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Penso, logo duvido.

Brava gente del Mezzogiorno – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Corigliano Calabrio.

“L´Italia non esiste” , dito popular.

Se você já foi a Nápoles, e de lá se animou a pegar um trem, ou mesmo um carro, e se desceu ao longo da costa em direção ao bico da bota da Península, lá onde fica Reggio Calabria, diante da Sicília, algumas coisas lhe terão chamado a atenção no lindo trajeto. Passadas Sorrento e Pompéia, talvez você tenha parado em Battipaglia para comer a melhor muçarela do mundo. Nas terras impregnadas das cinzas do Vesúvio, o pasto por ali é único e não há leite tão propício para a confecção daquelas pelotas brancas que descansam na salmoura em grandes tigelas, à porta dos restaurantes, e que os clientes pescam com uma pequena rede. Uma vez no prato, recebem a escolta de rodelas de tomate e um fio de azeite. Com um pão crocante na cestinha e um copo de vinho terroso à mão, você terá conhecido algo muito próximo ao que alguns chamam de felicidade suprema.

Seguindo viagem, tendo à direita o mar Tirreno, é reconfortante adivinhar que do outro lado do horizonte está a Sardenha, terra de gente longeva. Se no verão tudo é desumano de tão escaldante, não esqueça de se acautelar contra os sirocos e as tramontanas que sopram no outono e inverno. De novembro a fevereiro, dir-se-ia que a região fica hibernada, reduzida a um ramerrão em que só as festas do padroeiro e as quermesses natalinas animam a vida dos burgos sonolentos e frios. Fazem-se então os trabalhos de manutenção nas casas de veraneio e, nem bem começa abril, já começam a chegar os turistas escandinavos e russos, para quem as águas já estarão suportáveis, quase tépidas. Daí em diante, a região ganha vida até o ápice do “Ferragosto” – a festa de Assunção de Maria -, quando essa parte da Península fervilha de italianos à procura do sol, sombra e coquetéis refrescantes.

Continuando na estrada em direção ao ponto em que termina a Basilicata e começa a Calábria, entre as cidades de Maratea e Tortora, se você olhar à esquerda, verá penhascos, vez por outra sacudidos por terremotos, onde vive uma gente singular nas cidadelas muradas. De lá até a Sicília, vicejam traços inconfundíveis: o senso de independência, o ódio ao Norte, o horror ao fisco, o forte senso de família, códigos de conduta comuns no Mediterrâneo oriental, conservadorismo, religiosidade e certo culto à esperteza, desde que esta se volte para ludibriar o opressor. Tanto os de fora quanto os de dentro. Nessas terras, fenícios, sarracenos, otomanos, romanos e mouros já deixaram rastros indeléveis de sua passagem. Portanto, resistir é preciso. Só assim, dá para manter a conserva cultural e o pertencimento. Mas tem algo mais sobre o que queria falar, para além da terra gretada, onde as cabras pastam o verde escasso.

Do que se trata? Da pobreza, ora. Pautados por relações de trabalho quase feudais, foram centenas de milhares os moradores desses burgos empoleirados que conheceram a fome e, por boa parte da vida, viveram na mais completa ignorância. Quem tem acesso a meros certificados de nascimento ou de casamento lavrados há um século, ali verá as digitais de uma sociedade patriarcal, anacrônica, decadente e quase iletrada. Não foi por outra razão que atravessaram os mares aos milhões para “fazer a América”. Argentina, Venezuela, Estados Unidos e Brasil foram algumas dessas novas Mecas. Se os irmãos do Norte – Toscana, Ligúria, Veneto, Lombardia e Piemonte -, gozavam de uma situação mais perene, muito embora também tenham sido sujeitos às peias de uma unificação precária, nunca consolidada até hoje, lá no sul, naquilo que os nortistas chamam de “Calábria Saudita”, emigrar era preciso.

É deste sul que os italianos chamam de “Mezzogiorno” – o antigo reino das Duas Sicílias que hoje compreende, ademais das províncias citadas, também a Campânia, Abruzzo, Molise e Puglia -, que nos chegaram os pais e avós de alguns nomes ilustres do cenário político brasileiro. São Paulo, capital, foi o berço de três deles, por quem tenho curiosidade especial. Embora bem diferentes entre si, notabilizaram-se pela aplicação nos estudos e pela obstinação em superar as limitações de origem. Suas vidas espelham uma espécie de recado aos avós, ecoando por sobre as gerações: o de que eles, efetivamente, fizeram a América, e venceram na vida nos países de adoção. Sempre que os vejo em ocasiões sociais e profissionais, meu olhar se detém sobre os traços fisionômicos de cada um, e tento me transportar até seus locais de origem, na execução de uma coreografia que me habituei a fazer com prazer.

Assim sendo, o bairro industrial do Brás nos legou o embaixador e ex-Ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, em pleno 1937, quando a Segunda Guerra mostrava a que viera. Não longe dali, no coração da Moóca – um bairro ilhado por muitos trilhos e de acesso nada banal para os não iniciados -, veio ao mundo o senador José Serra. Filho de um vendedor de laranjas do Mercado Central, ainda hoje tem parentes que moram bem ao lado do fabricante dos panetones Di Cunto, um modesto porém altivo ícone gastronômico desse bairro de falar tão peculiar. Por fim, foi bem ali no Cambuci, nas cabeceiras da mais paulista das avenidas, que cresceu outro polivalente obstinado de nome Antonio Delfim Netto, nascido em 1928. Embora o morador mais ilustre do bairro tenha sido o operoso pintor toscano Alfredo Volpi, o Cambuci – juntamente com o Brás e a Moóca – formava o triângulo do Anarquismo no Brasil.

Mas falemos por hora do embaixador, talvez o diplomata brasileiro que mais admirei nos muitos anos que acompanho os caminhos e descaminhos do Itamaraty. De todas as vezes em que estivemos juntos, nenhuma foi tão pungente quanto a de um bate-papo de livraria, meses depois do famigerado Escândalo da Parabólica, de 1 de setembro de 1994. Naquela ocasião, em conversa com o jornalista Carlos Monforte, um “link” ficara aberto e vazou para o ar uma passagem comprometedora, quando vocalizada pelo Ministro da Fazenda, posição que ele ocupava à época. Ao dizer que, na entrevista, omitiria as coisas ruins e tentaria capitalizar as boas novas, viu-se etiquetado de biltre e cínico. Como se tamanha desdita – quase 25 anos atrás – não fosse o bastante, soube que seu filho, militante de esquerda, ter-lhe-ia dito que seu amor permanecia garantido, mas que o apreço intelectual que devotara ao pai, este morrera.

Naquela tarde, ao nos encontrarmos lado a lado nas gôndolas da livraria, por uma vez na vida o vi sem terno e gravata. Precocemente envelhecido, parecia que sequer a fé inquebrantável conseguia dirimir aquela humilhação sem fim, sobejamente explorada pela oposição. Em verdadeiro ato de contrição, o embaixador não perdia ocasião de reiterar o quanto estava arrasado e o tanto que tinha dificuldade de se reconhecer no personagem que fora ao ar. Sem pedir permissão para abordar o tema nevrálgico, disse-lhe sem quaisquer peias que nunca estivera tão solidário à dor de alguém, e que era indigno o linchamento de que fora vítima. Percebi-lhe uma fagulha de esperança no fundo dos olhos e, gentilmente, me pediu o e-mail para que nos mantivéssemos em contato. Dali em diante, nunca mais vi a Puglia da mesma maneira e passei a ser um cruzado em favor do filho da napolitana D. Assunta, felizmente redimido pela História.

Do senador José Serra, por questão de empatia – ou talvez por falta dela -, teria menos a dizer. Mas lembro como se fosse hoje daquele homem calvo e pálido que adentrou a sala de aula da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco, a convite do professor Gadiel Perrucci, que nos ensinava História do Pensamento Econômico, e desfiou uma ladainha de costas para os alunos, entretido com as demonstrações que fazia na lousa, tomando um banho de pó de giz. Estranho homem. Não sorria, não fazia um chiste, não dava um contexto, parecia nascido para ser professor das antigas. E, no entanto, mal podia eu imaginar que todas as vezes que comparecesse às urnas dos anos 1980 em diante, haveria sempre de votar naquela figura tão sem encantos e tão sem cor. Ao fazê-lo, vez após vez, jamais me arrependi e ainda hoje desconfio que só Ted Kennedy se lhe iguala em impacto no Legislativo mundo afora.

Seu avô era de Corigliano Calabrio, um daqueles burgos fortificados onde ninguém abre a boca impunemente. Mesmo que seja para tartamudear palavras ininteligíveis em terrível dialeto calabrês que, segundo o ângulo, pode também ser bastante divertido. Excepcional gestor, brilhou por onde passou. Demasiado tarde para lograr o intento máximo de ser Presidente da República, passamos a nos ver pouco. Da última feita, pouco antes de deixar o cargo de Chanceler, vi-o na Hebraica, em recepção a Natan Sharansky. Da tribuna, reportou-se à Moóca e aos judeus que conheceu na infância. Sem treinamento em “boutades” e desprovido do fulgor dos homens de salão, fez piadas de gosto francamente duvidoso diante da plateia, aludindo ao fato de que jamais conhecera judeus pobres, sequer em seu bairro de infância. Contudo, todas as pessoas que me disseram não gostar dele, são, invariavelmente, ruins de serviço. Ainda pode fazer muito no Senado.

E agora resta dedicar umas linhas a Delfim Netto, talvez o personagem que eu tivesse em mente desde o começo do périplo. Seja da viagem iniciada em Nápoles rumo ao bico da bota, lá onde ela parece querer chutar a Sicília, seja nas tantas vezes em que me vi percorrendo de carro os bairros do Cambuci, do Brás e da Moóca, na modorra dos velhos domingos, em que matronas enfiadas numa espécie de camisolão tomavam a fresca nas calçadas da Lins de Vasconcelos, da Paes de Barros ou da rua dos Trilhos. Embora nem só de grandes personagens viva a pequena crônica – pelo contrário -, como não louvar o trio que, alternadamente, foi ocupando as mais destacadas posições da República? Dele, o quase nonagenário Delfim Netto – nascido em 1 de maio de 1928 -, filho de uma costureira e de um funcionário público, mereceria que lhe devotasse um livro, mas temos gente mais apta a fazê-lo do que este escriba.

Desde a mais tenra idade, sabia que aquele sujeito gordote e estrábico era o manda-chuva da economia dos governos militares. Como a sociedade da época era pouco midiatizada, passei anos sem lhe ouvir a voz, restando apenas a contemplação da figura roliça, de terno escuro mal cortado, e óculos de armação inconfundível. Foi só muito adiante, quando já tinha uns 20 anos, que lhe fui apresentado por um ex-sogro na boate Gallery, de São Paulo, em noite de black-tie. Passei boa parte da festa a contemplar aquele homem inverossímil que dançava com a esposa, e àquela altura acabara de deixar a Embaixada do Brasil em Paris, para onde fora mandado numa espécie de exílio dourado. Lembro de ter lido a respeito desse período o jornalista Sebastião Nery que, ao pedir para falar com o embaixador, ouviu da secretária que o ministro já ia atender. Segundo Nery, isso atestava o quanto ele estava aqui, e não lá. Era do poder, pelo poder e para o poder.

Já residindo em São Paulo, comecei a ombrear não somente com ele pessoalmente, mas também com uma constelação de pessoas que lhe devotavam a mais iracunda fidelidade que já vira até então. Detentor de uma vasta bancada pessoal no Congresso, que alguns estimavam em até 80 parlamentares que lhe seguiam os vaticínios como se fosse um oráculo, passei a vê-lo nos bons restaurantes da cidade e, ocasionalmente, em reuniões de trabalho. Muito embora sempre tenha tido agudo senso de humor, há de se ressaltar que há um que de cinismo em seu raciocínio demolidor, todo ele construído para mesmerizar jornalistas e clientes. A história recente mostra que este neto de brava gente do Mezzogiorno se esmerou em exercer poder de uma forma matricial e abrangente, talvez como nunca um de seus ancestrais tenha pensando em fazer naquelas terras onde ravinas sulcam as encostas fumegantes.

Pouco preocupado com a coerência e sempre a postos para colocar sua verve inegável e imensa cultura a serviço dos donatários dos palácios, Delfim Netto é, inegavelmente, um intelectual de fina linhagem e devota ao estudo o melhor de si. Tendo sido alvo de uma operação de busca e apreensão em seus domínios às vésperas de idade tão avançada, vale observar que isso é quase tão honroso quanto ser esfaqueado por ciúmes nessa mesma faixa etária. Quem o conhece de perto, aprecia sua discrição obsessiva quanto a aspectos da vida pessoal. Sabe-se que foi avô depois dos 80 anos, que casou em segundas núpcias com a mãe de sua filha Fabiana – uma homenagem a uma corrente socialista de coração na juventude -, e que já doou mais de 300 mil livros à biblioteca da USP, universidade que o catapultou para a vida. Santo, todos sabem que não é. Mas que fique o registro ao homem devotado ao conhecimento, bastião de pureza diante da sanha do poder.

Concluo, pois. Em meu roteiro imaginário, saio do Cambuci e ao invés de cair na avenida Paulista, vejo Reggio Calabria. Do outro lado, a adorável Sicília, terra de origem de outros tantos moradores do Triângulo Anárquico que grassou no coração paulistano. Como dissociar a trajetória de homens e mulheres, notórios ou não, da terra de onde vieram seus ancestrais? Foi em tudo isso que pensei naquela primeira noite que cheguei a Trapani e, diante da colunata do mercado de peixe, fiz um balanço do que vira no longo périplo ao sul do país encantador. Por mais que a Itália seja uma ficção como país, como eles gostam de repetir, certo é que não dá para entender  o Brasil, os Estados Unidos e a vizinha Argentina sem que deitemos um olhar na direção dos burgos, do mar azul e daquela gente desconfiada cujos filhos, para sobreviver, maquiavam índices, escondiam o legado ruim ou viam concorrentes na própria sombra que o corpo projetava.

8 Comments

  1. Fernando:
    Gostei de percorrer a Itália em direção ao sul, aonde nunca cheguei, nem chegarei, estou cada dia mais caseira.
    Quanto aos personagens, Somerset Maugham falou com clareza:
    “O que me impressiona nos seres humanos é sua falta de consistência. Nunca vi pessoas feitas de uma só peça. Admira-me o fato de que os traços mais incongruentes possam existir na mesma pessoa e, mesmo assim, resultar numa harmonia plausível. Tenho-me perguntado frequentemente como é que características aparentemente irreconciliáveis podem existir na mesma pessoa. Conheci trapaceiros que se auto-sacrificam, ladrões de boa natureza e meretrizes para quem era ponto de honta justificar o dinheiro ganho…”
    Só consigo admirar Delfim por sua inteligência e cultura, nada no indivíduo me provoca simpatia.
    José Serra consguiu me enganar por algum tempo embora seja classicamente um “operatório”, psicanaliticamente falando, ele repete e duplica as açoes, não cria, não se emociona, é meio autômato.
    Já Ricupero desperta certa simpatia.
    Perdoe-me a contundência, mas diante do assassinato de Marielle por estes dias, não dá para não ser contundente.
    Abraço, Gilda Kelner

  2. Prezada Gilda,

    Como me sinto honrado com seu comentário.

    As digressões de Somerset Maugham- escritor que adoro – já teriam pagado o ingresso. Mas ver que você se aprofundou no exame dos personagens e, de alguma forma, validou meu esforço de estabelecer paralelismos, merece que hoje à noite tome um espumante refrescante para debelar o calor do sábado paulistano.

    Digo mais: tenho visto muito José Serra nesses últimos dias (neste exato instante em que digito do telefone, tenho à minha frente um de seus mais antigos e próximos assessores). Pois bem, a despeito da imensa admiração que lhe tenho, sua definição psicanalítica de “operatório” veio em bom momento. E não a esquecerei jamais.

    Muito obrigado e um abraço,

    Fernando

  3. Caro Fernando,
    Além de falar das belezas de uma terra que me encanta, embora nunca tenha estado lá, você lembra duas figuras que me merecem respeito. O ministro Rubens Ricúpero, criatura impecável que teve a infelicidade de ver levado a público, inadvertidamente, um comentário despretensioso, que qualquer pessoa poderia fazer em privado, e o senador José Serra. Este sempre mereceu o meu voto e a minha confiança. Com um passado que o qualifica e dignifica – presidente da UNE só dois anos depois de minha passagem por lá, levado ao exílio no Governo Militar, formação cepalina, vivências na Europa e Estados Unidos – foi, sem ser médico, o melhor ministro da saúde que já tivemos. Dediquei-lhe um artigo (“José Serra e o Nordeste”)para me contrapor ao malicioso mito de que ele era “inimigo da nossa Região”, em uma de suas campanhas para presidente, e cheguei, através do grande jornalista Milton Coelho da Graça, que me conhecia dos tempos de UNE, no Rio, a enviar-lhe um “paper” sobre os problemas econômicos do Nordeste e receber uma mensagem de agradecimento do candidato. Mas nunca nos encontramos. E só tenho a lamentar que sua oportunidade de presidir o nosso país tenha passado. Era, para mim, o mais preparado para o posto, nesses últimos anos.

    • Prezado Clemente,

      Fico honrado com sua apreciação. É destino de todos nós despertar certo dia e nos flagrarmos alquebrados e envelhecidos para certos embates. Foi também por essa razão que o brioso senador não se apresentou nas prévias do PSDB para escolher o candidato do partido ao governo de São Paulo. Hoje percebo que viu longe e bem. Serra é sim um dos maiores quadros brasileiros de todos os tempos. Falta-lhe por certo aquela componente de empatia sem a qual não há consagração que se sustente neste país que já foi tão escandalosamente cordial. Daí a definição de Gilda. Ricupero, como dizem os franceses, “ça va sans dire”.

      Grande abraço,

      Fernando

  4. Caro Fernando,

    Curioso esse “mot” de que a Itália não existe! Das duas vezes que estive lá, sempre de Roma para cima, vi italianos, e não vi Itália. E disse isso a uma amiga italiana, a quem arrisquei uma explicação: excesso de personalidade. Artista demais! Pintores, escultores, desenhistas, tenores, gravadores, atores, cineastas– talento demais pelas ruas. Sem falar das mil artesanias que eles reaprendem há quanto tempo, meu Deus. Deixou-me também aquela gente a impressão de que viu tudo, passou por tudo e perdeu a fé em tudo, exceto na vida (e no calcio). Cinismo, débauche, mas poucos rostos “blasés”, como na Europa além-Alpes e Pirineus. Pensei: difícil fazer um país moderno, com instituições políticas, administração civil e aparato militar com essa gente de artistas e indisciplinados. Mas as pessoas não se matam (perdoe-me Gilda o impressionismo irresponsável, sem a menor ideia de estatística). É aquele apetite de vida radical de quem crê que no dia seguinte continua a Criação.
    Mas o Mezzogiorno, a Itália ao sul de Roma, que você percorreu, existe, elementar. A ele estou ligado por um avô “oriundo”, neto de um boticário de Vibonati, um burgozinho encarapitado num penhasco, no golfo de Policastro, ao sul de Nápolis, na povoadíssima Campania. Veio rapaz, com uma dúzia de conterrâneos, formar uma pequena colônia em… Picos, Piauí(!), no séc. XIX. O neto, meu avô Petrola, foi a personalidade mais original com quem convivi. Conciliou tudo: o clarinete, as cartas, a cervejinha e o ofício de burocrata, em que foi exemplar. E legou um dogma que até hoje nós, da 3a geração, não admitimos rever: o de marido sem mácula, apesar de tudo… Hóspede em sua casa e membro da oposição, seu público eram os netos meninos, a quem, com uma cautela que lhe acentuava o bom humor, ele sussurrava suas críticas aos excessos de autoridade da consorte. Foi meu professor de Liberdade. A atmosfera em que ele, mãe e irmãs viviam reencontrei depois naquele romance encantador de Lampedusa, O Leopardo. Uma ficção do pós-guerra que, assim como a de Rosa, eu ainda leria no século XXIII…
    Assim são os italianos do Sul. Personalidades. O ministro Ricupero (aquela figura magra de olhos azuis de São Francisco de Assis de Portinari), você o descreve bem e eu resumo: um mártir do vício nacional da fofoca. Perdeu-se na colisão com aquela parabólica. E era uma ave rara: um diplomata consumado. Serra é uma de minhas admirações políticas. Na sua campanha presidencial de 2010, fiz uma série de artigos de apoio, reunidos depois num livrinho. Creio que ele foi o melhor presidente que não tivemos. Seu dom é o de fazer acontecer. Com aquela cabeça dura e aquele ar aplicado de dirigente estudantil que nunca o largou, ele bota os outros a lhe fazerem a vontade. Acho que fazem para se livrar… Na Constituinte, cismou de criar o Seguro Desemprego e criou. Nem falo da passagem pelo Ministério da Saúde. Agora, promoveu uma modificação crítica na Lei do Pre-sal, com o que a exploração já destravou. E aprovou, para valer já em 2022, o voto distrital misto. Descobriu que bastava um PL… Acho que nos falta no Brasil uma meia dúzia de Serras. Obrigado pela viagem deleitosa, parabéns, grande abraço.

    • Prezado Luiz Alfredo,

      Não é raro que um comentário extrapole com folga as dimensões acanhadas de um artigo. Mesmo quando este é ousado e, à sua maneira, inspirado. Nestes casos, cabe ao escriba se sentir envaidecido e guardar o comentário aludido com o mesmo zelo – ou até maior – que devotará ao texto original. E digo zelo maior sem quaisquer exageros, mesmo porque um texto como “Brava gente del Mezzogiorno”, eu posso fazer às pencas. Já um comentário delicioso e culto como o seu, fica além de minhas possibilidades. No caso, a começar pelo fato legitimador de não ter ancestrais oriundos dos burgos da região, aqueles que ficam ao alcance das cinzas do Vesúvio. Obrigadíssimo, portanto, pela poesia que emana de seu depoimento sobre o país inexistente e pelas palavras bem pesadas sobre dois dos três filhos do Triângulo Anárquico Paulistano. Só me intriga mesmo que nem você nem Clemente tenham lavrado uma só linha sobre Delfim Netto, talvez o mais controverso deles. Ainda é tempo, vou ficar na espreita.

      Grande abraço e obrigado pela visita,

      Fernando

  5. A pedido. O embelezamento autobiográfico mais recente do Sr. Delfim Netto foi noticiado em todos os grandes jornais. Quanto a embelezamentos antigos, a maior autoridade é Marcelo de Paiva Abreu, historiador da nossa economia muito citado por Ricupero em seu maravilhoso livro “A diplomacia na construção do Brasil 1750-2016” (Versal Editores, 2017), e com quem concordo integralmente. Cruzei com Delfim Netto inúmeras vezes, na USP, em evento com que o Banco Fator comemorou aniversário de fundação com palestra brilhante de Delfim, e até em restaurante italiano que fechou há alguns, perto da Praça Villaboim, mas sou grata à sorte de nunca tê-lo visto dançar.
    “Embelezamento autobiográfico
    MARCELO DE PAIVA ABREU
    O ESTADO DE S.PAULO
    20 Fevereiro 2012
    O suplemento EU & Fim de Semana, do jornal Valor, publicou em 10/2/2012 entrevista do ex-ministro Delfim Netto sob o título O homem que se reinventou. O título parece inspirado na evolução de ministro da ditadura a eminência parda dos governos do PT. Mas, no que diz respeito à avaliação que o entrevistado faz de vários episódios cruciais nos quais esteve envolvido, um título mais apto seria O homem que se repete. Embora a entrevista inclua simpáticas referências ao cotidiano do ministro e à sua família, sobre a vida pública foi uma repetição de interpretações baseadas em lembranças seletivas já ventiladas em entrevista anterior, ao próprio Valor Econômico, de 30/9/2005.
    Repito o que escrevi sobre Delfim Netto, nesta mesma página, sob o título História e fábula, em 10/10/2005, comentando a entrevista de 2005: “É referência nacional em relação a vários atributos: astúcia, jogo de cintura, rapidez nos comentários ferinos. Jovem, escreveu tese sobre o café no Brasil que figura em qualquer lista das melhores obras sobre a economia brasileira. Foi figura importante na consolidação do ensino de Economia na USP, nas décadas de 1950 e 1960. Depois, durante longo período na ditadura militar, foi ministro todo-poderoso, responsável pela política econômica. Entre 1967 e 1974, emplacou a imagem de pai do “milagre brasileiro”, quando a economia cresceu a taxas próximas a 10% ao ano, na esteira de um boom na economia internacional. Na sua volta, entre 1979 e 1985, já não teve tanto sucesso, a julgar com base na inflação alta e na intensidade da recessão”.
    Na entrevista recente, Delfim Netto repete afirmações que merecem, de novo, reparo. A primeira é quanto às suas relações com a ditadura. Ao ser perguntado se “sente algum incômodo, constrangimento, por ter participado dos governos militares”, responde: “Me causa o incômodo natural que causa a todas as pessoas quando o Estado abusa do seu poder”. Perguntado se “não lhe chegavam notícias dos porões do regime”, responde: “Não! Há um equívoco completo nisso. Tinha uma divisão absolutamente total entre a política e a economia”.
    Não é o que se depreende de manifestações do ministro, em particular de sua incitação para que o Ato Institucional número 5, de 1968, fosse ainda mais radical. Suas palavras à época: “Estou plenamente de acordo com a proposição… direi mesmo que ela não é suficiente… deveríamos dar a Vossa Excelência a possibilidade de realizar certas mudanças constitucionais que são absolutamente necessárias para que este país possa realizar o seu desenvolvimento com maior rapidez”. Não parece leviano entender a declaração como justificativa econômica para o fechamento político.
    A segunda afirmação questionável de Delfim Netto é a sua versão da demissão de Mário Henrique Simonsen, substituído por ele mesmo no Ministério do Planejamento. Segundo Delfim, Simonsen – “grande amigo” seu – resolveu pedir demissão porque acreditava que Paul Volcker, à frente do Federal Reserve, aumentaria a taxa de juros e, “com a dívida que fizemos no governo Geisel, não temos como pagar”. Figueiredo teria ficado possesso com a forma com que Simonsen se demitira. Em suma: Simonsen não estava disposto a enfrentar o problema e preferiu abandonar estouvadamente o cargo, deixando uma dívida impagável.
    No seu discurso de posse no Planejamento, em 15/8/1979, em meio a verdadeira apoteose empresarial, Delfim instou: “Senhores, preparem seus arados e suas máquinas, vamos crescer”. Era uma crítica à estratégia de seu predecessor de crescer a taxas moderadas para conter a inflação. Como ministro da Agricultura, já havia saído vitorioso diante de Simonsen, quando em maio os preços mínimos agrícolas haviam sido aumentados acima de 50%. Nas palavras do próprio Delfim: “Eu tinha a obrigação de defender a agricultura. Ele, de defender a caixa” (V. Alberti, C. E. Sarmento e D. Rocha (orgs.), Mario Henrique Simonsen. Um homem e seu tempo, Rio de Janeiro, 2002).
    Simonsen escreveu sobre 1979 com bastante senso de humor (M. H. Simonsen, 30 anos de indexação, Rio de Janeiro, 1995): “O discurso inicial de austeridade (do governo Figueiredo) foi posto de lado, em agosto de 1979, com a substituição do impopularíssimo ministro do Planejamento, que queria reduzir a taxa de crescimento do produto real para 3% ou 4% ao ano, a fim de ajustar o País ao segundo choque do petróleo e à escalada dos juros internacionais. Imediatamente, se lançou na aventura de uma expansão monetária… na tentativa de conter a inflação pela expansão da oferta de bens e serviços… A inflação quase imediatamente subiu de 45% ao ano para 45% ao semestre”. Após crescer mais de 9% ao ano em 1980, a economia brasileira registrou no triênio seguinte a maior recessão de sua história, com a inflação além dos 200% ao ano. O governo, assim, fracassou a segunda tentativa de fuite en avant de Delfim Netto.
    Ao se dedicar ao embelezamento autobiográfico, Delfim Netto desmerece os aspectos positivos de sua vida pública. Talvez mais grave, não faz bom uso da “boutade” que tanto aprecia: a de que “a gente fica mais virtuoso quando o futuro virou passado”.
    Doutor em Economia pela Universidade de Cambridge e Professor Titula no Departamento de Economia da PUC-Rio”

  6. Fernandinho,
    Há um talento seu para a escrita inquestionável,e eu já começo a pensar no limoncello do sul da Itália,nas aldeias de uma terra de tanta beleza e chego a imaginar-me na Sicília,com o mar mediterrâneo na retina.Ao primo Luciano devo a sede de viajante,a Tia Alicinha e a papai o gosto pela leitura como algo prazeiroso,e boa companhia.Ao seu pai,com certeiro alvo em ácidas colocações,um espanto,mas vinha acompanhado de ternura,porque dirigia-se sempre a Cainha,sem o l e o r.E era para que houvesse reflexões.Das nossas mães,herdei a defesa das mulheres,à minha sobretudo,que sempre tinha por perto o livro de Domitila,das minas da Bolívia,”Se me Deixam Falar”,e o cuidado em cultivar amizades, a enorme generosidade do perdão.E o mantra de que a simplicidade é bom gosto e podem existir em qualquer tipo de sociedade.Ímpetos,e um certo destempero em mim foram abrandados,ainda bem,e bem mais que há tempos atrás;novos olhares sem pedidos de desculpas.Mário Henrique Simonsen foi citado(não sei se tinha origem italiana),conhecí no Rio,amigo de papai trabalhou com ele.Assistí um jogo de xadrez no qual o xeque-mate foi rápido para o adversário.Impressionou-me o exímio jogador Simonsen.E de tal forma que passei a jogar xadrez.
    Num caderno anoto cidades do Leste Europeu e outras daquele lado de lá,as que você elogia,recomenda.Sim,novos projetos,novos percursos,e levantar-me quando o sol aparece no horizonte,e muitas leituras,História da Arte,sim, pq a arte salva.Guiada pelo afeto,reconhecendo o que vocè faz para cada leitor e para si mesmo,aguerrido com a arma,pode ser até um simples lápis,como o do cortejo de despedida de Jean D’Ormesson.Agora,tomando chá verde,desejo que caia a minha cassação do FB,enfim,estamos em tempos de habeas corpus.Habemos Luís,meu caro,e já é o bastante.

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