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Penso, logo duvido.

Austro-Costa, um Poeta do Recife – Paulo Gustavo

Paulo Gustavo

Antiga Rua do Recife – Biblioteca Nacional, Coleção Brasiliana.

Vivo estivesse, o poeta Austro-Costa (1899-1953) teria completado 119 anos no dia 6 deste mês de maio. Tanto como poeta quanto como cidadão, pertence à primeira metade do século 20 no Recife. Malgrado a atemporalidade de muitos dos seus poemas, que nos alcançam com inspirado lirismo, é sobretudo naquela época que o vemos florescer e se identificar com o seu tempo recifense, do qual foi, sem dúvida, um dos maiores cronistas. Cronista no amplo sentido da palavra, a que não faltou alguma coisa de romântico sociólogo, de intérprete ou pintor de cenas e comportamentos da vida de então.

Como muitos escritores de seu tempo, Austro-Costa foi um autodidata. Não certamente por opção, mas pelo rigor da necessidade e da sobrevivência. Desde cedo, só um caminho esperava o adolescente pobre de Limoeiro transplantado para a capital: o jornalismo. A faculdade? A própria prática cotidiana nas redações dos inúmeros periódicos do tempo. Quem hoje eventualmente folheia as revistas e os jornais daquela época depara-se com uma pluralidade de Austros escondidos sob pitorescos pseudônimos: Alcedo Tryste, Chrispim Fialho, Fra-Diávolo, João da Rua Nova, João Queremista, João-do-Moka, Silvio d’Almeida, Tybaldo d’Alcazão e Tritão. Dentre estes, provavelmente o mais famoso terá sido o João da Rua Nova, nome com o qual assinou sonetos humorísticos no Diário da Tarde, satirizando personagens e rindo dos costumes. Escritos num tom coloquial, esses sonetos marcaram época e foram em parte coligidos pelo jurista e escritor Luís Delgado no livro De Monóculo, obra póstuma e publicada em 1967, no Recife, por iniciativa do escritor Marcos Vilaça.

A imprensa proporcionou-lhe o sustento e a popularidade. A presença frequente nos jornais e nas revistas  — não só de periódicos do Recife, como de outras cidades de Pernambuco e do Nordeste — criou para o poeta uma fama regional e, o que é mais importante para um autor, um público; no seu caso, um público sobretudo feminino. Dedicatórias, crônicas em prosa poética, poemas de circunstâncias as mais variadas (inclusive nos famosos álbuns das moças em flor), recitais e quermesses dão-nos um testemunho de como Austro e os poetas de então interagiam com a sociedade. No seu caso, essa interação resultou numa tão fecunda quanto dispersa produção poética, o que chega a contrastar com a exiguidade de sua produção publicada: os livros Mulheres e Rosas (1922) e Vida e Sonho (1945).

A praticamente um século daquele tempo, é necessário lembrarmos, ainda que muito concisamente, o tão irrequieto quanto provinciano Recife de então. Era o Recife das melindrosas, do footing da Rua Nova — a principal rua da cidade —, dos arrabaldes ainda longínquos (Poço da Panela, Monteiro, Dois Irmãos, Várzea…), da famosa Esquina do Lafayete, dos bondes, das notícias recebidas por telegramas, dos alfaiates, dos primeiros embates do modernismo literário, da crença ingênua no progresso que demolia tradições; época de revistas como A Pilhéria, Pra Você, Revista da Cidade e Rua Nova, todas repletas de sugestões para os historiadores e pesquisadores de hoje… É nesse Recife que o limoeirense Austro-Costa surge e se consolida como o “poeta da cidade”, traduzindo o romantismo da juventude e o seu próprio romantismo de poeta formado sob os influxos do simbolismo e dos autores românticos, à frente dos quais o baiano genial que foi Castro Alves.

O que vemos, com olhar de pósteros, da obra de Austro-Costa é apenas o antológico, o que o tempo filtrou e que, salvo por amigos e pesquisadores, nos mostra um poeta capaz de transitar por várias formas fixas, dentre as quais o soneto, sua grande paixão. Alguns dos seus sonetos se tornaram célebres, lembrados e recitados, a exemplo de Último Porto, do Jardineiro Louco, de Salomé Toda de Verde, de Tartufo-mor. Assim como o poema ainda agora famoso Capibaribe, Meu Rio. De par com esses poemas, embora menos conhecidos, há seus versos livres dos primeiros tempos do modernismo no Recife, movimento de que se fez pioneiro em Pernambuco na efervescente década de 1920. Um pioneirismo de que logo se despiu para retomar formas e temas indissociáveis de sua inspiração: o desencontro amoroso, a inquietude sentimental, a melancolia, que eram, por assim dizer, o avesso do humorista que caricaturava a cidade do Recife e a fazia sorrir.

Recentemente, a Companhia Editora de Pernambuco – a Cepe Editora, em sua coleção Letra Pernambucana, reuniu seus dois livros publicados em vida e uma boa parte de seus sonetos satíricos. Vale a pena conferir.

2 Comments

  1. Excelente, amigo Paulo Gustavo! Tenho interesse nesse livro da CEPE e vou procurá-lo. Infelizmente, só conheço o Austro Costa satírico, de alguns versos.
    Contemporâneo de Ascenso Ferreira, outra figura notável, teve com ele um “desafio poético” que reproduzo aqui, se a “Moderation” da Será? o acolher.
    Ascenso escreveu, na parede do sanitário sujo de um bar que frequentavam, uma quadrinha:
    Aqui jaz o Austro Costa
    Um poeta sem segundo
    Morreu atolado em bosta
    Na bosta pior do mundo
    E o nosso poeta contestou, de pronto, abaixo da mensagem do amigo:
    Na bosta pior do mundo
    Não caí, fiquei suspenso
    Pendurado pelo fundo
    No par de chifres do Ascenso.

  2. Obrigado, Mestre Clemente.
    Austro e Ascenso eram inclusive amigos. Foi na Esquina da Lafaiete. O episódio popularizou-se bastante. Tenho esta versão da resposta de Austro:
    “Na pior bosta do mundo / Não morri, fiquei suspenso / Pois antes de ir ao fundo / Peguei no chifre de Ascenso.”
    Grande abraço do admirador

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