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Penso, logo duvido.

Desventuras Náuticas – Clemente Rosas

Clemente Rosas

Curva do Rio Sanhauá, João Pessoa.

Volto a falar do mar porque agora, em regresso definitivo à minha querência, eu o tenho por companhia permanente, e na primeira luz dos dias já posso conferir, de minha varanda, seu brilho, sua cor e seus humores.  Na verdade, tenho convivido com ele desde a mais tenra infância.  Meu dedo maior do pé direito guarda até hoje uma cicatriz de tenaz de siri, daquele tempo.

Mas não vou falar das travessias a nado, das pescarias, das velejadas, da caça submarina que fizemos, eu e meus irmãos, nessa convivência de bem mais de meio século.  Começando pelos siris, com um pedaço de pau, um cordão e um naco de carne preso a uma pedra, passando pelos peixinhos a caniço e pela linha de fundo no “mar de fora”, pescamos de todas as formas.  Só ficamos longe da pescaria dos grã-finos, de molinete e lancha oceânica, com a cenográfica captura dos espadartes, que aqui têm o nome, bem menos nobre, de agulhões de vela.

E quanto à caça submarina, em décadas de mergulhos, nunca me defrontei com um tubarão.  Só uma vez, com um cação-lixa, aquele tipo sem barbatana dorsal, de boca pequena e apenas uma leve serrilha de dentes, que “cochila” nos corais, e que arpoei sem identificar no primeiro momento, no côncavo de uma “tapitanga”(*). Caçamos, sim, muitos  meros, variando de 8 a 40 quilos, mas estes são lentos e nada agressivos, tanto que sua pesca hoje é proibida.  Só dão trabalho para arrancá-los das profundezas, pois inflam as guelras, eriçam a barbatana dorsal e se prendem no fundo das locas, mesmo feridos.  A valentia do caçador limita-se a enfiar o corpo nessas locas, no afã de desprendê-los.

Vou falar, sim, de expedições mais quixotescas que heroicas.  Imagino-as de maior interesse para meus poucos leitores.

A ilha de lama

Quando a empresa de pesca de lagostas e pequena construção naval criada por meu cunhado, com o apoio do meu pai, andava próspera, o velho mandou fazer um barco a motor, habilitado também para vela, para servir de alternativa às nossas jangadas, Formosa e Formosinha.  A primeira enorme, para uso da família toda, podendo levar até dez pessoas, e cuja retirada do mar exigia um mutirão de praieiros.  A outra, do meu irmão mais novo, encomendada só para a sua turminha de mulher e filhos pequenos.  Ambas de pouca serventia para passeios no rio Sanhauá, um braço de mar que, a partir de Cabedelo, contorna a cidade de João Pessoa pelos seus lados norte e oeste.

O Sanhauá sofre o fluxo e refluxo das marés, e no início do século passado chegou a permitir, na maré cheia, a entrada de pequenos navios até o Porto do Capim, o velho ancoradouro da capital.  Hoje tem mais lama do que água, e mesmo pequenos barcos pesqueiros têm de ser conduzidos com habilidade, pelo lado externo das curvas, onde a corrente cava os canais.  Quando se vai à vela, com vento contrário, e se tem que avançar em ziguezague, a viagem é extremamente penosa.  Arriscamos uma vez, nos vinte quilômetros que separam Cabedelo de João Pessoa, e encalhamos repetidamente, apesar do pouco calado da jangada.

Mas, como disse, meu pai mandou fazer um pequeno bote, que teve o prestigioso nome de “Jaguara”, um tipo de tubarão pescado pelos barcos lagosteiros.  E logo concebeu uma expedição exploratória: encontrar no rio a ilha de Félice de Belli, que estaria à venda.

Félice de Belli foi um dos muitos italianos que emigraram para a Paraíba, desde as primeiras décadas do século XX, e prosperaram, não apenas como alfaiates de alto nível em João Pessoa, mas também como engenheiros, arquitetos e até proprietários rurais, pelo interior. Para os matutos ribeirinhos, a propriedade era referida, toscamente, como “a ilha de Féli-de-Béli”.

A única ilha visível e bem conhecida do Sanhauá é a da Restinga, que fica em sua foz, no ponto onde ele se encontra com o rio Paraíba. Esta aparece em qualquer foto panorâmica do porto ou da estação balneária de Praia Formosa, que se situam nos dois lados do “pequeno cabo”, paralelo à costa, que dá nome à cidade. Mas a ilha de Féli-de-Béli era apenas uma vaga suposição.

Depois de um bom tempo de viagem, vencido intrepidamente pelo Jaguara, sem nada encontrar rio acima, começamos a duvidar da própria existência do objetivo.  Mas o meu pai estava convicto:

– Claro que tem, sim!  É só no que o povo fala: ilha de Féli-de-Béli, ilha de Féli-de-Béli… Como não vamos achá-la?

Até que encontramos um canoeiro, e pedimos informação.

– É por aqui… Por este canalzinho onde vou entrando…

E enveredou com a sua canoinha a remo por um filete de água que se insinuava em um mar de lama inexpugnável para o porte do Jaguara. Missão impossível.

Voltamos.  Não ouvimos mais falar na ilha, que parecia só de pura lama, e o Jaguara, apesar de suas belas linhas, logo estragou-se: o seu casco era de madeira frágil.  Mas o meu pai, se esqueceu a ilha, não desistiu do mar: encomendou outro barco, maior e mais compacto, com motor de centro, cabine de comando com timão, e beliches.  O plano era pescar à noite, e dormir no mar.

A pescaria abortada

O barco recebeu o nome de “Mestre João da Mata”, o carpinteiro naval que o concebeu e construiu, um velhinho desdentado, que fora companheiro do meu tio Danilo, o primeiro comunista da família, na “organização de base” do velho PCB em Cabedelo.  E para seu piloto, meu pai contratou um mestre de botes forte e rústico, ao ponto de abrir uma garrafa de cerveja com os dentes.  Estávamos prontos para a empreitada.

Era um fim de semana, e a programação foi sair depois do almoço, para chegar ao ponto da pescaria antes do escurecer.  Mas, como previsível em dia de libações alcoólicas e lauto almoço, atrasamos.  E na saída de casa, meu tio Mário, brincalhão como sempre, fez humor negro na despedida à minha mãe e suas noras:

– Às três viúvas!  Adeus!

Dele meu pai dizia nunca ter visto alguém gostar tanto – e, ao mesmo tempo, ter tanto medo – do mar.  Isso já se revelava nas pescarias de jangada com João Flor, o velho jangadeiro, sobretudo na passagem das barretas, a contracorrente:

– Seu João, dá pra passar?  Dá mesmo?

E assim fomos, pai, dois filhos, tio, e o mestre-piloto.  Mas, como já se temia, escureceu antes de atingirmos a meta.  E para complicar, o motor apresentou uma anomalia, que nunca soube em que realmente consistiu.  E o velho amante do mar não esperou outro pretexto:

– Vamos voltar, vamos voltar!  Não se pode facilitar com essas coisas!

E assim foi feito, em marcha lenta, nas sombras da noite. Meu tio, aliviado da tensão, deitou-se no convés e adormeceu profundamente, como admitiu meia hora depois, ao despertar.  E de pronto, já próximas as luzes do porto de Cabedelo, abriu uma garrafa de conhaque, proclamando um insólito princípio de marinhagem:

– Sóbrios no mar, embriagados no desembarque!

E assim chegamos, superada a frustração por uma leve embriaguez coletiva.  Escusado dizer que meu saudoso tio não nos acompanhou na expedição seguinte.

Noite trevosa

Desta vez era pra valer, e o motor não deveria pifar. Mas outros atropelos nos aguardavam. Mais uma vez atrasamos, e chegamos ao suposto pesqueiro já caída a noite.  Suposto porque, no escuro, não se pode contar com as marcações na remota linha de terra, através dos seus pontos mais elevados: as barreiras de Miriri ao norte, o Cabo Branco ao sul, no meio a velha igreja da Guia em sua colina, e o farol da Pedra Seca, dos tempos do Império.  Não podíamos saber ao certo se estávamos no local desejado.

Não podíamos, além disso, mudar muitas vezes de pouso.  A âncora do barco era uma fateixa pesadíssima, sem qualquer equipagem, nem mesmo uma roldana, para ajudar no seu recolhimento.  Tinha de ser no braço, e, mesmo com o porte atlético do piloto, exigia o empenho de duas pessoas, equilibrando-se ao balanço dos vagalhões.

E ali ficamos, na solidão do oceano sem luz, linhas mergulhadas na água, tão profunda que as iscas tinham de ser amarradas nos anzóis, para não se desfazerem.  Nenhum ermo em terra firme pode comparar-se ao vazio do mar, se é noite.  Em descampados e matas há sempre sons: de aves noturnas, grilos, sapos, folhas ao vento.  Não estamos sós.  Mas no mar, só se ouve o bater das ondas no casco da embarcação.

Nem a lua, quando se apresenta, serve de distração. O luar, para ser apreciado, exige, além do sossego, algum contraponto: uma silhueta de coqueiro, um perfil de barco ancorado, um elemento de paisagem qualquer.  Lá, no entanto, não produzia mais que uma mancha leitosa na vastidão inquieta das águas.

Comemos uns sanduíches de salame, segundo meu tio, o alimento ideal para pescarias: como o salame já é salgado, se se molhar não se perde. Mas, para remate de males, o lanche produziu no meu irmão uma acidez estomacal violenta, um fogo interno que, segundo expressão dele próprio, quase chamusca o peito da camisa. E nada de peixes nos anzóis.

Tentei dormir.  Mas os beliches, de través na parte traseira do barco, eram apenas um pouco mais compridos do que meu tamanho, talvez uma polegada.  Virar de lado, para dobrar as pernas, não era possível, pela estreiteza do “leito”.  E o balanço de um bote fundeado não é regular e para a frente, como o corcovear de um cavalo (movimento que os franceses chamam de “tanguer”).  É mais como o torcer de quadris de um touro de rodeio: balança também para os lados.  E, a cada movimento lateral, minha cabeça batia na parede da cabine: tum! tum!  tum!…  Desisti.

E assim varamos a noite, sem o consolo de uma única fisgada nos anzóis.  Ao amanhecer, para salvar a honra da pescaria, o nosso piloto lançou uma linha de bibuia e fisgou um pirá, o peixe mais vagabundo dos nossos mares, pois nem nome tem, uma vez que pirá, em tupi, que dizer simplesmente peixe.  Bem diferente da piraúna, ou do beijupirá, o “peixe tapioca”, de carne branquinha, tão prestigiado que dá nome ao melhor restaurante da paradisíaca praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco.  Nada disso.  Apenas pirá.

Como está visto, o Mestre João da Mata não teve um bom histórico como barco pesqueiro, pois ninguém quis repetir a façanha daquela noite trevosa.  Mas deu ao meu pai, sempre tão tímido e modesto em seus lazeres, momentos de discreta alegria como seu timoneiro, sentindo-se, talvez, como um comandante de iate.  E prestou uma merecida homenagem ao último carpinteiro naval de Cabedelo, militante de velhas causas que tiveram, em algum tempo, seu poder de sedução.

Sou a única testemunha dessas desventuras náuticas.  Até Mateus, meu irmão mais moço, o melhor marinheiro entre todos nós, já foi ceifado prematuramente por um edema pulmonar, quando navegante de avião, pelos céus do Brasil.  Como no poema de Bandeira, todos estão dormindo.  Profundamente.

(*) Do tupi, “ita” (pedra) + “pitanga” (vermelha), com aférese do “i”: formação de coral, em forma de árvore, de grande beleza.

 

 

5 Comments

  1. Que bela crônica, amigo Clemente. Você está escrevendo cada vez melhor, se isso fosse possível. Transporta o leitor para dentro do mar e do velho rio que, só agora, fiquei sabendo que é um braço de mar. As aventuras de pescaria me lembraram as de Hemingway em Cuba, só que com o bom-humor com que você temperou suas lembranças.

    Parabéns.

    Abraço,

    Celso

  2. Prezado Clemente,

    Acabei de ler de Miguel de Sousa Tavares – o autor de “Equador”-, um livro chamado “Cebola crua com sal e broa”. Nas últimas vinte ou trinta páginas, ele resgata bonitas experiências com os pescadores do Algarve, antes que a região virasse um condado britânico de turismo, tanto o de alta gama quanto outro de muito baixa, nucleado em Albufera.

    O que importa é que lendo sobre os códigos marinhos, os artefatos de mergulho, as técnicas, a disciplina e a relação igualitária que se estabelecia entre um homem letrado e um pescador, a todo momento lembrei do amigo. Quando voltar para o Brasil, vou mandá-lo para você. Seu belo texto confirmou minha intuição de que você e Miguel estabelecerão uma boa troca.

    Um abraço,

    Fernando

  3. Realmente a recepção aos comentários na “Será?” está uma autêntica roleta russa. Após deixar umas linhas sobre o texto de Clemente, recebi bizarra mensagem de que se tratava de um “texto repetido”, cheio de menções a gateways e afins. Agora entendo a indignação dos missivistas que estão ficando pelo caminho e desistem.

    Não tenho a mínima noção se deveria recomeçar ou se o texto está armazenado em algum lugar do ciberespaço. A repetição de tarefas é o traço mais marcante e mais neurótico da convivência entre homens de 60 anos e essas máquinas diabólicas. Lá vou eu dar um “enviar” de novo. Pelo menos já estou preparado para nova acusação de auto-plágio e impostura.

  4. Caro Celso,
    Seu comentário não é apenas honroso para mim. Ele valoriza a nossa revista, do outro lado do Atlântico!
    E para quem não o conhece, informo: Celso Japiassu é poeta, publicitário de sucesso, hoje residente na cidade do Porto, em Portugal. E além de tudo, paraibano!
    Grande abraço!
    1

  5. Seu comentário saiu, Fernando! O sistema, não sei porque, não está acusando o recebimento, como antes, mas acolhe os textos. Grato por ele.
    Já li “Equador”, um grande romance. Imagino que o novo livro não lhe fique atrás. A gente escreve melhor sobre aquilo que viveu.

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