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Penso, logo duvido.

Hebdomadário da Corte XXIII – Luciano Oliveira

Luciano Oliveira

Fernando da Mota Lima.

Quarta-feira passada, dia 18 de julho, fez exatamente um ano que recebi, por volta do meio-dia, um telefonema estranho da minha colega e amiga professora Conceição Lafayette, perguntando com certa insistência onde eu estava. Não lembro se ela fez a clássica pergunta – “você está sentado?” – que precede notícias ruins. De fato eu estava me sentando no quiosque perto de casa onde costumo tomar uma cervejinha a título de aperitivo antes do almoço. Lembro-me bem de ter sentido uma pequena vergonha em confessar que estava num boteco num dia de semana, e apenas disse que estava indo para casa – o que era de certa forma verdade. Não sabia que a “latinha” que já havia comprado e aberto seria jogada fora; que sairia do quiosque para casa quase correndo, tremendo e gritando in petto– eu que sou agnóstico: “Meu Deus! Meu Deus!”. Fernando (Fernando da Mota Lima para seus leitores), meu maior amigo íntimo nos últimos vinte anos, estava morto.

***

– Luciano, é sobre Fernando, você soube?

– O quê?

– A faxineira chegou de manhã e a porta da cozinha estava aberta, e ele estava deitado no chão, com o gás aberto.

– E onde ele está?

– No IML.

– Fernando morreu?

– Sim.

***

“Uma sucessão de acasos afortunados cruzou minha vida com a de Luciano Oliveira e desde então temos nos divertido imensamente juntos” – escreveu Fernando da Mota Lima certa feita a propósito da nossa amizade. E, de fato, como nos divertimos! O leitor que tenha conhecido Fernando apenas pelos seus textos eruditos (lembro, por exemplo, a série Memórias de um Leitor, publicada aqui mesmo) – que, para minha inveja, ele escrevia praticamente de uma sentada –, não pode imaginar o quanto palhacento ele se permitia ser no espaço do que chamava de “privilégios da intimidade” – uma de suas expressões que nunca esqueci. Nos últimos tempos, porém, ele foi se tornando mais e mais sombrio, e achando menos engraçadas as brincadeiras que fazia com ele e seu estatuto de “Monsenhor Mota” – como às vezes o tratava. Queixando-se cada vez mais de dores no corpo, foi deixando de rir quando, ao telefone, eu o saudava assim: “Ai… professor / minha vida é um eterno sofrer…” – parafraseando Doce Amor, um velho sucesso de Carlos Galhardo que ouvíamos na infância: ele em Igarapeba (PE), eu em Itabaiana (SE); as mesmas dores que, no passado, quando nos divertíamos “imensamente juntos”, eram motivo de constantes sarros que tirávamos um da cara do outro, e que certa feita o levou a escrever um hilário Poema do Masoquistaque começava assim: “Ser é doer! / Diz o analista ao masoquista que já avista a dor chegando”. Pensando bem, talvez as dores mais recentes já não fossem as mesmas…

***

Era um humanista erudito à moda antiga, daqueles para quem a existência de uma “alta cultura” – sobreposta à “baixa cultura” da indústria cultural – sempre foi um axioma. Não sei se gostava ou não de Bob Dylan, mas sei que considerou a atribuição do prêmio Nobel de literatura a ele mais um sintoma da decadência cultural própria do nosso tempo. Sonhava, acho, com uma polisonde só teriam direito de entrada quem amasse Montaigne e Machado (acho que os dois autores que mais constantemente leu) – alguma confraria como o “Sabadoyle” do bibliófilo Plínio Doyle, que alguém já definiu como o “último salão literário do Brasil” e que reunia todos os sábados, no Rio de Janeiro, gente do quilate de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos… Já perceberam o nível, não? Quando ligava para ele, muitas vezes ouvia Bach como música de fundo no seu apartamento. Mas na polisde Fernando haveria também lugar para quem amasse, como era o nosso caso, Cartola e Assis Valente, e quantas e quantas vezes, nos saraus musicais reunindo amigos comuns, cantávamos a dois, imitando Dick Farney e Lúcio Alves, Teresa da Praiade Tom Jobim! – este, seu deus supremo da chamada MPB.

***

Tendo sido a vida inteira – as definições são dele próprio – um “desenraizado” e um “desintegrado”, Fernando tinha um sacro horror ao nosso gregarismo e à “falsa intimidade” (outra de suas expressões que me ficaram) tão própria dos nossos usos e costumes. Viveu a vida inteira só. Literalmente só – mesmo quando amava, nunca viveu junto. Tinha medo – senão horror – de partilhar seu cotidiano com alguém. Sabia, como todos da nossa geração soubemos quando lemos Hemingway e tomamos conhecimento da existência de um poeta inglês chamado John Donne, que “nenhum homem é uma ilha”. Fernando por certo também não era, mas, penso agora rememorando sua vida de renitente solteirão (bachelor, como talvez o anglófilo que ele era preferisse), o máximo que se permitiu foi ser, de vez em quando e momentaneamente, um istmo. Chamava isso de “autonomia” – e eu discordava.

***

Os achaques da velhice que se instalava faziam-no sofrer cada vez mais, e sentia-se muito mal na dependência de uns e de outros para ir a médicos e hospitais. Certa feita chegou a me dizer que não iria “suportar a piedade dos amigos”. A autonomiatinha se transformado em solidão. Alguns meses antes do desenlace, começara, como sói acontecer com os suicidas, a dar sinais de que se mataria. Junto a mim, chegou a se recriminar por não ter coragem suficiente para fazê-lo. Mas, como também sói acontecer, os amigos costumam não levar suficientemente a sério os avisos. Num domingo à noite, na última vez em que nos falamos, por telefone, chegou a descrever como seria: encheria o liquidificador com whisky e todos os ansiolíticos que tivesse em casa, bateria e beberia tudo. E para não haver erro, abriria o gás. Foi a ocasião da nossa última brincadeira (pelo menos da minhaúltima brincadeira). Eu lembrei-lhe o suicídio de Péricles, o cartunista criador do famoso Amigo da Onça, adorado pelos leitores da revista O Cruzeiroda nossa infância. Péricles também abriu o gás, e aproveitou a ocasião para fazer a última piada da vida: do lado de fora da porta da cozinha onde tinha se trancado, escreveu um recado: “Não risquem o fósforo!”. Ele riu. E foi assim, às gargalhadas, que nos despedimos. Dois dias e meio depois, recebi o telefonema de Conceição Lafayette… e fiquei com aquela culpa que sentem os sobreviventes dos suicidas.

***

Fernando se matou em algum momento entre a noite de uma terça-feira e a madrugada de uma quarta-feira. No fim da tarde da quinta-feira, o enterramos. Entre os amigos presentes, estava Joanildo Burity, homem de ciência e, ao mesmo tempo, de religião. Nos últimos meses de vida, presa de uma angústia que nada aliviava, Fernando, que sempre encarou o fenômeno religioso como uma “infantilidade” – como Freud o definiu no clássico O Futuro de uma Ilusão–, tentou se valer do socorro cristão, indo com Joanildo alguns domingos ao templo anglicano que ele frequentava. Aparentemente, em vão. Ao encontrá-lo junto ao nosso amigo dentro de um caixão, eu lhe disse mais ou menos isso: “Pois é, Joanildo, nem Deus salvou o nosso amigo”. Ao que ele respondeu: “Isso, meu amigo, nós não sabemos”.

13 Comments

  1. Bela evocação, Luciano.
    Não fui amigo de Fernandão, não tive esse privilégio, mas sempre que o encontrava era uma alegria. Parecia-me terno e bom. Recentemente, me emocionei ao adquirir um livro por encomenda na Estante Virtual: havia pertencido a ele, trazia sua assinatura e trechos assinalados. O autor? O meu querido Isaiah Berlin. Foi um inesperado e comovente reencontro. De certa forma, agora Fernandão vive na minha biblioteca. Acho que teria ficado feliz com isso, o que me consola de sua ausência.
    Sempre se fala do caso de Péricles se pensando num último gesto de humor. Mas acho que ele teve respeito e cuidado pelo Outro. Foi também um gesto de amor.

    • Caríssimo Primo!

      Há quanto tempo não nos falamos, não?
      E olha que colaboramos na mesma revista e moramos na mesma cidade!
      Coisas da vida, como diria Roberto Carlos…

      Pois é, Paulo: João Rego havia me falado dessa extraordinária coincidência, você, aqui em Recife, comprando em São Paulo um livro que foi da biblioteca de Fernando…
      Sim, Isaiah Berlin era um de seus autores de predileção. Tenho, presenteado por Fernando, uma ótima biografia sua (“Isaiah Berlin: uma vida”) escrita por Michael Ignatieff – você conhece?
      Mas isso, o presente, foi antes que ele começasse a vender seus livros aos lotes… E eu assisti a tudo isso!
      Coisas da vida mais uma vez…

      Abração, primo!

  2. That made me feel speechless.

  3. Em 20.07.2018 escrevi a João Rego:

    “Querido João,

    Depois de mais uma travessia, eis que chego à Alemanha e recebo essa notícia devastadora. Oito da manhã, estou tentando me conectar com o Facebook por celular onde sei que ele fizera estreita amizade virtual com Vivian Steinberg Blankfeld, Vânia Cavalcanti, Geisa Carrara, Maria Luiza Borges e tantas outras pessoas que eu conhecia. Os sinais do fim estavam meio disseminados desde o lançamento de meu livro a que ele alegou não poder comparecer por causa da coluna, e senti que era depressão. Seja como for, a morte dele é sim uma tragédia. E a forma como isso se deu pesará um pouco sobre nós todos, mesmo sobre os amigos virtuais ou recentes, como eu. Te digo mais: essa porra desse país está matando muita gente. Não quero ir longe em minhas ilações, mas o tom de desilusão dele com o “fazendão” Brasil não me saía da cabeça. Que tristeza, amigo.

    Abraço,

    Fernando”

    • Pois é, Fernando!

      O “fazendão” Brasil (outra de suas frases que nunca esqueci foi: “o Brasil não é um país, é um bordel”) e o desgosto que ele provocava no nosso amigo por certo contribuíram para o seu desespero final. Ele sempre repetia: “o Brasil é inviável”. Eu provocava: “mas Fernando, você quer que isso aqui seja o quê? a Inglaterra?”… Ele e eu ríamos.
      Mas não toquei nesse assunto na minha evocação. Nem sei bem por quê…

      Abração,

      Luciano

  4. Prezado Luciano,

    Acho que não dava mesmo pra você falar de tudo num só artigo. Na verdade, tivesse eu os meios devidos, contrataria alguém para fazer um apanhado dos textos de Fernando, editaria e publicaria. Por incrível que pareça, numa seara pobre como é o Facebook, ele postou muita coisa boa. De um ano para cá, minha rede de amigos perdeu o charme e o esteio que só ele dava.

    Abraço,

    Fernando

  5. Souvenirs, souvenirs….. Ca me rend triste! Bisous

  6. Lindo texto, Luciano. Fiquei tão triste com a morte de Fernando, que não consegui ir ao seu enterro. Eu tinha grande admiração por ele, não apenas aquela brota em um ex aluno; me sabia muito parecido com ele em muitas coisas. Tínhamos, nos últimos tempos, uma relação “próxima” no Facebook, ao ponto de, por sugestão dele, inclusive, termos acordado a necessidade de um encontro refrescado por vinho. Seria lá em casa. Não deu tempo. Foi-se um cara impagável. Inteligência rápida, ironia fina… Teu texto me trouxe um pouquinho dele. Um abraço.

    ps: Guardei por bom tempo uma prova minha, a qual ele me devolveu com anotações preciosas e divertidas. Me lembro como hoje, eu na timidez brutal de sempre, escutando suas palavras sobre meu trabalho, sentados que estávamos num daqueles banquinhos de pedra do CFCH.

  7. E

  8. Querido e saudoso Luciano.

    Com sensibilidade, engenho e arte você traz nosso Fernandão de volta às nossas vidas. Por um instante fugaz houve de novo Fernando imenso em nossas mentes e lembrança. Ao ler seu texto Fernando sorriu aqui em casa, disperso, sutil, efêmero… mas denso e palhaço como quase sempre. Um mistério de palavra e lembrança materializou-se em lágrima derramada e por isso te agradeço: obrigado, Luciano, pelo texto.

    Me ocorre agora que de Fernando podemos dizer o mesmo que Drummond disse do Mario de Andrade (também quando soube de sua morte repentina) “como haverá de ser o mundo sem essa inteligência criativa e essa cultura tão generosamente distributiva?”

    ou ainda

    “Bem ou mal a morte pôs fim ao rosário de moléstias e inflamações que lhe fustigavam o corpo enquanto ele sobrevivia às doenças e aos médicos (…) a notícia era ruim demais para ser tragada individualmente. Repartida entre os companheiros, torna-se mais assimilável. De absurda que era, a realidade vai-se acomodando ao real. À imagem de Mario de Andrade vivo sobrepõe-se uma novíssima, desconcertante, imagem de Mario de Andrade morto. E é com os traços daquela que esta se configura. Um morto que sorri, junta os dedos em cacho e movimenta-os, exclamando: a própria dor é uma forma de felicidade.”

    Até hoje é difícil pra mim, Luciano, e me alegro de poder dividir isso com alguém. A propósito, lembro de ter deixado com Fernandão uma cópia de “O Olho do Diabo”, do Bergman, a ser entregue a você. Você chegou a receber esse filme? Um abraço.

    • Oi, Pedro!

      Só por um grande acaso li seu comentário.
      É que depois de alguns dias que a gente posta alguma coisa, deixa de ir ver se alguém comentou, até porque, pela minha experiência, ou isso acontece nos três primeiros dias, ou não acontece mais.
      Normal.
      Na voragem em que vivemos, uma semana chega a ser um século!
      Enfim: como se tratava de Fernando, nosso querido amigo, fui por desencargo de consciência ver se alguém ainda teria escrito alguma coisa, e me deparei com sua mensagem cheia de uma saudade e de uma tristeza que partilhamos.

      Toquei nos “dedos em cacho” de Fernando, Pedro, que não os movimentou. Estava tão frio…
      Ele era ateu e eu sou agnóstico, mas rezamos o padre-nosso juntos, eu segurando sua mão pela derradeira vez.
      Ufa!
      Foi tudo muito triste.
      Mas passa, passa…

      Abração afetuoso,

      Luciano

  9. Comovido e comovente o seu depoimento, Luciano Oliveira. Tristeza! Não conheci o personagem, exceto pelo que os amigos e amigas dele escreveram aqui na “Será?” e pelo que ele mesmo, Fernando Mota Lima escreveu na “Será?” A bem da verdade, tampouco conheço os amigos. Nunca pensei que o que Mota Lima escreveu no seu último ano pudesse estar refletindo mais que pessimismo pela situação do Brasil.

  10. Luciano,
    Conheci o Fernando pelo Face. Trocávamos textos, comentários, histórias de vida. Tinha a certeza de que um dia iria conhecê-lo pessoalmente. Foi para mim uma perda insólita.
    Obrigada por seu texto, que ajuda a dar concretude a um amigo que nunca tive.
    Heloisa

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