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Penso, logo duvido.

As evocações de Otto Lara Resende – Paulo Gustavo

Paulo Gustavo

Otto Lara Resende.

Acaba de sair, neste fim de 2017, um belo livro para quem deseja conhecer, sob novos ângulos, algumas das maiores personalidades do século 20 brasileiro. Num país pouco afeito à memória como o Brasil, o livro vem em boa hora e nos deixa frente a frente com personagens que fizeram história. São políticos, jornalistas, escritores, militares, artistas, todos flagrados em sua humanidade essencial, embora  — e como seria diferente? — também enquadrados, com sensibilidade, em seus papéis sociais.

A proeza da evocação é de Otto Lara Resende (1922–1992). Nome que dispensa apresentação e que arrasta consigo uma legendária aura de homem múltiplo: jornalista, adido cultural, ficcionista, cronista e memorialista. Múltiplo e cordial. Otto, quem não sabe?, é um dos quatro escritores do afamado grupo mineiro formado, além dele, por Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Integrante de uma geração que incluía ainda o brilho de um Rubem Braga, de um Vinicius de Moraes, de um Tom Jobim, de um Nelson Rodrigues, de um Sérgio Porto. Um desses homens que parecem ter vivido no tempo certo, em plena sintonia com os melhores talentos de sua época. Até porque foi um deles.

Parece que em “O príncipe e o sabiá e outros perfis” o autor quis compartilhar com seus leitores o privilégio de uma vida cultural ampla, fomentada pelo jornalismo, pela camaradagem geracional, pela arte singular de fazer amigos. Testemunha e participante, Otto (com esse nome que a tipografia parece transformar em dois olhos atentos) vai muito além do meramente jornalístico. O escritor literário precede o jornalista, pois quem nos fala em seus perfis nos fala “por dentro”, como que disposto a tirar partido da vida do ponto de vista estético e humano. Otto dribla a superficialidade tão frequente no jornalismo. Dá vez ao escritor, ao amigo, ao convivente. Não se faz de centro do ponto de vista, mas também não evita a sua opinião tão firme quanto desassombrada. Como um poeta, ele quer nos revelar muito mais que o casual e o pitoresco. É como se tivesse a consciência de que está  escrevendo para a História, mas isso com simplicidade, bom humor e fidelidade à famosa discrição mineira.

Otto escreve muito bem. Tem algo de Rubem Braga. Tem algo dos seus amigos íntimos e poetas — Paulo Mendes Campos e Helio Pellegrino, este último, a meu ver, tão bom poeta quanto psicanalista e cronista (em ano já remoto escrevi no “Diario de Pernambuco” sobre sua bela poesia postumamente reunida por um jornalista amigo). Otto é, em todos os sentidos, um autor de soma, mas sua generosidade não o impede de nos seus perfis pingar ironia ou apontar senões. Sua doçura não é, claro, a dos ingênuos. Otto nos alicia. Tem plena consciência de seus poderes de escritor. De escritor criadoramente vertical. Seus perfis são crônicas alargadas por uma busca de compreensão das personalidades que retratou. Num passe de mágica, a crônica se faz memória e evocação. O cronista é superado pelo memorialista, como se este, de posse do passado, olhasse para o futuro que lerá seus textos, que neles encontrará um ponto de vista único e fecundo.

Publicado originalmente em 1992, “O príncipe e o sabiá” que ora chega às livrarias é mais robusto que o da primeira edição, uma vez que, graças ao trabalho da organizadora, a escritora Ana Miranda, vários perfis inéditos foram adicionados. Muito bem acrescentados. Assim, velhos e novos leitores acharão o mesmo Otto Lara Resende que seduzia com seu talento os seus contemporâneos. Difícil é saber quais desses perfis são os melhores, os mais iluminados, os mais esteticamente realizados. É livro que não se larga. Vida e literatura se confundem… Que se confundam! É assim que se lê melhor, como sabe todo grande autor.

Imagino que não cansarei o leitor saciando, pelo menos em parte, sua curiosidade em saber de algumas das personalidades evocadas na obra. Ei-las. Dentre os poetas, Manuel Bandeira, Augusto Frederico  Schmidt, Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Miguel Torga. Dentre ex-presidentes, Getúlio Vargas, João Goulart, Juscelino e Costa e Silva. Políticos como Luís Carlos Prestes e Magalhães Pinto. Também estão presentes grandes jornalistas e empresários da imprensa: Carlos Castello Branco, Samuel Wainer, Adolph Bloch, Prudente de Morais Neto. Não faltam os maiores prosadores: Rubem Braga, João Guimarães Rosa, Erico Verissimo, Mário de Andrade e José Américo de Almeida.  Nem pintores, como Djanira e Ismael Nery. Nem nomes internacionais como os de Albert Camus, Françoise Sagan e Georges Bernanos.

Tendo escrito grande parte desses perfis nos anos do regime militar de 1964, Otto não se furta, por isso mesmo, a aqui e ali fazer sua profissão de fé na democracia. E muitas vezes o faz evocando o seu homenageado, a exemplo do perfil, tão magnífico quanto apologético, de Sobral Pinto, sem dúvida um patrimônio público da consciência cívica nacional daqueles anos sombrios, o “advogado de causas perdidas, de réus indefesos”, “uma presença com toques quixotescos. Todo sol. Sem sombras. Sem penumbra”.

É nessa claridade que quero deixar o leitor, pois assim também é esse livro de Otto Lara Resende: iluminado e iluminante. Um ótimo presente neste Natal.

 

Paulo Gustavo

 

4 Comments

  1. Adorei antes. Vou revisitar.
    Obrigado, PG.

  2. Sou obrigado a concordar com o amigo Paulo Gustavo e com os ternos elogios feitos a Otto Lara Resende. A única ressalva aos escritos dele, fica por conta da correspondência com seus amigos de uma vida, nos tempos em que era adido cultural na Bélgica.

    É compreensível, de resto, que cartas, quando escritas, não sejam concebidas com olho na publicação. Mas foi no contrapé desse desleixo que flagrei a fresta por onde se insinuou um Otto demasiado comum, com preocupações demasiado comuns, vivendo uma vida de ambições comuns.

    Para quem o tinha em tão alta conta, tive um momento de desilusão. Quem sabe não deveria relê-las, agora que eu também estou mais comum do que nunca. Genial nele foi a história da Globo que durante um tempo acreditei ser ficção, mas que não é. Alguém a conhece? Pois conto-a.

    No auge da crise entre Walter Clark e Roberto Marinho – que terminaria com a demissão do primeiro da TV -,coube a Otto redigir as cartas. Tanto aquela em que Marinho reconhecia a excelência do colaborador, quanto a resposta, desejando sucesso ao ex-empregador. Artes das Minas Gerais.

  3. Excelente, amigo Paulo Gustavo! Vou comprar o livro!

  4. Obrigado, amigos.
    Abraços
    Paulo Gustavo

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