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Penso, logo duvido.

Hebdomadário da Corte XXV – Luciano Oliveira

Luciano Oliveira

Jornaleiro.

Fui picado pela mosca azul da teoria (terreno que não chega a ser o meu forte) e eis-me aqui, na sequência do “hebdô” da semana passada – onde explorava a hipótese da dinâmica capitalista como trazendo consigo um “potencial emancipador” em relação a “minorias” como mulheres, negros e gays – eis-me aqui, como dizia, voltando a esse sério assunto, desta vez explorando a relação (não riam) entre capitalismo e democracia! O assunto já foi tantos milhares de vezes explorado que chego a sentir, por cima do ombro, meu agudo senso de ridículo sussurrando: “Ih… rapaz, fique na sua. Escreva um artigo sobre o tango argentino, vá!”.  Mas, como diz um velho ditado (supercapitalista, por sinal), “se conselho fosse bom não seria dado”. Além disso, nada entendo de tango. Então…

Num capítulo de Dom Casmurro, intitulado “Um soneto”, Bentinho, o narrador, conta que um dia lhe brotou no juízo um verso já pronto: “Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!”. E continua: “saiu assim, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida do verso, pensei compor com ele alguma coisa, um soneto”. Problema: era necessário compor os trezes versos faltantes! E Bentinho não consegue levar o projeto adiante. Ora, eu também tenho um projeto, a partir de uma crítica que me fez um leitor (um alterego fictício, na verdade, pois ninguém comentou meu texto), dizendo que minha posição era típica de uma “nova direita” que não apenas adere alegremente ao neoliberalismo, mas também desdenha a seriedade da luta de mulheres, negros e gays! Foi quando, remoendo o assunto, também me brotou no juízo uma “exclamação solta” – o que hoje em dia chamaríamos de insight: “existe o capitalismo, eexiste a democracia”. É feio, reconheço, e acho difícil embelezá-lo. Mas vou fazer um esforço promovendo uma mudança gramatical: vou trocar a conjunção aditiva “e” pela adversativa “mas”. E aí a coisa ficará assim: “Existe o capitalismo, mas – porém, todavia, contudo, não obstante – existe a democracia”. Pronto. Se não ficou melhor, pelo menos ficou mais complicado. Resta agora construir o resto do soneto. Ou melhor: já que se trata de uma achega ao texto anterior, construir uma emenda! (Espero que não seja pior do que o soneto que, como Bento Santiago, não escrevi.)

Creio que todo mundo – inclusive meu impertinente alterego – concordará com a afirmação de que as lutas desses movimentos de “minorias” são lutas que se inserem numa dinâmica democrática. Perpassa também, em todas elas, uma espécie de “ethos anticapitalista”, daí a frequência com que na linguagem desses movimentos não é difícil encontrar expressões como “capitalismo machista”, “capitalismo racista”, “capitalismo homofóbico” etc. Ora, a hipótese que comecei a debulhar no artigo anterior é a de que não há relação de causa e efeito entre o substantivo e o adjetivo dessas expressões. Se há racismo no modo de produção capitalista, há também – e sempre houve – em vários outros modos de produção que lhe antecederam. Tomemos como exemplo, entre as “minorias”, justamente aquela que é na verdade uma maioria: as mulheres. Até onde sabemos, a primeira divisão que ocorreu no que chamamos de humanidade não foi social, foi sexual. Em qualquer latitude ou longitude. Oropa, França ou Bahia, mas também África, Ásia ou Oceania. Pouco importa. Os homens, como sempre, eram os dominantes. E essa divisão atravessa os vários modos de produção que existiram na história dessa mesma humanidade. O capitalismo, como qualquer outro sistema econômico, encontrou-a já existindo e, óbvio, na sua dinâmica de tudo submeter à sua lógica, aproveitou-a. O “machismo” – desculpando-me por usar anacronicamente esse termo – é bem mais antigo do que o capitalismo. Um exemplo. Admira-se muito o chamado “milagre grego”, aquele que produziu a filosofia de Atenas. Beleza. Mas na pólis grega não havia lugar para as mulheres. Quem sabe o nome da mulher de Platão ou de Aristóteles? Sabe-se, incidentalmente, que a esposa de Sócrates se chamava Xantipa, que passou à história dessas “vidas ilustres” como sendo uma chata!

É aí onde entra a história – que quero crer disjuntiva – entre capitalismo e democracia. Mas entre a “exclamação solta” de onde parti e sua demonstração, há ainda doze versos a serem escritos, e o espaço acabou. Acho que vou continuar na próxima semana.

4 Comments

  1. Otimo texto para resgate aos esquecidos e/ou desmemoriados,,,marcacao brilhante no ponto “Existe o capitalismo, mas – porém, todavia, contudo, não obstante – existe a democracia”. Pra um pais que tem no nome da moeda a cura de alguns males,,,,e que venha o realismo magico! Lembrando aos amigos que no sistema,,,consumir pode valer tanto quanto votar,,,renovou-se o papel do cidadao e o cidadao ainda so quer falar de politica,,,enquanto as mesmas porcarias entram aos montes em casa…sem uso,,,sem valor,,,pra encher algum vazio,,,que nem se sabe existir…aprimore-se o individuo,,,e o mundo muda…porque curar o mundo, pra mim, ‘e tao louco como dar mais uma dose de pinga ao bebado, na esperanca que fique sobrio.
    Belo texto!

    • Oi, Matheus!

      Obrigado pelo “belo texto!”.

      Mas, quanto a sua mensagem, confesso que não entendi muito bem qual é o teor do seu argumento…
      O que posso dizer é que eu também não acredito que exista algo como “curar o mundo”…
      Foi isso que você quis dizer?

      Abraço cordial,

      Luciano

  2. Luciano, seus textos sao sempre gostosos, este é o melhor adjetivo para transmitir o sentimento que tenho ao le-los. Dificilmente, das ideias neles expostas, discordo. Mas lendo a afirmação de que nas lutas das minorias perpassa um ethos anti capitalista nao me contive. Porque partilho mais a ideia de Merton de que estes movimento sociais nao contestam o capitalismo ou melhor dito a economia de mercado mas reivindicam um melhor lugar na festa.
    Sao movimentos, deste ponto de vista, conservadores. Verdade que suas linguagem, por vezes, nos levam a pensar o contrário. Como membros dos sem terra sao incidiarios hoje para serem bombeiros amanha. Ou estou errado?

    • Caro Elimar!

      Em primeiro lugar, fico sensibilizado por uma pessoa como você se dar à pachorra de ler meus textos. Acredite, é uma das razões por que ainda os escrevo.
      Quanto ao que você diz, de forma alguma acho que você está errado!
      Ao contrário.
      O essencial do que estou querendo dizer é que essa “linguagem” (termo que uso) anti-capitalista é muito conversa da boca pra fora. Até porque, é o que também estou querendo dizer, não existe de forma alguma contradição entre reivindicações “comportamentais” e capitalismo.
      Nenhuma dessas reivindicações atenta contra o que ao capitalismo realmente interessa: a propriedade privada dos meios de produção (desculpe a linguagem fora de moda…).
      Eu falei em “ethos”, certo, mas usei o termo de uma maneira meio frouxa. Não estou me referindo a uma “ethos” de verdade, aquele que implica um modo de vida.
      O “ethos” desses movimentos “diferencialistas” (influência da leitura que estou fazendo de “As Ciladas da Diferença”, de Antonio Flávio Pierucci) não tem nada a ver, ou tem muito pouca coisa a ver, com a velha questão da luta de classes que irrigou nossa formação.
      Não estou, óbvio, propondo uma volta às velhas bandeiras. Mas que algumas delas fazem falta quando vejo essa tal de “guerra cultural” hoje em dia hegemônica (êpa!…) em nulidades como as novelas da Grôbo, ah…, fazem, sim!

      Abração,

      Luciano

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