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Penso, logo duvido.

Democracia brasileira: uma delicada tessitura da história – João Rego

João Rego

As Parcas, fiandeiras do destino dos homens e deuses. – P. Mutolo, Le tre parche, Galleria Estense, Modena.

DEMOCRACIA E DIVERSIDADE

A democracia, como processo dinâmico e estruturante de uma sociedade moderna, pressupõe que o arranjo institucional dê espaço à diversidade ideológica, fruto da complexa malha constituída pelos diversos grupos sociais imersos nessa sociedade. É desse antagonismo ideológico caleidoscópico que o regime democrático precisa dar conta, garantindo que o Estado, e suas formas de governo, atuem de forma perene, operando uma dinâmica consolidação estrutural dos sistemas político, social e econômico.

Em verdade, a democracia busca dar um sentido de futuro — por meio do poder político legalmente constituído — garantindo a expressão de infinitos conflitos de interesse de uma nação.

Democracia se nutre da resultante desses conflitos, os quais, quanto mais diversos e representativos, mais substância e fortalecimento a ela emprestam.  Ao contrário, o regime autoritário vê a diversidade ideológica e os conflitos dela resultantes como uma ameaça à estabilidade do sistema político, econômico e social, que, portanto, precisa ser eliminada e controlada com rigor.

Um se nutre da diversidade e se fortalece institucionalmente para conviver, sem rupturas ou sobressaltos, com a incerteza, uma vez que, periodicamente, há alternância de poder. O outro se funda na aversão à incerteza, e ama a previsibilidade do sistema, posto que fechado e controlado por uma corrente ideológica detentora do poder – muitas vezes conquistado pela força.

Se voltarmos nosso olhar para a história das nações, democracia é uma recente conquista do processo civilizatório, vertente aberta para o futuro da humanidade e de suas diversas potencialidades tecnológicas e culturais. Os regimes fechados, impermeáveis à tolerância (ideológica, religiosa, cultural, de gênero, etc.) têm fortes vínculos com o passado, e sobre este se espelham, enfrentando o futuro de costas, e evitando assim os libertários movimentos disruptivos dos comportamentos em sociedade.

O CENÁRIO RECENTE

Fui atraído para colocar a política em minha agenda pessoal, quando o impeachment de Dilma começou a balançar nossa frágil nave. Sinceramente, no começo torcia para que Dilma ultrapassasse a crise e seguisse adiante com seu governo, pois evitar-se-ia mais um capítulo traumático na consolidação da nossa jovem democracia. Fustigada pela oposição – esta no seu papel em qualquer democracia – e acuada pelas denúncias da Lava Jato, que atingia o núcleo duro do seu partido, Dilma mostrou-se absolutamente incapaz de dar conta de superar a crise. Conflitos internos em seu partido também serviram como fator desestabilizador do seu mandato.

O Projeto “socialista” do PT, após treze anos de governo, ruiu estrondosamente. Lula, “O Cara”, identificado por Obama em Davos, logo nos primeiros meses do seu governo, tinha em seu belo discurso, validado por uma incrível história pessoal, a principal ferramenta para capturar grande parte do eleitorado de esquerda, formador de opinião, arrastando junto os milhares de miseráveis, abandonados por governos de centro, na reinauguração de uma esperança de melhoria na qualidade de vida.

Temos que reconhecer que o PT colocou na agenda política nacional a questão da fome, de forma incisiva, bem como o acesso às escolas técnicas e universidades de setores historicamente excluídos, o que não é pouco. Tudo começou a degringolar quando, logo no começo, transformou o bolsa-escola – projeto iniciado por Cristovam Buarque, quando governador de Brasília – no bolsa-família, cedendo à pulsão populista, constituída por uma incontrolável visão simplista da realidade, como se o capitalismo moderno fosse a fonte de todos os males, e o paraíso socialista estivesse ali na esquina da história, à espera do grande líder e seus seguidores. Até que está em uma esquina da história, mas do passado, como fracasso…como “lixo da história”.

O eixo central da política econômica foi mantido, em continuidade às diretrizes do Governo de FHC, porém a visão anacrônica de esquerda terceiro-mundista foi, talvez, o grande erro estratégico que guinou a nação para a crise que iria desaguar no impeachment que trucidou Dilma, fustiga hoje Temer, e expulsou do mercado de trabalho 14 milhões de brasileiros economicamente ativos. A política de relações internacionais foi —, embora com significativos avanços na cooperação sul-sul—, voltada para a íntima e perigosa relação com os países do “socialismo bolivariano”, uma desvairada alucinação ideológica que mistura um marxismo anacrônico do século XIX com líderes populistas e seus discursos histéricos, galvanizando um séquito de incautos em seu rastro.

O PT só encontrou espaço porque os governantes liberais e/ou de centro-esquerda estavam acostumados a governar o país descolados dos dramáticos e graves problemas sociais. Ponto para o PT, desde que tivesse tido a capacidade de implementar políticas públicas estruturalmente transformadoras da realidade social, associadas a uma prática política regida pela ética — origem e leitmotiv da criação do partido.

O JOGO DAS VELHAS ELITES

Descendo e ajustando as lentes para fenômenos políticos recentes, vemos toda a velha estrutura política ruindo, com a poderosa onda investigativa da Lava Jato. Os poderes Executivo e Legislativo têm sido, até pela evidência dos escândalos, os principais alvos desta ação moralizadora das relações entre o grande capital e o Estado. Com o vergonhoso resultado do TSE no julgamento da chapa Dilma-Temer, assim como com as ardilosas ações coordenadas pela dupla Janot-Joesley, foi demostrado que o Judiciário, ainda não investigado, começa a se assanhar, construindo, com suas togas e pomposos discursos, seus mecanismos de defesa contra a onda avassaladora da República de Curitiba. São blocos de poder fustigados pela nova onda da justiça, digladiando-se num esforço inútil de “estancar a sangria “ da Lava Jato.

Executivo, Legislativo e Judiciário entrelaçados formam uma velha e viciada elite política, onde a moralidade e a ética têm sido mais discursos de fachada, para enganar os incautos, do que uma real prática política. Claudicantes, não resistirão aos ventos de uma Justiça capitaneada por uma nova geração de juízes que estão mudando o paradigma da gestão pública, impondo “na lei e na marra”, a ética e a moralidade no trato da coisa pública. Quem viver verá!

A NOVA ESQUERDA E O LIBERALISMO SOCIAL

O liberalismo falha, por excesso de confiança e – por que não dizer? – excesso de comprometimento com o mercado, investindo nele como o exclusivo indutor do desenvolvimento econômico e social. É aí onde o populismo encontra uma enorme brecha política para ocupar o poder. Foi assim com o Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador e outros mais. Nesse cruel jogo dialético entre forças conservadoras liberais e o populismo histórico, a nação sofre um processo de imprevisibilidade política, adiando a implementação de políticas públicas voltadas à superação das profundas contradições sociais, como também a necessária modernização, para forjar uma economia globalmente competitiva.

Urge-se a reaglutinação de uma nova esquerda, emancipada de seus líderes carismáticos, alinhada com o papel do Estado como regulador e estimulador das poderosas forças produtivas do capitalismo, assim como uma nova vertente liberal, preservada em seus valores originais, porém profundamente comprometida com os desafios sociais.

Hoje, em plena crise pré e pós impeachment, surgem duas forças, no meio do denso nevoeiro que nos impede até de ver 2018, porque têm líderes: a extrema direita, com seu histriônico Bolsonaro; e o que restou do lulopetismo, forças esgarçadas, mas ainda assim com razoável aceitação de um fiel eleitorado.

No espectro que vai do centro-esquerda ao centro-direita, passando pelo “extremo centro”— como diria o personagem de Ariano Suassuna, no Romance da Pedra do Reino — inquieta-nos e angustia-nos um enorme vazio, pela falta de lideranças. Se formos nessa pisada, o momento pós-eleitoral de 2018, quando haverá novas eleições diretas para presidente, poderá ser apenas uma fugaz miragem, vista da travessia do árido deserto que hoje trilhamos.

***

2 Comentários

  1. Suas angustias são nossa João. Na encruzilhada que estamos não creio em nova esquerda, mas na possibilidade de uma nova força política que quebre o fosso da desigualdade, do corporativismo e da corrupção. Vale a pena acompanhar o que se passa na França. Pode ser um desastre mas um desenho está ganhando luz. Vale a pena ver o que vai dar.

  2. Prezado João, Corroboro o pensamento de Elimar e convido-o a olhar de perto a França. O que temos de mais próximo de revolucionário na engenharia política contemporânea vem acontecendo lá, especialmente desde o último dia 18. Passada a eleição legislativa que confirmou a clarividência do jovem Emmanuel Macron, dando-lhe folgada maioria, uma revolução pode estar em curso. É claro que não são poucas as acusações de “bonapartismo” que começam a pesar sobre o presidente. Jogando a ordem estabelecida para o ar, o eleitorado francês – e aqui não podemos contar os que preferiram se abster e ficar em casa – está pagando para ver. Se isso tudo der errado, será mais uma bússola avariada nesse cenário de desorientação geral. Se der certo, o que pressupõe jogar fora a régua do sectarismo, consolida-se um norte de imensa pluralidade, pois juntará a lógica dos mercados aos eflúvios ditos reformistas. Vamos observar, portanto.

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