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Penso, logo duvido.

O Estado, a pulsão o sujeito.- João Rego

Reflexões sobre alguns conceitos utilizados em meu artigo Viva a Diferença! João Rego   A visão despersonalizada do Estado (lembro que o Estado é sempre constituído de pessoas) identificando-o como uma “expressão do sentimento dominante na sociedade” dá a impressão de que nada mais resta a fazer, uma vez que esta visão ampla e generosa coloca o Estado como uma instância superior e fruto impune de uma “expressão dominante”. Imagino um judeu em Auschwitz prestes a ir para o forno crematório pensando nessa expressão do sentimento dominante na sociedade. É claro que a Solução Final foi uma estratégia secreta de guerra e de extrema crueldade nazista, e Hitler, mesmo tendo sido eleito (expressão da maioria), com essa política certamente não estava correspondendo à vontade da maioria. Mas era o Estado que estava lá, com sua logística macabra, com metas,...

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Viva a Diferença! – João Rego

João Rego Duas notícias recentes me chamaram a atenção esta semana: a primeira, na Rússia, com leis que punem as expressões de afetos homossexuais em público; a segunda, na França, assim como já ocorreu em vários países, discutem no parlamento a união entre pessoas do mesmo sexo, a esquerda é favorável e a direita conservadora contra. Vem-me uma questão inquietante: em que a sexualidade dos seus cidadãos é identificada pelo Estado como ameaça? Por que uma instituição, construída ao longo de séculos de processos civilizatórios fruto de guerras, revoluções, dominações imperialistas, avanços e recuos políticos e sociais se importa com aspectos íntimos da singularidade humana? Duas pistas surgem: haveria um atávico mecanismo de controle do Estado no sentido de forçar a homogeneização da sociedade – quanto menos diversidade existir, de ideias, costumes e hábitos-, mais fácil seria a forma...

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Abril Despedaçado

Clemente Rosas > Naquele longínquo 1 de abril, quando me dirigi para o edifício JK, na Avenida Dantas Barreto, onde funcionava a SUDENE, meu local de trabalho, logo percebi que alguma coisa muito grave estava acontecendo.  Tínhamos vagas notícias do levante do General Mourão, mas a manchete do jornal “Última Hora”  era otimista: “Tropas Legalistas Marcham Sobre Minas”.  Ao longo da manhã, no entanto, a presença de veículos militares nas ruas, metralhadoras pesadas instaladas nas cabeceiras das pontes, a surpresa e o susto no rosto das pessoas sinalizavam noutra direção. Quase ninguém subiu para trabalhar, e a multidão de servidores permaneceu em frente ao edifício, ocupando a rua, de onde se podia ver soldados do Exército cercando o Palácio do Governo.  A agitação e a confusão eram grandes, surgiam idéias desencontradas, sugestões de ação estapafúrdias, espelhando apenas uma revolta...

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Quem tem medo de Yoani Sanchez?

A autorização do Governo cubano para a primeira viagem ao exterior da blogueira oposicionista Yoani Sanchez foi recebida e interpretada como uma indicação, mesmo tímida, de distensão política em Cuba. Ou, pelo menos, como um sinal de que o governo dirigido por Raul Castro pretende reduzir a repressão aos opositores e à liberdade de expressão. No entanto, os simpatizantes brasileiros do governo cubano demonstraram, na recepção à Yoani, intolerância diante das ideias e pensamentos discordantes. Consistentes, portanto, com seu apoio ao sistema politico de Cuba, que não tem nada de democrático, fizeram manifestações barulhentas e ameaçadoras que impediram a realização de eventos com a blogueira oposicionista. Querem a democracia apenas para os seus espaços de manifestação , impedindo a voz dos seus opositores com métodos que ultrapassam os limites da convivência social. Yoani reagiu com muita elegância à agressividade...

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Lembranças miúdas de Ibiúna

Teresa Sales Outubro de 1968. Guerra no Vietnam; hippies pregando paz, amor e liberdade; endurecimento da ditadura militar brasileira, que culminaria com a decretação do Ato Institucional número 5 na fatídica sexta feira 13 de dezembro daquele ano. Estamos a caminho de São Paulo. Do Brasil inteiro, jovens se deslocam de ônibus para a cidade bandeirante. Do Recife, por decisão coletiva e votada em assembléia, sairíamos preferencialmente em casais, em dias previamente escalados, tal um viajante qualquer. Numa das primeiras paradas, alguns de nós, que vínhamos em ônibus separados, descemos para lanche e banheiro. Humberto Câmara, da Medicina, dirige-se com gestos efusivos para um abraço, quando se lembra de uma das recomendações da referida assembléia. Muda a expressão do rosto, faz cara de nada e se vira para o outro lado, ainda de braços abertos, parecendo um magro Jesus...

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Memória e “verdade histórica” – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque A memória é uma invenção do passado com o olhar e a conveniência do presente. Memória não é mentira. Mas também não é verdade. É história reconstruída e alterada (no limite, até falseada) inconscientemente pelos desejos e interesses do presente. Parodiando Pasolini – “a realidade é feita de mil sonhos” – podemos dizer que a história é escrita por mil memórias, cada uma com sua visão do passado e de acordo com as situações presentes. Em busca da verdade histórica, as memórias se confundem e embaralham os fatos e as interpretações. Só o confronto de muitas memórias, e o seu teste em documentos e dados, pode ajudar a clarear o passado. O que diz a memória de José Dirceu e da maioria dos companheiros no poder sobre os chamados anos de chumbo? Que eles lutaram pela...

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Nossa homenagem a Fernando Lyra

Ao tomar conhecimento de nossa revista virtual, Fernando Lyra propôs-se a publicar um artigo. Nós lhe fizemos uma contra proposta mais ousada: inauguramos com ele um novo bloco da revista, Entrevistas. Foi uma tarde memorável! Fernando Lyra chegou à casa de Teresa Sales, pontualmente, na hora escolhida por ele, para ser entrevistado pelos editores da revista sobre seu livro, sua vida política. Ser entrevistado é um modo de dizer, pois o que se passou nessa tarde foi uma conversa animada e informal em que Fernando Lyra deixou um belo e vivo depoimento sobre fatos importantes da história de nosso país. Sua entrevista, na verdade, seu último depoimento em vida, ainda está em nosso blog. Neste momento, estamos transcrevendo-a para mantê-la, pois a resolução de som não ficou satisfatória. Em nossa conversa, fomos além do que é mais conhecido de...

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Ainda sobre Yoani

A Revista Será se alegra com o debate aberto pela “Opinião” desta semana com manifestações e pontos de vista bem diversos de vários dos seus interlocutores. Este é o nosso objetivo: promover e estimular o debate de ideias, de preferência ressaltando as dúvidas e não as certezas, estas que quase sempre são uma porta para o fanatismo. Lamentamos apenas que se utilize no debate o mecanismo malicioso de desqualificação das pessoas – no caso Yoani Sanchez – em vez de argumentar contra as suas opiniões. De um modo geral, é a fragilidade ou a carência de argumentos consistentes e convincentes que levam a esta tática, fugindo do debate e se escondendo por trás das velhas acusações stalinistas de “agente do imperialismo”, numa forma de repressão moral e inibidora dos críticos. No caso da blogueira cubana, a repressão dos seus...

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O presidente Obama e o carnaval brasileiro

Hoje, sexta feira oito de fevereiro, o Brasil todo começa a esquentar as baterias na sua diversidade de ritmos carnavalescos. No Recife, Naná Vasconcelos abre nosso melhor carnaval comandando a percussão das nações de Maracatu. Os brasileiros longe de casa, a grande maioria dos quase três milhões que emigraram em busca de trabalho desde meados dos anos de 1980 para os Estados Unidos, o Japão e a Europa, passarão o carnaval como um dia qualquer de trabalho: na faxina; atrás do balcão dos restaurantes; na pintura e construção; nos asilos, um dos nichos onde a mão de obra brasileira é muito valorizada pelo carinho que dispensam aos velhinhos. Nosso carnaval lá fora, tal uma micareta, é fora de época. E se veste de verde-amarelo, pois é na festa da Pátria, o 7 de setembro ou seu final de semana...

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Bola de Meia

Sérgio C. Buarque Eram seis camas espalhadas pelo ambiente e encostadas nas paredes brancas, únicos móveis e objetos da sala estreita, além de uma mesa de metal no centro. Dois jovens, sentados numa das camas, com ar tenso, conversavam em voz baixa como se trocassem segredos inatingíveis. Na cama da frente, do outro lado da sala e sob uma grade de ferro que dava para o pátio, dormia Juarez com aparente serenidade, espalhando o corpo entroncado na diagonal. Próximo da cama, Alberto, homem maduro de barba grossa e óculos de aro, estava de pé observando, através da grade, o movimento do lado de fora como se procurasse uma forma de fugir do tédio. Tinha um livro aberto na mão, mas sua atenção se concentrava do outro lado daquela grade na forma de janelão. Júlio estava acordado no canto esquerdo,...

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