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Penso, logo duvido.

Encontros com Proust: muito além da memória – Paulo Gustavo

Paulo Gustavo

Marcel Proust (1871-1922).

Como costuma ocorrer com diversos grandes autores, também com Proust acontecem inúmeras simplificações. O gosto popular (no sentido mais amplo desse adjetivo) opera por redução como se fascinado por pontas de iceberg. No caso de Proust, esse fascínio se concentra na memória. Nosso autor é comumente lembrado porque teria sido, acima de tudo, uma espécie de memorialista, quer da vida privada, quer da vida social.

Todavia, não há memorialismo ou, se este ocorre, é secundário. Apesar disso, os realistas logo dizem: eis um autor que retrata a derrocada da aristocracia e a ascensão da burguesia, como se este tivesse sido o objetivo precípuo do autor francês ou devesse estar na vitrina da obra. Esse simplismo pouco tem a ver com a obra proustiana. Esquece-se com frequência que Proust age como impressionista. Não foi e nem quis ser realista e, por isso, enfatizou que tudo estava no espírito (isto é, no sujeito), e não nos objetos. Nesse sentido, ele mostra como a memória sofre uma deformação essencial: ela nem sempre é o que parece ser. Ela se move, inventa o passado, não é um catálogo de lembranças estáticas, embora seja ela que venha em socorro dos homens quando tudo o mais foi varrido pela devastação do tempo histórico e factual. Ela é, nas suas palavras, “o edifício imenso da lembrança”, cuja única sustentação está em nossa subjetividade, dentro de nós mesmos.

Consta que nosso autor certa feita desabafou dizendo que tinha tido a “infelicidade de começar um romance pela palavra ‘eu’”. Da mesma forma, podemos acrescentar que a memória também se tornou um infeliz equívoco porque muitos tomam a palavra no seu sentido habitual, sem se importar com a complexidade do fenômeno ou com o tratamento interno que Proust lhe conferiu na estrutura da Busca. Por sua vez, a chamada “memória involuntária”, a mais “fiel” porque não procurada (como se sabe, recorrente no romance), é uma espécie de encontro entre o acaso e o inconsciente, como se vê no célebre episódio da madeleine embebida no chá de tília.  Essa memória, embora não exclusividade literária do autor, ficou como uma das marcas proustianas. Talvez porque ele tenha, mais que qualquer outro escritor, mostrado todo o seu encantamento poético.

Não digo que a memória não tenha importância no romance proustiano. O que não existe é o sentimento de nostalgia ou de saudade, ao qual associamos o termo. Não é disso, insisto, que Proust nos fala. A recordação da memória é algo incorporado à realidade, é um contrapeso desta, não o seu brilho e o seu ofuscamento. A Busca não está voltada para o passado de uma forma reacionária, pelo contrário: ela se projeta enquanto busca para algo mais evanescente e paradoxalmente mais objetivo: encontrar o que pode salvar o homem do efêmero. Não há raízes para as quais voltar. As raízes são as raízes do tempo a ser recuperado pela arte. O “tempo perdido” — talvez possamos dizer com Heidegger — é o tempo da inautenticidade. A Busca é uma forma de atenção à realidade vivida, não é uma atenção à memória como um signo unívoco. O esquecimento é sua outra e inevitável face.

Outra fonte de equívoco é o título “Em busca do tempo perdido”, de resto sempre citado e glosado pela imprensa e pelas conversas de bar. A leitura superficial nos leva à percepção prosaica de que o tempo cronológico é sempre perdido porque, é claro, não o teríamos aproveitado bem. Não é o caso. Proust não quer se referir a isso. Nada mais distante de nosso autor do que o tempo cronológico. O que ele procura é algo como a durée de Bergson, mas também não exatamente ela. O que celebra é algo como a relatividade do tempo proposta por Einstein, como, aliás, já foi apontado por alguns críticos. Ou algo como o entrevisto por Fernand Braudel, a saber: que o “[…] tempo avança com diferentes velocidades”. Proust põe tudo em termos relativos, e por isso tempo e memória são mais aplicações do que conceitos estáticos. Penso que sobre esse ponto o filósofo Gilles Deleuze tem inteira razão: “A obra de Proust é baseada não na exposição da memória, mas no aprendizado dos signos. […] Dos signos, ela extrai sua unidade e seu surpreendente pluralismo” (grifos nossos).

Para concluir, esta pergunta: como Proust consegue mexer com as “lançadeiras do tempo”? A exemplo de um demiurgo, ele traz para cada instante uma espécie de densidade específica por mais que o pretexto objetivo seja prosaico. Em seguida, integra (como é visível ao longo da Busca) a fotografia à sua estética e ao seu romance. Para ele, cada um de nós é uma espécie de “coleção de pranchas fotográficas” (e isso, diz ele, é nossa força e nossa fraqueza). Trabalhar com essas “pranchas” e até embaralhá-las para seus intentos ficcionais foi o que fez Marcel. É no escuro e no silêncio da “câmara” que nos habita que se revela não só uma consciência profunda, mas igualmente o ponto de vista insubstituível e único que faz de cada pessoa uma espécie de mundo à parte. Assim, também toda a nossa memória parece inseparável dessa inevitável obscuridade.

 

Um Comentário

  1. Muito bom texto, Paulo. Nos faz entender a dimensão real da obra de Proust. Ou, ao menos, uma das dimensões possíveis, a da capacidade humana de registrar, guardar e interpretar os acontecimentos.
    Há muitos anos trabalho com acervos culturais e históricos. A leitura de Proust ampliou e mudou minha visão sobre meu trabalho, conferindo-lhe nexo, valor e significado ‘muito além da memória’.

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