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Carmina Burana de Carl Orff, sorte e desventura na roda da fortuna – Frederico Toscano

Frederico Toscano

Carmina Burana – O Fortuna FINAL – Núcleo de Música Coral UFMG.

Uma curiosidade que muitos apreciadores da chamada “música erudita” nunca pararam para pesquisar é qual a peça clássica mais ouvida desde que foi gravada pela primeira vez. Segundo o jornal inglês The Telegraph1, trata-se do coro que abre e fecha a cantata2 Carmina Burana do compositor Carl Orff (1895-1982), nascido em Munique, Alemanha. Composta para o palco, geralmente é apresentada como oratório de concerto – embora seu tema nada tenha de sagrado, como sugere seu subtítulo: Cantiones profanae.

Carmina Burana, composta em 1936, imortalizou o seu compositor, mas, na verdade, é a primeira parte de uma trilogia intitulada Trionfi, que também inclui as obras Catulli Carmina e Trionfo di Afrodite. Essas composições refletem o interesse de Orff pela poesia medieval alemã. É descrita pelo compositor como “a celebração de um triunfo do espírito humano pelo balanço holístico e sexual”. O trabalho foi baseado no verso erótico de um antigo manuscrito chamado Codex latinus monacensis, encontrado num mosteiro da Baviera em 1803.

O códice continha poemas em latim medieval, em geral, picantes, irreverentes e satíricos – exceto 47 versos, escritos em alemão popular e vestígios de francês antigo ou provençal. Há também partes “macarrônicas”, numa mistura de latim vernáculo com alemão ou francês. Um estudioso de dialetos, Johann Andreas Schmeller (1785-1852), publicou a coleção em 1847, dando-lhe o título de Carmina Burana, que, em latim, significa “Canções de Benediktbeuern” – Benediktbeuern é um município da Alemanha, no distrito bávaro de Bad Tölz-Wolfratshausen, na região administrativa de Oberbayern.

Os autores desses poemas eram os goliardos. Mas quem eram essas figuras curiosas? O renascimento urbano do século XII viu surgir à figura do intelectual, isto é, homem cujo ofício era ensinar e escrever. Esses intelectuais tinham consciência de viverem no âmbito bem diferente dos séculos passados e consideravam a si mesmo como modernos.

Entre esses homens pensantes, encontramos um grupo formado por estudantes pobres que viviam em constantes viagens de uma cidade para outra, os tais goliardos. A origem desse nome é um pouco controversa. Possivelmente deriva do francês antigo goliart. Na origem, significava “bufão”, e teria adquirindo, no século XIII, o sentido de glutão, debochado. No latim medieval goliardus teria afinal assumido o sentido de “clérigo ou estudante vadio”.

Levados por uma vida instável de experiências e curiosidades não eram bem aceitos socialmente, a comunidade urbana não via com bons olhos aquele grupo de rapazes pobres, irreverentes, rebeldes e imorais, que faziam críticas ferozes a todas as classes sociais, além de defenderem os prazeres da bebida, do amor e do jogo.

Grande parte da obra poética e musical dos goliardos é anônima, devido às complicações que poderiam ter caso fossem conhecidos. Em uma época em que o pensamento teocêntrico predominava e a hierarquia religiosa ditava as regras, esses jovens anárquicos e de espírito livre, usavam suas composições como um protesto e uma maneira de se opor ao sistema vigente. Estas composições foram reunidas nos Carmina Burana, nos quais à exaltação dos prazeres carnais se associa a crítica à Igreja medieval, que condena os costumes libertinos.

Polêmicos e ousados, os goliardos sofreram as mais diversas perseguições e condenações, e acabaram por desaparecer das culturas dos séculos seguintes, porém, deixaram seu legado: suas ideias, que reviveriam nos intelectuais do humanismo durante o Renascimento.

Apesar de moderno em algumas de suas composições, Orff soube capturar o espírito da era medieval em sua trilogia. Vinte e quatro poemas dos Carmina Burana originais foram musicalizados por Orff, e sua composição com esse mesmo título rapidamente se tornou popular. A obra estreou em junho de 1937, em Frankfurt. Orff optou por compor uma música inteiramente nova, embora no manuscrito original existissem traços musicais para alguns trechos. A estrutura conta com três solistas (uma soprano, um tenor e um barítono), dois coros (um dos quais de vozes infantis), bailarinos e uma grande orquestra.

Carmina Burana é emoldurada por um símbolo da Antiguidade: a roda da fortuna, eternamente girando, trazendo alternadamente boa e má sorte. É uma parábola da vida humana exposta a constante mudança, estruturada em prólogo e duas partes. No prólogo, há uma invocação à deusa Fortuna na qual desfilam vários personagens emblemáticos do destino de cada indivíduo. O movimento de abertura, que tem sido utilizado em filmes e eventos com dezenas de gravações, pode ser assistido no vídeo a seguir com Sir Simon Rattle regendo a Orquestra Filarmônica de Berlim:

O texto cantado pelo coro diz o seguinte:

O Fortuna, Ó, Sorte,
Velut Luna És como a Lua
Statu variabilis, Mutável,
Semper crescis Sempre aumentas
Aut decrescis; Ou diminuis;
Vita detestabilis A detestável vida
Nunc obdurat Ora oprime
Et tunc curat E ora cura
Ludo mentis aciem, Para brincar com a mente;
Egestatem, Miséria,
Potestatem Poder,
Dissolvit ut glaciem. Ela os funde como gelo.
 
Sors immanis Sorte imensa
Et inanis, E vazia,
Rota tu volubilis Tu, roda volúvel
Status malus, És má,
Vana salus Vã é a felicidade
Semper dissolubilis, Sempre dissolúvel,
Obumbrata Nebulosa
Et velata E velada
Michi quoque niteris; Também a mim contagias;
Nunc per ludum Agora por brincadeira
Dorsum nudum O dorso nu
Fero tui sceleris. Entrego à tua perversidade.
 
Sors salutis A sorte na saúde
Et virtutis E virtude
Michi nunc contraria Agora me é contrária.
Est affectus
Et defectus E tira
Semper in angaria. Mantendo sempre escravizado
Hac in hora Nesta hora
Sine mora Sem demora
Corde pulsum tangite; Tange a corda vibrante;
Quod per sortem Porque a sorte
Sternit fortem, Abate o forte,
Mecum omnes plangite! Chorai todos comigo!

Na primeira parte, celebra-se o encontro do Homem com a Natureza, particularmente o despertar da Primavera – “Veris laeta facies” (A alegria da primavera). Na segunda parte, “In taberna”, preponderam os cantos goliardescos que celebram as maravilhas do vinho e do amor (“Amor volat undique”), culminando com o coro de glorificação da bela jovem (”Ave, formosissima”). Mas antes, a soprano passa por sua prova de fogo na peça, uma das maiores do repertório para essa voz: o superagudo do “Dulcissime, totam tibi subdo me” (Dulcíssimo, dou-me toda a ti), que podemos assistir no vídeo abaixo com a grande soprano norte-americana Kathleen Battle. Ao final, repete-se o coro de invocação à Fortuna (“O Fortuna, velut luna”), indicado acima.

Com o sucesso de Carmina Burana, Orff abandonou todos os seus trabalhos anteriores, exceto Catulli Carmina e Entrata, uma orquestração da peça The Bells, do compositor inglês William Byrd (1539-1623). Seu último trabalho, De temporum fine comoedia (Uma peça para o final dos tempos), teve sua apresentação no festival de música de Salzburgo em 20 de agosto de 1973, executada pelo célebre regente austríaco Herbert von Karajan (1908-1989) com a Orquestra Sinfônica e Coro de Colônia.

Ao longo de sua vida, Orff trabalhou bastante com crianças, usando a música como uma ferramenta educacional, sendo a melodia e o ritmo tratados através de palavras. Nos círculos pedagógicos, Orff é lembrado por essa nova abordagem da educação musical, desenvolvida junto com Gunild Keetman (1904-1990) e consubstanciada no seu método Orff-Schulwerk (1930-35). Sua simples instrumentação permite que mesmo crianças não iniciadas possam executar peças musicais com facilidade.

Carl Orff é um caso único na história da música germânica: músico autodidata e que chegou tardiamente à composição, saltou por cima de toda a história da ópera para imaginar uma nova representação a partir do espírito do teatro antigo. Quem desejar assistir a um vídeo integral de sua obra-prima, recomendo essa apresentação legendada em português do Coro da Capela Real de Copenhague com a Orquestra Sinfônica Nacional Dinamarquesa dirigidos pelo regente espanhol Rafael Frühbeck de Burgos (1933-2014):

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1 Vide matéria disponível em: https://www.telegraph.co.uk/culture/tvandradio/x-factor/6899414/X-Factor-theme-tune-O-Fortuna-most-widely-heard-classical-track.html.

2 Cantata (do italiano “cantata”, particípio passado substantivado de “cantare”) é um tipo de composição vocal, para uma ou mais vozes, com acompanhamento instrumental, às vezes também com coro, de inspiração religiosa ou profana, contendo normalmente mais de um movimento e cujo texto, em vez de ser historiado, descrevendo um fato dramático qualquer, é lírico, descrevendo uma situação psicológica.

6 Comments

  1. Muito bom! Muito instrutivo! Obrigado.

  2. Caríssimo Fred,
    Estes seus artigos sobre música e compositores são uma verdadeira preciosidade, e valorizam a Revista.
    Mas, para não ficar só no elogio – dispensável, no seu caso – apresento, como lhe antecipei, uma explicação alternativa para o significado de “Carmina Burana”, detalhe sem maior importância em texto tão consistente.
    “Bura”, em latim vulgar, quer dizer “hábito” (de monges). Daí a palavra “burel”, do francês antigo, que passou para o português, com o mesmo significado. Portanto, “Carmina Burana” quer dizer “cantos do burel”, o que corresponde ao fato real de terem sido compostos por frades luxuriosos. “Carmen, carminis” (canção, canto) é do gênero neutro, que, no plural, tem a terminação em “a”. E “burana”, como adjetivo, concorda com o substantivo em gênero, número e caso. Se o adjetivo existisse em português, a tradução literal seria “cantos burelinos”. Pois neste caso, a opção foi pela adjetivação, e não pelo adjunto adnominal, como em “Catulli Carmina” (cantos de Catulo), que leva a palavra definidora do canto para o caso genitivo (terminação em “i”.
    Essa origem alternativa me parece bem mais provável do que o uso, de forma truncada, de uma palavra alemã, sem grande semelhança com a que teria resultado da adaptação.
    Grande abraço.

  3. Uau!

    Meus caros Frederico e Clemente, vocês chega me humilham com tudo o que sabem sobre “carmina burana”!
    Aprendi pacas lendo-os a repeito de uma obra que não lembro quando ouvi pela primeira vez, mas que, ao lado de tantas (tantas!) outras, consolidam-me na convicção de que só a beleza pode nos salvar.
    Ainda que chegue a ser desconcertante o fato de que o ser humano seja capaz de produzir, perto de Auschwitz, tal beleza!

    Com o meu abraço agradecido,

    Luciano

  4. Caro Prof. Clemente,
    Muito obrigado pela preciosa e nova informação sobre Carmina Burana! Divulgarei sua explicação a outros colegas, também admiradores da música clássica, pois não a encontramos em livros sobre o compositor e sua obra. Fico honrado em receber sua colaboração.
    Agradeço aos caros Luciano e Raymundo pelos elogios e atenção aos nossos artigos.
    Abraços!

  5. Já nem comento mais para não cansar: os artigos de Fred Toscano são fantásticos! Parabéns também a quem, na “Será?”, descobriu esse colaborador precioso da revista.
    PS-E como cheguei tarde ao artigo de Fred, fiquei admiradíssima com os comentários de Clemente Rosas: eu quase fui reprovada no ginásio, porque detestava as aulas de latim, mas me diverti com a origem do título Carmina Burana. Mesmo porque meu terror do latim é passado.

    • Muito obrigado pela acolhida e atenção, minha cara Helga! Sinto-me lisonjeado em receber seus elogios e fazer parte desse seleto grupo de mestres, do qual sou apenas um discípulo e tenho muito a aprender. Um abraço musical!

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