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Penso, logo duvido.

Causos Paraibanos IV – Clemente Rosas

Clemente Rosas

Silhueta de sertanejo.

Silhueta de sertanejo.

O coronel e o amor à vida

O coronel da Guarda Nacional Assunção Santiago foi um antepassado remoto do meu pai, de quem tenho memória apenas do nome e do episódio inusitado que aqui reporto.

Por alguma querela com autoridades públicas, um destacamento da Polícia Militar foi à sua propriedade e o deteve, levando-o preso.  Seu afilhado e homem de confiança, Neco, tendo conhecimento da afronta, reuniu uma dúzia de capangas bem armados, e saiu em perseguição à tropa, para resgatá-lo.

Alcançou o pequeno grupo de soldados à noite, cercou o acampamento, e exigiu a imediata libertação do padrinho.  Mas o sargento comandante não era frouxo.  Apontou a arma curta para a cabeça do coronel, já subjugado, e ameaçou:

– Não entrego não.  E se atirarem, o primeiro a morrer é ele!

Seguiu-se, naturalmente, a usual troca de desaforos, os doestos contestando, como de regra, a heterossexualidade ou a origem familiar dos contendores.  Mas o bravo e fiel Neco estava de mãos atadas.  Sem saber o que fazer, apelou para o prisioneiro:

– Meu padrinho, diga que não tem amor à vida.  Diga, que a gente acaba logo com esses cornos!

O coronel Assunção Santiago, sem deslustre para a sua macheza, mas como era de se esperar, não atendeu ao apelo do afilhado.  Seguiu preso, e a pendenga foi resolvida posteriormente, sem maior conflito, como ocorria, na época, entre patrícios.

O matador gentil

Apareceu no engenho Marés, não sei em que circunstâncias, um caboclinho tímido, que usava um bonezinho sem abas, parecido com uma cuia, e por isso era conhecido como Zé Cuinha.  Minha avó paterna, a primeira esposa do meu avô Mateus, que morreu antes dos quarenta anos, do coração, deixando órfãos meu pai, seu irmão e três irmãs, tomou-o como afilhado.  Gentil, calmo, cordato, Zé Cuinha era o auxiliar de serviços gerais da casa.  E minha avó tinha estima por ele.

Ora, aconteceu que, um dia, chegou ao engenho a notícia do assassinato, por arma branca, de um homem, em pagode das redondezas.  E o acusado era Zé Cuinha.  Surpreso, meu avô chamou-o às falas.

– Pois é, meu padrinho.  A gente brigou, e ele falou mal de minha madrinha.  Aí eu empurrei ele com a minha quicezinha…

– Foi assim, não é?  Mas você vai ter que responder por isso na Justiça.

Alguns dias depois, chegou o delegado.  Zé Cuinha, sempre gentil e prestimoso, ajudou-o a apear-se e recolheu o seu cavalo.  O delegado sentou-se no alpendre.

– Mateus, eu recebi a denúncia de que um empregado seu matou um homem numa festa, perto daqui…

– É verdade.  Ele até já me confessou isso.  Pode levá-lo.

– E onde está o homem?

– É esse aí mesmo, que levou o seu cavalo.

– Esse?!

O delegado assustou-se.  Um assassino esfaqueador, com a frieza de ajudar o doutor delegado a desmontar, não era usual, nem coisa a ser desconsiderada.  Refletiu e ponderou:

– Sabe de uma coisa, Mateus?  Eu não vou levar esse homem agora não.  Vou embora e volto com um destacamento.

– Como queira.  Sempre às ordens.

Com a partida da autoridade, meu avô chamou o indiciado e avisou que se preparasse, pois a polícia viria buscá-lo.  E Zé Cuinha, com a sua quicé e o bonezinho, sumiu no oco do mundo.  Ninguém mais teve notícia dele, nem mesmo a sua querida madrinha, tão extravagantemente defendida.

   

7 Comments

  1. Parabéns pela escolha da foto, amigo João!

    • Ao menos nisso concordamos. E o conto merece. Ainda que eu não saiba que diabo é quicé.

  2. Clemente,

    Seu texto é tão inspirador que resolvi fazer o que Roberto Campos fazia com a poesia. Dizia ele que para reconhecer a verdadeira, ele a traduzia para o latim. Se ela resistisse ao latim, era poesia.

    Foi então que passei teu primeiro causo para o castelhano, uma língua épica que combina com as boas histórias. Vamos relê-la abaixo. Quem o fizer, verá que ela vence o crivo do universal.

    Parabéns e um abraço,

    Fernando

    PS – Na Espanha, serias carregado em triunfo.

    El coronel y el amor de su vida

     
    El coronel de la Guardia Nacional, Don Asunción Santiago, era un antepasado remoto de mi padre, de quienes puedo recordar sólo el nombre y el episodio poco usual que aquí registro.

    Pues, por alguna disputa con las autoridades públicas, un destacamento de la policía militar fue a su propiedad y lo detuvo, tomándolo prisionero. Su ahijado y hombre de confianza, Neco, consciente de la afrenta brutal, reunió a una docena de matones bien armados, y se fue en busca de la tropa, para rescatarlo.

     
    Alcanzado el pequeño grupo de soldados en la noche, rodearon el campamento, exigieron la liberación inmediata del padrino. Pero el comandante no era un gilipollas. Apuntó la pistola a la cabeza del coronel, ya sometido, y amenazó:

    – No lo entregaré. Y si atacáis, el primero a morir será él mismo!

    Se ha seguido, por supuesto, el habitual intercambio de insultos, los gestos desafiantes, como manda la regla general, la hombría de nacimiento de los contendientes. Pero el  valiente y fiel Neco tenía las manos atadas. Sin saber qué hacer, pidió al prisionero:

     – Mi padrino, diga que Usted no tiene amor a la vida (o miedo a la muerte?). Diga eso, es sencillo, y simplemente terminamos con esos cuernos!

    El Coronel Don Santiago Asunción, sin perder su masculinidad legendaria, pero como era de esperar, no cumplió con la apelación tan alocada del ahijado. Siguió detenido y la pelea se resolvió más tarde sin mayores conflictos, como suele hacerse entre patricios.

    ***

  3. Clemente,

    Como não sou de deixar nada pela metade, aproveitei essa bonita manhã de sol paulistana para traduzir o teu segundo “causo”. E não é que o danado sobreviveu bravamente ao castelhano, a exemplo do precedente?

    Daria até roteiro de filme – do México à Terra do Fogo. Das Astúrias à Andaluzia. Pena que aqui abordar um editor seja um evento mais solene do que se dirigir às monarquias no passado.

    De novo, parabéns. E espero que não tenha se sentido invadido com minha atitude. É de minha natureza ser meio atrevido.

    Um abraço,

    Fernando

    El asesino suave

    Apareció cierto día en el molino Mareas, no sé en qué circunstancias, un cholito tímido, que llevaba un pequeño sombrero sin alas, como una calabaza, y era conocido como Zé Cuinha. Mi abuela paterna, la primera esposa de mi abuelo Mateo, que murió antes de cumplir los cuarenta
    años de un paro cardíaco – dejando huérfanos a mi padre, su hermano y tres hermanas -, lo tomó como ahijado. Suave, tranquila, apacible, Zé Cuinha era el ayudante general de la casa. Y mi abuela tenía un gran respeto por él.

    Sucedió que un día llegó al molino la noticia del asesinato, de puñalada, de un hombre en una parranda en las cercanías. Y el acusado fue Zé Cuinha. Sorprendido, mi abuelo lo llamó para una charla.

    – Sí, mi padrino. Luchamos, y habló mal de mi madrina. Entonces lo empujé con mi cuchillito…

    – De veras? Pero vas a tener que responder por ello ante el tribunal.

    Unos días más tarde llegó el delegado. Ze Cuinha, siempre amable y ceremonioso, le ayudó a desmontar y recogió su caballo. El comisario se sentó en la terraza.

    – Mateus, recibí una denuncia de que un empleado tuyo que mató a un hombre en una fiesta cerca de aquí …

    – Es verdad. Incluso me ha confesado. Puedes llevarlo.

    – ¿Y dónde está el hombre?

    – Justo allí, él que tomó tu caballo.

    – ¿Y eso?!

    El delegado se sobresaltó. Cómo un asesino podría tener la tranquilidad de ayudar al doctor delegado a desmontar, era raro. Tampoco era un detalle para no ser tenido en cuenta. Reflexionó y se preguntó:

    – ¿Sabes qué, Mateus? No voy a tomar a este hombre ahora. Voy a salir y a volver con un destacamento.

    – Como quieras. Siempre a tus órdenes.

    Con la salida de la autoridad, mi abuelo llamó al acusado ??y le advirtió que se preparase porque la policía vendría por él. Y Zé Cuinha con su cuchillo y el pequeño sombrero, desaparecieron entonces por el hueco del mundo. Nadie más tuvo noticias de él, ni siquiera su querida madrina, que fuera defendida de modo tan extravagante.

    ***

  4. Helga: Quicé é palavra de origem indígena (tupi), e quer dizer faquinha. De cortar couro, usada pelos antigos seleiros, às vezes até sem cabo, ou simplesmente qualquer faca pequena. O Aurélio e o Houaiss a registram, mas está ficando esquecida pelas novas gerações.

    Fernando: Como bom escritor que você é, só poderia fazer uma tradução que é quase uma recriação do texto. Brilhante! Na ideia, na execução e no sentimento de prestigiar este seu amigo, que se declara aqui homenageado e em débito de gratidão para com você.

  5. Clemente,

    Fico feliz que o amigo tenha visto minha ousadia como uma homenagem. Tenho certeza de que se colocá-la à prova entre seus amigos hispânicos, eles haverão de ver por trás da tradução apenas bem-intencionada, o escritor de peso que pulsa em cada linha.

    Essa foi a intenção e as licenças da recriação foram mínimas.

    Se você os ler em voz alta, sentirá o vigor da língua. Fiz esse exercício para um amigo e ele se saiu de imediato com referências lisonjeiras – para você.

    Abraço,

    FD

  6. Fernando,
    A boa tradução não é a que se amarra só às palavras, mas a que capta e reproduz o espírito do texto e o estilo do narrador. Feliz do autor que encontra um tradutor inspirado, que põe gosto no que está fazendo.
    Mais uma vez, honrado e agradecido.
    CR

    PS – Exemplo de tradução inspirada: a do pernambucano Carlos Porto Carreiro, do “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand.

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