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Penso, logo duvido.

Dasvidania, Rossiya – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Moscou.

“Um brinde russo é um sonho liquido a uma vida diferente” 

A.D. Miller

24.11.14

Tendo ido dormir tarde – ou demasiado cedo, a depender da ótica -, acordei com enorme dor de cabeça, uma sede bíblica e uma ansiedade enorme por conta dos três ou quatro e-mails inconvenientes que tinha mandado ao voltar do jantar, que eram respostas desaforadas a quem nada tinha a ver com meus excessos. Parece que estando na Rússia, quero me assemelhar a eles nos modos estabanados. Mas deve haver alguma predeterminação genética para tanto porque nunca pensei em me comportar como um tailandês na Tailândia ou como um aborígene na Austrália. Lá fora, o pátio interno tinha um palmo de neve ao meio-dia. Fechei os olhos para esquecer os dissabores e tentei dormir um pouco, mas não há cansaço que resista a uma ressaca moral, quase sempre real ou, felizmente, por vezes apenas imaginada. Por fim, levantei-me e reli as mensagens com calma e recuo. Constatei que, na verdade, nada havia ali do que me desculpar. E em resposta ao único recado em que fui gratuitamente contundente, recebi de volta uma missiva compreensiva e bastante conciliadora. Fiquei então brincando com o teclado do computador e escrevendo e reescrevendo palavras russas em alfabeto cirílico. Adoro, por exemplo, o vocábulo “Moscou” em russo, que é “Mockba”, e que se pronuncia Moskva. Se a manhã foi portanto de recuperação da apatia, a tarde foi cheia de compromissos e só lá pelas tantas me dei conta de que já estava quase na hora de minha reunião social com Natalia, marcada para as três. Seria um almoço tardio ou um jantar vespertino, como preferisse chamar. Fazia quase noite fechada pois só estamos a meras três semanas do dia mais curto do ano. A recepção estava coalhada de mulheres vestidas de prostitutas. Quem não era, queria parecer apetitosa. As que o eram de ofício, tratavam de ser discretas e dissimular os ares vaporosos para não ter que subornar os guardas em nome do direito de fisgar hóspedes a metros dos quartos. Menos mal que Natalia veio ao hotel e não tive que me deslocar até seu apartamento nessa cidade demasiado espalhada. Vesti-me o melhor que pude, não achei um barbeador aproveitável e poucas vezes me lembro de estar com tanta fome. Minha amiga foi excelente. Fiel ao estilo mandão de quem sabe que a autoridade na Rússia está esmaecida pelas bebedeiras masculinas, adentrou a recepção a passo de sargento, cara de poucos amigos e deu uma bronca descomunal na recepcionista esquiva porque o telefone só emitia sinal de ocupado, como se estivesse deliberadamente fora do gancho ou desligado, já que não há mais gancho. Senti-me vingado pela calefação excessiva de que eu me queixara em vão alguns dias antes junto àquela mesma lambisgoia de olhos tártaros. Instalados no carro, este não partiu. Ela precisou chamar uma central que lhe tinha desativado o motor por satélite. Recebeu o novo código e só então arrancamos. Pensando bem, um carro roubado na Rússia tem bastante chão onde ser escondido até sumir nas profundezas do Baikal, depois de percorrer milhares de quilômetros na taiga. Ela então levou-me a um excelente restaurante do Cáucaso que era tudo o que eu poderia querer no momento. Tomei cerveja de barril e brindamos com vodka. Comi uma variedade de peixes defumados – arenque, enguia, truta, esturjão e salmão – e, bem depois, shashliks deliciosos e aromáticos, com todos as especiarias da Ásia Central. Engraçado que os russos quando pedem esses espetinhos, usam sempre a mesma linguagem não-verbal, ou seja, torcem as mãos no ar como se estivessem girando maçanetas imaginárias. Fiz questão de pagar a conta que chegou perto dos 4000 rublos, mas era uma gentileza mínima diante de tudo o que ela fez durante minha estada. Em dado momento da conversa, ela voltou a me mostrar as fotos de seu aniversário de 55 anos, os lindos filhos e os dois netos. O marido morreu de leucemia aos 42 anos e, depois desse triste evento, ela só se envolveu com um cara, mas mesmo assim por pouco tempo. Essa narrativa é meio que um clássico do gênero por aqui, se é que não é meio universal. Isso porque cria toda uma zona cinza de desilusão sem renúncia peremptória ao amor, o que deixa sempre um clima no ar. Não confirmou nem pedi detalhes, mas provavelmente ele bebia muito, o tal segundo companheiro. Sua vida consiste portanto no trabalho, nas viagens e nas fotografias. Tem uma filosofia muito parecida com a minha com a diferença que é uma mulher detentora de vastíssima cultura, ademais de ter uma eclética formação em engenharia aeronáutica que a levou a conhecer de perto boa parte da elite do país no período Brezhnev-Andropov. Disse que sonha em visitar a amazônia brasileira e o Japão e, se eu tivesse que lhe apontar um defeito, diria que se trata de uma péssima ouvinte. Quando digo péssima, não exagero. Não deixa ninguém terminar uma frase, o que irrita ao cabo de certo tempo. Acho que é muito rápida e inteligente, o que a torna irritadiça e pavio curto. Resgatamos um pouco de nossa experiência comum na Inglaterra, onde nos conhecemos, e ficamos de manter a tradição de dar aulas periodicamente um no país do outro. Depois do maravilhoso jantar, chegou a hora do passeio. Ela queria a todo custo me mostrar a sua Moscou à noite e adorei ver algumas coisas e rever outras tantas. Nunca tinha estado aqui tão perto do Natal. O ponto mais belo da capital, além da fachada iluminada do GUM, na praça Vermelha, é a Praça Pushkin, gritantemente decorada para as festas com mil guirlandas. A Tvesrskaia também estava chique como sempre e atravessamos o rio Moskva várias vezes para vermos alguns pontos sob os mais variados ângulos: o novo distrito financeiro, a City como eles chamam; a embaixada britânica dando de cara para os fundos do Kremlin; a Universidade do Povo; o hotel Ucrânia, hoje Radisson (ah, se aquelas paredes falassem); o estádio do Dínamo; os cemitérios; a praça da Greve dos Trabalhadores; a casa onde Andropov viveu, bem ao lado do apartamento de Brezhnev e a imensidão do parque Gorki com sua roda-gigante hibernada. Tudo isso em animado papo em que só ela falava e não permitia desvios nem de foco nem de roteiro. Era como se já tivesse feito o trajeto centenas de vezes, pouco importando se o convidado conhecia a cidade ou não. Na altura de Ploshad Revolyutsii, ela parou o carro para falar sobre as longas férias de duas semanas que os russos tiram no começo do ano. Disse então que se trata de uma tragédia para 90% da população que não tem condições de viajar ou de fazer programas diferenciados porque os homens sucumbem violentamente à bebida. Ela mesma costuma ir para estações termais perto de Veneza, na Itália, fazer alguma coisa pela própria saúde, segundo suas palavras. Disse que se eu quisesse ir, ela estará lá com uma amiga depois do dia 3. Toma banhos de lama, leva massagens e bebe água mineral como um camelo. Volta nova em folha. Do meio para o fim do passeio, eu já estava morrendo de sono e não via a hora de chegar ao hotel. Ela percebeu que eu dei umas duas cochiladas e fez vaga alusão ao flagrante que dera em mim e Marina a caminho do metrô. Marina – que hoje mandou um e-mail derretido e sincero -, como boa ex-agente da KGB que deve ter sido, se esgueirou pelo canto da calçada na hora e senti depois que ficou preocupada que Natália nos tivesse visto. Enfim, ninguém passou recibo e eu muito menos. “Vso normalno“, murmurou a amiga, certamente ofendida. Chegando ao quarto, para minha enorme surpresa, o sono desapareceu e em uma hora eu atualizei meus apontamentos e respondi os e-mails. Acho que o que me entedia mesmo é o balanço do carro. Estou feliz, mas cansado. O rojão foi pesado e ainda não acabou. Amanhã tem mais. O jornal de língua inglesa trazia Gorbachov na primeira página bravateando que está para nascer o homem que vai silenciá-lo. Harasho. Segundo Natália, Gorbi foi ingênuo porque poderia ter negociado um bom pacote para a retirada das tropas do Exército Vermelho da Europa e terminou dando esse benefício de graça. Ela deve ter passado por maus bocados nos anos 1990 – a década da lascívia e da rapinagem – com duas crianças e, ainda por cima, viúva. Nessa época, um professor universitário ganhava vinte dólares ao mês. Lembro dessa fase como se tivesse sido ontem. E foi. Fecho os olhos e revejo um cadáver ensanguentado saindo de maca do hotel Rossiya. Quanto a Putin, concordamos em vários pontos. O principal deles é que o Ocidente não entende quase nada da doutrina eurasiana e do paneslavismo. E que não sabe como funciona a cabeça de um enxadrista esmerado, treinado no que há de mais eclético na KGB: envenenamento, emulação da linguagem não-verbal do interlocutor para criar empatia, sedução, execução a mãos nuas, habilidade em criar uma narrativa simpática sobre si próprio, horror às políticas ébrias de Iéltsin e às concessões mal calibradas de Gorbachov. A despedida foi lacrimosa e fiquei esperando que o carro de Natalia sumisse na noite para só então entrar no hotel onde a recepção já estava vazia, com vago cheiro de colônia doce e o olhar dardejante da tártara.

25.11.14

Hoje foi um dia de feitio mais próximo à forma como costumo ser de hábito: solitário, taciturno mas, para agravar, sinto que estou com a escrita nitidamente desacelerada depois das bebedeiras das noites passadas que, de alguma forma, estragaram o ímpeto do fim de semana. Mas a Rússia sem essa experiência não conta, embora a essa altura da vida, certos hábitos já sejam prejudiciais. Isso porque sempre que tomo um porre dessa envergadura, fico com a sensação de que machuquei os sentimentos das pessoas e o remorso é inevitável. Afinal, sou um homem de bem e para o bem. Minha pobre amiga que tinha mandado um e-mail tão simpático quanto inesperado, por exemplo, deve ter levado o maior susto com a resposta que recebeu quase que de imediato. Aquilo foi de uma desproporção brutal, se bem que ela é inteligente (e sacana) o bastante para ter se divertido com o relato do tipo avalanche. Mas deve ter sido como se um caminhão a tivesse atropelado inadvertidamente. Isso me faz mal. Então toda aquela fluência e inspiração que eu recém vinha tendo ao escrever, tudo isso se esvai pelo ralo por um bom tempo até que eu considere as mazelas superadas – o que pode levar dias, quando não semanas. É uma pena. Daí eu estar seguro de que se tenho alguma pretensão de escrever um livro decente até morrer, terei fatalmente que incorrer em renúncias. É claro que sempre tem um lado bom. O e-mail que recebi de Antonio foi fantástico, com direito até a um poema de Maiakówsky. Minha ligação com o universo de Gagarin agora chegou para ficar. Tem o sabor daquelas histórias antigas, dignas dos últimos românticos. Acordei com recados de todos os lados, mas resolvi ignorá-los e sair sozinho, fazendo meu típico programa de último dia quando estou para deixar uma escala. Fui então para aquele que é considerado o restaurante mais elegante e tradicional da capital. No caso daqui, valendo-me do que já tinha visto ontem do carro de Natalia, não hesitei em ir ao Café Pushkin, decorado de milhares de luminárias prateadas. Os krisha de cabeça raspada eram ali mais capangas do que em qualquer outro lugar do império, o que era sinal inequívoco de que tínhamos oligarcas no pedaço com seus assassinos de aluguel. A perua que tria os clientes, a onipresente feis kontrol dos lugares públicos chiques, não ousou me barrar porque lhe fechei a cara e passei direto, mas até que deve ter tido vontade. Comi bem, embora tenha me sentido culpado de ter cedido aos três ossos com tutano farto, acompanhados de grãos de flor de sal e mostarda. Isso é de uma irresponsabilidade abissal e hoje à noite vou tomar duas cápsulas de Sinvastatina ao invés de uma só. Depois tomei uma boa sopa e comi um pato que também estava à altura dos três mil rublos que deixei na mesa. Só me queixei da breguice da música Kalinka Malinka que tocava ininterruptamente, como se outra não existisse. O garçom concordou e disse que era verdade. “Da, eta pravda“. Depois saí em longa caminhada pela alameda central que só termina no metro Arbatskaya e ali fui admirando uma exposição de fotos de animais da Sibéria e do Ártico. As crianças brincavam na neve rala por todos os lados – acho que a baixa taxa de natalidade por aqui está se revertendo graças aos subsídios de Putin -, e, enquanto passava diante dos teatros, flagrei-me indignado só de pensar no rancor que as pessoas ainda guardam com relação a Gorbatchov. Li que metade das cartas que são endereçadas a ele lhe sugerem o suicídio. Ontem mesmo, Natalia falava da ingenuidade imperdoável em que ele incorreu como estrategista. O passeio a pé foi maravilhoso e, no caminho, parei para visitar uma galeria. Foi até por isso que lembrei que na rua Arbat certamente haveria ainda um mercador de quadros e como me especializei em comprar vez por outra uma telinha de um bom pintor de rua – Sofia, Paris, Tóquio, Sarajevo, São Petersburgo, Bangkok, Hanói etc -, fui até lá e arrebatei dois de que gostei. Um será para presentear, mas o outro será incorporado à coleção andarilha.  Depois de caminhar pela Arbat, voltei de metrô aqui para Sokol, já me despedindo de todas as estações que desde há muito se incorporaram a meu roteiro sentimental moscovita. Amanhã será um dia de desfecho incerto. Chegarei a Madrid via Alemanha, acho eu, mas não sei se a tempo de voltar para São Paulo no voo da TAM. Seria legal que conseguisse lugar, mas vamos pensar em uma coisa de cada vez. À noite, quando achava que não teria mais apetite, ainda fui ao restaurante do Azerbadijão aqui perto e me deliciei com kebabes de carneiro. Não está fácil me emendar. Um detalhe final: na bebedeira de sexta-feira, ativei algum mecanismo de correção automática desse teclado maldito. Desde então, escrever virou um inferno. A toda hora aparece uma pequena tela sugerindo formas de grafar as palavras mais triviais. E quando mando e-mails em outras línguas, então a coisa piora drasticamente. Preciso beber mais uma garrafa de vodka para descobrir onde fica o tal mecanismo e destravá-lo. A seco, não vou achá-lo.

26.11.14

Dormi descoberto e devo ter passado algum frio tanto é que acordei espirrando pela enésima vez desde que cheguei. Passei  a madrugada tendo um longo sonho sobre uma família da Armênia que, diante das tantas dificuldades que encontrava para sobreviver, chegava a comer fezes de rato como grande iguaria. Isso significa, no mínimo, que já estou decidido com respeito ao próximo destino das férias e é para Yerevan que vou tentar ir na primavera – sempre desbravando novas fronteiras. Fui despertado às 06:30, o que significa que dormi não mais de três horas, mas agora, faltando dez minutos para as oito, já estou com tudo pronto e a postos para a partida. Imagino que o táxi já esteja chegando e que logo a mocinha virá bater à porta avisando. Abro o e-mail e me deparo com notícias apavorantes de execuções no sertão pernambucano de gente indiretamente relacionada. Nem aqui as coisas são tão violentas. Ou, como eles dizem, “no reino da esperança, nunca é inverno”. Eu decididamente fico de estômago revirado com esses métodos que mesclam ódio e crueldade por conta de negócios mal feitos. Matar ainda é compreensível para um homem de minha geração e origem, mas tocar fogo no corpo do oponente é exacerbar a barbárie. Tanta coisa há para se ver nesse mundo e esses jovens se enredam em negociatas para atender os apelos rasos do consumo da família. É claro que saio daqui com uma sensação maravilhosa de dever cumprido. O trajeto até Domedoveno levou exatas duas horas e dez minutos, e dormi metade do tempo. Lá chegando, tudo foi rápido e célere. Dormi também durante pelo menos metade do tempo de voo até Munique e o trânsito pelo maravilhoso aeroporto Franz-Josef Strauss se deu sem problemas. No voo para Madrid, sentei ao lado de duas espanholas muito desagradáveis e ruins de higiene, mas o tempo passou rápido porque fui lendo o “El País” e o sempre gostoso “The New York Times”, um aceno de chegada ao Ocidente. Chegando a Madrid, já pulei para o terminal 4 num daqueles ônibus e me apresentei para tomar o voo da TAM caso houvesse lugar. Pediram uma hora de espera para ver se chamariam a lista. De Moscou, recebi uma linda mensagem e não pude deixar de entreter no coração um longo e pungente sentimento de saudades das ruas, das árvores desfolhadas, das estações de metrô e de tudo aquilo que, segundo Alexander Solzhenitsin, fazia das saudades da Rússia um sentimento avassalador. Voltei à TAM. Deu certo, peguei a primeira fila de um avião novo em folha e gelado como a Sibéria, do jeito que gosto. Como não tinha material para ler – sequer um jornal ou revista brasileira, salvo a Carta Capital, mas isso não é revista -, assisti a um belo filme que me entreteve até o meio do oceano. O maravilhoso “Boyhood” que levou doze anos de filmagens e que mostra a passagem de uma família comum ao estágio de uma família também comum, mas já emocionalmente mais madura. Depois dormi até chegar a São Paulo. O terminal 3, orgulho da aviação nacional, só tem um guichê de táxi para atendimento a centenas de passageiros. Quando chegou minha vez, num português de quinta, e traindo maneiras de quem deveria estar servindo pão dormido em alguma lanchonete de Guarulhos àquela hora, a atendente disse: “Deu pau na máquina”. Com isso, não poderia pagar com cartão e lá fui eu atrás de dinheiro para me acertar com o motorista. Uma vergonha. O responsável falou que eles estão providenciando um balcão nos moldes dos guichês de atendimento dos demais terminais – que são uma autêntica bosta. Bem, voltei ao Brasil. Em nenhum ponto do trajeto de Moscou até aqui vi tanto amadorismo quanto no percurso do avião até minha casa. E a mulher ainda confessou sua inépcia com um sorriso. Lembrei-me então de mais um ditado russo: “Só um idiota ri o tempo todo”.  Ao decolar de Moscou, 24 horas antes, certamente murmurara para mim mesmo: “Dasvidania, Rossiya”. Até a próxima vez.

 

3 Comments

  1. Fernando Dourado, você está ensaiando para adotar estilo “stream of thought”? Mesmo com alguma mudança de estilo ficou meio repetitivo para quem leu os diários publicados em 07/07/17. Quanto à distinção entre fato e ficção, ela não deveria preocupar o leitor comum quando se trata de literatura, ainda mais quando é fluxo de pensamento. Desconfio que é problema meu, mas é de longa data, desde quando eu fazia resenhas para uma seção linda da revista Política Externa que se chamava “O Mundo na Ficção”, inventada pelo Carlos Eduardo Lins da Silva. Lembro que quando fiz a resenha de “El hombre que amaba a los perros”, o romance histórico de Leonardo Padura ( Politica Externa, vol.21 no.3 jan-mar 2013) essa preocupação existiu, resumida na última frase: “… tudo o que vivenciei até hoje no meu fiapo de linha do emaranhado que Padura quer desenredar – como e porque se perverteu a utopia do século XX – sustenta minha convicção de que o que está nesse livro é mais verdade que ficção. Ou é ficção que mostra a verdade.” Pois é, mas ali era um romance histórico. E sobre a utopia que os russos, em tese, tentaram realizar.

    • Helga,

      Eu gosto de certa dose de experimentação, você já deve ter percebido como atenta leitora que é. Como a publicação do primeiro diário da Rússia encontrou boa receptividade, liberei a segunda parte. E como a estada de novembro de 2014 foi composta de três partes e a receptividade continuou boa (vejo pelo e-mail e pelo FB), nada vi de mal em enviar a derradeira, sem me preocupar com uma ou outra redundância. Para minha surpresa, a acolhida continuou boa, o que se explica pela descrição do ramerrão repetido de certa vida moscovita, marcada por recorrências conhecidas. Agora acabou. Quanto ao eterno embate realidade ficção que parece lhe ser tão caro, não vejo lá muito como diários intocados possam conter muitos elementos da segunda. Mesmo em se tratando de um escriba delirante como eu. Seja como for, na próxima semana já estaremos bem longe da Rússia.

  2. Até onde sei, a literatura nasceu quando um autor declarou que o seu personagem era totalmente inventado. Não sei quem foi o primeiro a “inventar” integralmente seu personagem. Dostoiévski? Não importa. Mas dizer que um escritor está inventando me parece um elogio, e quando há declaradamente invenção a liberdade é muito maior. Mas, ao que parece, Fernando Dourado por enquanto quer ficar perto da autobiografia com recursos e estilo de ficção. E eu, depois de ler “Memórias do Subsolo” de Dostoiévski fiquei completamente confusa sobre a realidade das memórias (mesmo tendo alguns anos de psicanálise nas costas).

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