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Penso, logo duvido.

A socialdemocracia e a União Soviética – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

A especulação – legítima, mas muito duvidosa – segundo a qual a consolidação da social-democracia na Europa Ocidental teria sido uma resposta do capitalismo à presença ameaçadora da vizinha União Soviética – “o espectro do comunismo rondando a Europa” – é extremamente injusta e ignora alguns fatos históricos fundamentais. É injusta porque desconhece (ou menospreza) a existência ativa dos partidos social-democratas europeus que, desde Marx e Engels, seus fundadores, e bem antes de Lênin e Stálin, difundiam as ideias e lutavam pelo socialismo. Mais injusta ainda porque subestima a força e a organização da classe operária dos países europeus, principalmente da Alemanha, muito mais industrializada que a Rússia, com uma história de ideias socialistas, grandes pensadores e brilhante intelectualidade socialista.

No último Hebdomadário da Corte(Revista Será?), Luciano Oliveira pergunta se a “socialdemocracia europeia teria podido existir sem o medo da brutalidade do regime de Stalin”. Ao contrário do que parece insinuar Luciano com a pergunta, a brutalidade de Stálin, que começa no final dos anos 20, contribuiu para afundar a República de Weimar da Alemanha, dirigida pelo Partido Socialdemocrata alemão nos primeiros anos após a derrocada do Kaiser Guilherme II (pouco depois da revolução russa que, em fevereiro de 1917, derrubou o tsar Nicolau II). Na verdade, durante a República de Weimar (1918 a 1933) e ao longo dos anos que antecederam a vitória de Adolf Hitler, o Partido Comunista, submetido à orientação autocrática de Stálin, empurrou a frágil república para o abismo e rejeitou uma aliança com o Partido Socialdemocrata, abrindo caminho para o nazismo. Em grande medida, o temor que o stalinismo despertava na classe média e na burguesia alemã ajudou Hitler a explorar o “ovo da serpente” na Alemanha, e em nada fortaleceu a social-democracia.

Mas a República de Weimar fracassou, e foi esmagada pelo nazismo por vários outros fatores, entre os quais as draconianas condições do Acordo de Versalhes que inviabilizou a recuperação da economia alemã após a guerra. Neste sentido, o Plano Marshal, implantado depois da segunda Guerra Mundial, com fluxo de recursos dos Estados Unidos para a Europa devastada, mostrou um aprendizado com o desastre provocado pelo Trabalho de Versalles, que criou o ambiente favorável à emergência do nacionalismo ressentido dos alemães, principal insumo do nazismo.

O Partido Socialdemocrata da Alemanha também foi incompetente para enfrentar a grave crise econômica, e lidar com a fragmentação política do país nos primeiros anos da República de Weimar. E tolerou a atuação brutal das milícias de direita dos Freikorps,na repressão à insurreição de esquerda dos Espartaquistas (dissidentes do Partido Socialdemocrata), em 1919, que culminou com o assassinato dos líderes revolucionários Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Este incidente deixou profundas marcas emocionais, que contaminaram as divergências políticas dos social-democratas com os comunistas, herdeiros de Rosa Luxemburgo, mas submetidos a Stálin, apesar de a líder alemã-polonesa ter sido uma critica dura da ditadura do proletariado, mesmo antes do stalinismo hegemônico.

Depois da segunda guerra mundial, a social-democracia não liderou a reconstrução dos países europeus, mas ampliou rapidamente sua influência política, com base nos sindicatos e no parlamento, aprovando as reformas que deram origem ao modelo social-democrata. Nas primeiras eleições para o Congresso da Alemanha Ocidental, em 1949, o SPD-Socialdemokratische Partei Deutschlands já alcançou quase 30% das cadeiras. Nesta fase da história europeia, longe de ser modelo de desenvolvimento, o stalinismo (presente na vizinha Alemanha Oriental) deve ter contribuido mais para a rejeição do socialismo que propriamente induzido a adoção de reformas sociai

3 Comments

  1. O Artigo de Sergio trata de um tema muito pouco estudado na história, daí porque muitos intelectiais, mesmo com o pensammento crítico, não conseguem acompanhar o desenrolar da história, com todas as suas tendências e nuanças A Social-democracia tem uma trajetória própria e contava com intelectuais brilantes no período da segunda Internacional. O problema é que a idéia do socialismo com liberdade foi subsumida pelo oficialismo do pensamento único iniciado por Lenin e consolidado por Stalin. O caso mais exacerbado da subordinação da intelctualidade ao pensamento único foi ausência de crítica à proibição pela Internacional Comunistas da aliança natural entre o PCA a a SPD que, seguramente, impediria a vitória do partido nazista que levou Hilter ao cargo de primeiro Ministro. Para stalin era mais funcional ter um inimigo declarado no poder na Alemanha do que um aliado que poderia apresentar ao mundo uma nova alternativa de poder socialista . Na URSS já tinham prendido ou expulsado todos os sociais- democratas , com destaque para o coofundador do partido- junto com Lenin , o lider menchevique de esquerda Julius Martov.

  2. Concordo que é dar poder hiperbólico à Revolução Bolchevique dizer que ela levou ao surgimento da socialdemocracia europeia. É ignorância em matéria de história, no sentido de que simplesmente ignora as condições socioeconômicas e políticas internas em cada país europeu. Aliás, é uma linha de argumentação simplista como aquela que diz que a existência da União Soviética é que levou aos movimentos de independência dos países africanos. Assim se evita estudar a situação interna de cada país e o que gerou a resistência contra o poder colonial em cada caso.
    Sobre o Tratado de Versailles, foi John Maynard Keynes, em “As Consequências Econômicas da Paz” (publicado na Inglaterra no fim de 1919) quem apresentou a análise que se tornou predominante, de que Versailles não só estabeleceu para os derrotados da I Guerra Mundial condições impossíveis de cumprir como atrasou a recuperação da Europa e acabou levando à II Guerra Mundial. Keynes, já em 1919, defendeu uma espécie de “Plano Marshall”, mas foi derrotado nas reuniões de Versailles e saiu de lá doente.

  3. Caros amigos,

    ainda bem que no artigo que escrevi, citado por Sérgio, tive a cautela de dizer que a presença da URSS juntinho dos países da Europa Ocidental foi “um dos fatores que levaram” à social-democracia. Tal afirmação não abona o que teria sido uma explicação mono-causal de minha parte. Ela de forma alguma exclui os contextos particulares e as lutas internas dos próprios países, onde a esquerda, tanto a revolucionária quanto a reformista, era uma força política muito forte. A reformista ganhou, tanto mais que, na divisão do mundo decidida ao fim da II Guerra, ficou claro que Stalin não poderia pôr sua mão de ferro sobre os países ocidentais. Mas nestes, por seu turno, a nova ordem social e econômica já não poderia voltar aos tempos do Congresso de Viena ou aos despreocupados dias da Belle Époque… O que quis lembrar no meu artigo foi simplesmente que o “espectro do comunismo” rondava a Europa. Nesse contexto…

    Viva a social-democracia!

    Luciano Oliveira

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