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Penso, logo duvido.

A voz dos bons e maus perdedores – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Torcedor japonês chora após derrota na Copa do Mundo – Russia 2018.

Arábia Saudita 

“Meu nome é M. Rao e sou comerciante de pedras preciosas aqui em Jeddah desde os anos 1990, quando interrompi meus estudos para vir tomar conta do comércio da família depois da morte de nosso pai. Com duas irmãs para casar, e sabendo que o maior desejo dele era que elas desposassem bons rapazes indianos, tive que trabalhar duro para manter viva essa expectativa. Fiquei especialmente alarmado quando Indira, a mais jovem, interessou-se por um programa da Emirates e me falou pela primeira vez em morar em Dubai. Para bom entendedor, está claro onde isso leva. Não sou conservador como os sauditas, mas sei que voar com tripulações mistas para lugares remotos, exposta a comandantes estrangeiros, arruinaria o sonho de nosso pai em poucos meses, ainda que não fosse pela perda da reputação. Foi então que nossa mãe a dissuadiu da aventura e levou-a de viagem ao Punjab para conhecer um rapaz. Nesse intervalo, fui acometido de enorme angústia por não dispor do bastante para honrar um eventual dote, se tudo lá corresse bem, e se eu fosse demandado a fazer um aceno monetário à família do jovem indiano. Ele estava bem encaminhado no comércio de tapetes em Durban, África do Sul, onde a família está na quinta geração no ramo. Meu erro foi apostar com o Príncipe – que não chegava a ser meu amigo, mas apenas amigo de meus amigos -, que fosse qual fosse o placar do jogo de abertura entre o Reino da Arábia Saudita e a Rússia, o escore não seria superior a três gols de diferença. Se eu ganhasse, ele me pagaria 200 mil dólares por um diamante full cut de 48 facetas, levemente rosado e de 12 quilates. Se o escore fosse superior, eu o presentearia com a pedra. Pois bem, foi 5 x 0. Ouvi a voz de meu falecido pai apontando para mim e dizendo: não queira se igualar a eles. Fui insano, fui vaidoso, fui leviano”.    

Polônia 

“Quando Lech Kaczynski, então nosso presidente, foi levado a uma armadilha pelos russos e morreu num desastre aéreo perto de Smolensk, Rússia, minutos antes do que seria uma homenagem a nossos oficiais massacrados por Stálin em Katyn, entre eles meu tio-avô Tadeusz Kania, eu prometi à minha família que jamais botaria os pés na Rússia, apesar de viver a poucos quilômetros de Kaliningrado, um enclave deles bem em nosso território, debruçado sobe o Báltico. Mas certamente eu não contava em me tornar avô tão cedo e quando isso aconteceu, justo naquela primavera do desastre aéreo que chocou nosso grande país, algo em meu coração mudou. Foi assim que Bolek começou a insistir para que fôssemos ver a partida de nossa Polônia contra o Senegal, no estádio Spartak, de Moscou. Disse-lhe que não podia ir, sem detalhar as razões de minha resistência, mas Ida me olhava com uns olhinhos suplicantes, como quem diz que o pai da criança morava longe e nem tão cedo teria condições de levá-lo a um programa desses, no que estava coberta de razão. Então, por impulso, passei na agência e nos inscrevi numa excursão curtinha para Moscou de que me tinha falado pan Grabowksi, o contador que se aposentara na primavera. Para mim, bastaria um gol de Lewandowski, um sorriso de Bolek, e eu teria cumprido a missão. Mas nada de bom nos poderia mesmo ter sucedido naquela terra de governantes infames. Isso porque um juiz atabalhoado autorizou a entrada em campo de um negro que se valeu de um descuido de nosso meio-campo e levou a bola ao gol. Perdemos por 2 x 1 e Bolek saiu choroso. Para consolá-lo, eu disse que tínhamos caído de cabeça erguida e que outros jogos viriam. Graças ao bom Deus, não tínhamos entre os nossos atletas negros dados a fugir da polícia a passadas largas”.

Egito

“Desde que nosso amado Mohamed Salah foi alijado por Sérgio Ramos no jogo final da Champions League, senti que não iríamos tê-lo na Copa da Rússia. Ou se o tivéssemos, ele renderia aquém de suas capacidades que, se plenas, seriam fatais a qualquer um de nossos adversários. Na mesma noite do desastre do Liverpool, fui ver Omar, o primo mais prestigioso de nossa família, filho de Hadj Nagib, e que é segurança no hotel Semiramis, às margens do Nilo, como todos sabem. Naquele dia ele estava visivelmente ocupado porque lhe compete um trabalho de vigilância que o leva a observar cada detalhe suspeito e comunicá-lo à central pelo microfone da lapela. Que o Misericordioso o poupe do infortúnio e que sua prosperidade seja a de seus filhos. Ocupado, ele me indicou uma poltrona onde me serviram chá e esperei longamente até que estivesse liberado para sair. Fomos então em seu carro até a casa de Abu, em Gizé, porque sabia que era ele que eu precisava ouvir. O Mestre disse: Ramos fez isso de caso pensado. Não foi diferente do assassinato do egípcio Dodi Al-Fayed, morto num túnel parisiense pelo Mossad sionista porque se tornaria padastro do Rei da Inglaterra ao desposar Diana, então grávida de um muçulmano. Nada, nada do que eles fazem é fortuito. Ramos é jogador cigano e antes da aposentadoria, mais do que qualquer outro – dos brasileiros, de Messi, de Cristiano Ronaldo -, ele já é mais rico do que todos. Por trás dos empreendimentos imobiliários, tem dinheiro dos judeus. Tentar tirar Salah da Copa merece uma sanção. Mas temo que matá-lo agora desmonte a operação nucleada em Málaga, que estamos restabelecendo com os irmãos marroquinos. Exterminar esse incréu nas barbas de Putin, exporia os irmãos de fé na Chechênia. Vamos esperar. Então, chorei de raiva, porque perdera a missão de minha vida”.

México

“Ernesto tinha saído desde a véspera para ver o jogo contra o Brasil em casa de seu compadre, o crápula Alejandro. Não gostou quando eu disse que se alguma coisa tínhamos a celebrar era a eleição de Obrador, e não uma vitória improvável contra uma gente que parece nascer com uma bola colada aos pés. Digo isso porque era menina em Guadalajara quando os brasileiros, comandados por aquele lindo jogador negro cujo nome sempre esqueço, fez meu finado pai chorar de tanta emoção. Foi por pouco que não faleceu na comemoração. Ficou entre nós até 1973, que Deus o tenha em bom lugar. Mas Ernesto foi seco e algo bruto, e disse que nossa redenção estava nas mãos de um tal professor Osório, um colombiano que, segundo minha cunhada, prometia mundos e fundos, e que tinha se tornado nosso treinador. Ernesto blasfemou como se já tivesse tomado alguma bebida, e berrou que Obrador era um esquerdista da pior espécie e queria nivelar o México por baixo. Deixei que falasse o que quisesse como se a voz dele pudesse me imunizar de qualquer castigo e varrer a culpa que não queria sentir. Era como se quanto mais ele falasse, mais remotas ficassem as possibilidades de que voltasse numa hora indevida. Quando despertei só e feliz, verifiquei pelo navegador de meu filho que o carro dele estava em Puerto Vallarta. Então liguei timidamente para o padre Leonardo. Mas ele não me deixou sequer dizer as amenidades que tinha preparado para a ocasião sobre a missa de graças e uma preleção para as amigas. Com aquela voz que Deus lhe deu, perguntou se eu sabia chegar ao rancho e só me coube dizer que sim. Não se mente para um padre, verdade? Foi assim que enquanto os brasileiros faziam gols, o padre me penetrava e dizia palavras que nem Ernesto nem o crápula Alejandro conheciam. Pena que a Copa para nós acabara”.

Suíça

“Negar que tínhamos esperança de chegar mais longe do que chegamos, está fora de qualquer dúvida e seria cabotino. Especialmente porque atravessamos incólumes a barulheira infernal que fizeram os brasileiros por conta de um gol nosso, quando lhes arrancamos um empate de justiça. Falaram de um maldito empurrão que, sinceramente, só eles viram. Como todos sabem, e nós suíços em particular, os brasileiros ficaram mal acostumados desde os tempos em que Havelange alijava árbitros que não fossem simpáticos ao Brasil, o que não quer dizer que eles não sejam grandes futebolistas. Somos fundamentalmente uma gente de montanha, logo de planejamento e de inegável rigidez. A chegada dos balcânicos à Suíça ao cabo da Guerra dos anos 1990, nos valeu bom número de kosovares e sérvios, seja lá qual for a distinção que se possa fazer entre essa gente. Não foi por acaso que dois deles se tornaram por assim dizer os nossos astros, ademais de outros imigrantes e de briosos helvéticos de raiz. Mas muitos dos nossos concidadãos detestaram o fato de que a camisa nacional, o símbolo de nossa neutralidade, tenha funcionado de estandarte para que atletas comemorassem gols fazendo gestos que imitam uma águia. Ingênuos, alguns pensaram se tratar de uma pomba de exortação à paz. Até eu achei isso simpático, mas um senhor de Zug, bósnio de boa extração, cavalheiro e atencioso, me explicou que o gesto simbolizava uma tal águia bicéfala albanesa, e que um sérvio via naquilo uma provocação inominável. No cantão de Vaud, que na verdade é um subúrbio da França, de que é separado por um lago, tem gente que já quer propor uma consulta popular para saber se essa gente tem mesmo o direito de abalar nossa neutralidade. Em bairros de Zurique, soubemos de garrafas quebradas no chão. Ora, isso não é Suíça”.

Japão

“Não faz parte da educação japonesa chorar em público. Tampouco na frente dos filhos. Assim tanto eu quanto as crianças ficamos muito assustadas com a reação de meu marido naquele dia 2 de julho. O jogo do Japão contra a Bélgica já tinha terminado em Rostov. Fazia tempo, pelo menos um par de horas, e ele passaria ainda bom intervalo para se comunicar por imagem. Antes não tivesse feito aquilo e tivesse permanecido em silêncio. Como pensar que aquele homem psicologicamente desmontado era ainda na véspera o mesmo que tinha mandado lindas fotos do rio Don, realçando as cores do céu do fim de tarde no verão daquela parte cossaca da Rússia? Shoji sempre fotografou com máquina de tripé, o que não é pouca coisa porque implica levar pelo menos cinco quilos de bagagem a mais. “Fuck Courtois, fuck Courtois…“, dizia ele bêbado. Custei muito a entender que era só uma forma de insultar o goleiro belga. Consegui depois da vídeo-chamada mostrar às meninas que o pai na verdade estava só triste, mas que no dia seguinte estaria bem. E que tão logo voltasse para casa, depois de uns dias de trabalho, iríamos fazer nosso sonhado passeio a Okinawa. Quando pensáramos em ir em 2014, Shoji desconversara. Depois me disse que devido às bases militares americanas na ilha, temia um ataque nuclear norte-coreano. Mas agora que o kuma-san se tornara amigo de Trump, já não havia esse perigo. Desculpe, kuma-san em japonês significa o urso. É assim que chamamos Kim-Jong-un, com pouco respeito. Não sei francamente se o futebol é mesmo um esporte para nós, os japoneses. Não temos atletas estrangeiros que possam nos dar força e velocidade. Nossas habilidades estão sujeitas à repetição e ao método. Mesmo no sumô é assim. Mas nunca diria isso na frente de meu marido”.

Alemanha

Martina chegou aqui pouco depois de nossa eliminação da Copa. Para mim, era como se nada de especial estivesse acontecendo. Salvo pelo sumiço de Mathias em quem vinha pensando sem trégua. Sumiço, não havia outra palavra. A própria Martina insinuou que ele fora visto em Kreuzberg com um grupo animado e era evidente que ela exultava de Schadenfreude, a cretina. “Imagino como você se sente, se é que me permite tocar no assunto”. Eu pouco me importei e disse que ela fosse em frente: “Imaginar que vocês começaram uma história tão sólida ainda na Copa do Brasil. E que não podia haver casal mais feliz entre a porta de Bradenburg e a Kurfürstendamm…creia-me, isso me dói, acredite você ou não. O que pode ter acontecido entre eu e ele, se é que aquilo foi algo além de bebedeira, ficou para trás. E ainda bem que não abalou nossa amizade, pelo menos é o que acho”. Eu nem ligava, só espumava. No jogo em que ganhamos da Suécia no último lance, por um minuto eu tive a sensação de que ele me ligaria de onde estivesse e, eufórico, cantaria feito um idiota: “We are the champions, we are the champions…“- como fizera em 2014 quando ganhamos dos franceses, depois dos brasileiros e depois dos argentinos e sei lá mais de quem. Mas ela retomou: “Não sei se você ainda quer falar do assunto, sei que nada há de mais privado do que isso. Mas veja bem, quem olha de fora, pode dizer que foi um amor de um ciclo. De uma Copa a outra”. Então levantei-me, abri a porta, apontei o capacho e disse: rua. “Raus…” E então aquela doente saiu de minha casa e senti um enorme alívio de me livrar daquele rebotalho. E então abri uma cerveja e fumei um cigarro. E como por mágica, o telefone tocou. Era ele. “Wie geht´s?”. Então respondi algo impublicável, desliguei o telefone e gritei: “Viva a Suécia, viva o México”. Estávamos fora.

Islândia

Dos islandeses que foram à Rússia, esperava-se sobretudo as palmas ritmadas para chamar o trovão. De minha parte, só fui ao jogo contra a Argentina, apesar de ter comprado o pacote completo. Aos demais, não fui. Preferi ver o país. Preferi sim me deixar levar pelas fantasias que podia ter alimentado no Ártico, cruzando com russos desde a adolescência, ainda que à custa de acenos à distância no mar gelado. Eu já tinha saído da Islândia para outros países, evidentemente. Mas tinha pouca curiosidade e entendo que um islandês deve gostar de seu país e do modo de vida de sua gente. Mas na Rússia foi diferente. Logo depois do primeiro jogo, fui assimilado por um grupo na rua do hotel e conheci o maravilhoso zapói, esse hábito russo de beber por dias a fio. Foi com ele que achei o que chamam de sobutýlnik, o companheiro de bebedeiras. No meu caso, foi Sacha, um auto-denominado produtor cultural que, segundo disse, via a Copa como grande espetáculo. Foi Sacha que me ensinou palavra por palavra a cantar ótchi tchórnye – olhos negros -, a música mais bela que já ouvi. Assim foi que depois do jogo contra a Argentina no Spartak, na capital, ninguém me achou para embarcar para Volgogrado, de onde foram para Rostov para o jogo definitivo. O calor me fazia mal, sou sensível a insetos e só o álcool me livrou de voltar mais cedo para casa. Seja como for, aconteceu uma coisa que pretendo guardar só para mim, mas que posso deixar em registro para usufruir melhor dos banhos geotérmicos quando voltar para casa. Foi quando acordei com Sacha nu, esparramado a meu lado na cama do hotel. Num ímpeto, fui para o chuveiro e me enxuguei na sacada. Logo depois começamos a beber de novo e o mesmo voltaria a acontecer mais um par de vezes. Na partida de minha turma, bebemos mais no saguão, mas então Sacha já sumira.

4 Comments

  1. Querido João,

    Dirigindo-me a você, também me dirijo a Teresa, Sérgio, Ester, Clemente e à memória do querido Fernando, portanto à comissão de frente de “Será?” que, desde o dia 29 de janeiro de 2015, teve a gentileza de me abrir espaço para o envio periódico de minhas colaborações, no bojo da carnificina na redação do Charlie Hebdo. Com esta de hoje, chegamos à marca do centésimo artigo, o que para mim é uma alegria. Não sou homem de meios termos ou de deixar trabalhos pela metade. Mas isso não teria sido possível sem a paciência de todos vocês com textos não raro longos, já que deixo para outros veículos minha produção mais trivial, menos “literária”. Como forma de honrar sua confiança, e a das dezenas de pessoas que se pronunciaram nos comentários até hoje, dei-me ao trabalho – e ao prazer – de publicar algumas dessas peças em três livros, lançados pela editora portuguesa Chiado. Um pouco menos da metade delas desaguou em “Nos passos de Fiszel Czeresnia e outras estórias”; “Confidências de Dr.Pollock à Rainha da Inglaterra” e “Vinhetas de Paris no outono”, todos eles disponíveis em livrarias e bem acolhidos. No dia que quiser editar as demais – umas poucas ficaram datadas, mas 40 delas estão em ponto de bala -, tenho editoras interessadas em encarar a missão, além da já conhecida. O que quero dizer com isso? Que foi a melhor forma que encontrei para agradecer-lhes e, a meu modo, homenagear o esforço semanal que você, João, tão bem comanda. Pelo centésimo artigo, portanto, um muito obrigado extensivo a Thyago, que te dá suporte técnico. Como alguns de vocês sabem, todos os textos aqui publicados são reproduzidos em redes sociais, estratagema que nos permite fomentar o interesse pela revista junto a um público muito mais amplo. Deste universo, já colhi centenas de comentários que geraram o bom debate. Pena que a imensa maioria deles não chegue à nossa coluna de comentários que, com a morte de Fernando, perdeu tração, verve e ritmo. Nesse ponto, foi o mesmo que o Uruguai jogar sem Cavani. Lavro, contudo, um agradecimento especial a Luiz Alfredo Raposo, sempre muito atencioso por e-mail, e registro minha honra em poder perfilar ao lado dos amigos Paulo Gustavo e Ivanildo Sampaio, para nos atermos à inteligência do trio do profícuo bairro recifense do Poço da Panela. De minha parte, estarei sempre à procura de dar o melhor. Graças a vocês, faça sol ou chuva, mantive uma disciplina que só me fez bem. Pode não ter revolucionado a literatura, mas alegrou minha vida. Viva a centésima história!

    Grande abraço,

    Fernando

    • Caro Fernando,
      Em nome de todos que fazem a Revista Será? Agradeço seu belo depoimento e digo-lhe que é um privilégio da Revista tê-lo como colaborador.
      Forte abraço e vamos em frente!
      João Rego

  2. Muito bem garoto, eu sabia que você não ia deixar que o tema da copa morresse assim. Esses textos são completamente loucos mas também fascinantes. Sua visão é gigante. Será que vem mais? Valeu muito.

    • O “garoto” já me fez ganhar o dia, Bretas. Pelo jeito,vou parar a série sobre futebol por aqui, mesmo porque é tema pouco sério para as quadras que o país passa a viver a partir da próxima semana. Obrigado e até a Copa do Catar.

      Abraço,

      FD

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