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Penso, logo duvido.

Hebdomadário da Corte XXII – Luciano Oliveira

Luciano Oliveira

Jornaleiro.

Como diria Roberto Carlos, “o show já terminou”. A “bolha da copa”, é verdade, só estoura no próximo domingo, com a grande final, mas devo confessar uma defecção: pulei fora antes, com a derrota do Brazuca para a Bélgica, deixando lá dentro Galvão, meu amigo de quatro em quatro anos, na companhia de Casãogrande e Ronalducho. Sei que é uma sacanagem, e que restam ainda belas partidas de futebol a serem vistas, e as estou vendo. Mas, sem o Brasil, já não é a mesma coisa. Foi bom enquanto durou. Tão bom que poderia ter durado mais. Mas no meio do caminho tinha uma pedra, e tropeçamos. Enquanto vejo uma partida e outra, fico me divertindo com os profetas do dia seguinte, aqueles que anunciam as desgraças da véspera. Está todo mundo agora descobrindo os “erros” de Tite, tão óbviosdepois que aconteceram, que a gente fica se perguntando por que não foram previstos.

Tenho ouvido análises inteligentíssimas sobre, de um lado, o brilhantismo da tática da Bélgica contra o Brasil; e, de outro, sobre a estupidez da tática do Brasil contra a Bélgica. Como em boa parte das vezes não consigo ver nada daquilo no jogo a que acabei de assistir, me sinto um mentecapto. Enfim, talvez eu realmente não entenda nada de futebol. Eu e Nélson Rodrigues, que nesse assunto preferia acreditar na existência de um senhor chamado Sobrenatural de Almeida. Por exemplo. Logo no começo do jogo, num escanteio a favor do Brasil, a bola resvala na cabeça de Miranda, encontra o joelho de Thiago Silva e, em vez de entrar, bate na trave. Exatos cinco minutos depois, num escanteio a favor da Bélgica, a bola resvala na cabeça de um atacante belga, encontra o ombro de Fernandinho e é desviada para dentro do gol. Gol contra! Bem, aí bateu um descontrole no time brasileiro, que avançou demais antes da hora (estávamos apenas aos 12 minutos de jogo…), e possibilitou aquele contra-ataque fulminante que resultou no segundo gol. O descontrole, claro, poderia ter sido evitado. Mas me digam: que esquema tático poderia ter previsto ou evitado aqueles dois azares em dois escanteios?

Aliás, não gosto de gols de escanteio. Para começo de assunto, são feios. Aquele monte de gente se agarrando e se empurrando lembra aquela montanha de jogadores uns em cima dos outros em jogos de rugby. No meio daquela confusão com todo mundo correndo em direção ao gol no momento em que o escanteio é cobrado, a sorte – ou o azar – é quem termina decidindo o resultado do lance. Um brutamontes tem mais chances do que um craque. Ainda que tenha sido um craque, Zidane, que tenha feito dois gols de cabeça em cobranças de escanteio naquela final Brasil X França em 1998 – aquela da “bilôra” (olhaí outra prova da existência de Sobrenatural de Almeida…) de Ronaldinho. Me digam: Zidane fez aqueles dois gols porque era um craque ou porque teve sorte? Aliás, que me lembre (ajudem-me, Fernando e Clemente!), aquele supertime brasileiro de 1970 não fez nenhum gol assim no México, fez?

E domingo próximo teremos uma final de arrepiar: França X Croácia. Quanto à França, tudo bem. Quanto à Croácia, não conheço nenhum analista que tenha previstoque ela chegaria a essa final de Copa do Mundo. Chega. E chega depois de um jogo contra a Inglaterra ganho na prorrogação. Foi a terceira prorrogação dos croatas em três jogos seguidos – o que, na prática (já que cada prorrogação dura 30 minutos), significa dizer que a Croácia já jogou uma partida a mais do que sua adversária nas duas últimas semanas… Se ganhar no domingo, terá sido (como virou moda se dizer depois que a expressão de tornou marca registrada em programas do tipo Luciano Huck…), uma “vitória da superação”. Ugh!

Assim que o Brazuca caiu fora da Copa, adotei a França como meu time. Uma velha história de amor me liga àquele país, onde vivi por cerca de cinco anos e onde tenho uma “família adotiva” que estará domingo próximo na frente da televisão gritando: “Allez les bleus!” Já eu… Bem, devo confessar que depois da vitória da Croácia contra a Inglaterra, “entre les deux, mon coeur balance” – como diz uma velha cantiga infantil do país gálico. Vamos ver.

***

Daqui a quatro anos tem mais. Até lá, como diria o mesmo Roberto Carlos, “vamos voltar à realidade”. E a realidade… Ufa!

6 Comments

  1. De minha parte, estarei ao lado da França, que admiro desde o meu tempo de Aliança Francesa, em João Pessoa, e da semana que passei em Paris, no Quartier Latin, com meus colegas da diretoria da UNE, há meio século. Posso dizer que hoje os jogadores franceses são de todas as raças e cores, como nós. Enquanto que os jogadores da Croácia, todos brancos, segundo foi noticiado, valendo-se da momentânea notoriedade, estão entoando hinos da USTASE, organização política que, na 2ª Guerra Mundial, segundo alguns historiadores, foi mais cruel que a GESTAPO alemã. Apesar de Tito ser croata, o seu país esteve desde o começo ao lado da Alemanha, naquele período sombrio da humanidade.
    E temo que, ao enfrentar a França, cujo futebol é melhor, eles apelem mais fortemente para a violência, como já vem fazendo. A esperança está no juiz, bem escolhido entre os mais fortes, fisicamente, e, aparentemente, o de mais autoridade. “On vera”.

  2. Prezado Luciano,

    Com uma queima de neurônios acelerada de tempos para cá, já não lembro se fizemos ou não gols de cabeça na Copa de 1970. Mas diria que sim. Acho o de Pelé contra a Itália foi de cabeça. De qualquer forma, foi a cabeçada de Pelé contra a meta de Gordon Banks, no dramático jogo contra a Inglaterra, que propiciou aquela que é considerada a defesa mais difícil da história. Aliás, tivemos duas semelhantes nesta excelente Copa que chega ao fim.

    Quanto aos prognósticos, bem, concordo que é fácil ser engenheiro de obras feitas e temos carradas deles por aqui, eu inclusive. O que mais critiquei em Tite desde que chegaram lá foi o isolamento desses meninos autistas e endinheirados da dimensão do evento. Por que não passear pelas ruas? Por que não tomar banhos no Mar Negro? Por que não oxigenar o corpo nas montanhas de Sochi? Por que relegá-los ao Instagram, aos empresários e ao feijãozinho de mamãe?

    A final? Sou Croácia. Entendo as razões de Clemente, mas não consigo trazer ideologia para certas instâncias da vida. Amo a Croácia. Vi as paredes esburacadas de Zadar, tomei café com mutilados de guerra em Zagreb, dormi na floresta de Pitlivic, cheirei as lavandas da ilha de Hvar e comi seu queijo salgado. A França é um pouco a segunda casa, mas eles já ganharam uma e, com razão ou não, já não tremem diante da Canarinha. De mais, torço por Modric, um franzino gigante.

    Abraço,

    Fernando

  3. Prezado Clemente,

    tendo a concordar com Fernando, que prefere preservar certas instâncias da vida dos embates político-ideológicos. Salvo, claro, em situações especiais, como o boicote esportivo ao regime do apartheid da África do Sul, por exemplo.
    No caso em tela, aliás, se fôssemos recuar algumas décadas e olhar a performance anti-semita da governo francês do Marechal Pétain durante a II Guerra… Sei não!
    Digo mais: por esse caminho, não sobra nenhuma nação isenta de episódios passados vergonhosos.
    A história não tem inocentes…

    Sim, Fernando, você faz bem em lembrar aquele gol contra a Itália e aquele quase gol de Pelé contra a Inglaterra. Mas lembraria também que em nenhuma das duas ocasiões foi um desses gols de “abafa” em cobranças de escanteio que tanto acho feios.

    No mais, que pena: mais uma final de copa sem nosso Brazuca – que, aliás, tem iniquidades pra burro!…

    Abração,

    Luciano

  4. Amigos Luciano e Fernando,
    A questão não é o passado das nações, é o presente de suas delegações. O exemplo do boicote esportivo à Àfrica do Sul, no tempo do “apartheid”, é ilustrativo do fato de que a política pode chegar até os campos de futebol. Essa questão foi levantada por nosso amigo comum David Hulak, que deve conhecer o assunto melhor do que eu. Todas as nações tiveram os seus pecados, é certo. Mas o que foi noticiado, e David mencionou, é que os jogadores croatas, valendo-se da momentânea notoriedade, entoaram hinos da USTASE nas competições. Que lhes parece, se o time da Alemanha entrasse em campo portanto como símbolo a cruz suástica?

  5. * PORTANDO

  6. Amigos,

    os Bálcãs são tremendos.

    Já contei aqui sobre viagens que fiz entre a Macedônia e a Bósnia-Herzegovina que foram verdadeiros “tour de force” em que se contornava o Kosovo, percorria-se a Sérvia, e se passava por um enclave tipo tríplice fronteira em que uma pingada em território croata descaracterizava uma viagem direta ente a Sérvia e a Bósnia, se é que me faço entender.

    Os ânimos ali se exaltam por qualquer coisa e todo mundo bate pesadíssimo no outro. É zona de fratura civilizacional, como dizia Huntigton. Barril de pólvora.

    Mas sou um homem meio desnaturado, cada dia mais ciente de minhas limitações. Amo a Croácia, o povo, os queijos, as paisagens, a ilha onde nasceu Marco Polo (meu ídolo de infância), a conversa das pessoas, os mercados públicos e, sobretudo, o toque de bola desse rapaz franzino e narigudo chamado Luka Modric.

    Deplorei que um juiz argentino tenha quebrado o ímpeto inicial da seleção croata com duas marcações erradas no melhor do primeiro tempo. Paciência.

    Passada a Copa, tento voltar a ser o humanista “manqué” de sempre.

    “Faute de mieux, vive la France!”

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