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Eugênio Oneguin de Tchaikovsky, o remorso por um amor não correspondido – Frederico Toscano

Frederico Toscano

O barítono polonês Mariusz Kwiecien interpreta Eugênio Oneguin ao lado da soprano russa Anna Netrebko (Tatiana) em produção recente do Metropolitan Opera de Nova York.

O compositor Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893), primeiro russo a conquistar fama internacional na música, é mais conhecido pelas sinfonias, concertos e a música de balé, mas sempre esteve muito envolvido com óperas, e compôs duas obras-primas: Eugênio Oneguin e A dama de espadas, ambas inspiradas em Alexandre Sergueievitch Pushkin (1799-1837), o maior poeta russo no Romantismo. Tchaikovsky compôs várias outras óperas que fizeram sucesso em sua época, mas hoje raramente são montadas fora da Rússia.

Tinha oito anos quando sua família se mudou para São Petersburgo, sede da corte e centro da vida musical na Rússia. Seis anos depois, sua querida mãe morria, perda que pode ter contribuído para sua dificuldade de amar outra mulher. Entrou para o Conservatório de São Petersburgo aos 22 anos, e logo faria sua primeira tentativa de compor uma ópera. A primeira, Voyevoda, passou quase despercebida, e a segunda sequer seria montada. Mas Oprichnik conquistou aplausos em São Petersburgo.

Sua quarta ópera, Vakula, o ferreiro, foi influenciada pela escola nacionalista da música, mas ele retornaria a um estilo mais europeu em Eugênio Oneguin, que viria a se tornar a ópera mais popular da Rússia. Esta foi escrita conscientemente contra a chamada ideologia “Kuchka” (ou “grupinho” de compositores russos que defendiam a música folclórica do seu país), sem um nacionalismo escancarado e sem sinal de grandes cenas históricas, czares, batalhas ou marchas – que marcam as óperas russas anteriores.

Oneguin é essencialmente uma ópera de câmera, de música delicada e polida. Isso pode ser bem percebido na tímida promoção que Tchaikovsky fez da ópera: ela foi primeiramente apresentada, em 1879, por estudantes do Conservatório Imperial; mesmo quando chegou ao palco profissional do Teatro Bolshoi, em 1881, o compositor continuou a insistir numa abordagem modesta e numa atitude discreta – acima de tudo, nada que fosse teatral demais. O enredo é, em seu cerne, um drama de sentimentos.

Os aspectos realísticos de Oneguin com certeza incluem a moderação na temática de Tchaikovsky – seu intimismo e sua domesticidade – e o fato de que a música é escrita para cantores de talentos relativamente modestos. Na época, isso poderia ser considerado como defeitos do realismo nas artes. Como escreveu um crítico: “Parece ser costume hoje em dia sustentar que o moderno elemento doméstico ou social é mais adequado às exigências de um libreto de ópera. […] Associa-se música com coloquialismos, e a conversação do século XIX nos aparece no auge do ridículo” (The New York Quarterly Musical Review, v. 1, maio de 1893).

Mas a melhor reivindicação de um rótulo de realismo para a ópera está na maneira pela qual suas ideias e suas formas musicais se inserem na linguagem cotidiana. Em La traviata de Giuseppe Verdi (1813-1901), ritmos de valsa acompanham Violetta Valéry, a cortesã protagonista, e sua progressão através de toda a ópera. Em Oneguin, Tchaikovsky faz algo semelhante; ele constrói suas cenas mais intimistas de refrações e repetições da leve música de salão de seu tempo. É como se a música de salão, com suas frases e repetições periódicas e previsíveis, estivesse soando nas proximidades, com os personagens cantando contra esse fundo musical, com ele ou em torno dele. Trata-se de uma das mais belas e comoventes obras do Romantismo russo, colocando em cena verdadeiros seres humanos, com as suas fragilidades e contradições.

Apesar de evocar a vida da burguesia no campo e no tempo dos czares, a música de Eugênio Oneguin é sem dúvida ocidental, com um pouco do espetáculo e nada das cores folclóricas preferidas de outros compositores russos da época de Tchaikovsky. Na verdade, com suas várias árias introspectivas, é predominantemente uma ópera intimista. A famosa e longa cena da carta de Tatiana captura os sonhos de uma jovem cuja imaginação é influenciada tanto pela literatura quanto pelo desejo de amar. A dura resposta do protagonista Eugênio Oneguin a esse amor estabelece o tom sombrio da obra.

A ópera tem início na propriedade dos Larin perto de São Petersburgo, Rússia, no fim do séc. XVIII. Enquanto suas filhas Tatiana e Olga cantam o amor e a tristeza, Madame Larina relembra o passado com sua aia, Filipyevna. Chegam camponeses para cantar e dançar para ela. Tatiana diz que as canções a fazem sonhar, mas Olga prefere dançar. Tatiana atribui sua própria palidez à triste história de amor que está lendo. O noivo de Olga, Lensky, chega com um amigo, Eugênio Oneguin, que diz a Lensky que ele escolheu a irmã errada. Tatiana se anima. Oneguin pergunta se a vida no campo não é tediosa, mas ela responde que lê e sonha. Nessa noite, Tatiana diz a Filipyevna que está apaixonada. Entre temores e hesitações, escreve uma longa carta de amor a Oneguin:

Ao fechá-la, observa: “Seria assustador relê-la.” Na manhã seguinte, a carta é entregue. Dias depois, Tatiana espera Oneguin em seu jardim. Prometendo franqueza igual à dela, ele diz que não foi feito para o casamento e que logo ela voltará seu ardor em outra direção. Tatiana fica arrasada:

Entre os convidados de uma festa para Tatiana estão Lensky e Oneguin, que decide livrar-se do tédio, flertando com Olga. Lensky fica irritado, mas Olga zomba do seu ciúme. Um francês brinda à beleza e à saúde de Tatiana, mas, recomeçando a dança, Lensky fica pensativo. Oneguin dá a entender que ele ficou louco, e os dois discutem. Até que, para horror dos convivas, Lensky desafia Oneguin. Despede-se então de Olga para sempre. Na manhã seguinte, esperando Oneguin, Lensky volta a sonhar com ela:

Oneguin chega e os dois se perguntam por que estão duelando, e não rindo juntos. No duelo, Oneguin atira e Lensky cai morto. Anos depois, Oneguin está entediado num baile em São Petersburgo quando o príncipe Gremin entra com sua mulher, e Oneguin reconhece Tatiana. Gremin fala de seu grande amor por Tatiana e apresenta Oneguin a ela. Ela diz lembrar-se de tê-lo conhecido e pede licença para se retirar. Oneguin se dá conta que a ama. Na casa de Gremin, Tatiana sente voltar sua paixão por Oneguin. Quando ele aparece, ela se pergunta se não estaria interessado em seu novo status. Ele declara seu amor, mas ela pede que se retire. Reconhece que ainda o ama, mas jamais trairá seu marido. Sozinho, Oneguin sente o peso do remorso por haver desprezado seu grande amor – mas é tarde demais. E assim se encerra a ópera:

Pode a vida imitar a arte? Curiosamente, Tchaikovsky tinha acabado de começar a compor a cena da carta de Tatiana quando, em maio de 1877, recebeu uma apaixonada carta de amor de Antonina Ivanovna Miliukova (1848-1917), ex-aluna do Conservatório de Moscou. Impressionado com a coincidência, aceitou a proposta de casamento de Antonina, afirmando que não se comportaria com ela como Oneguin com Tatiana. Foi durante uma crise de meia-idade, aos 36 anos, porém, que o compositor revelou por carta a Modest, seu irmão e confidente, que tal decisão teria sido contrária ao seu desejo mais íntimo:

“Agora estou passando por um período muito crítico em minha vida. Mais tarde entro em detalhes, mas por agora vou simplesmente dizer-lhe: eu decidi me casar. É inevitável. Eu tenho que fazer isso não apenas para mim, mas por você, Modest, e por todos aqueles que amo. (…) Como é terrível pensar que aqueles que me amam possam, por vezes, sentir vergonha de mim. Em suma, eu procuro casamento ou algum tipo de envolvimento público com uma mulher, para calar a boca de várias criaturas desprezíveis cujas opiniões não significam nada para mim, mas que estão em posição de causar sofrimento aos que estão perto de mim.”

Questões de dinheiro e uma incapacidade para compor agravaram a situação e levaram Tchaikovsky a níveis profundos de desespero. O casamento, destinado a ocultar a homossexualidade do compositor, durou apenas três meses e levou Tchaikovsky a tentar o suicídio. Em meio a tudo isso, ele concluiria a composição de Eugênio Oneguin, transferindo para a ópera muito sentimento próprio. Ele e Antonina permaneceram casados legalmente, mas nunca viveram juntos novamente e nem tiveram filhos, embora Antonina mais tarde tivesse dado à luz três filhos de outro homem. “Somente agora, após meu casamento, começo a entender que nada é mais inútil do que não querer assumir como somos”, escreveu.

Em 1876, foi apresentado à rica baronesa Nadezhda Filaretovna von Meck (1831-1894), que se sente profundamente atraída pela obra de Tchaikovsky e se converte em mecenas do compositor, sob a única condição de comunicarem-se somente por carta. Essa correspondência durou quatorze anos, sem nunca terem se visto. O mecenato resguardou Tchaikovsky de dificuldades financeiras durante esse tempo. Nesse mesmo ano de 1876, recebe a encomenda do Teatro Bolshoi para compor O Lago dos Cisnes, o mais célebre balé de todos os tempos. O mecenato da baronesa possibilitava a Tchaikovsky dedicar-se exclusivamente à composição, e então, em 1878, deixa sua cátedra no Conservatório de Moscou.

Em 1892 já não conta mais com a ajuda da baronesa. Sua irmã Alexandra morre. E aos cinquenta anos tem a aparência de um homem muito mais velho. Em junho de 1893 Tchaikovsky recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Cambridge. Em outubro do mesmo ano sua saúde se agrava profundamente, falecendo em 6 de novembro de 1893 aos 53 anos, em São Petersburgo.

No próximo artigo, viajaremos para a Terra do Sol Nascente, onde encontraremos Madama Butterfly, a gueixa de Giacomo Puccini (1858-1924) – uma bela história de amor em uma das óperas mais executadas de todos os tempos. A obra assinala o ponto mais alto da carreira do compositor. Como em muitas óperas italianas, o tema do triângulo amoroso domina o enredo, que é inspirado em fatos reais. O dramatismo dessa partitura de forte carga emocional vai crescendo até a inevitável catástrofe final, com a música comovente de Puccini.

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