fase, os estudantes já tinham a companhia dos bancários, comerciários, funcionários públicos e de populares mais esclarecidos. Nas proximidades da pracinha do Diário de Pernambuco já estava havendo um comício, comandado pelos aguerridos ferroviários, cujo sindicato era bastante forte naquela época. A chegada dos estudantes, bancários, comerciários e do povo em geral foi bastante festejada, pois o pequeno número de estudantes que saiu da Escola...

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Lembrando o primeiro de abril

Postado por em abr 22, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 1 comentário

Lembrando o primeiro de abril

Marcelo Mário de Melo >  No dia anterior já corriam notícias sobre deslocamentos de tropas em São Paulo e pronunciamentos golpistas civis e militares. À noite, no Colégio Estadual de Pernambuco- CEP, hoje com o antigo nome de Ginásio pernambucano, o professor Adauto Pontes fez um discurso inflamado contra os golpistas, dizendo que seriam esmagados. Quando já tinha saído da sala, voltou e anunciou da porta: e vai ser pacificamente! No outro o Recife era uma correria só. As tropas do Exército num grande cerco, envolvendo toda a praça da Republica e o Palácio do Governo Notícias de invasões de sindicatos e prisões. As lojas fechando e o povo andando apressado para pegar ônibus. Sugiram rumores no boca a boca militante de que haveria uma resistência partindo da área portuária, com distribuição de armas. Dezenas de pessoas se concentraram na Praça do Arsenal da Marinha, à espera de alguma coisa. As horas escorrendo. Em certa altura fomos completamente cercados a distância por fuzileiros navais, que simplesmente se postaram e nos deixaram ir saindo. Correu a notícia de que havia uma assembleia geral na velha Escola de Engenharia, na Rua do Hospício. De lá saímos em passeata, em direção ao Palácio das Princesas, para defender o governo de Miguel Arraes, cumprindo em parte o roteiro atual do Galo da Madrugada. Quando estávamos na altura da Pracinha do Diário, no cruzamento com a Av. Dantas Barreto, em marcha passo de ganso, avançou contra nós um pelotão vindo das imediações do Palácio da Justiça, que começou a disparar, inicialmente, para cima. Depois foi baixando o ângulo até o nível dos manifestantes. Alguns companheiros gritaram: “é festim”! Mas eu vi os pedaços de reboco caindo do alto de um edifício, sob o efeito das balas, e dei o grito de alarme: “não é festim, não! É bala!” Entre correrias e tiros, avistei o companheiro Oswaldo Coelho, que me havia recrutado para a base do CEP e agora estudava Direito, carregando um corpo masculino com um grande buraco se estendendo pelo pescoço, o queixo arrancado a tiros. Somente depois, voltando para casa, soube que o ferido era Jonas. Junto a Jonas também tombou o jovem Ivan Aguiar, comunista de nascença, filho de Severino Aguiar, que morreu na década de 90 com mais de noventa anos, ostentando o orgulho de ser o mais antigo comunista vivo do Brasil. Ivan havia sido aprovado no vestibular para engenharia e aguardava o momento de começar a fazer o curso. Já ferido, ele ainda conseguiu disparar um tiro de um revólver 38 que Antônio Florêncio, comunista de Palmares, recolheu e guardava como relíquia. A Ivan, um brinde pela iniciativa desse – lamentavelmente único – tiro dado em Pernambuco em defesa da democracia e contra os golpistas de 1964. Diz-se que, ao lado de Ivan e Jonas, também tombaram um homem desconhecido e uma funcionária da loja de produtos masculinos – Remilet – colhida por um tiro no seu local de trabalho, na Av. Dantas Barreto. Um dia, em 1964, acompanhei numa homenagem a Jonas o poeta Albérgio Maia de Farias, também companheiro do PCB e das lutas estudantis. Na Galeria de Arte, da qual Jonas era frequentador, na margem do Rio Capibaribe, em frente aos Correios, ele deixou pregado no mural um poema que começava assim: “Na Galeria de...

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Brutalidades Iniciais

Postado por em abr 15, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 3 comentários

Brutalidades Iniciais

José Artur Padilha > No 1 de abril de 1964, amanheci em Escada, Mata Sul de PE, que era então um ativo foco camponês de luta por condições dignas de trabalho, remuneração e vida. Fato ainda hoje, em vexatório débito. Às 5h00, sem café, tomei o ônibus para o Recife. De Escada ao Recife, nada sabendo, notei já bem cedinho uma movimentação anormal de tropas e veículos militares, em diferentes pontos. A cada nova visão, a indagação: por quê? Era já a atuação repressora desfechada face ao foco camponês. O golpe nasceu com longas ramificações. Cheguei à Escola de Engenharia de Pernambuco (EEP), na Rua do Hospício, onde cursava o terceiro ano de mecânica, pelas 7h30 da manhã, para assistir aulas e tomar café no bandejão do Diretório Acadêmico (DA). Tanto pelas tropas que eu vira, como pela inserção pessoal, caiu rápido a ficha da dura e nova realidade. Eu a senti mais cedo e mais que outros. Nas primeiras notícias, a razão das tropas. Diziam informes contraditórios: parte das forças armadas, ajudada por civis cúmplices, dava um golpe militar iniciado na noite anterior; ia em pleno curso; facção militar golpista entre MG e RJ (depois rotulados de broncos e postos para trás por oportunistas), desfechara ação armada, na madrugada; o golpe evoluía livre ou talvez não, em diversos pontos do país. Era fato? Era!. A democracia em vigor, muito precária, como hoje, começava ali a padecer. Anos de chumbo se iniciavam. A EEP naquela manhã, pelo seu então papel de vanguarda por reformas de base e afins, se tornou, na militância acadêmico-política, ponto de especial convergência de pessoas engajadas de várias facções. Para a EEP dirigiu-se um número expressivo de seus estudantes e outros, acadêmicos ou não. Nos mil informes que chegavam moravam os perigos. Horas depois, esses perigos se consumariam dramaticamente. A cada hora, a EEP ficava mais elétrica, face aos informes conflitantes. Ora afirmavam avanços do golpe: ‘doce’ realidade para os da direita e dura para os da esquerda; ora, invertendo os sentimentos, afirmavam seu controle por tropas legalistas. Cada um, no íntimo, confundia ou não, desejos com realidades. Da nossa militância aliada, dos muitos que fomos, cito alfabeticamente 15 colegas de turma ou contemporâneos, como exemplo. Salvo falha, estávamos lá: Aécio Matos, Airton Araújo, Bruno Maranhão, Cândido Pinto, Cristovam Buarque, Drumond Xavier, Ednaldo Miranda, Geraldo Kleber, Joel Teodósio, José C. Melo, Renato Ribeiro, Ronaldo G. Dantas, Ruy Frazão, Sérgio Buarque, Telmo Araújo. Na EEP da época, sob a liderança do DA, corriqueiramente discutíamos temas candentes em assembleias e seminários. Debatíamos nossos cursos, o ensino em geral, apoio às reformas nacionais de base, à reforma agrária etc. Idealistas no frescor ingênuo (?) dos nossos, algo como 22 anos, queríamos melhorar o mundo, éramos esportistas, víamos os melhores filmes, namorávamos garotas. Na época, nada sobre ecologia. Naquele dia, tudo mudou brusca e estupidamente. Nenhum de nós tinha capacidade de processar em tempo real o que nascia e após se revelou. Nas incertezas e indefinições do que surgia, prosperou a ideia da reunião em assembleia no salão nobre da EEP, para debater, face ao golpe, o que fazer. Tanto lideranças destacadas como os liderados, desejávamos decifrar a esfinge. No início da tarde, passamos a debater como agir. Nem sempre sensatas, perspicazes, surgiam proposições ao acaso. Exemplo: alguém pediu...

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Confissões de um capitão

Postado por em abr 8, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 5 comentários

Confissões de um capitão

Carlito lima > O som cadenciado e harmonioso do toque de alvorada pelo corneteiro acordou-me naquela luminosa manhã. Eu era tenente do Exército Brasileiro e servia na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército sediada no centro da cidade histórica do Recife. Tropa altamente treinada contra guerrilha urbana, a Companhia de Guardas estava de prontidão há mais de uma semana, devido aos acontecimentos políticos da época. O presidente João Goulart acendia uma vela a Deus outra ao Diabo. Um processo de desgaste político se espalhou sobre a Nação. Um suposto dispositivo militar apoiava o presidente, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, jurou de pés juntos que defenderia a legalidade. Quando a conjuntura mudou, ele mudou de lado. A situação ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, no dia 13 de março, com muitos discursos provocativos. O pingo d’água que faltava para o copo transbordar. Jango estava cutucando a onça com vara curta. Naquela bela manhã de 1º de abril, logo depois da formatura matinal, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandantes de pelotão e fez uma preleção. Havia notícias confirmadas de que a tropa do general Mourão Filho, de Minas Gerais, estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército e depor o presidente João Goulart. O objetivo era restabelecer a ordem no país, garantir a democracia, a eleição para presidente em 1965. Mandou preparar cada pelotão para o enfrentamento e entrar em combate urbano a qualquer momento. Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão com pensamentos mil,  pois sabia que haveria uma confrontação naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, perto do quartel. Coloquei o pelotão em forma, passei em revista o armamento e o equipamento, falei para os soldados sobre a missão e deixei bem esclarecido: tiro só com minha ordem. Formação em cunha, o pelotão tomou a rua em marcha. A batida uníssona do coturno no calçamento fazia um barulho assustador. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam, eu vi mães colocando meninos para dentro das casas, ouvi algumas vaias, como também algumas palmas, o povo dividido. Avançava, continha a emoção e pensava na informação que haviam me passado: os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes, tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha. Assim que avistamos ao longe a multidão, em torno de 400 pessoas, tive que controlar um sargento, meu auxiliar, que pedia para dar um tiro a fim de dispersar a multidão. Mandei o sargento calar a boca, o comando era exclusivo meu. Evitava que houvesse reação por parte dos manifestantes e terminar numa carnificina de balas dos dois lados. Tentaria um diálogo, se possível. O pelotão se aproximou, dava para ver as fisionomias dos manifestantes, o sargento insistindo, me pedindo para atirar. Gritei não! De repente tive a maior alegria e o maior alívio de minha vida, ao perceber a multidão se dispersando em todas as direções. Invadimos o sindicato a “manus militaris” e ficaram três manifestantes. Pedi para eles saírem ou teria de levá-los presos. Um barbudo, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Dei a ordem “Então...

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Passeata de Sangue

Postado por em abr 1, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 4 comentários

Passeata de Sangue

 Ivanildo Sampaio > Já são 49 anos, mas um dia como aquele a gente nunca esquece. Eu, calouro, recém-ingressado na Universidade, vinha acompanhando aqueles dias de março com a mesma  preocupação que tinham os de minha idade – ou seja, nenhuma. Isso,  apesar das greves trabalhistas que tumultuavam o Recife, dos discursos radicais estimulados pelo PCB, de uma certa apreensão que se sentia na sociedade, especialmente por conta da pregação nacionalista de Leonel Brizola e das posições mais extremadas do deputado Francisco Julião, que entre outras coisas queria a reforma agrária “na lei ou na marra”. Deve ser dito que eu concordava com tudo aquilo, me alinhava, na Universidade, com as correntes mais à esquerda, combatia o que chamávamos de “burguesia”, execrávamos os “barões” da atividade canavieira e as poucas multinacionais que atuavam no Estado. Na noite do dia 31 de março, findas as aulas, tomei o último ônibus na Rua do Príncipe, desci na avenida Guararapes e ouvi, quase sem querer, um diálogo travado entre o general Justino Alves Bastos e o presidente João Goulart, via Italcable, cujo escritório era colado ao antigo Café Nicola, bem ao lado do Bar Savoy. Justino dizia ao presidente que “aqui no Recife está tudo bem, está tudo sob controle, o senhor não precisa se preocupar”. Quem não precisava se preocupar era eu, que  segui rumo à Rua Direita, para a “república de estudantes” onde morava. No dia seguinte, acordamos  com os tanques na rua. Ávidos por informações, buscávamos o noticiário das rádios. Algumas já estavam sob censura. Decretou-se feriado bancário, as repartições públicas fecharam, eu e outros companheiros, meio perdidos, fomos até a Universidade Católica em busca de luz e guia, até porque ninguém sabia o que de fato estava acontecendo, embora todos soubéssemos que estava acontecendo alguma coisa. No final da Avenida Guararapes, esquina com a Dantas Barreto, tropas do Exército isolavam lá atrás o Palácio do Governo, onde morava e despachava o governador Miguel Arraes. Na Universidade Católica, soubemos que os diretórios estudantis haviam convocado uma passeata “em defesa da normalidade”. A passeata deveria sair da antiga Escola de Engenharia, localizada na Rua do Hospicio. Fui para lá, mas a essa altura eu quase não conhecia ninguém: havia gente de todas as tribos, estudantes dos mais variados cursos, secundaristas, universitários, agitadores, o diabo. E a passeata saiu. Caminhamos pela Rua do Hospício até chegarmos à Praça Maciel Pinheiro, de lá tomamos à rua da Imperatriz e continuamos em frente, com o objetivo de chegar ao Palácio das Princesas, para hipotecar nossa solidariedade ao governador.   Não se sabe de onde, logo no início da caminhada apareceram três bandeiras, duas de Pernambuco e uma bandeira do Brasil. Com cada uma dessas bandeiras passando de mão em mão, seguíamos cantando o Hino Nacional e dando gritos de “viva a liberdade”. A medida que a passeata  avançava, as lojas ao longo do percurso iam fechando as portas, talvez conscientes de que aquilo não ia acabar bem. Final da Rua Nova, em frente de uma loja chamada Remilet, a bandeira brasileira veio para as minhas mãos. Dobramos à esquerda, passamos em frente à Igreja de Santo Antonio e continuamos. Do lado lado direito, com as mesas arriadas, estava o bar  Brahma Chopp; do lago esquerdo, o edifício Santo Albino. De um lado ao outro,...

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1º De Abril de 1964: A Mentira de 21 Anos – Chico de Assis

Postado por em mar 25, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 18 comentários

1º De Abril de 1964: A Mentira de 21 Anos – Chico de Assis

Chico de Assis > A imagem que mais me ocorre ao lembrar esse dia é a minha saída do prédio da Agência Nacional (o mesmo dos Correios, na Av. Guararapes), onde trabalhava como repórter-auxiliar. Saía com meu irmão mais velho, Antonio Avertano, diretor da Agência e também metido em subversão à época, além de mais alguns velhos comunistas que lá trabalhavam. As ruas já respiravam o clima de golpe. O Palácio das Princesas, cercado por tropas do Exército, contrariava a previsão do dia  anterior, feita pelo próprio governador Miguel Arraes, em rápida entrevista que com ele tivemos (eu e meu irmão), no fim da noite de 31 de março. Ele acreditava (ou, para nos tranquilizar, nos deu a entender que acreditava) que o golpe seria debelado. O general Amauri Kruel, comandante do II Exército, aderiria ao Presidente João Goulart,  e o general Justino Alves Bastos, do IV Exército, emprestar–lhe-ia  apoio aqui no Estado. Traído em sua expectativa – no transcurso de uma madrugada plena de traições – Arraes se viu cercado pela manhã e intimado a renunciar ou aderir. O governador dos pernambucanos assumiu a digna posição que o projetaria para a História e o transformaria num dos líderes políticos mais admirados de Pernambuco. Não renunciaria, nem muito menos aderiria aos golpistas. Seu mandato lhe havia sido outorgado pelo povo. E só ao povo seria entregue. Saiu preso, escoltado por forças militares, levado ao 14º Regimento de Infantaria e posteriormente desterrado  para a Ilha de Fernando Noronha, em cujo presídio passaria boa parte do seu tempo de prisão. Eu estava meio assustado com tudo. Tinha então 17 anos. Minha  militância – embora já engajada à juventude do Partido Comunista Brasileiro (PCB) – resumia–se a infindáveis discussões na esquina da Sertã (famosa cafeteria da época, na esquina da R.da Palma c/Av. Guararapes), a atuar no Clube Literário Monteiro Lobato (que havia fundado, ao lado de outros companheiros e que denominávamos “QG do estudante nacionalista”) e a acompanhar, com enorme entusiasmo, os avanços sociais que um governo efetivamente democrático realizava. Poucos dias antes, Luis Carlos Prestes, então secretário–geral do PCB, havia dito pela imprensa não existir nenhuma condição para um golpe de direita, que as conquistas sociais eram irreversíveis e que nada deteria o avanço do povo. Era natural que estivesse perplexo, diante do que começava a ver. Abandonei os companheiros de trabalho numa das margens da avenida e me dirigi à ponte Duarte Coelho, onde já despontavam os primeiros cordões da passeata de estudantes, bancários e alguns poucos trabalhadores de outras categorias, que se dirigiam ao Palácio, em solidariedade ao governador sitiado. Naturalmente, me incorporei a ela. Quando chegamos na esquina da Guararapes com Dantas Barreto, a um quarteirão do Palácio, as tropas militares se movimentaram em nossa direção. Pusemo-nos todos a cantar o Hino Nacional e alguns a desenrolar as bandeiras nacionais que conduziam, na  esperança de que o gesto paralisasse as tropas, como ocorrera em escaramuças anteriores. Várias rajadas de metralhadora e fuzil foram a resposta que tivemos aos nossos gritos de “fascistas” e de “não passarão”. Recuei correndo até a Igreja de Santo Antônio, quando soube que o corpo visto pouco antes, em meio a uma poça de sangue,  era de Jonas Albuquerque, menino poeta de 16 anos, meu colega no Colégio Estadual de Pernambuco. Outros tiros,...

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Adolescência Interrompida – Aécio Gomes de Matos

Postado por em mar 18, 2013 em 1964 – Memórias de Abril | 21 comentários

Adolescência Interrompida – Aécio Gomes de Matos

Aécio Gomes de Matos Para mim, desde criança, o 1º de abril sempre foi o dia da mentira. Mas naquele 1º de abril de 1964, ninguém duvidou das notícias aterrorizantes sobre o golpe militar que já vinha sendo urdido pelas forças de direita há muito tempo com o apoio dos militares e da CIA, que via na política nacionalista brasileira um risco de repetição da experiência revolucionária de Cuba. Nós, da política estudantil, estávamos entusiasmados com as reformas de base do Governo João Goulart, reestabelecendo o presidencialismo, limitando os subsídios das multinacionais, nacionalizando o petróleo, iniciando uma reforma agrária, estendendo aos trabalhadores rurais os mesmos direitos dos trabalhadores urbanos. O comício da Central do Brasil, realizado em 13 de março de 1964, reunindo mais de 150 mil pessoas, foi o marco do apoio popular às reformas e, ao mesmo tempo, estopim da resistência conservadora que se refletiu simbolicamente na “marcha de família com Deus pela liberdade”. Todos sabiam dos riscos de uma democracia comprometida com os anseios populares, mas não havia clareza que os militares tomariam a iniciativa de implantar um regime de exceção, depondo o presidente da República e prendendo os principais líderes identificados com o Governo deposto, inclusive o nosso governador Miguel Arraes. Na noite do dia 31 de março o golpe foi deflagrado e o dia amanheceu com as capitais dos estados ocupadas pelos militares, com a tropa armada, inclusive tomando de assalto as sedes das organizações populares. A sede da UNE (União Nacional dos Estudantes) foi invadida e incendiada para inibir na base a resistência estudantil. Cedo da manhã, em Recife, estávamos no pátio da Escola de Engenharia da Rua do Hospício, quando começou a chegar estudantes das faculdades de Direito, de Química, de Economia e Administração; depois gente de todo canto. O movimento crescia e se mobilizava com a notícia de que o Governador Miguel Arraes estava resistindo ao cerco militar e precisava do apoio popular para se fortalecer. De repente, cresce a ideia de que deveríamos ir todos para o Palácio do Campo das Princesas para criar uma força de resistência junto ao Governador. Saímos um grupo já bem grande, que ia crescendo a cada passo, para tomar a conde da Boa Vista, depois a Guararapes e entrar na Av. Dantas Barreto. Não sabíamos exatamente o que íamos fazer; não havia cultura política, nem estratégia de ação que permitisse racionalizar o processo. Erámos um grupo de jovens, envolvidos com as causas cívicas, guiados pelo idealismo democrático, mas mobilizados por atitudes ingênuas; puras, mas desprovidas de expertise em ações de massa. Historicamente, esta experiência não era nova, pois desde a revolução francesa as massas têm tido um papel importante na resistência à opressão. Entramos na Dantas Barreto em direção ao Palácio, certos do que iríamos nos juntar ao Governador Arraes para resistirmos pacificamente ao golpe e à sua anunciada prisão. Éramos muitos. Nunca tive uma estimativa clara de quantos, mas fechávamos a rua com algumas colunas, todos gritando palavras de ordem contra o golpe e a favor das liberdades democráticas e das reformas de base. Ao avistarmos o palácio, todos de braços entrançados, formando cordões humanos em todo o largo da rua, avistamos no outro extremo os militares em formação de ataque, movendo-se em passo de ganso, os fuzis em posição de ataque. Sentimos...

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