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Penso, logo duvido.

A chapa Dilma-Temer, Tocqueville e o Morro do Bumba – Márcia Alcoforado

Márcia Alcoforado

A tragédia do Morro do Bumba, Niterói, 2010.

Recentemente assinei e divulguei um dos abaixo-assinados da Avaaz, uma rede de ativistas voltada à mobilização social global através da Internet cuja sugestiva missão é “ a de mobilizar pessoas de todos os países para construir uma ponte entre o mundo em que vivemos e o mundo que a maioria das pessoas quer.” A mobilização a que me refiro tinha como título um jargão bem conhecido dos órfãos de Dilma: Primeiramente, Fora Temer! Como subtítulo, constrangedoras questões: E pra mim? O que tem?, atribuídas ao atual ocupante do nosso mais alto cargo público, em recente delação do Ricardo Saud, lobista da JBS. As questões teriam sido formuladas no contexto de um acordo milionário da empresa, a ser beneficiada se eleita a chapa Dilma-Temer em 2014.

Em entrevista publicada dias atrás na Folha, o economista Delfim Neto afirmou ser o Congresso a única força possível capaz de controlar o Capitalismo. Ao cumprir o seu papel de representar a soberania popular, o Parlamento seria o único instrumento de educação de tal sistema de produção. O desalento do economista viria então da conclusão de que, no Brasil, o poder político vigente teria sido controlado pelo poder econômico. Mesmo diante de tão triste conclusão o nosso “velho “ economista aponta o caminho “menos pior”: nos conformar (somos bons nisso!) e manter o grupo atual no poder. Será?

Alexis Tocqueville foi um aristocrata francês enviado pelo governo da França, em 1830, para os Estados Unidos. A partir dessa experiência, o fidalgo escreveu o clássico “Da Democracia na América”. Um dos elementos da jovem democracia americana que lhe chamou a atenção foi o lugar que os magistrados ocupavam na sociedade. Desvios da lei eram tratados como um crime contra toda a nação, e toda a comunidade se unia para capturar o criminoso e julgá-lo. Para Tocqueville, uma das principais forças da democracia na América foi ter-se assentado sobre a mentalidade puritana dos pilgrims (os peregrinos vindos da Inglaterra), ou o que o sociólogo Max Weber posteriormente chamaria de ética protestante.  Em sua mais famosa obra, Weber faz uma ligação “espiritual” desta ética com o Capitalismo:

O capitalismo, para se desenvolver plenamente, necessita de práticas específicas, que são cultivadas pela religião protestante. Por isso encontrou condições excepcionais para seu desenvolvimento em países com origem nesta crença “.

A moral puritana baseava-se no Antigo Testamento e buscava, quase como um ato de fé, a educação, o respeito às leis e um capitalismo ético. Era a soberania do povo que fazia e executava as leis, além de constituir o júri que punia as infrações. Estaria assim explicado o fracasso do nosso capitalismo? Seria tal sistema incompatível com a nossa moral macunaímica ? A situação de submissão do poder político (e, portanto, da nossa moral e costumes) ao poder econômico que desalenta o Delfim é um destino inescapável?

Alguns analistas de peso compartilham e apoiam a estratégia do “menos pior”. Teorias da conspiração são levantadas e se parecem, diferenciando-se apenas pelas ideologias contra as quais estariam a serviço. De tão bizarras, chegam a nos dar vertigens. Fala-se[1] numa onda moralista  (Qual moral? Será a puritana? Oxalá seja!), quase uma possessão que consome a alma do país. O infeliz povo assim obcecado precisaria reagir e reaver o seu futuro!

Ah….o nosso futuro. Que sempre nos acenou sorridente, mas que se esfarela no ar há tantas gerações. De quem tantos já falaram e de que, enquanto país, até já nos apropriamos. Brasil, o país do futuro. Mas, de qual deles falamos? O de Cazuza,  que“repete o passado” ? A partir de 2013, as pessoas foram às ruas num movimento até hoje não totalmente explicado e entendido. Sem nenhuma formação de sociologia política, longe de mim pretender fazê-lo, mas me arriscaria a expressá-lo num desabafo: Basta !

Urge dar um Basta, não temos dúvidas. Aos trancos e barrancos, estamos encontrando caminhos, que não são o do imobilismo . Para romper com o passado, precisamos de um novo tecido ético, e ele ainda está sendo fiado. Estamos nus e ansiosos pela nova roupa. Há espelhos e luzes por toda a parte, venta e faz frio, mas não tem outro jeito. Temos que esperar o tempo do tear, do corte e da costura. Precisaremos continuar assim, expostos, nos esgueirando pelos labirintos constitucionais e jurídicos que nós mesmos criamos. O “re-engendramento” dos nossos princípios deve ser a tarefa central, nada pode nos afastar dela, e tudo o mais é periférico. Sobre o lixão nada se constrói, ou deveria ser construído. Não podemos esquecer jamais da tragédia do Morro do Bumba[2]!

[1] Trecho de artigo Moralidade e Moralismo do economista Luiz Alfredo Raposo, publicado em recente edição do Jornal do Commercio.

[2] A tragédia do Morro do Bumba ocorreu em Niterói. Extremamente emblemática, levou à morte de  inúmeras famílias que moravam sobre um aterro sanitário (“lixão “)  desativado. Houve uma explosão no terreno  sobre o qual construíram-se casas irregularmente. Apesar e ciente disto ( existiam estudos da UFRJ denunciando os perigos de vidas assentadas sobre o chorume) o poder público ao invés de desocupar a área , ali investiu, provendo pavimentação e iluminação.  Quem sabe quantos votos isso lhes valeu? Não sabemos e talvez jamais saberemos, mas o número de mortes é público.

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