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Penso, logo duvido.

Aída de Verdi, amor e traição no antigo Egito – Frederico Toscano

Frederico Toscano

Produção recente de Aida de Verdi no Metropolitan Opera de Nova York.

O mais bem-sucedido e tocado compositor da história da ópera não foi um pioneiro musical como Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e Richard Wagner (1813-1883), porém mais que qualquer outro compositor Giuseppe Verdi (1813-1901) fez da ópera o que ela é hoje, pela pura e simples quantidade de peças imortais que compôs. Nenhuma temporada estaria completa sem a inclusão de pelo menos duas de suas principais obras.

A intensidade melodramática de suas óperas se tornou sinônimo do adjetivo “operístico”. E mesmo quando o enredo parece inverossímil, temas universais como o amor, traição, violência, poder e morte são tratados. Verdi também foi homem do seu tempo e contribuiu para a formação de uma identidade nacional, com várias obras interpretadas como alegorias da luta pela liberdade e unificação da Itália. Mas foi sobretudo o talento para a combinação de melodias inesquecíveis com momentos de intensa dramaticidade que tornou seu nome conhecido em todo o mundo. Por meio século dominou a ópera italiana, dividindo as luzes com um único compositor: Wagner. Mas, enquanto a obra de Wagner costuma ser admirada pela intensidade germânica, é a universalidade que mantém a popularidade das óperas de Verdi.

Nascido na aldeia de Le Roncole, perto de Busseto, no norte da Itália, Verdi teve organistas de igreja como primeiros professores, e seu talento levou o comerciante Antonio Barezzi a financiar seus estudos. Aos 18, já passado da idade para ser admitido no Conservatório de Milão, foi estudar contraponto e fuga com um professor particular. Em abril de 1836, foi nomeado mestre de música de Busseto, e semanas depois se casou com a namorada de adolescência, Margherita, filha de Barezzi. Já então trabalhava em sua primeira ópera, Oberto, que estreou no Teatro alla Scala de Milão em novembro de 1839. Veio então a tragédia: após perder dois filhos pequenos, a mulher de Verdi morreu em junho de 1840. Não surpreende que sua obra seguinte, Un giorno di regno, fosse um fracasso.

Em 1842, com Nabucco, sua sorte mudou. Foi então, comentaria Verdi mais tarde, que sua carreira realmente começou. Com as impressionantes árias de soprano e o memorável coro “Va, pensiero”, o cenário de cativeiro dos judeus na Babilônia teve eco junto aos italianos sob o domínio austríaco. Verdi foi elevado ao trono da ópera italiana, até então ocupado por Gioacchino Rossini (1792-1868), já aposentado; Vincenzo Bellini (1801-1835), falecido; e Gaetano Donizetti (1797-1848), estabelecido em Paris. De repente, todos queriam suas óperas, e Verdi não se fez de rogado: compôs 20 em 17 anos, que mais tarde chamaria de seus “anos de galé”, para teatros da Itália, Londres e Paris. Foi também em Paris, em 1847, que reencontrou a soprano Giuseppina Strepponi, que cantara Nabucco cinco anos antes, com quem se casou em 1859.

Embora nem todas as suas obras depois de Nabucco tivessem o mesmo êxito, Macbeth e Luisa Miller foram bem recebidas. Três óperas estreadas em seguida, entre março de 1851 e março de 1853, elevariam Verdi a uma classe à parte: Rigoletto, com sua popular ária de tenor “La donna è mobile”, logo conquistaria os palcos do mundo; Il trovatore, intenso melodrama com algumas das maiores melodias de Verdi, foi sucesso ainda maior; La traviata, hoje sua ópera mais popular, não teve uma estreia feliz em Veneza, mas logo sua versão revista seria aclamada. Ainda assim, Verdi não diminuiu o ritmo na década de 1850, apresentando Les vêpres siciliennes em Paris, Simon Boccanegra em Veneza e Un ballo in maschera em Roma.

A essa altura, já era considerado uma glória nacional. Tendo apoiado a luta pela independência da Itália, foi deputado no Parlamento de Turim após a unificação em 1861. Também passou a dedicar mais tempo a uma fazenda comprada anos antes perto de Busseto. Muito rico e já prevendo se aposentar, aceitou ainda três encomendas estrangeiras: para o Teatro Imperial de São Petersburgo, compôs La forza del destino (1862); para a Ópera de Paris criou a grand opéra em cinco atos Don Carlos (1867); e para a Ópera do Cairo escreveu seu incomparável épico faraônico Aída (1871).

Uma das obras mais espetaculares de Verdi, Aída é uma ópera exótica com raízes egípcias autênticas. O Teatro da Ópera do Cairo foi inaugurado em novembro de 1869 com uma apresentação de Rigoletto, mas o renomado arqueólogo Auguste Mariette (1821-1881) convenceu o governante turco do Egito a encomendar uma “ópera egípcia” a Verdi. Mariette elaborou então a história de Aída, baseada na novela La fiancée du Nil, escrita por seu irmão Édouard, revestindo-a com elementos históricos reais: a ação passa-se na época das guerras egípcio-etíopes de 1000 a.C. Como os dois povos adoravam Amon, o deus do Sol, o prefixo am- aparece nos nomes tanto de Amneris (princesa do Egito) quanto de Amonasro (rei da Etiópia).

Na criação da marcha triunfal do Ato II, Verdi se inspirou na grand opéra francesa. A grand opéra (em português, “grande ópera”) é um gênero de ópera do século XIX, geralmente de quatro ou cinco atos, caracterizado pelos grandes elencos e orquestras e (em suas produções originais) por luxuosos e espetaculares cenários e efeitos especiais. De alta intensidade dramática e musicalmente arrebatadora, Aída é, provavelmente, o exemplo de mais intensa supervisão de um libreto pelo compositor. Em carta a Antonio Ghislanzoni (1824-1893), o libretista, Verdi chega a especificar quantos versos quer em cada estrofe, e a metrificação de cada verso para obter determinados efeitos.

A ópera tem início no palácio real de Mênfis, onde Radamés espera comandar o exército egípcio contra os invasores etíopes, inspirado por seu amor por Aída, uma princesa etíope aprisionada:

Mas ele também é amado por Amneris, a filha do faraó. Quando este chega, Ramfis, o grão-sacerdote, designa Radamés comandante. Ele é conduzido para a bênção – e Aída se inquieta porque ele combaterá seu pai, Amonasro, o rei etíope.

Escravas mouras dançam; Aída entra, parece desesperada. Fingindo simpatia, Amneris testa-a anunciando a morte de Radamés. Vendo a perturbação de Aída, acusa-a de amar Radamés. Revela então que ele continua vivo e, dando Aída graças aos deuses, declara-se sua rival. Aída implora misericórdia, mas Amneris jura vingança. Radamés retorna vitorioso a Tebas, à frente de uma marcha triunfal:

De repente, Aída reconhece o pai entre os prisioneiros. Disfarçado de soldado, ele fala ao rei egípcio da morte de Amonasro e pede-lhe que liberte os prisioneiros etíopes. Radamés apoia seu pedido e o rei concorda, oferecendo Amneris a Radamés, para desolação de Aída.

Esperando Radamés às margens do Nilo, Aída lamenta não voltar a ver a Etiópia. Entra seu pai, novamente disposto a atacar o Egito. Diz saber que Radamés a ama e exige que ela descubra os segredos militares do Egito. Vendo Aída, Radamés promete falar ao rei de seu amor por ela. Temendo a ira de Amneris, Aída insiste em que fujam logo e pergunta como poderiam escapar das legiões egípcias. Radamés revela então a rota do exército. Amonasro surge, e Radamés percebe horrorizado ter traído o Egito, e espera ser preso. Na confusão, os etíopes fogem:

No ato final, Amneris implora a Radamés que justifique seu ato, para ela possa salvar sua vida, mas ele se recusa, dizendo que não trocará sua vida pela morte de Aída. Amneris responde que Aída não morreu, mas ele deve prometer que não voltará a vê-la. Ele mais uma vez recusa. Ramfis ordena que Radamés seja enterrado vivo e Amneris desmaia. No interior da sombria tumba, Radamés espera a morte quando de repente surge Aída, dizendo ter vindo para morrer com ele. Vendo que não há saída, caem nos braços um do outro e se despedem mundo. Enquanto Aída morre, ouve-se Amneris implorando paz.

Ao contrário do que geralmente é afirmado, Aída não foi composta por encomenda do governo egípcio para comemorar a inauguração do canal de Suez, fato que ocorreu em 17 de novembro de 1869. Sua estreia mundial aconteceu na Casa da Ópera, no Cairo, em 24 de dezembro de 1871. Alguns autores afirmam que Verdi recusou-se a comparecer à estreia ironizando que tinha medo de ser mumificado. Na verdade, o compositor, aceitando o convite do Khediva (vice-rei do Egito), impôs somente uma condição: por questões de saúde, não enfrentaria uma viagem tão longa de navio, e de sua inteira confiança, enviaria um diretor musical para os ensaios e regência da estreia da ópera, o maestro e contrabaixista virtuose Giovanni Bottesini (1821-1889).

A estreia no Cairo já estava prevista para janeiro de 1871, mas foi impedida por conflitos internacionais. Como a França estava em guerra com a Prússia, os figurinos e cenários, produzidos na Paris sitiada, demoraram quase um ano para chegar à capital egípcia. Apesar do atraso, Aída foi sucesso imediato, tendo uma excelente repercussão junto ao público e à crítica. Em 1872, foi levada para Milão, iniciando um triunfo duradouro. Em dez anos havia sido montada em 155 teatros de todo o mundo.

Na primeira metade do século XX, Aída foi como que o símbolo da grande ópera: a cena triunfal do segundo ato (Radamés, o guerreiro vitorioso, volta trazendo Amonasro acorrentado), com seus dançarinos exóticos, fileiras compactas de lanceiros, oportunidade para elefantes extras e a famosa marcha e melodia para trompetes, é a cena de conjunto mais grandiosa da obra de Verdi e fez a delícia de plateias, que achavam Wagner destinado a uma elite. Embora a divisão entre os números de Aída ainda seja nítida, eles estão inseridos num fluxo de acompanhamento orquestral que dá grande continuidade ao drama. Os processos usados para sugerir o exotismo da ambientação egípcia – melodias modais, intervalos cromáticos, efeitos de instrumentação – contribuíram para a fixação do estilo de “música oriental” largamente usado, por exemplo, nas trilhas sonoras para o cinema. Por sinal, uma marca da popularidade de Aída foi uma versão cinematográfica de 1953, com Sophia Loren.

Mas se a década de 1950 marcou o auge da popularidade de Aída, recentemente ela entrou em declínio. É principalmente uma questão de custos, além de ser muito difícil de encenar, pois seu aspecto espetaculoso permite que se descambe com muita facilidade para o mau-gosto. Não é fácil, tampouco, encontrar o equilíbrio entre o exterior grandioso e os elementos intimistas. Também passou a incomodar porque agora nos sentimos desconfortáveis com o tema, com todos esses escravos e faraós e esse kitsch egípcio em geral. Isso foi apontado pelo crítico cultural Edward Said, que, no ensaio Culture and Imperialism (1993), argumentou que Aída tinha implicações com a expansão colonial do século XIX. Para ele a ópera era um exemplo de orientalismo, no sentido de que as potências coloniais ocidentais tinham, no decorrer dos últimos séculos, se diferenciado de – e com isso chegando a se julgar superiores a – culturas não ocidentais.

O final de Aída não se parece com nenhum outro finale verdiano. Longe de fechar com um grande acontecimento, os personagens vão se desvanecendo, apanhados numa infindável e misteriosa repetição, e isso no enquadramento de um outro clichê através do qual o Ocidente imaginava as outras culturas. Com 58 anos de idade, em seu auge como compositor, Verdi parou de escrever óperas. O dueto final de Aída (“O terra addio”) pode bem ter sido uma partida muito pessoal, de um mundo operístico que mudara para sempre. Aída é o fecho do ciclo romântico, a síntese de um modelo que combina as formas desenvolvidas por Bellini e Donizetti, e os traços herdados da grand opéra. Tematicamente, é a expressão de uma ideologia permeada de valores de patriotismo, anticlericalismo, exotismo, amor idealizado e sublimado, devoção filial. Morfologicamente, funda a estrutura da scena italiana com a grandiosidade da ópera francesa: cenas de multidão, grande número de personagens e balés.

Outra mulher de personalidade forte protagoniza o próximo artigo da série. Existe uma ópera mais sedutora, escandalosa e recheada de bela música do que Carmen de Bizet? Uma dançarina cigana numa fábrica de cigarro que destrói corações ao lado de uma arena de touradas é um começo ideal para uma ópera. O caráter transgressor de Carmen provocou severas críticas na estreia. É considerada longa, mas a ação é emocionante – e a música, contagiante. Tudo se passa em Sevilha, ou seja, a Espanha inunda a partitura com seus ritmos marcantes. Não é à toa que ela se tornou uma das óperas mais célebres de todos os tempos.

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