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Penso, logo duvido.

Aconteceu em Nob Hill – Fernando Dourado

Fernando Dourado

San Francisco by Thomas Kinkade.

I

Naqueles dias, quando os anos 1980 estavam a poucos meses do fim, San Francisco ainda era cheia de casarões vitorianos de sacada florida onde se alugavam cômodos amplos para temporadas curtas. A grande vantagem de se optar por um deles era que o estilo convivial da cidade se encarregava de azeitar uma boa química entre hóspedes e anfitriões. Se esse tipo de expectativa era impensável nas demais cidades americanas de porte, nada de mais natural que a indústria florescesse naquela que se orgulhava de ser a mais europeia de todas elas. Assim sendo, embora Ricardo Oliva tivesse sérias dúvidas quanto aos padrões de gosto de Valéria Assad, resolveu arriscar a opção. Das duas hipóteses, pois, uma se confirmaria: ou bem ela detestaria as instalações e iria insistir para que se mudassem para um hotel de grife ou então se encantaria com o terracinho de hortênsias e o bule de porcelana de Limoges, onde a infusão de tília regularia as pulsações enamoradas de quem dali via a cidade terminar na Golden Gate sob um manto de bruma. Ricardo não viajara para tão longe pensando em impor padrões, mas sentia que, para que a relação progredisse, precisava ousar. E foi assim que chegou ao simpático Cozy Cottage, onde foi recebido por Mark e Peter, o casal-sorriso, quintessência da geração que até anos antes pensara que o bairro de Castro e sua aura gay auto-bastante os abrigaria até o fim de suas vidas. No entanto, ao se descobrirem indo ao cemitério até três vezes numa só semana, quando a AIDS ceifou amigos em série, eles optaram um pelo outro. E, no que mais tarde lhes pareceria um bônus à fidelidade, um deles, o cartunista Mark Friedenbach, foi regiamente contemplado no testamento da avó. Daí nasceu a pousada de tanto encanto, feita sob medida para hóspedes que não se preocupavam sobremodo com dinheiro ao viajar.

II

Dois anos antes de desembarcar em San Francisco e rumar para o Cozy Cottage de Nob Hill, Ricardo conhecera Valéria num casamento de grã-finos em Brasília. Naqueles anos, a bem da verdade, a elite candanga ainda não sabia distinguir as fronteiras que demarcavam o bom gosto da ostentação, já que vivia emoldurada pela estética apelativa do centro-oeste de então. Isso porque não era rara a festa que começava até com certo aprumo, com cerimonial organizado por uma embaixatriz aposentada, mas que, do meio para o fim, descambava para a formação de duplas de cantores estridentes pelos bancos do jardim, cercados de admiradoras mesmerizadas, entoando baladas lacrimosas sobre fins de caso de amor, num estilo que Ricardo só conhecera no México, no que lá então chamavam de música norteña. Quando a aura chique se desconstruía, os homens tiravam a gravata, amarfanhavam o fraque e espezinhavam o cravo da lapela. Mas apesar da montante vaga sertaneja que, por paroxismo, conheceria o primeiro auge na era Collor que então se aproximava, o fenômeno ainda não se alastrara. E aquela festa em que se conheceram fora até bastante sóbria. Foi lá que passou bons momentos conversando com Valéria, uma goiana de cabelos preto-azulados e sorriso luminoso, que mostrou ser boa companhia, além de bela. Típica mulher de corte, contudo, Ricardo percebeu nela o traquejo em estabelecer cumplicidade com homens que julgava importantes e o afã em se desvencilhar dos estereótipos que pudessem macular a imagem de bom gosto e refinamento que queria passar como sua, apesar da elegância pobre com que se trajava. Para ser convincente no papel, seja porque lhe convinha ou fosse por saber existir outro universo além daquele, ela se excedia no desprezo aos maus modos e insistia em renegar tudo o que lhe parecia brega, adjetivo que lhe era recorrente. Mais preocupado em eventualmente lhe explorar as curvas do corpo do que em se maravilhar com as predileções estéticas de quem repudiava as origens, ele aceitou revê-la no dia seguinte para o almoço, pois Valéria se ofereceu para deixá-lo no aeroporto ao entardecer.

III

Duas semanas depois daquele primeiro encontro, foi Valéria quem desembarcou no Rio de Janeiro para passar o feriado e Ricardo preparou um quarto em sua casa do Jardim Botânico para que ela se sentisse à vontade, dando a senha de que seria ela quem regeria o tempo de aproximação e a eclosão de intimidades, se é que tinham que chegar a tanto naquela etapa. Não havia pressa. Longe de estar apaixonado, ele se sentia mais curioso do que qualquer coisa. Ela, a seu turno, quando tomou o voo da Transbrasil até o Santos Dumont, tinha muito claro o que seria importante observar. Primeiro, estava pronta para se deixar arrebatar. Mas a experiência de Brasília lhe segredava que isso não parecia muito provável diante do jeitão meio blasé de Ricardo, um sujeito bonito, talvez apenas um pouco alto demais, que mesclava certo esnobismo com entediante propensão intelectual, combinação esta que não era incomum, mas que a ela resultava indigesta. Mesmo assim, como ele não desgrudara os olhos de sua boca e de seus seios no almoço de Brasília, era possível que pudessem se surpreender com o desfecho. Em segundo lugar, ela poderia facilitar a aproximação e se deixar embalar se o estilo de vida daquele homem lhe parecesse realmente tentador, quase irrecusável. Sensível à dor que representara a perda de poder aquisitivo de sua família, dada a gestão ruinosa do patrimônio herdado pelo velho Fuad, Valéria sonhava com um padrão de conforto que lhe permitisse, entre outros mimos, presentear os familiares com regalias. Ora, a tirar pelos cunhados que lhe deram as irmãs, era pouco provável que a família saísse da mediocridade do casarão decadente e dos churrascos de domingo. Seria Ricardo Oliva o homem providencial? Não, não naquele momento. Ela certamente tinha melhores opções em Brasilia – foi a conclusão a que chegou depois de três dias em que frequentou restaurantes da moda, conheceu alguns de seus amigos e desfrutou da hospitalidade algo bizarra de uma casa certamente cara, porém de pintura malcuidada e onde os quadros ficavam apoiadas no chão, deitados sobre as paredes, como se tudo fosse um acampamento provisório. Nas prateleiras, centenas, senão milhares de livros. Valéria Assad tinha ojeriza a intelectuais, mesmo àqueles poderosos, prósperos e que, da porta para fora, sabiam o que era viver bem.

IV

Depois de mais uma tentativa na capital federal e uma derradeira no Rio de Janeiro, ela olhou-o nos olhos castanhos e se saiu com um desconcertante desabafo domingueiro: “Deixa eu te dizer uma coisa, Ricardo. Você já deve ter percebido que eu tenho alguém em minha vida. Daí talvez essa dificuldade em me deixar levar, em te dar um beijo como gostaria, enfim, em destravar nossa relação. Você é um cara muito interessante, saiba disso. Temos diferenças? Sim, e elas são muitas, não escondo. Mas o problema aqui é outro. Essa pessoa que tenho exerce um poder muito grande sobre mim. Infelizmente, sabe. Mas garanto que ainda vou me livrar disso. Não que eu tenha amor por ele, mas é uma pessoa dedicada e muito atenciosa com os meus. A vida familiar dele está complicada, como você deve imaginar, mas gostaria de não dar nomes. Hoje eu volto mais cedo para Brasília, não fique chateado. Obrigado por tudo e cuide bem de você. A gente ainda vai voltar a conversar”. Depois de deixá-la no aeroporto e lhe dar o disco de Barbra Streisand de que ela tanto gostara, ele voltou acabrunhado pelo caminho do Aterro. Sem saber se fora aquela rejeição que catalizara os sentimentos ou não, Ricardo Oliva se viu genuinamente triste. Pois ao jogar aberto e claramente, ele passou a vê-la não mais como uma cortesã manipuladora. Ou, pelo menos, não tanto em relação a ele. Ela parecera falar com sinceridade e seus olhos esmeralda só realçaram o peso de cada palavra dita. Era melhor esquecer aquele capítulo e isso não seria difícil. Mas, desacostumado à frustração, Oliva passou bom tempo remoendo o episódio. Onde será que falhara? Pois bem, dois anos se passaram. Foi então com alegria que ele recebeu um cartão postal onde ela rabiscara no rodapé seu número de telefone. Estava morando em Chicago, mas passaria a Páscoa sozinha na Califórnia. “Por que é que você não vem ficar comigo?” “Olha que eu vou, hein. Acabei de voltar de férias, mas nada impede de tirar uns dias extras. No meu lugar, você iria?” Então ela rebateu ao telefone sem deixar margem a dúvidas: “Pode ter certeza, eu não hesitaria”. Ricardo Oliva pediu então à secretária que colocasse na linha o agente de viagem. “Já?”, perguntou-lhe aturdida.

V

Para Ricardo, estava dada a senha. Ela desencanara do tal sujeito e, por fim, chegara sua vez. Ir a San Francisco era tentador, mas convenhamos que não era o mesmo que tomar uma ponte aérea e voltar para o Rio se algo não desse certo. Não, eram 15 horas de voo, afora despesas que seriam certamente altas e, sobretudo, o desgaste de pedir mais dez dias de férias à mineradora, tendo acabado de voltar de uma temporada na Austrália. Na mesma noite, consultou uma amiga, dublê de confidente e amante. Esta foi taxativa. “Vá, meu bem, mas não tente dominar a situação, entendeu? Deixe-se levar, seja mellow, como é de praxe na Califórnia. Nada de bancar o brutamontes carcamano, por favor. Esse papel você deixa para mim aqui, entre essas paredes, porque isso me agrada, meu capo. E já que estou indo contra meu próprio interesse, amore, aproveite e traga uma caixa de florais de Bach de presente. Fica pela consulta”. E beijou Ricardo como se antevisse um longo período de abstinência. Pois assim ele faria. “Be mellow and relax“, esta fora a recomendação de que ainda se recordaria muitos anos depois. De conformidade com o novo mantra, foi Mark Friedenbach quem lhe perguntou se não gostaria que colocasse um arranjo de flores no quarto. Era uma boa ideia, assim como um balde de gelo ao anoitecer. Dentro dele, a garrafa de Dom Pérignon que comprara no aeroporto. Quanto a seu programa, Ricardo passaria o dia na rua, desanuviando tensões. Comeria abalones no Fisherman´s Wharf e leria com calma o San Francisco Chronicle. Era o tempo de Valéria chegar, fazer um reconhecimento de terreno e, afinal, instalar-se na pequena suíte conjugada com porta corrediça que, se aberta, a transformava num só ambiente. Ricardo pediu a Mark que colocasse junto às flores um cartão pessoal em que garatujou para a convidada: “A casa é sua. Espero que goste. Chego para o happy hour. Beijo, R“.

VI

Na primeira noite, bebericaram até tarde da noite e conversaram na varanda sobre a vida que ela vinha levando em Oak Park. Mark Friedenbach perguntou se não queria que lhes providenciasse uma salada de siri que ele próprio fizera para Peter. “It is his favourite and there is a lot of it. It is fresh and delicious“. Dormiram bem, ambos estavam cansados e apenas deixaram as mãos se tocando até o amanhecer na cama dele. No dia seguinte, aproveitaram o bom tempo e foram passear na Baía, esticando até Sausalito. À tarde, no Chinatown, riram de uma divergência de opinião que se tornaria clássica. Ela achava que ele deveria comprar um par de telefones sem fio que se comunicavam a duzentos metros de distância. Ora, de que lhe serviria essa geringonça? Ela então capitulou: “Ora, para ter, uai”. Então se abriu um veio interessante para que discutissem animadamente suas diferenças. Pensando bem, elas nada tinham de tão crucial, pelo menos assim lhes pareceu naquela hora de desarmamento de espíritos. Para a noite, ele reservara uma mesa no Harris, na Van Ess, onde pretendia comer o copioso Porterhouse e ela, por sugestão dele, a famosa lagosta grelhada. Acomodados à mesa, e sorvidos os aperitivos, a brigada chegou com as bandejas aparatosas. A essa altura, os olhares pareciam se fundir num só e a culinária ficou em segundo plano. Valéria Assad se sentiu diante de outro homem. Dessa vez, Ricardo Oliva lhe parecia mais leve e menos defensivo. Quanto a ela, o semestre em Chicago a submetera a um merecido período de reflexão. E os dois anos tinham feito uma diferença. Então tudo aconteceu muito rápido. Nem bem tinham chegado à metade dos pratos, perguntaram-se em uníssono: vamos sair daqui? Os garçons ficaram chocados com a brusca mudança de planos. Queriam a conta, dispensavam sobremesa, café e tampouco estavam interessados em levar para casa a comida deliciosa que sobrara. “Preciso de um táxi, por favor”, disse Ricardo enquanto tirava da carteira um American Express. Aguardaram lá fora, abraçados, como jamais imaginaram que fosse possível e, no banco traseiro de um carro decadente, sumiram na noite de San Francisco rumo a Nob Hill. No rádio, a música era “I´ll be seeing you”.

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