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Penso, logo duvido.

Filosofia Hindu: Introdução – João Rego

João Rego

Pete McBride – Chasing the Sacred: Down the Ganges From Snow to Sea.

Recife, 13 de agosto de 2018

Havia prometido aqui escrever sobre a filosofia hindu (Barbárie, cultura e religião Cf, Revista Será? 25.11.2016), objeto de meu interesse desde jovem, quando fui apresentando à obra do místico Paramahansa Yogananda[1]. Outra importante fonte, menos filosófica, foi a Hatha Yoga[2], que pratiquei ao longo da minha vida, em esparsos períodos, porém sempre me ajudando a ajustar meus desejos, afetos e sintomas diante do mundo.

Agora, aos 63 anos, com um pouco mais de paciência e tendo retomado a Yoga aos 60, mergulho no universo da filosofia hindu, e que universo! O hinduísmo é um vasto mar de sabedoria que impressiona quem, a princípio, tentar cotejar os escritos antigos com escritos de outras correntes religiosas, e até mesmo com a ciência moderna, essa do século XXI, que tem alçado a compreensão do homem sobre o cosmo, o corpo humano e a natureza a limites antes inimagináveis.

É possível encontrar nas obras da filosofia hindu traços antecipatórios da cosmologia, biologia, psicanálise, linguística, e várias outros segmentos do pensamento ocidental. O objeto da Filosofia Hindu, além de estabelecer um código ético que rege a sociedade e suas leis, traz instruções para o indivíduo alcançar, através do conhecimento, a compreensão do seu ser, imerso em sua relação com o universo, possibilitando-o tatear, por meio da filosofia ou religião, algum sentido à vida. Conhecimento! É isto que se destaca em todos os antigos escritos do hinduísmo, pois, diferentemente da fé – instrumento fundamental que alicerça as religiões – é o conhecimento que é buscado e invocado como a principal forma de compreensão humana a respeito de tudo que tem vida, suas fontes e seus destinos.

Mas vamos com calma, pois aqui nessa Revista o espaço é limitado para que eu possa, de uma tacada só, apresentar alguns conceitos básicos da filosofia hindu. É importante deixar claro que,  embora filosofia e religião bebam nas mesmas fontes – os escritos antigos – meu esforço intelectual é não me deixa atrair pelos encantos do misticismo e da religião, por mais belos e sedutores ao espírito que sejam. Entretanto, aviso, logo de início, que as leituras das escrituras antigas do hinduísmo, sagradas para alguns, classifico-as dentro da terceira e mais importante categoria de conhecimento organizada por mim, ao longo da vida: aquele conhecimento que transforma e enriquece nossa existência, ajudando-a nos posicionarmos diante do outro e da vida, sabendo-a finita. Uma existência marcada, como diz Freud, pelos dois polos que fundam e fazem operar o espírito humano: a morte e a sexualidade, Eros e Thanatos, pulsão de vida e pulsão de morte.

As outras duas áreas do conhecimento – em minha organização – são: a primeira, e aqui não há hierarquia nessa classificação entre ela e a segunda, é a área do conhecimento que busca a fruição da vida, e onde incluo as artes, a literatura, a música, enfim tudo aquilo que leio, pratico e vivo por puro prazer; a segunda é a área do conhecimento voltada à venda de saberes ao mercado, que no meu caso, é o universo da consultoria empresarial  e o empreendedorismo, ou seja, aquilo que pratico para buscar garantir suporte financeiro e material para mim e minha família. A terceira e mais importante  é a área do conhecimento voltada a compreender e posicionar meu ser diante da relação com o outro e com o universo, onde incluo a filosofia, a literatura, a psicanálise, a ciência política e os escritos religiosos – estes últimos, peças fundamentais para entendermos a trajetória da humanidade e suas vicissitudes, diante da angústia indelével em buscar sentido à nossa existência – marcada pela inexorável ação do tempo, que a tudo mata e destrói.

Sorvo a primeira com a pressa infantil de quem deseja fruir o prazer de imediato; a segunda com a urgência, a tensão e a preocupação com a qualidade que o mercado impõe. A terceira, porém, é construída com a paciência de quem já viveu um pouco mais de sessenta anos e, com profundo respeito à vida: leio em atitude meditativa, logo cedo, antes do sol nascer, de preferência após minha yoga. É com esta última que forjo minha estrutura ética, força motriz das minhas ações diante da vida.

O ROTEIRO

Todo esse vasto universo da filosofia hindu, construído ao longo de milênios antes da Era Comum (E.C[3]), e que convido você, leitor, a trilhar junto comigo, precisa de um roteiro minimamente organizado para evitar que nos percamos no caminho, quer seja isso causado pela desmotivação, por causa da antevisão de que a estrada não tem fim, quer seja pela complexidade de certos conceitos, somente compreendidos em sua completude em sânscrito[4]. Nessa caminhada, portanto, teremos várias “paradas”(os artigos que comporão esta série), e será nelas que iremos nutrir nossa visão de mundo com os códigos éticos e saberes dessa filosofia. Advirto, porém, que as lentes usadas por mim, na compreensão desse conhecimento, são as lentes da psicanálise, área em que venho envolvido há mais de trinta anos, destes grande parte como analisando, outros como psicanalista – ou seja, lentes polidas pela razão cética do freudismo a tudo que é humano.

DIAGRAMA

Tentarei, a cada “parada”, organizar este fragmentado tema com uma ordem lógica e cronológica, a fim de que possamos ter uma visão panorâmica do terreno.

OS VEDAS E A TRANSMISSÃO ORAL (Shruti)

O termo Vedas, que em sânscrito significa conhecimento, designa um conjunto de escritos sagrados que tem registros escritos entre 1500 e 1300 A.C, embora alguns pesquisadores acreditem que este conhecimento vinha sendo transmitido, há várias gerações, oralmente, pelo menos oito séculos antes de sua escrita. É considerado o registro filosófico-religioso mais antigo da humanidade. Para termos uma referência, a filosofia grega, manancial de todo o pensamento ocidental, emergiu no século VI A.C. Fui investigar o método de transmissão do conhecimento oral (Shruti[5]), e é impressionante a precisão e confiabilidade  na transmissão, por séculos, de um conhecimento, sem deteriorá-lo[6].

Os Vedas são compostos pelos:

Cada um dos Vedas é subdividido em

Será sobre alguns conceitos dos Upanishads[7]que iremos discorrer nos próximos artigos, com os quais pretendo compor essa série. É nos Upanishads onde se encontram os conceitos filosóficos e ideias centrais doHinduísmo, que influenciaram também o Budismoe o Jainismo. Embora haja cerca de 200 livros que constituem os Upanishads, como decorrência da sistematização do filósofo e teólogo Adi Shankara(Século VIII), as principias correntes filosóficas aceitam o que Shankara definiu como The Principal Upanishads (MukhyaUpanishads), composto por 11 livros. Foi esse Upanishads que influenciou Schopenhauer, livro definido pelo filósofo alemão como “a mais elevada produção da sabedoria humana”.

No próximo artigo exploraremos Brahman, um complexo e bem elaborado conceito que é a instância que dá unidade, por trás da diversidade de tudo o que existe no universo. É imutável, porém fonte de todas as mudanças. Não deve ser confundido com Brahma (sem o n no final), o deus do hinduísmo.

***

Série Filosofia Hindu

1

 

 

 

DIAGRAMA DE ORIGEM E COMPOSIÇÃO DOS MUKHYAUPANISHADS (THE PRINCIPAL UPANISHADS)

[1]Auto biografia de um Iogue Contemporâneo- Paramahansa Yogananda

[2]Aqui destaco o trabalho de Prof. Hermógenes com seu livro Auto perfeição Com Hatha Yoga, a mais importante porta de entrada para quem desejar praticar a Hatha Ioga.

 

[3]Era Comum equivalente ao A.D (anno dommini)

[4]Sobre o Sânscrito envio-o para a Wikipwedia https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A2nscrito

[5]Sobre o método (Shruti) segue

[6]Ainda hoje os monges são treinados para memorizarem os textos dos Vedas, prática que inclui o ritmo, a entonação e outros métodos para garantir a fidelidade do que está sendo passado do mestre para o aluno. É considerado Patrimônio Intangível da Humanidade pela UNESCO.

[7]Veja diagrama no final deste artigo.

3 Comments

  1. Boas-vindas à nova série!
    Abraço

  2. Divertida a sua ideia de aulas de hinduísmo – e do ângulo da psicanálise, se é que consegui entender. Um alívio diante do entorno de tanta cerimônia evangélica, até em lugares em que se viola o preceito constitucional de que o estado no Brasil é laico. De filosofia hindú só tive três sessões de 3 horas em três noites, num total de 11 horas incluídos intervalos, sobre Mahbharata. A peça de teatro, em que Peter Brooks condensou os cem mil versos do poema épico de 400 a.C., passou em 1987 no Brooklin, no teatro Majestic reformado para a ocasião. Depois do primeiro dia, passamos a levar uma almofada p’ra sentar. Apesar do painel de tantas cenas e das intrigas de tantos deuses, desconfio que não entendi nada de hinduísmo, mas esgotou a cota de hinduísmo na minha vida. Acho que os concertos de música clássica indiana (houve vários em New York no fim dos 1980s, explicando o que são as ragas) deixaram uma percepção melhor do que possa ser o hinduísmo. Mas a relação com Freud eu não enxergo. Fora isso, houve um tempo que eu conhecia tudo quanto é restaurante indiano de Manhattan e prestei atenção nas rigorosas regras de como comer com a mão, e só pode ser com a direita. Alguém até me explicou o motivo, mas não é exatamente filosófico.

    • Cara Helga,
      Sua vida é um vasto e rico livro, converta esses capítulos em crônicas. Os seus leitores agradecem.

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