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Penso, logo duvido.

“Cherchez la femme” – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Maria Antonieta – cena do filme homônimo de Sofia Coppola.

Quem se lembra do que disse o célebre informante “Deep Throat” aos jornalistas que investigavam o caso Watergate, na versão do filme “Todos os homens do Presidente?” “Follow the money”, ou seja, que seguissem as pegadas do dinheiro. Elas os levariam ao mandante do crime do alto escalão. Pois bem, agora adivinhem o que dizem os franceses diante de uma conduta masculina que pareça inexplicável? “Cherchez la femme”. Que se ache, pois, a mulher, este intrigante elo incrustado na raiz da paixão febril que, eventualmente, o tenha levado a ignorar o bom senso, o recato e a prudência. Assim sendo, se o alvo deste pequeno ensaio é a França – até mesmo em homenagem ao país que consagrou o adágio -, é tentador nos valermos do caráter universal do tema para fazer uma breve incursão por outras plagas onde esta patologia quase sempre benigna tenha se manifestado. Em benefício da verdade, o escriba se apressa em dizer que mulheres também estão sujeitas a cometer despropósitos quando lancetadas pelas flechas da paixão, conforme veremos. Mesmo porque relações e rupturas se fazem a dois. Há, contudo, certo consenso de que a conduta desvairada se inscreveria na ordem natural da alma feminina tal como vista pelo juízo comum, o que impediu, até onde se sabe, que florescesse até hoje o alerta de “cherchez l´homme”. Passemos assim a algumas protagonistas.

Adriana 

Começando pelo piscoso contexto do Brasil dos tempos recentes, não são poucos os cariocas que apontam a advogada Adriana Ancelmo como tendo sido o estopim do surto que levou o ex-governador Sérgio Cabral a agir como desorbitado, a ponto de viciar os contratos da máquina pública com o fito de roubar. Com o dinheiro, passou a mesmerizar sua Dulcineia com sapatos Louboutin e jantares no “L´ Espadon”. Não teria sido por outra razão que lhe turbinou o escritório de advocacia com negócios polpudos e entrou em conluio com arrivistas endinheirados que, para ganhar sua simpatia, franquearam ao casal o conforto dos jatos privados cintilantes, à margem da fastidiosa aviação comercial. Ora, se um marajá indiano já tinha feito o Taj Mahal, por que ele, muito mais globalizado, não podia tornar-se habitué da H.Stern e encher gavetas com broches de safira e anéis de esmeralda? Diante da afirmação reducionista e pueril que se faz no Rio de Janeiro, vale lembrar que os atrativos da advogada só desvelam parte do mistério. Por muito que goste de uma mulher, um homem não instaura uma cleptocracia só para mimoseá-la. Não há sexo, ademais, que segure um estado de euforia permanente, até porque a natureza contrapõe freios de preservação sob forma de estafa preventiva e esgotamento das baterias. Mas é assim que alguns veem o canto de cisne de Cabral.

Wallis e Camila

Se transbordamentos tais são de regra em plagas tropicais, os reféns da estereotipia poderiam até dizer que esses fenômenos não ocorreriam em culturas mais circunspectas e de feitio mais sóbrio. Ato contínuo, um desavisado poderia dar como exemplo as Ilhas Britânicas, terras onde reina a fleugma e a “aloofness”. Mas ora, bem sabemos que a história demonstra todo o contrário. Afinal, o que levou o rei Edward VIII a abdicar do trono, senão a vontade irrefreável de viver com uma americana divorciada, dona de boca retorcida e olhar concupiscente, chamada Wallis Simpson? Anos depois, o sempiterno príncipe Charles referendaria a tradição real ao esnobar os encantos previsíveis de lady Diana Spencer em favor de uma mulher a quem confessou ao telefone sonhar em ser, acreditem, seu absorvente íntimo. Eis um desejo de aconchego que mais parece resultar de um feitiço. Pois muitos diriam que já seria prova superlativa de amor encarar a fisionomia vincada de Camila Parker-Bowles, uma versão domingueira de Graça Forster. E que, ademais da antipatia, teria levado a bruxaria a extremos tais que a jovem concorrente terminou morrendo ao cabo de um acidente num túnel parisiense, o que resignou a opinião pública a aceitá-la. A seu lado, contudo, Charles é inegavelmente feliz. “Voilà la femme“.

Patrícia 

Assim sendo, como preâmbulo para que periciemos a lava incandescente deste ensaio – o papel das mulheres na vida de homens de grande poder e algum carisma na França -, vale dizer que no mundo latino, de que os gauleses integram um pelotão honrado conquanto bizarro, as maluquices não conhecem limites e dão graça e tempero à crônica humana. De pouco vale dizer a um homem empolgado que não se justifica abalar uma sólida amizade por conta do desejo desenfreado por uma mulher. Até por uma questão de reposição que, segundo os iniciados, consideram mais fácil achar uma amante do que um amigo de verdade. Esse truísmo não impediu, contudo, que o escritor Gabriel García Márquez tenha tentado seduzir Patrícia, comadre e esposa do confrade Mario Vargas Llosa, vizinho de bairro em Barcelona, valendo-se de um entrevero conjugal do casal. A cantada imprudente lhe valeu um soco certeiro do peruano na entrada de um cinema na Cidade do México, em 1976, quando o colombiano acabara de abrir os braços e dizer-lhe com a euforia dos cínicos: “Hermanito, quanto gusto reverte“. Por conta de manobra tão clássica quanto solerte, foi-se pelo ralo a amizade entre ambos, mais tarde agraciados com o prêmio Nobel. Disso tudo, a literatura talvez tenha sido a única beneficiada dada a rivalidade que se instaurou. Hoje Gabo está morto e Vargas Llosa acaba de trocar Patrícia pela filipina Priscila Preysler. Mas essa é outra história. “Eh oui, cherchez la femme“.

Josefina 

Para nos atermos ao panorama da vida sentimental dos franceses no período pós-revolucionário, o primeiro caso escolhido é o protagonizado pela martinicana Josefina de Beauharnais e ninguém menos do que Napoleão Bonaparte. O coração implacável do corso simplesmente se derreteu diante da viúva de 32 anos de cujo histórico de vida constava um ex-marido guilhotinado – destino que por pouco não foi o dela -, uma temporada na prisão e o gosto extremado pela moda que logo a tornaria conhecida no grand monde parisiense. O afã de impressioná-la foi tanto que ele não hesitou em arrancar a coroa das mãos do Papa Pio VII para se entronizar diante de uma plateia perplexa. Ato contínuo, o já Imperador coroou a amada em flagrante desrespeito à máxima autoridade eclesiástica que tinha se arrastado de Roma para a cerimônia. Sete anos mais velha do que ele, Josefina continuou a cultivar amantes enquanto Napoleão se ausentava para as grandes campanhas militares. Tão forte foi essa paixão, contudo, que ele desposou-a, adotou-lhe os filhos e instalou-a em Malmaison onde, anos mais tarde, ela desenvolveria apurado gosto pela botânica. Por não lhe ter dado um herdeiro, Napoleão dela se separou por alegadas “razões de Estado”, mas continuou frequentando-a por anos. Ela que foi, indiscutivelmente, a mulher de referência da vida dele.

Danielle 

O casamento da bela Danielle Gouze com o futuro presidente François Mitterrand aconteceu durante a Guerra, sem direito a viagem nupcial em função dos compromissos do marido. Tudo parece indicar que apesar dos modos senhoriais de François, a união sempre esteve aberta a outros cooperados. Dona de um histórico de lutas à altura da lenda que cerca o mais emblemático dos socialistas franceses, Danielle se notabilizou por ter posições próprias mesmo que estas pudessem causar embaraços ao Elysée. Como ser diferente se desde os anos 1980 ela já se relacionava com o instrutor de ginástica 12 anos mais novo? Enquanto François vivia um romance tórrido, Danielle não hesitou em tomar o partido dos irmãos Castro; dos curdos, tibetanos e indígenas sul-americanos. Certo é que não se pode falar do sucessor de Giscard d´Estaing sem fazermos menção a essa mulher cativante que não se reprimiu em função das liturgias da função. Na verdade, o casal abraçou uma espécie de conluio semelhante ao que enlaçou Sartre e Beauvoir. A diferença é que Jean Paul queria conhecer os detalhes de alcova de Simone. Caso ela não lhe dissesse como tudo se passara com Claude Lanzman ou mesmo com uma aluna, era traição. Nada evidencia que este princípio se aplicasse ao “tonton” François, enamorado por Anne Pingeot. Convenhamos, a história é a de Mitterrand, mas não tinha como deixar Danielle de lado.

Anne 

“Anne, Entre as razões que dão à minha vida um significado novo, ao mesmo tempo em que se enriquece e se aprofunda nossa relação, existe uma, muito simples e discreta, que conta muito mais do que se possa crer. Mesmo que desprovidos de importância, eu sinto a necessidade de contar-lhe meus pensamentos, meus atos, de ir até você em todos os momentos. Quando digo que a seu lado florescem sentimentos que eu nunca tinha conhecido, esse aspecto de minha ternura por você justifica meus propósitos. Pela primeira vez, eu saio de mim. Se você soubesse como aprendi a guardar meus sonhos para mim, minhas ambições, minhas dores! Diluído muito cedo em coletividades indiferentes e brutais, tive que criar minha força à custa de um enrijecimento interior que nada poderia vergar. Exprimir o que eu possuía de mais autêntico me parecia uma confissão de fraqueza. E pouco a pouco se criou um labirinto de recusas. No meio das paixões e dos interesses, abriguei o segredo de meu ser atrás de um muro tão alto e espesso que quando amei, ou melhor quando eu tentei disso ser convincente, a redoma que eu tinha preservado por tanto tempo terminou me encarcerando. No isolamento que me comprazia, nem a alegria nem a paz vinham mais me visitar. Com você eu troco, comunico, comungo. Fico como se estivesse entregue. Sim, eu preciso muito de você, Anne”. Trecho de carta de François Mitterrand a Anne Pingeot, traduzido com emoção pelo escriba.

Cécilia

Foi na primeira década do século XXI, mais precisamente em maio de 2007, que se escreveu outro capítulo épico com todas as digitais de uma crônica francesa. À bordo do iate “La Paloma”, navegando ao norte da ilha de Malta, um homem obstinado tenta relaxar e se concentrar na árdua missão que o espera. Mas apesar de ter sido eleito há três dias presidente da França, a mulher que ele ama contempla-o amuada, como se o coração dela não estivesse ali naquele mar, cercada de amigos e serviçais obsequiosos. Efetivamente Cécilia Sarkozy sonhava com Richard Attias, homem de negócios radicado em Nova York. Embora não contasse com uma fração ínfima do poder de seu marido Nicolas, a força da paixão a fazia repetir que não se sentia atraída pela vida palaciana. No afã de salvar o casamento e lhe conferir um papel, ele pensou rápido. Dias mais tarde, contrariando os cânones de segurança, enviou-a à Líbia investida da missão de negociar com Muammar al-Gaddafi a libertação de 5 enfermeiras búlgaras, acusadas de ter inoculado o vírus da AIDS em crianças líbias. Voltou vitoriosa, apesar dos sustos de uma missão não trivial. Sarkozy a colocou no pedestal da opinião pública. Dias mais tarde, contudo, resignado ao divórcio, se refugiou no pavilhão de “La lanterne”, de Versalhes, para chorar um amor perdido. Não era o aplauso do público que a motivava àquela altura. E Sarkozy tratou de procurar outra mulher.

Carla

Sabendo que a partida de Cécília dos aposentos do Elysée fulminaria a autoestima de Nicolas – pois era indicativo de que ele era a parte repulsiva do pacote -, logo os amigos entraram em ação para resolver a questão da vacância e o apresentaram à semovente cantora franco-italiana Carla Bruni, dona de uma história original, até então talvez muito mais rica em experiências do que a do próprio futuro marido. Tendo a família deixado a Itália natal por conta da ameaça que representava aos ricos Bruni-Tedeschi as Brigadas Vermelhas, Carla chegou à França onde a esperava uma provação digna de personagem de Stendhal numa versão avenue Montaigne. Triunfou na capital no bojo de bem-sucedida carreira de modelo, depois de cantora, e em momento nenhum parece ter estranhado as peias do protocolo gaulês. Com a testosterona em dia e a dor cicatrizada, só assim Nicolas fez as pazes com a rotina de presidente, o que não quer dizer que as lacerações do abandono de Cécilia tenham sido metabolizadas. Dizem os analistas mais percucientes do Elysée que o fracasso na malfadada reeleição ainda estava indiretamente ligado à perda sofrida. Daí ter sido um presidente raivoso, encolerizável, argentário e flagrantemente arrogante. Reatou com as alegrias da paternidade, contudo, com o nascimento de Giulia. Defenestrado da política em definitivo em 2017, o casamento segue seu curso.

Valérie e Julie 

Depois do coup de théâtre do casal Sarkozy, mal imaginavam os franceses que o melhor estava por vir na pessoa do sucessor. François Hollande, um quadro graúdo do Partido Socialista, mais conhecido por ser o ex-marido de Ségolène Royal – ela própria ex-candidata à presidência e mãe dos quatro filhos de François -, desembarcaria no palácio trazendo a tiracolo a bela jornalista Valérie Trierweiler, com quem vivia há dez anos. Só que ela não chegou a esquentar o assento por muito. Insegura do amor do marido, fato que só agrava o estado falimentar de qualquer relação, resolveu ditar o protocolo e tanger da proximidade do bonachão François todo ser vivo contra quem alimentasse ressentimentos ou a quem fizesse reticências. As crises de ciúme cedo minaram o estoque de paciência de Sua Excelência que não hesitou em envergar capacete e montar numa lambreta para visitas noturnas à atriz Julie Gayet. A infidelidade levou a uma separação ruidosa. Internada durante uma semana para tratamento psiquiátrico, Valérie fez de tudo para salvar o casamento. Vendo que era tarde, e obedecendo ao recado genético da profissão, não hesitou em escrever um livro. “Obrigado por esse momento“, que vendeu como croissant quente, foi a pior forma que poderia ter encontrado para cauterizar a perda. Nele desvendou a vida íntima do casal. Deu, ademais, uma mostra de seu caráter, confirmando ser o protótipo da mulher que, se brasileira, seria acoimada de fio desencapado. Começaram com ela pois as desventuras que levariam Hollande a ser o primeiro presidente da V República a não postular a reeleição. François, contudo, está feliz com a jovial Julie e já está instalado no novo apartamento da rue de Rivoli.

Brigitte

Emmanuel Macron é tão precoce que parece ter definido os rumos de seu coração tão cedo quanto galgou os degraus da vida intelectual e profissional. Nesse contexto, os pais do jovem se preocuparam sobremodo quando a notícia correu em Amiens que vinha se relacionando com a professora de teatro, mulher casada, mãe de uma colega de classe e, ademais, nada menos do que 24 anos mais velha. De nada valeu que o tenham despachado para Paris como forma de apagar as labaredas da paixão. Brigitte Macron, a mais nova locatária do Elysée, há de ter dado o tempero de sua intuição privilegiada à trajetória fulminante de Emmanuel. Assim sendo, quando tudo apontava que a futura ocupante da posição seria uma galesa de nome Penelope, esposa do favorito absoluto François Fillon, eis que um emprego público fictício, denunciado pelo Le canard enchaîné, esmigalhou as chances de François na penúltima curva da eleição. Sentindo que seu momento chegara, Emmanuel capitalizou todos os trunfos e se tornou o baluarte contra a temida candidata da direita raivosa, Marine Le Pen. O amor por Brigitte terminou por lhe valer pontos. É claro que o enredo comporta desdobramentos. Cem dias depois da posse, o cerebral Emmanuel já andou quebrando lanças por conta do papel institucional que pretende dar à sua femme, depois de ter dito na campanha que jamais as rubricas alocadas à primeira dama deveriam pesar no bolso do contribuinte. Não parece ser o que está em curso.

Epílogo

Seja como for, não deve ter sido à toa que na última reunião da OTAN, um homem tenha figurado pela primeira vez entre as esposas dos dignatários. Foi o “marido” do primeiro-ministro de Luxemburgo. O que isso significa? Talvez a labilidade feminina esteja começando a pesar nos critérios da classe política. E pode ser que alguns deles estejam concluindo que é melhor navegar por águas mais plácidas. Em linha com os que dizem que o ideal seria viver com homem e ter mulher como amiga. Como saberemos? Sorte aos navegantes de todos as bandeiras. Enquanto isso, “cherchons la femme“.

 

One Comment

  1. Não é fato que apareceu um homem entre as “esposas dos altos dignatários” (sic) em uma reunião de cúpula internacional somente depois do casamento gay. Vi o professor de química quântica Joachim Sauer, marido da chanceler Angela Merkel , no programa para cônjuges de chefes de estado de uma reunião de cúpula. É verdade que é presença rara. De qualquer modo, arte não é ciência, e Joachim Sauer teve que ser ignorado porque comprometeria estrutura narrativa e tipo de humor da crônica.

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