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A música do Classicismo (1750-1820) – Frederico Toscano

Frederico Toscano (*)

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Frederico II, o Grande, compositor, excepcional flautista e rei da Prússia, tocando em Sanssouci, seu palácio de verão, com os compositores clássicos Franz Benda, tocando violino, e Carl Philipp Emanuel Bach, acompanhando no teclado; pintura de Adolph Menzel (1850-52).

Avançando na história da música após o Barroco (artigo anterior), chega a vez do período clássico. O termo “clássico” aqui se aplica ao período da música ocidental entre a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX. Nesse contexto, a música dita clássica está diretamente ligada aos ideais da antiga Grécia, quais sejam: a objetividade, o controle emocional, a clareza formal e o respeito pelos princípios estruturais no discurso musical. O Classicismo nasceu a partir de um movimento de ideias vindas do período da Renascença, que teve como princípio a exaltação da beleza antiga. Esse período foi, na verdade, a grande realização dos últimos compositores do Barroco: a criação de uma arte abstrata.

As obras dos compositores que inauguraram o Classicismo, como Carl Philipp Emanuel Bach, Johann Quantz e Baldassare Galuppi, eram uma reação à complexidade da música barroca, com sua polifonia, contraponto e ornamentos intricados. Em vez disso, imaginaram um estilo em que uma melodia simples fosse acompanhada por progressões harmônicas.

O movimento iluminista, com seu foco nos ideais humanos e racionais, teve grande influência nessa mudança de valores estéticos, assim como o interesse pela elegância sóbria da arte e arquitetura greco-romana, inspirado em parte pela descoberta das ruínas de Pompéia em 1748. Era uma época de grandes mudanças sociopolíticas, com os efeitos da Revolução Industrial. Surgia uma ampla classe média ávida por consumir arte. As aristocracias da Europa, vítimas das devastações das Guerras Napoleônicas, tinham menos recursos para sustentar músicos, e o velho sistema do mecenato começou a se desintegrar.

Tradicionalmente, os músicos contratados pelas cortes aristocráticas eram considerados servos. Porém, com a difusão dos concertos públicos, passaram a receber dinheiro por suas apresentações, bem como a publicar suas composições, garantindo renda extra. Haydn, por exemplo, era contratado pela nobre família húngara dos Esterházy, mas tinha licença para viajar. Mozart, que era músico do arcebispo de Salzburgo, não gozou dessas benesses e, desmotivado com sua posição servil, mudou-se para Viena e pediu demissão, tornando-se um dos primeiros músicos freelance. Contudo, o mundo da música ainda não podia custear tal ambição, e ele passou por consideráveis dificuldades financeiras. Quando Beethoven mudou-se para Viena em 1794, viveu da riqueza de seus patronos, nunca se vendo obrigado a exercer cargo oficial.

À medida que a música instrumental tornava-se mais popular que a vocal, os compositores foram criando estruturas maiores e capazes de suportar uma audição mais intensa. O resultado foi o “princípio da sonata” (mais conhecido como “forma sonata”), estrutura musical dividida em três seções: a exposição do tema, o desenvolvimento e a recapitulação. O uso desse modelo de composição tornou-se quase sinônimo dos primeiros movimentos não apenas de sonatas, mas também de sinfonias e da maior parte da música instrumental do período. Permanece em uso até hoje. A sinfonia evoluiu da dimensão barroca, em pequena escala, para um imponente gênero musical. Geralmente em quatro movimentos, começa com um majestoso movimento, seguido por um lento. O terceiro movimento, em geral um elegante minueto, evoluiu para um scherzo, que pode ser jovial ou expressar paixão mais irônica e elementar. O finale era um rondó, entremeado, na melodia, em tempos fracos de suas cativantes repetições, por temas contrastantes.

Outros gêneros também foram redefinidos. O concerto em três movimentos tornou-se veículo para um solista único, aliando os ideais de equilíbrio e elegância ao virtuosismo no instrumento, enquanto a sonata desenvolveu-se como composição mais formal para um ou dois instrumentos. A ascensão da música doméstica criou um mercado para novas formas de música de câmara, como o quarteto de cordas – criado por Haydn – e o trio com piano.

As orquestras tornaram-se amplamente padronizada: menores, mas não muito distintas das orquestras de hoje. Com o som mais cheio da orquestra, o papel do baixo contínuo morreu gradualmente; no lugar dele, o primeiro-violino passou a reger a orquestra até ser finalmente substituído por um maestro especialista. As orquestras atuais possuem uma extensão dinâmica bem maior. Nos anos 1740, os recursos sonoros da orquestra de Mannheim, a mais importante da época, causaram sensação, tornando-se um exemplo para toda a escrita sinfônica.

Na ópera, sobretudo as de Gluck e Mozart, os enredos eram agora escolhidos visando a um maior realismo dramático, e a música era composta antes para servir ao drama que para decorá-lo. Gradualmente os italianos começaram a perder a supremacia, com obras importantes sendo compostas na Alemanha e na França.

Principais compositores

Embora sem a versatilidade musical de seus rivais, Christoph Willibald Gluck (1714-1787) ganhou notável lugar na história da música com as reformas que introduziu na ópera. Ao adotar uma estrutura mais contínua, em que a música obedecia mais à poesia do que ao virtuosismo do cantor, usou caracterização expressiva, enredos simples e planos musicais de grande escala, dando vida a temas e emoções humanas universais. Começando com Orfeo ed Euridice, a obra de Gluck mudou permanentemente as normas líricas, ao mesmo tempo em que causou certa controvérsia, sobretudo na conservadora Paris. Seu grande triunfo veio em 1779, com a ópera Iphigénie en Tauride e sua música profundamente dramática e expressiva.

Possivelmente o compositor mais importante de sua geração, Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) fez a ponte entre o estilo barroco de seu pai, Johann Sebastian Bach, e o estilo de Haydn e Mozart. Desenvolveu a sonata, sendo renomado tecladista e autor de A verdadeira arte da execução do teclado, maior tratado sobre a música do século XVIII. Na sua obra, destacam-se as Seis Sonatas Prussianas, compostas não para o cravo, e sim para o mais sereno e sensível clavicórdio, instrumento capaz de expressar melhor as sutis, mas intensamente emocionais; a Sinfonia em Mi bemol maior, WQ179, uma das oito Sinfonias Berlinenses, que reflete claramente o novo estilo clássico, com seus efeitos homofônicos e simples (em lugar de polifônicos e complexos do Barroco); o Magnificat em Ré maior, WQ125, que teve como modelo o do seu pai (BWV 243).

Nascido na era barroca, e ainda vivo quando Beethoven compôs sua Sinfonia Pastoral, Franz Joseph Haydn (1732-1809) foi uma figura-chave na evolução do estilo clássico. Ao compor uma vasta obra nos limites protetores da corte dos Esterházy e estabelecer formas-padrão para a sinfonia, a sonata e o quarteto de cordas, despontou como uma personalidade internacional que influenciou Mozart e ensinou Beethoven. Rica em efeitos audaciosos, a música de Haydn não deixava de mostrar um lirismo íntimo, como se pode perceber em seu oratório A criação. Compôs o primeiro concerto da história para o recém-inventado trompete de válvulas. Pedra angular para o violoncelo, o Concerto nº 1 é grandioso do começo ao fim, exigindo extrema agilidade nos movimentos externos. Sua monumental Missa Nelson homenageia Lord Nelson, almirante inglês que o compositor conheceu em 1800. Criador do quarteto de cordas, o de nº 63 recebe tem o título Aurora devido ao violino ascendente que abre a peça. Haydn inovou no gênero sinfônico, sendo famosa a Sinfonia nº 104 em Ré maior, de suas doze Sinfonias de Londres.

Provavelmente o mais prodigioso músico de todos os tempos, as primeiras turnês de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) pela Europa não apenas o tornaram famoso, como o familiarizaram com diversos estilos musicais que ele sintetizou em suas próprias obras cosmopolitas. Único na história da música pela excelência em todas as formas e gêneros e dono de espantosa fluência produtiva, nenhum outro compositor foi tão bem-sucedido em veículos tão distintos e foi o primeiro músico a tentar se firmar como freelance. Embora sua grande paixão tenha sido a ópera, terreno em que deixou importantes inovações, como em sua Flauta Mágica, a primeira ópera genuinamente alemã, Mozart foi o mais brilhante pianista de sua época. Ele levou o concerto para piano a novos patamares de riqueza e virtuosismo, com efeito de longo alcance no século XIX. Na ópera, a partir das reformas líricas de Gluck, Mozart combinou vigorosa caracterização vocal e seus supremos dons melódicos com uma ênfase na cor e expressividade orquestrais para realizar uma concepção dramática jamais imaginada. Suas descrições de caráter, psicologia e interação humana revelam uma complexidade sutil que confunde as linhas entre opera seria e opera buffa, particularmente em As bodas de Fígaro, Don Giovanni e Così fan tutte. Mozart também escreveu muitas músicas solo e corais, que vão desde o curto moteto Ave verum corpus, peça de serena beleza, ao jubiloso Exsultate, jubilate para soprano e orquestra. Entre as obras corais de grande escala, a Grande Missa em Dó menor e o Requiem exalam atmosfera séria e mais escura. As sinfonias, concertos e obras de câmara de Mozart dão especial atenção ao timbre instrumental, associando-o a sutilezas orquestrais, particularmente ao uso dos sopros. A obra mais famosa de Mozart é a serenata Eine kleine Nachtmusik, mas o ápice de sua evolução sinfônica é representado pela Sinfonia Júpiter. A causa de sua morte, aos 35 anos de idade, foi provavelmente febre reumática.

Ícone da música ocidental, Ludwig van Beethoven (1770-1827) consolidou o conceito popular do artista que, isolado da sociedade, supera a tragédia pessoal para realizar sua missão. Designando-se como Tondichter (em alemão, “poeta do som”), sua música espelhava sua crença no espírito superior do individualismo, ao fazer a expressão pessoal prevalecer sobre a forma tradicional e, assim, pavimentar o caminho para o Romantismo musical. A música invariavelmente intensa de Beethoven toca em todos os pontos da escala emocional, indo da melancolia mais soturna à celebração mais exultante. Sua luta para compor era árdua, com algumas obras levando vários anos em laboriosa gestação. A produção de Beethoven é geralmente divida em três períodos. O primeiro começou depois de sua chegada a Viena, aos 22 anos, e incluem seus Quartetos de cordas op. 18, três concertos para piano, duas sinfonias e as sonatas Ao luar e Patética. A fase intermediária começa em 1803 – um ano depois de ter compreendido a seriedade de sua surdez e ter rejeitado o suicídio para dar ao mundo, como disse, “toda a música que sinto dentro de mim”. Sua primeira manifestação foi a épica Sinfonia Heroica, obra de colossal energia e a mais longa sinfonia até então já escrita. Desse período vêm mais quatro sinfonias, o Concerto para violino, os Concertos para piano nº 4 e 5 e uma ópera, Fidelio. Contudo, seu crescente isolamento pela surdez marcou a mudança para a última fase, explorando modos mais pessoais de expressão. Coroando a produção de Beethoven, a Missa solemnis e a Nona Sinfonia foram inovadoras, combinando escrita sinfônica e coral como nunca antes. Em 1827, o gênio alemão foi acometido de hidropisia e pneumonia. Morreu em março, e cerca de dez mil pessoas acompanharam seu funeral.

Outros mestres merecem destaque na era clássica pela excepcional qualidade de seu legado, como Johann Adolph Hasse (alemão, 1699-1783), Johann Joachim Quantz (alemão, 1697-1773), Johann Christian Bach (alemão, 1735-1782), Johann Albrechtsberger (austríaco, 1736-1809), Karl Ditters von Dittersdorf (austríaco, 1739-1799), Giovanni Paisiello (italiano, 1740-1816), Luigi Boccherini (italiano, 1743-1805), Carl Stamitz (alemão, 1745-1801), Domenico Cimarosa (italiano, 1749-1801), Muzio Clementi (italiano, 1752-1832), Antonio Salieri (italiano, 1750-1825), Luigi Cherubini (italiano, 1760-1842) e Louis Spohr (alemão, 1784-1859).

No próximo artigo, conversaremos sobre a era romântica, que rejeitava os limites da convenção clássica. Para os românticos, a originalidade era de suprema importância. Eles celebravam a emoção e o instinto, e tomavam a natureza por inspiração.

(*) Frederico Toscano trabalha no Ministério da Ciência e Tecnologia, tem mestrado em Administração e é autor do blog Euterpe (http://euterpe.blog.br), especializado em música clássica.

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