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Penso, logo duvido.

Hebdomadário da Corte XIV – Luciano Oliveira

Luciano Oliveira

Jornaleiro.

Como a poeira daquele incêndio seguido de desabamento num prédio ocupado por pobres brasileiros em São Paulo já assentou (logo logo a desgraça será esquecida), venho, sine ira et studio, meter o bedelho onde não fui chamado.

No dia 15 de março passado, portanto duas semanas antesda tragédia, li na Folhaa seguinte declaração de Guilherme Boulos: “Temos uma situação dramática no Brasil, com mais de 7 milhões de moradias vazias e mais de 6 milhões de famílias sem casa. Tem mais casa sem gente do que gente sem casa.” Tomei nota da declaração pensando num eventual uso futuro, aqui mesmo nesta coluna. Claro, não reproduziria a declaração sem antes cotejá-la com outras fontes. Quanto mais não seja porque Guilherme Boulos, coordenador do MTST e pré-candidato à presidência da república pelo PSOL, é um homem que está na luta e, assim, suas falas devem ser encaradas com serena suspeição. (Atenção: esse cuidado metodológico também se aplica a FHC e a todo e qualquer político. Nem do Papa Francisco, que é chefe de estado, eu compraria uma declaração sem vistoria.) Pois bem: agora, depoisdo desabamento em São Paulo, o que não falta é fonte para se checar o que disse Boulos. Como isso aqui não é uma tese de doutorado, não cheguei a ir atrás de dados primários produzidos pelo IBGE sobre o assunto, contentando-me com apenas digitar no Google “déficit habitacional e imóveis vazios” para ver no que dava. Essa foi minha metodologia – como se esclarece nas teses acadêmicas.

Encontrei de tudo.  Por exemplo: na mesma Folha, duas defensoras públicas de São Paulo escrevem que existem “6,35 milhões de famílias vivendo às margens de um conceito minimamente digno de direito à moradia”, e que, do outro lado, temos “também 6,35 milhões” de imóveis vagos nas cidades. Achei a coincidência (6,5 milhões nos dois casos) extraordinária. Uma matéria n´O Globo, considerando-se que o grupo não é particularmente simpático ao MTST, devolveu-me certa tranquilidade: haveria no país, segundo o Censo, “mais de 6 milhões de imóveis desocupados, número superior ao déficit habitacional, que é de 5,4 milhões de unidades”. Haveria assim uma “folga” de 600 mil imóveis desocupados. Nesse caso, ótimo. Claro que, como diria aquele personagem de Chico Anysio, há controvérsias. Por exemplo: uma autoridade do setor habitacional de São Paulo lembra que esses números não levam em conta o que a pudica linguagem técnica chama de “vacância de equilíbrio” – ou seja: “o tempo em que um imóvel fica vazio enquanto é negociado”. E na mesma Folha, no dia em que escrevo este texto (5 de maio), Demétrio Magnoli, “doutor em geografia humana” (sorry, mas é como ele é apresentado), solta os cachorros contra a demagogia de entregar esses imóveis aos seus ocupantes, prevendo, com base no que aconteceu em países comunistas, “o lúgubre destino reservado a edificações de propriedade estatal cedidas em usufruto a moradores pobres”. Para Magnoli, isso vai resultar na formação de guetos. Well… pensei cá comigo: para quem está na rua, talvez seja negócio encontrar um lugar para morar, nem que seja num gueto – a menos, claro, que seja o Gueto de Varsóvia! E, como não presto, lembrei de um autor que também não prestava, Machado de Assis, autor do famoso aforismo: “suporta-se com paciência a cólica do próximo”…

Enfim! Divergências numéricas e conceituais à parte, ninguém nega que estamos diante de uma questão real: há mais casas do que gente para nelas morar. E aí, num desses saltos que amiúde dou, escapei das questiúnculas empíricas e adentrei uma questão “teórica” que (para mim) continua nos interpelando: a humanidade, com o advento do capitalismo, produz mais mercadorias do que é capaz, no seu conjunto, de consumir pelas leis de uma economia de mercado. Instala-se aquilo que um autor, hoje um tanto maldito, chamava de “contradição” entre as “forças produtivas” e as “relações sociais de produção”. Estou falando de quem? De quem?… Claro que, malgrado minha admiração por ele, não estou falando de Groucho!…

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No dia 3 de maio passado fui ver Chico. Sim, Chico Buarque, que já foi Chico Buarque de Holanda (cujo Holanda já foi grafado com dois “eles” – Hollanda), o filho de Sérgio Buarque de Holanda, que um dia disse mais ou menos o seguinte: “Chico já foi conhecido como meu filho, agora eu sou conhecido como o pai dele”. Encontro velhos amigos que não vejo há tempos, um dos quais me diz uma coisa muito interessante: “Chico é aquele sujeito que os homens não têm medo de dizer que amam com vergonha de serem confundidos com viados”. Sei que essas coisas hoje em dia não se dizem, mas foi mais ou menos assim. É impressionante. Esse sujeito, que explodiu no país com aBanda, que é de 1966 (portanto há mais de cinquenta anos!), emenda 31 músicas uma atrás da outra sem intervalo e sem quase beber água. E, como deve detestar o palco – onde a cada cinco anos é obrigado a comparecer para pagar as contas –, segue impassível aos gritos de “Liindôôô” que sempre se ouvem nos seus shows. A qualidade do que ele produz continua alta. E não é fácil, para quem já produziu belezas de um lirismo atroz como Todo Sentimento, produzir o lirismo gracioso de canções como Dueto, presente no seu último disco, As Caravanas. Neste, a música do mesmo título, se não possui a beleza melódica e nem é tão comovente como Meu Guri, possui a mesma lancinância – palavra que, segundo o computador onde escrevo, acabo de inventar. Nela, falando do “populacho” que no Rio de Janeiro desce das favelas e insiste em ir ao Jardim de Alá, lembra que “não há barreira que retenha esses estranhos”, e mete bronca em quem, para solucionar o “pobrema” (aqui sou eu, não Chico), acha que “tem que bater, tem que matar”. E vai fino no nervo exposto: essa “gritaria” é “filha do medo / a raiva é mãe da covardia”. Como gritou um espectador com uma voz de tenor que se fez ouvir em todo o Teatro Guararapes, “Chico, você é foda!”

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