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Penso, logo duvido.

A miséria da política – Sergio C. Buarque

Sergio C. Buarque

Bolsa Família.

Que país desgraçado é este – social e politicamente -no qual os candidatos disputam o voto prometendo conceder favores e benefícios individuais aos eleitores, e não medidas para o desenvolvimento nacional? Socialmente, porque persistem as carências que levam o eleitor a conceder seu voto aos seus benfeitores imediatos; politicamente, porque o Brasil continua convivendo com esta exploração eleitoral da miséria. Muda o tipo de benefício e sofistica-se a forma de distribuição. Não mais concessão de telhas ou de dentaduras. Agora é a promessa de concessão de um 13º do benefício do “Bolsa Família”. Depois de mais de dez anos de implementação deste programa, e das repetidas declarações do “milagre” da inclusão social, não seria razoável esperar que, ao contrário, ninguém mais precisasse tanto deste benefício adicional? E que, portanto, nenhum candidato tentaria sensibilizar o eleitor com esta promessa?

Mas o Brasil continua com 13,8 milhõesde famílias precisando de uma modestíssima assistência (em média R$ 177,00 mensais) para sobreviver.Não parece uma demonstração do fracasso da distribuição de renda como política social, e de que, portanto, faltam ações e medidas estruturadoras para acabar com a miséria neste país? Na verdade, demonstra que, ao contrário dos mitos propagados pelo lulismo, não são a assistência social e a distribuição de renda (por mais que sejam justas, e até necessárias, no curto prazo)que geram inclusão social. A inclusão social se dá, principalmente, através da economia, com a geração de emprego e a ampliação da renda da população. E, de forma mais permanente, através da educação pública de qualidade, para igualar as oportunidades sociais e preparar a população para o mercado de trabalho. Como assistência social, o “Bolsa Família” é, antes de tudo, uma forma de conservação da pobreza, nunca um instrumento para o combate e a eliminação da pobreza. Mas miséria dá voto. Para os políticos populistas, é bom que a miséria não acabe, porque permite construir mitos e comprar voto bem barato.

Como a miséria persiste no Brasil, aparecem os candidatos com essa promessa de 13º do benefício. Impossível não ver em tal promessa um mecanismo disfarçado (nem tanto) de compra de voto. Pode ser justo e necessário, embora suficiente apenas para conservar a pobreza e moderar um pouco do seu sofrimento. Mas essa promessa em plena campanha eleitoral é uma enorme manipulação, uma clara tentativa de compra do voto dos miseráveis. Pernambuco tem 1,15 milhões de famílias beneficiadas pelo “Bolsa Família”, o que representa em torno de 3,7 milhões de pessoas, ou quase 39% da população (aproximadamente, portanto, 40% dos eleitores). O benefício é ridiculamente baixo, mas o ganho de um mês a mais dessa migalha sensibiliza e pode ganhar o voto desses milhões de miseráveis. Então, que viva a miséria!

É verdade que esta política da miséria tem sido praticada no Brasil em todos os tempos, e por quase todos os candidatos. Nem por isso é menos condenável. Além de mostrar que, lamentavelmente, a miséria continua no Brasil. A promessa do 13º do “Bolsa Família” é uma forma institucionalizada de manipulaçãodos eleitores pobres, e com enorme abrangência, utilizando o cadastro dos beneficiários do programa para chegar aos eleitores dispostos a trocar seu voto por um benefício imediato. Esta política da miséria continua, tristemente, presente no jogo eleitoral do Brasil. Na verdade, é a expressão maior da miséria da politica brasileira, rasteira, medíocre, fraudulenta e imediatista.

2 Comments

  1. Eis um país que deveria estar à procura de uma refundação, Sérgio. Só não me pergunte como. No momento em que acabo de ler seu desabafo/diagnóstico, sai mais uma pesquisa. O histriônico hospitalizado, tem 26%. Ciro e Haddad, somados, dividem o mesmo número em partes iguais. No terceiro pelotão, a despeito do tempo de televisão de Geraldo, lá vem ele com Marina com um dígito cada. É desalentador. Que alquimia poderá resultar daí para que não estejamos condenados àquele famoso passo à frente de quem já está a centímetros do abismo? É da cadeia e da UTI que emanam as vozes majoritárias. Algo de muito grave fizemos. Abraço, FD

  2. Um artigo perfeito de Sérgio Buarque. Não há o que tirar nem por. Só compartilhar a indignação.

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