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Penso, logo duvido.

As nações no mundo globalizado – Editorial

Editorial

População balança a bandeira da Catalunha em protesto no dia 3 de outubro em Barcelona.

Há cerca de um ano, o Reino Unido decidiu, em plebiscito, por uma minoria mínima (menos de 800 mil votos ou 3,6 pontos percentuais), sair da União Europeia, como forma de proteger os setores atrasados da sua economia e conter o movimento migratório do continente. Um movimento isolacionista diante da globalização. No plebiscito da semana passada, a Catalunha andou na direção contrária: decidiu romper com o Estado espanhol, mas permanecer na União Europeia. Situação semelhante à da Escócia, que deseja a independência do Reino Unido mas, no Brexit, votou pela permanência na Europa. Com forte identidade nacional, a Catalunha pretende formar um Estado independente, mas, ao contrário dos ingleses, continua apostando na integração econômica. Mais cedo que os ingleses, os catalães já estão percebendo os enormes obstáculos e riscos que vão enfrentar com a decisão radical. A começar pela dificuldade de conciliar a ruptura política, ruptura com Madrid, com a integração econômica, permanência na União Européia. A economia da Catalunha é a maior da Espanha, mas não pode viver sem o mercado comum europeu, do qual faz parte a economia espanhola. Num ato grotesco, que demonstra a fragilidade dos independentistas, o presidente do parlamento catalão, Carles Puigdemont, sugeriu a suspensão da independência imediatamente após a sua declaração, defendendo um improvável diálogo com o intransigente governo espanhol. Tudo indica que os ingleses, se fossem consultados agora, não aprovariam o Brexit: o próprio governo vacila, haja vista a declaração do secretário de Estado, Damien Green, de que o país está melhor dentro da União Europeia. A maioria no plebiscito da Catalunha foi bem mais confortável que no Reino Unido. Mas não expressa uma clara unidade e convergência interna, a julgar pela baixíssima partipação no pleito (apenas 43% dos eleitores), e pela enorme manifestação em Barcelona, contra a independência. E agora? Romper pode ser um desastre, além de abrir uma grave crise política. No entanto, recuar será também um desastre político para Carles Puingdemont e para as aspirações nacionais dos catalães.

 

2 Comments

  1. Com a devida vênia ao princípio de não enviarmos à redação nada que não seja absolutamente inédito, peço abrir uma pequena exceção para que abriguem, em assunto de tamanha pertinência, três parágrafos que mandei recentemente para publicação em outra revista. A receptividade que teve em redes sociais, atestou pelo menos uma coisa: minha tese pode estar equivocada, mas é fato inconteste que tudo o que diga respeito à Espanha, desde a Guerra Civil, galvaniza as opiniões mundo afora. Pátria do Quixote, a cidadania parece se inflamar com esse lindo país de passado cruel e futuro algo turvo. Fez muito bem “Será?” em trazer o tema à baila por ser ele sintomático de um rastilho de pólvora que poderia comprometer as bases da mais engenhosa construção política do século passado. Aqui vão, portanto, meus três parágrafos testemunhais.

    “De minha longa vivência em Barcelona e adjacências, concluí que de dez catalães, sete são massa de manobra, o que obedece à regra universal. Bom exemplo deles é Angel Ferrusola que se emociona no Mosteiro de Montserrat, a padroeira. Lá, já o vi coreografar estranha saudação ao hino pátrio. Em público, franze o cenho diante das touradas, brutalidade de andaluzes. Doravante, demoniza o infiel Neymar e sataniza os mouros. Conhece os passos da “sardana” e odeia Madrid, onde mal foi. Fala catalão, mas não o escreve, e atribui tudo de que gosta ao gênio criativo de seu povo. Isso vale para o espumante, lá dito “cava”, e para as salsichas, as “botifarras”. Sozinho, é um cordeiro etnocêntrico. Em grupo, um barril de pólvora. A repressão ao plebiscito lhe deu alento para esbravejar com rosas na mão.

    Para que haja sete como ele, dois dentre dez são almas serenas. Amam o idioma e deploram que o franquismo o tenha proibido, fato que deixou sequelas. Bom representante do grupo é Carles Ratera, dono de uma malharia em Badalona. Desde sempre, vende metade da produção ali mesmo, e o resto na Europa. Casado com uma basca, passa férias na Galícia, onde tem um neto. Favorável a que a Catalunha esperneie para reter algo à altura dos 20% do PIB espanhol que representa, abomina dogmas e simpatiza com a Família Real. Vota contra o separatismo que vê como retrocesso e, é claro, como um maná para uns poucos finórios que enxergam na manobra uma válvula de escape. Ideal, na verdade, para fugir das amarras que lhes inibem a esperteza.

    O arquétipo do espertalhão, os 10% restantes da amostragem, é Facundo Puigcorbé, que conheci em Arenys de Mar, diante de uma panela de arroz com “bogavante”, a lagosta local. Aliado histórico do outrora poderoso Jordi Pujol, corrupto bem falante e carismático, o empreiteiro ladino vê no separatismo a chance de esquentar o dinheiro que tem em Andorra. Sonha em se tornar estrangeiro na Espanha, onde tem negócios e conhece tudo. Pois, para os ibéricos, de quem é parceiro irrestrito, seria o cavalo de Troia perfeito para azeitar contratos com o “establishment” catalão e vender facilidades, nos cinco anos de impasse que se seguiriam à vitória do “sim”. No fundo, a mudança o habilita a gritar “pega ladrão” e, de fininho, achar sua própria rota de fuga”.

    É a síntese sincera do que sinto.

  2. Como se fazer parte da União Europeia dependesse apenas de um lado, do governo da Catalunha! Puigdemont terá lido o artigo 49 do Tratado de Lisboa? Ou sabe quantos anos de espera e quantas rodadas de negociações teve a Croácia – apenas para dar um exemplo – para tornar-se membro da União Europeia? Foram 10 anos de reuniões. Ou já se deu o trabalho de ver as pesquisas de opinião na Alemanha, por exemplo, onde cerca de 80% opinam contra a independência da Catalunha? Puigdemont ou é incompetente ou está enganando seu eleitorado. Quem sabe uma solução para o impasse passe por trocar os dois fracassos, tanto Puigdemont quanto Rajoy.

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