Pages Navigation Menu

Penso, logo duvido.

Barbárie, cultura e religião – João Rego

João Rego

Pete McBride - Chasing the Sacred: Down the Ganges From Snow to Sea.

Pete McBride – Chasing the Sacred: Down the Ganges From Snow to Sea.

 

O desamparo do homem, porém permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. (FREUD, Sigmund in O Futuro de uma Ilusão (1927)

RECIFE, NOV 2016

Não importa a sua religião. Não faz diferença a sua filosofia, ou ciência, para compreender sua existência. Nem muito menos seu agnosticismo, materialismo ou sua ideologia. Tudo sucumbe diante da morte. Visto de outro ângulo, a morte é esse indecifrável vazio, esse redemoinho de tempo que a todos absorve, pondo fim a nossa fugaz existência.

É em torno, e por causa dela, que as religiões se fundam, tentando ao longo dos séculos dar um sentido à humanidade e seus destinos. O homem e suas pulsões— eros e thanatos— vem construindo sua errática história num fluxo de construção e desconstrução, num infinito entrelaçamento de períodos de guerra e paz, morte e vida, civilização e barbárie.

Olhando para o misterioso enigma da morte, as religiões, e mais tarde o Estado e suas leis, regulam a vida — sustentando a passagem do estado de natureza para o de civilização.

Mas porque um tema tão longe da nossa realidade política e social atual? Por que, embora nosso processo civilizatório tenha evoluído, principalmente nas últimas décadas, por meio das transformações tecnológicas e de informação, a humanidade carrega traços atávicos que nos constituem, e nos denunciam — a cada ato de violência, coletivo ou individual— que a pulsão é tão presente e indelével, nos desejos que nos forjam, quanto o DNA que estrutura nosso corpo biológico.

O processo civilizatório é uma envoltória que tenta moldar nossa barbárie, distinguindo-nos dos animais, constituído pela cultura, as leis, os valores morais e éticos, sempre regidos pelo Estado e as religiões.

Compreender suas origens tem sido o papel dos pensadores, pois ali reside a semente das nossas idiossincrasias, o vetor da nossa frágil e complexa humanidade, que nos impulsiona ao longo do tempo, produzindo um rastro de história.

Sem ser religioso, por entender que as religiões, paradoxalmente, limitam a compreensão do homem sobre sua existência, muitas vezes distorcendo a necessária capacidade de tolerância com o outro, ou querer apresentar conceitos filosóficos como ato de fé, irei apresentar aqui, na medida do possível, alguns princípios da filosofia hindu — aquela cujos livros são os mais antigos registros dessas inquietações do homem sobre sua origem e o sentido da sua existência.

Mais especificamente, irei abordar, em uma série de pequenos artigos, alguns conceitos básicos da yoga, sistematizados por Patañjali nos anos 150 A.C. Patañjali pertenceu a uma escola filosófica hindu materialista, Samkhya — que, estima-se, surgiu há 2400 anos — e sistematizou, nas suas famosas Sutras, um conjunto de valores éticos e comportamentais que regem a yoga. A yoga que, ocidentalizada, virou sinônimo de ginástica, é, na verdade, um complexo e sólido código ético e moral, que guia o sujeito a se posicionar, com seu corpo e mente, diante da vida e do universo —, diante do outro.

Sim, tudo lá vem de uma cosmovisão—, aliás, como é possível encontrar nos registros de muitas sociedades primitivas—, vendo a realidade como uma complexa malha de fenômenos interligados, tudo compondo um único todo. Daí um fundamental respeito à vida de todos os seres, uma vez que a mesma unidade celular de vida compõe das mais simples às mais complexas criaturas.

É surpreendente como, da astrofísica à psicanálise, passando por diversos saberes consolidados da cultura ocidental, podemos encontrar ideias, conceitos e valores extremamente semelhantes na filosofia hindu. Daí o fascínio que exerce em mim este universo cujos registros escritos remontam a 1500-1000 anos A.C, como os Vedas.

É claro que não tenho a pretensão de, em poucos artigos, dar conta de tamanha tarefa. O objetivo é ordenar um pouco minhas reflexões, resultado de estudos sobre o tema, e, se possível, compartilhar com vocês um pouco deste meu fascínio sobre a filosofia hindu e a yoga.

No próximo artigo, irei abordar um conceito fundamental, que perpassa as diversas escolas filosóficas e religiosas hindus, e é pedra fundamental da cultura hindu:  o AHIMSA – ?????? em sânscrito – ou a não-violência.

P.S Para Romero e Luiza. Um morreu e a outra nasceu no mesmo dia.

***

REFERÊNCIAS

AHIMSA – https://en.wikipedia.org/wiki/Ahimsa

FREUD, Sigmund. (1988) O FUTURO DE UMA ILUSÃO(1927). IMAGO. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XXI.

FREUD, Sigmund. (1988) O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO (1930[1929]) IMAGO . Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XXI.

FREUD, Sigmund. (1988) TOTEM E TABU – ALGUNS PONTOS DE CONCORDÂNCIA ENTRE A VIDA MENTAL DOS SELVAGENS E DOS NEURÓTICOS (1913[1912-13]). IMAGO. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XIII

PATANJALI – https://en.wikipedia.org/wiki/Patanjali

SAMKHYA – https://en.wikipedia.org/wiki/Samkhya

TAIMNI, I.K. – A CIENCIA DO YOGA. Editora TEOSOFICA, 2015

VEDAS – https://en.wikipedia.org/wiki/Vedas

VIVEKANANDA, Swami.  Complete Works of Swami Vivekananda (English Edition) eBook Kindle Amazon.

No Comments

Trackbacks/Pingbacks

  1. Militância política, informação e mídias sociais – João Rego | Revista Será? - […] A respeito da minha promessa de escrever sobre filosofia oriental (leia o artigo Barbárie, cultura e religião) ela ainda…

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *