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Penso, logo duvido.

A Febre do Mar – Clemente Rosas

Clemente Rosas

Veleiro em águas calmas.

I must go down to the seas again, for the call of the running tide
Is a wild call and a clear call that may not be denied
                                                            Sea Fever – John Masefield

Pois é, amigos, o claro e selvagem apelo do mar me fez voltar a ele, no mesmo veleiro branco, e a convite dos mesmos companheiros.  Desta vez rumo ao sul, partindo do Cabanga, em Recife, para a tranquila praia de Serrambi.  A placidez em que a encontramos, ao chegar e ancorar, me fez lembrar a minha Praia Formosa, em seus melhores dias.

Esse novo e sossegado velejo me levou a refletir sobre a influência do mar em minha vida.  Tendo passado, desde a mais tenra infância, pelo menos dois meses por ano em intimidade com ele, aprendi a “curti-lo” de todas as formas: nadando, pescando, fazendo caça submarina, remando, velejando…  Ou apenas sentindo o aroma dos sargaços, o gosto de sal nos lábios e na pele, e ouvindo o marulho das ondas – o mais repousante som da natureza (ao lado do ciciar do vento nas palmas dos coqueiros).  E isso significa, simplesmente, desfrutá-lo com o uso de todos os sentidos humanos.

Posso dizer também que o mar sempre esteve presente na minha poesia, no tempo em que tinha a coragem de escrever versos.  Dos poemas em que ele aparece, recordo um:

O mar em mim subsiste

Em sal, espuma e canto.

Sal de inúteis esperas

Ao vento e ao sol do tempo

Espuma que se gera

Das ondas ao espanto

E o canto em que deponho

Meu tormento e meu sonho.

Tenho ainda, em relação a ele, uma profunda admiração, surgida a partir da palestra de um graduado oficial da Marinha Brasileira.  Pela sua magnitude e suas riquezas, nosso mar territorial é comparável à Amazônia.  Temos, portanto, uma “Amazônia Azul”, e com mais uma razão para merecer a nossa reverência: é nela que repousam as centenas de compatriotas mortos com o torpedeamento dos nossos navios pelos submarinos nazistas, na 2ª Grande Guerra.

A essas riquezas econômicas – petróleo, minérios, recursos pesqueiros – somam-se riquezas de outro tipo, acessíveis a qualquer mergulhador de águas menos profundas.  Pois, para estes, o fundo do mar é uma caixa de deliciosas surpresas.  Sem temer o juízo tradicional sobre as “conversas de pescador”, cito alguns dos meus “achados”, em mergulhos e pescarias: o raro e belo “guajá”, cujo casco vermelho traz a silhueta de um morcego de asas abertas; um caranguejo esquisito, de casco projetado para cima, em forma de estreito cone, tão fino quanto as suas patas, o que lhe dá o aspecto de uma aranha subaquática; o “siri do alto”, de casco triangular, que por isso mesmo tem na Bahia o nome de “siri boceta”, popularizado por Jorge Amado em seus romances; o pequeno “tubarão morcego”, estranha combinação de tubarão e arraia, sem dentes, barriga branca e lisa, quase totalmente desconhecido entre os próprios pescadores de Formosa; o “voador de pedra”, um pardacento peixe voador dos corais: e, para fechar a lista, o “peixe cachimbo”, semelhante a um animal pré-histórico, de crosta dura, chifre, dois “braços” laterais curvos terminando em barbatanas, duas “perninhas” abaixo da barriga, encontrado em fundos lamacentos, e tão vagaroso que pode ser agarrado com a mão (só subsistem, suponho, porque nenhum predador os quer).  Como esquecê-los?

Mas volto à minha expedição náutica, para enfatizar o seu encanto e o seu conforto.  Sopravam os ventos do nordeste e leste, anunciadores do verão, aqueles que nunca trazem chuvas.  O motor foi usado apenas para desatracar do Cabanga.  Vela armada até o porto do Recife, um simples bordo para contornar o dique de proteção, e voo direto rumo ao sul, apenas adentrando um pouco o oceano para vencer o cabo de Santo Agostinho.  Na saída, fomos saudados por três golfinhos, no percurso alguns “voadores” mostraram suas habilidades fora d’água, e uma pequena tartaruga apareceu à proa, logo mergulhando para que o barco lhe passasse por cima.  No final, só mais um bordejo para contornar a linha de arrecifes que protege o ancoradouro.  E a alegria de chegar.

Com ventos favoráveis e boa velocidade, fizemos o percurso em duas horas menos do que o previsto, ancorando pouco depois do meio dia.  E constatamos prazerosamente que as nossas praias não urbanas, em dias não feriados, ainda são propícias ao repouso: encontramos Serrambi quase deserta, com apenas um solitário veranista cortando a faixa de areia com o seu cachorro.  Nossas bênçãos para os dois!

 

OBS – Para Eurico e Paulo, marinheiros de muitas viagens.               

8 Comments

  1. Ter a companhia do amigo Mr Rosas a bordo é privilégio para poucos barcos. O Zap teve dupla oportunidade. A crônica narra com maestria a singradura, restando apenas destacar o bom papo, a boa sensação de velocidade e paz, na imensidão do mar azul sem fim!

    • Pelo pouco que estive com Eurico, logo vi o quanto a companhia de Clemente lhe é cara. Eu também gostaria de singrar os mares do Nordeste na companhia desse velho lobo do mar. Quem sabe um dia não me alisto como voluntário para varrer o convés do Zap ou mesmo descascar batatas? Adorei a descrição da fauna marinha, especialmente a dos siris. Tenho ainda muito a aprender.

      Abraço para ambos,

      Fernando

  2. Além do relato escrito com a elegância peculiar do autor, a crônica é uma ótima reflexão sobre a riqueza dessa imensidão azul tão presente em nossas vidas.
    Parabéns Clemente pelo belo texto! Parabéns Eurico e Paulo por terem figura tão ilustre a bordo do Zap!

  3. Muito bom, marujo! Leveza e beleza no relato do passeio! Parabéns!

  4. Obrigado, amigos! Seus comentários foram brilhantes, generosos, originais, sugestivos! E para completar as amenidades fruídas na viagem, volto a John Masefield: And the wheel’s kick, and the wind’s song and the white sail’s shaking / And a grey mist on the sea’s face, and a grey dawn breaking.

  5. Fernando, como bem disse o poeta laureado “Is a wild call and a clear call that may not be denied”. O Zap sempre abriga os bons, principalmente aqueles bem aventurados que dispensam o conforto da terra firme para se lançar ao mar. Fique tranquilo que a faina é mínima e prazerosa. Forte abraço.

  6. Muito linda a sua crônica, Clemente. E na “conversa de pescador” o guaiamum terá sido esquecido porque é feio? Ou porque está extinto? Lembro de ter comido guaiamum em Olinda, na única vez da vida em que estive no Recife. Só lembro que foi estranho e que havia muito vento, não era brisa, era vento mesmo.

  7. O goiamum está ficando raro, querida Helga, mas ainda é bem consumido e apreciado. Mas não é do mar, nem propriamente da lama, como os caranguejos uçás. É das areias próximas dos mangues. Por isso não foi referido. E é até bonito, com seu casco azulado. Agradeço o comentário.

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