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Bachianas Brasileiras nº 5 de Villa-Lobos, um clássico dos trópicos – Frederico Toscano

Frederico Toscano

Uirapuru-laranja, ave brasileira homenageada por Villa-Lobos nas Bachianas Brasileiras nº 5.

Incrivelmente prolífico, o carioca Heitor Villa-Lobos (1887-1959) era um personagem exuberante, tendo alcançado o status de maior compositor na música clássica brasileira. Fez um profundo estudo da nossa musicalidade folclórica, que assimilou num estilo musical eclético. Esse conhecimento veio a constituir a base das reformas radicais no sistema de educação musical sob o governo nacionalista dos anos 1930.

As influências de Villa-Lobos foram tão diversas quanto seu próprio estilo musical. Jovem, tocou em cafés, rodou o Brasil coletando música e estudou em Paris. Para um compositor que compunha com tanta facilidade e fluência, a qualidade de sua produção impressiona. Raramente visto sem um charuto e um sorriso, Villa-Lobos era conhecido por seu caráter expansivo e pela apaixonada defesa da música brasileira, área em que teve grande impacto como educador.

As primeiras composições de Villa, como é carinhosamente chamado, trazem a marca dos estilos europeus da virada do século XIX para o século XX, sendo influenciado principalmente por Richard Wagner (1813-1883) e Giacomo Puccini (1885-1924), pelo modernismo da Escola de Frankfurt e logo depois pelos impressionistas. Nas suas “Danças” características africanas (1914), entretanto, começou a repudiar os moldes europeus e a descobrir uma linguagem própria, que viria a se firmar nos bailados “Amazonas” e “Uirapuru” (1917). O compositor chega à década de 1920 perfeitamente senhor de seus recursos artísticos, revelados em obras como “A Prole do Bebê” para piano, ou o “Noneto” (1923).

Violentamente atacado pela crítica especializada da época, viajou para a Europa em 1923 com o apoio do mecenas Carlos Guinle (1883-1969) e, em Paris, tomou contato com toda a vanguarda musical da época. Depois de uma segunda permanência na capital francesa (1927-1930), voltou ao Brasil a tempo de engajar-se nas novas realidades produzidas pela Revolução de 1930.

Apoiado pelo Estado Novo, Villa-Lobos desenvolveu amplo projeto educacional, em que teve papel de destaque o “Canto Orfeônico”, e que resultou na compilação do “Guia Prático” (temas populares harmonizados). O compositor preocupava-se muito com os rumos da educação musical nas escolas brasileiras e, quando foi aprovado seu projeto de educação na área, voltou a morar definitivamente no Brasil.

À audácia criativa dos anos 1920, que produziram as “Serestas”, os “Choros”, os “Estudos” para violão e as “Cirandas” para piano, seguiu-se um período “neobarroco”, cujo carro-chefe foi as “Bachianas Brasileiras” (1930-1945), para diversas formações instrumentais.

As “Bachianas Brasileiras” são uma série de nove composições escrita em 1922. Nesse conjunto, Villa-Lobos fundiu material folclórico brasileiro (em especial a música caipira) às formas pré-clássicas no estilo de Johann Sebastian Bach (1685-1750), intencionando construir uma versão brasileira dos magníficos Concertos de Brandemburgo do mestre alemão. Esta homenagem a Bach também foi feita por compositores contemporâneos como o russo Igor Stravinsky (1882-1971). Todos os movimentos das “Bachianas”, inclusive, receberam dois títulos: um bachiano, outro brasileiro.

As “Bachianas nº 5” talvez sejam sua obra mais conhecida. Villa-Lobos era exímio ao violoncelo, e foi seguramente sua afinidade com o instrumento que lhe permitiu criar um amplo leque de texturas e sonoridades a partir da inusitada formação de oito violoncelos e soprano solista. A obra se divide em duas seções:

ÁRIA [CANTILENA] – Começa com um pizzicato na linha de baixo acompanhando um delicado contraponto. A soprano entra com um vocalise sem palavras, influência do russo Sergei Vasilievich Rachmaninoff (1873-1943), ofuscado por um dos violoncelos, entoando uma linha vocal de típico sabor brasileiro. A seção central é sobre um poema de Ruth Valadares Correia, um apaixonado hino à lua. O material de abertura então retorna, com a soprano agora sussurrando a melodia:

Aqui está o poema cantado pela soprano:

 

Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente.

Sobre o espaço, sonhadora e bela!

Surge no infinito a lua docemente,

Enfeitando a tarde, qual meiga donzela

Que se apresta e a linda sonhadoramente,

Em anseios d’alma para ficar bela

Grita ao céu e a terra toda a Natureza!

Cala a passarada aos seus tristes queixumes

E reflete o mar toda a sua riqueza…

Suave a luz da lua desperta agora

A cruel saudade que ri e chora!

Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente

Sobre o espaço, sonhadora e bela!

 

Ruth Valadares também foi a cantora deste movimento durante a sua estréia em 1939, sob a regência do próprio Villa-Lobos.

DANÇA [MARTELO] – O segundo movimento é uma dança animada. A soprano canta um poema do recifense Manuel Bandeira (1886-1968) que descreve o uirapuru e tem de dar conta rapidamente de palavras repetidas e pausas súbitas. Aqui, tanto quanto a seção anterior, cantar em língua portuguesa na música clássica se mostra um desafio extremo…

Eis o texto de Bandeira:

 

Irerê, meu passarinho

Do sertão do cariri,

Irerê, meu companheiro,

Cadê viola?

Cadê meu bem?

Cadê Maria?

Ai triste sorte a do violeiro cantadô!

Sem a viola em que cantava o seu amô,

Seu assobio é tua flauta de irerê:

Que tua flauta do sertão quando assobia,

A gente sofre sem querê!

Teu canto chega lá do fundo do sertão

Como uma brisa amolecendo o coração.

Irerê, solta teu canto!

Canta mais! Canta mais!

Pra alembrá o cariri!

Canta, cambaxirra!

Canta, juriti!

Canta, irerê!

Canta, canta, sofrê!

Patativa! Bem-te-vi!

Maria-acorda-que-é-dia!

Cantem, todos vocês,

Passarinhos do sertão!

Bem-te-vi!

Eh sabiá!

Lá! Liá! liá! liá! liá! liá!

Eh sabiá da mata cantadô!

Lá! Liá! liá! liá!

Lá! Liá! liá! liá! liá! liá!

Eh sabiá da mata sofredô!

O vosso canto vem do fundo do sertão

Como uma brisa amolecendo o coração.

Competindo em popularidade com as “Bachianas nº 5” está “O Trenzinho do Caipira”, movimento final das “Bachianas nº 2” (1938), para orquestra, inspirada nas viagens de trem que o compositor fez em 1931 para a difusão da música de concerto pelo interior do Estado de São Paulo:

Villa-Lobos também escreveu trilhas sonoras para o cinema. A primeira, para o filme “O Descobrimento do Brasil” (1937), de Humberto Mauro (1897-1983), acabou resultando na composição de quatro suítes orquestrais. A segunda foi a trilha sonora do filme “A Flor que não Morreu”, de Mel Ferrer (1917-2008), protagonizado pela bela Audrey Hepburn (1929-1993). O compositor polonês Bronislau Kaper (1902-1983), que mexeu bastante na partitura, dividiu os créditos da música que foi às telas. Descontente, Villa-Lobos acabou compondo “A Floresta do Amazonas”, para soprano, coro masculino e orquestra, para restaurar suas intenções originais.

Reconhecido por ter sido o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira em música, Villa-Lobos é considerado o maior expoente da música do modernismo, compondo obras que contêm nuances das culturas regionais brasileiras, com os elementos das canções populares e indígenas. No Brasil, sua data de nascimento é celebrada como Dia Nacional da Música Clássica, a partir de decreto assinado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 13 de janeiro de 2009.

2 Comments

  1. Não gosto de superlativos. Não gosto de hipérboles na linguagem. Mas o que dizer, sem usá-los, desse artigo de Frederico Toscano? Lindo e no momento certo, sobre uma maravilha bem brasileira que é também excelência internacional. Bom lembrar e ouvir, nestes meses de desânimo na vida nacional.

  2. Diferente de Helga, Frederico, tenho uma vocação para a hipérbole, defeito muitas vezes apontado em mim por minha filha e minha mulher!
    (Por isso nunca um texto meu é sua primeira versão…)
    E um dos problemas dos hiperbólicos é que eles terminam gastando superlativos à toa…
    Quando é necessário realmente empregá-los, como agora, ficam praticamente sem ter o que dizer.
    A música de Villa-Lobos é superlativa; e seus escritos sobre música, todos eles, são magníficos.

    Obrigado por mais esse.

    Luciano Oliveira

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