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Penso, logo duvido.

Anotações de uma viagem à Lapônia – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Renas em Saariselkä.

O caçador

Hoje tive oportunidade de observá-lo com mais vagar. Há três anos, ainda era um homem rijo e atento. Se me visse então a dissecá-lo com esse interesse quase científico, é certo que teria se dado conta e reagido de imediato. Havia muitas formas de fazê-lo. Sorriria e me observaria de volta com humor; iria até a cozinha de onde traria um copo de bebida forte; me ofereceria uma fatia de salmão no pão preto ou sumiria do raio de minha visão rumo à imensidão branca. Dessa vez, porém, foi diferente. Meditabundo, nitidamente menos vigoroso, já não teve sequer disposição para se alongar à mesa sobre caçadas a ursos, renas e alces. Quando instado a tal, sorriu, apontou um rifle imaginário e simulou um tiro no ar. Disse-me o enteado que é o diabetes. Com o corpo em franca caramelização, percebi-lhe, efetivamente, os olhos aquosos e os pés calçados em estranhas meias em que para cada dedo, corresponde uma casinha. Perguntei-lhe se ainda está interessado em nossa viagem ao Brasil. Respondeu que tem fôlego para mais 3 anos. Contanto que eu lhe prometa que atirará nos jacarés, já que não temos crocodilos gigantes, para sua consternação. Na última noite, veio me mimar, como na última temporada. Em 2014, me presenteou com um valioso osso peniano de urso pardo. Recomendou-me dependurá-lo no pescoço, como garantia da virilidade plena. Dessa feita, chegou com duas latas médias. Uma de carne de alce e a outra com carne de urso. Agradeci-lhe de olhos marejados. Como posso retribuir? Simplesmente não há como. Quando estávamos a sós na casa de Saariselkä, e todos tinham ido esquiar, disse que já tem 71 anos, as duas filhas estão casadas e um dos genros também é caçador profissional em Kajaani. Quando lhe der um neto, pretende ensinar-lhe a abater ursos com um único tiro. E sorriu.

O gênio e a bailarina

Ele tem 7 anos e passa boa parte do tempo de olho numa tela. Quando vê televisão, vez por outra é traído pela emoção que lhe traz o hóquei no gelo e pode dar socos no ar, especialmente se a Finlândia estiver derrotando a Suécia. Quando não, pode sair de seu retiro quase permanente e, curiosamente, vir até um adulto para contemplá-lo de perto com ar de troça, como se estivesse provocando um animal bravo. De tempos para cá, usa óculos. Nos jogos de salão com que nos distraímos depois do jantar, não pode haver lugar para o pequeno. Antes mesmo que recebamos as cartas, ele parece já saber o jogo de cada um de nós, e é o primeiro a ganhar. Se é o Dr. Eureka, então, um inventivo brinquedo com bolinhas, não há para mais ninguém. Perguntei à sua irmã uma curiosidade linguística em finlandês. Ela hesitou segundos e foi o bastante para ele escrever uma palavra que pode ser lida também de trás para a frente, e que significa vendedor de sabão: “saippuakauppias”. Já a bailarina, sua irmã, aos 10 anos, também é de pouco falar e muito observar. Quando eu me dera por satisfeito com a engenhosa palavra, ela escreveu, diligentemente, outra que disse ser a mais longa do finlandês: “epäjärjestelmällistyttämättömyydellääsäköhän”. Diante de meu choque, os adultos se apressaram em dizer que não é muito usada e que, na verdade, equivale quase a uma pergunta. Algo como: “essa é a forma certa?”. Ela também é considerada como superdotada, e ambas as crianças podem ter puxado à mãe, tida como exímia matemática, ciência que ensina. Nunca os vi em Helsinque e, na verdade, não sei se fora do “kaamos” ártico têm conduta mais espontânea. Mas pode bem ser que o padrão seja apenas o de crianças finlandesas sem grande extroversão.

A avó

Casada em segundas núpcias com o caçador, ela é uma bem-apanhada coroa de 65 anos. Deixou o primeiro marido porque este era dado aos excessos da bebida, segundo ela revelou na sauna, quintessência do momento de confidências no Ártico. Dorme apenas 5 horas por noite, mesmo no inverno, e faz velas, compotas, ademais de vender os presuntos que o marido defuma. Sendo ele taxista nas horas vagas, pouco a pouco foi se interessando pela política, a que agora está totalmente devotada. A plataforma passa pela saída da Finlândia da União Europeia. Ou, pelo menos, pela saída imediata da zona do euro. Como passa férias em Portugal e na Espanha insular, sabe bem que o Norte trabalha duro para que o Sul se divirta às suas expensas, ora essa. Sempre com um sorriso, acredita que as pessoas têm direito a ter armas para se defender. E que a caça, então, tem que ser liberada e estimulada, apesar de regulamentada. Acaso os ursos russos não estão desrespeitando quaisquer limites toleráveis? Apesar da plataforma de direita, não se deixa intimidar por rótulos. Pouco se lhe dá que a chamem de racista, mesmo porque sabe que não é. Gosta de imigrantes etíopes e africanos, de forma geral. Mas se afegãos e iraquianos não se esforçam para aprender o finlandês – apenas uma língua como qualquer outra -, e ainda fazem pouco caso da comida deles pelo simples fato de colocarem geleia na carne de caça, pois bem, que voltem para Cabul ou Bagdá. Liberal nos costumes, nada tem contra o aborto e acha que os homossexuais não pediram para nascer assim. Daí terem direito a uma orientação, se quiserem. Depois de duas eleições fracassadas, está motivada a se candidatar a deputada na próxima. “Amo política”, diz.

O casal

Ela é apenas uma mulher feliz. Com dois filhos pequenos para educar e cuidar, dedica-se profissionalmente ao prestigioso magistério. Fala muito pouco, mas sempre dá mostras de estar atenta a tudo. Não a ponto de trazer água quente para o chá, mas para dizer ao visitante onde está a chaleira. Atlética e observadora, os olhos azuis são cravados bem fundo do rosto redondo. Não são muitas as demonstrações de afeto em família, mas não há dúvida de que ela é toda cuidados. Chora profusamente nas despedidas e, ocasionalmente, diante de um relato mais pungente de terceiros que contrastem com sua vida bem construída. Ama o chalé de inverno e está reformando a casa de verão. Quanto a ele, o marido, seja na neve ou na água, é o finlandês em busca da superação permanente, movido pelo “sisu”, pela pertinácia, pela vontade de mostrar a si mesmo do que é capaz. No lago, rema quatro horas consecutivas. Na neve, faz quarenta quilômetros de esqui plano, mas disse que poderia cobrir muito mais, não fosse a sinusite. Feliz, antevê dias gloriosos para os filhos, desde que não percam de vista os valores que consagraram seu País. Acha que o lugar da Finlândia é longe da OTAN, como sinal de respeito aos russos. Não que os tema, mas sabe que não se provocam feras adormecidas. Deve ser promovido a presidente da associação antes dos 50 anos, ou seja, dentro de, no máximo, mais seis. Não tem pretensões de ser um intelectual fecundo, mas louva o pragmatismo e o senso de propósito. Não entende como alguns países podem ser tão violentos e as razões pelas quais não se corta o mal pela raiz. Amigo dos amigos, é um homem de bom coração, o centro aparente da pequena família.

O visitante

Em 2017, passei alguns dias com o pé imobilizado. Na verdade, foi o primeiro período de inatividade que vivi em quase 60 anos, e, obviamente, não fiquei imune à angústia que acomete quem se depara, pela primeira vez, com limitações físicas. Durante a longa convalescença, semanas em que alimentei fantasias as mais negativas com respeito ao que me esperava doravante, foram poucos os pensamentos que me confortaram. À hora de dormir, contudo, quando as inquietudes se traduziam em insônia e ansiedade, pensar nas imensidões brancas de Saariselkä funcionava como um bálsamo de enorme efeito sedativo. O silêncio absoluto, os flocos de neve derretendo ao contato com o vidro da janela aquecida, a lareira crepitando, o silêncio daquelas crianças pouco usuais e a companhia de gente vigorosa e fiel às convicções que as embalavam, foram, sem dúvida, um fator de restabelecimento com que pude contar. Nada mais normal, portanto, que ao primeiro sinal do inverno no Ártico, minha bússola interna tenha apontado para a Lapônia, onde já fora tão feliz. Assim sendo, quando as portas do avião da Finnair se abriram sobre a pista de Ivalo, e vi o termômetro marcando -20°, logo me sobreveio a convicção de que valera a pena o sofrimento daqueles dias em que me senti emparedado, se aquele fora o preço para viver tamanho esplendor de novo. Mas nenhum chalé, nenhuma vegetação exuberante e muito menos nenhuma aurora boreal – mais raras do que se imagina -, valeram a companhia sincera e amiga dessa pequena tribo dada a prazeres fortes e genuínos. Nas longas conversas ao pé da lareira ou no silêncio das caminhadas sem fim, senti a vida pulsar. É no Ártico que vou pensar se e quando a angústia voltar a bater à porta. Lá a paz é absoluta. Lá o mundo acaba.

 

2 Comments

  1. O mais interessante em suas crônicas de viagens, Fernando, é que você não fala apenas de paisagens da natureza, mas também, e principalmente, de paisagens humanas. E isso, para mim, quando tratado com sensibilidade e empatia, é o que mais conta. Conheci um ambiente comparável, há uns seis anos, fazendo trilhas na Patagônia Chilena. Belo relato.

  2. Li com carinho seu relato pelos confins do sul, Clemente, e ainda pretendo fazer o mesmo passeio. Folgo que tenhas gostado dessas reflexões sobre o Ártico e sua gente. Tenho absoluta certeza de que você teria muito a trocar com o povo finlandês, uma gente admirável. Grato pela leitura e comentário.

    Abraço,

    Fernando

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