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Penso, logo duvido.

A Batsebá de Rembrandt – João Humberto Martorelli

João Humberto Martorelli

Recorte de "Bathsheba with King David´s Letter" - Rembrandt.

Recorte de “Bathsheba with King David´s Letter” – Rembrandt.

A história bíblica é de adultério e homicídio. Em Jerusalém, depois de mandar cercar a Rabá, Davi levantou-se do leito à hora da tarde e, andando pelo palácio da casa real, viu uma moça nuinha no banho (aqui eu peço emprestado de Bandeira): alumbrou-se. Era Batsebá, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu, que servia às forças expedidas ao cerco de Rabá. Mandou-lhe então, à bela, mensageiros, e a trouxe ao seu leito e com ela se deitou. Batsebá concebeu um filho de Davi que chamou a Urias da frente de batalha para ver a mulher e descer a sua casa, pretendendo assim escapar da paternidade (por óbvio, não sonhavam com exames de DNA naquela época). Urias não quis deitar-se com a mulher e sim, voltar à refrega, por amor a Davi. O rei, então, despachou-lhe outra vez ao front, mas com uma carta para Joabe, orientando expor Urias a batalhas valentes, para que ele morresse. E assim foi. Depois, desolado e arrependido, Davi implorou perdão ao Senhor, mas cumpriu a penitência de ver morto o filho que dele Batsebá concebera. Pois bem. Levado pela mão amiga de João Recena, meu companheiro de viagem profissional, à hora morta de trabalho, que também era a nona hora do dia frio de Amsterdã, a dizer, madrugada para mim, que sou notívago, insone de carteirinha, mas, ainda assim, não podendo resistir à proposta da visita ao Rijks Museum para a exposição denominada Late Rembrandt, os quadros dos últimos anos do artista. De todas as obras maravilhosas do pintor, detive-me exatamente em Bathsheba with King David´s Letter (Batsebá com a carta do rei Davi), o preciso instante em que ela recebia a mensagem e deveria decidir deitar-se ou não com o rei, manter os compromissos com Urias ou ceder ao chamado real. Como precisava o catálogo, habitualmente, a história é representada com o rei, o mensageiro e Batsebá chocada, mas Rembrandt preferiu concentrar-se no conflito interior da mulher. É o olhar dela que domina a pintura. Rembrandt consegue transmitir o mistério dos sentimentos interiores sem revelá-los, deixando-me, a mim, pobre homem aflito com a madrugada fria, uma tarefa a que, decididamente, me propus. Estava ela tentada, mas com sentimento de culpa? Ou simplesmente enlevada pelo convite, mas fiel a Urias? Perpassou-me o sentimento de resignação: doce encanto, o da mulher que se disputa por dois homens, e sabe que nenhum deles resolverá nela o profundo dilema do amor. E fica resignada, porque ela própria não consegue entendê-lo. Gritei-lhe: Batsebá, e ela me olhou com o mesmo abrangente olhar da tela, sem alteração. Resignei-me eu, então: a beleza da pintura estava no devaneio do próprio artista, que captara o mistério da mulher e o deixava para a eternidade. Pouco importa que, depois, Batsebá tenha desposado Davi e concebido outros filhos, um dos quais Salomão. Toda a glória de Salomão é nada diante da beleza do olhar de Batsebá na tela de Rembrandt.

3 Comments

  1. João Humberto,

    O que muitos tentam, você consegue. Uma pérola, seu texto. Também notívago, faz uma hora que estou mergulhado no olhar dela e, em plena madrugada, namoro a isca que João Rego pendurou no anzol.

    Abraço,

    Fernando

  2. Prezado Martorelli: O mundo é grande mesmo, e não se sabe nem o que vai no mundo que está do lado da gente. Essa crônica, só, vale uma viagem, vale acordar de madrugada, no frio de Amsterdam. Um abraço, João Recena

  3. excelente artigo. Sempre fui leitor fiel das suas cronicas. Essa, li em 2015 mas só agora, relendo-a, pude parabenizá-lo.

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