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Introdução à música clássica – Frederico Toscano

Frederico Toscano (*)

Violino e partitura.

Violino e partitura.

“A música expressa o que não pode ser dito em palavras e não pode ficar em silêncio. ” Com essa frase, o poeta e dramaturgo francês Victor Hugo (1802-1885) sintetiza o poder que essa arte exerce sobre a humanidade há milênios. Meus primeiros contatos com a música clássica foram na infância, ao ouvir pequenos discos coloridos com narração de fábulas, cujos fundos musicais eram peças de Johann Sebastian Bach (1685-1750), compositor barroco alemão. A partir de então, minha curiosidade em explorar aqueles sons tão fascinantes só aumentou. Então vieram os primeiros LPs, livros, dicionários musicais e assim por diante. Porém, jamais percebi qualquer sinal de exaustão ou satisfação na minha sede musical – muito pelo contrário. Quanto mais mergulho na teoria, história e registros musicais, mais percebo o quão infinito e inexplorado é esse universo.

Acredito que essa sensação seja relativamente comum aos apreciadores da música, pois o que foi produzido nesse ramo da arte diante do que foi estudado e gravado é praticamente insignificante. O compositor alemão Georg Philipp Telemann (1681-1767) produziu mais de três mil obras em inúmeros gêneros e o italiano Alessandro Scarlatti (1660-1725) compôs 115 óperas, 150 oratórios e mais de 500 cantatas, além de composições instrumentais. Essas verdadeiras máquinas de composição, como tantos outros mestres, ainda possuem grande parte de sua obra praticamente desconhecida. Isso nos dá uma dimensão do que ainda há a ser revelado e descoberto na música para puro deleite da humanidade e seu enriquecimento cultural.

A apreciação musical, porém, torna-se mais completa e prazerosa quando está associada a alguns elementos e conceitos básicos da música, além do próprio contexto histórico e social dos compositores e composições. Assim, temos a altura e o ritmo como a matéria-prima essencial da música. Por meio das convenções da arte musical do Ocidente, compositores e músicos manipularam essa matéria-prima, com criatividade e sucessivas inovações.

E aqui um pouco de teoria e física, já que a essência da música é a matemática. Para se produzir um som, é necessário que se estabeleça uma vibração no ar com o movimento de uma corda esticada, da membrana de um tambor ou da coluna de ar dentro de um cilindro, por exemplo. Se a vibração for regular, ela será ouvida como uma nota de certa altura. Se a vibração for rápida, a altura será considerada alta (aguda); se for lenta, soará baixa (grave). Como regra geral, quanto mais comprida a corda ou a coluna de ar, mais baixa a altura. As diferentes alturas, da mais aguda à mais grave, correspondem às notas musicais. Estas agregadas num conjunto formam as melodias. A execução simultânea de várias notas cria a harmonia. E o ritmo? Digamos que, se as notas individuais de uma composição fossem tijolos, o ritmo seria a argamassa, unindo-os uns aos outros. O ritmo é a pulsação da peça musical. A velocidade dessa pulsação é o “andamento” da obra, indicados pelos compositores por termos como “Adagio”, “Allegro”, “Vivace”, “Presto”, “Andante” e vários outros.

Na música ocidental, dispomos de sete notas básicas, que correspondem às diferentes alturas identificadas: lá, si, dó, ré, mi, fá e sol. Uma série dessas notas corresponde a uma escala, que pode ser maior ou menor. Tradicionalmente, os sentimentos atribuídos à escala maior são positivos – ora suave, ora triunfante; a Sinfonia Heroica do compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827), por exemplo, tem o tom heroico de mi bemol maior. A escala menor é geralmente associada a uma atmosfera mais sombria – ora lamentosa, ora trágica. A famosa Marcha Fúnebre da segunda sonata para piano do compositor polonês Frédéric Chopin (1810-1849) tem o tom de si bemol menor.

Em outra metáfora com a arquitetura, construir uma peça musical é manipular esses materiais em diversos formatos. Como um edifício, a música é projetada pelo compositor como uma planta de arquiteto. Uma sinfonia equivaleria a um castelo, com sua grandiosa estrutura, ao passo que uma canção seria uma modesta cabana, bem menos complexa. A cor (textura) de uma peça musical depende de como as vozes ou instrumentos são usados e combinados. Além das técnicas de composição, em sua execução as obras musicais necessitam dos músicos e dos seus instrumentos. Os instrumentos evoluem à medida que os instrumentistas exploram diferentes caminhos para realizar o que os compositores exigem e os fabricantes de instrumentos experimentam novos materiais e tecnologias. A orquestra atual tem raízes nos conjuntos instrumentais do século XVI e nas bandas do século XVII. As primeiras orquestras, em geral ligadas a uma corte, uma igreja ou um teatro, variavam em estrutura de região para região. Durante o século XVIII, à medida que obras populares começaram a ser executadas por toda a Europa, tornou-se necessária certa padronização das orquestras. O século XIX assistiu ao surgimento dos concertos públicos em salas amplas que exigiam instrumentos mais potentes e orquestras maiores. Nessa época, a orquestra atingiu mais ou menos seu formato atual.

É comum a ideia de que a música clássica deve ser tocada no ambiente formal de uma sala de concerto (do italiano “concertare”: combinar/agrupar), com público em traje de gala e que exige uma grande orquestra sinfônica, porém vale a pena ressaltar que o fato de um compositor profissional ter suas obras interpretadas por músicos profissionais para um público pagante é um fenômeno relativamente recente. A iniciativa de comparecer a um concerto especificamente para escutar música era bastante incomum até o século XVII. A maioria dos compositores antigos era desconhecida em suas épocas, assim como grande parte dos músicos. Apenas a partir do final do período Barroco, os músicos começaram a sair da obscuridade. Os primeiros a obter fama na Europa foram os organistas, violinistas e cantores. Bach, por exemplo, era mais conhecido como organista do que como compositor – caindo no esquecimento após a sua morte, até ser redescoberto em meados do século XIX.

Nos séculos XVII e XVIII, os músicos se reuniam para tocar mais para públicos restritos (aristocratas) do que para o público em geral. Até meados do século XIX, o compositor também era o regente e intérprete de suas obras. A execução de músicas compostas por gerações precedentes era muito rara até o século XIX. Até essa época, quase toda a música ouvida era contemporânea, geralmente composta para eventos específicos. Foi na Inglaterra que os instrumentistas começaram a mostrar interesse pela música do passado, mas não tão longínquo, e criaram em 1726 a renomada Academy of Ancient Music, ainda hoje em atividade. O próprio regente, estritamente como “comandante” de uma orquestra, passou a receber mais foco nesta função distinta a partir de meados do século XIX. É importante frisar que seu ofício não se resume apenas a marcar o ritmo da música. Durante a execução, deve indicar aos músicos as entradas e incentivar a orquestra a soar como uma unidade. Grande parte das diretrizes o regente transmite antes da apresentação propriamente dita.

Os compositores Niccolò Paganini (1782-1840) e Franz Liszt (1811-1886), respectivamente violinista virtuose e grande pianista, introduziram o recital solo no início do século XIX. Percorreram a Europa extensamente, tocando em grandes capitais da Inglaterra à Rússia. Antes de Liszt, o pianista tocava de costas para a plateia. Ele foi o primeiro a tocar piano de lado para o público, como assistimos hoje em dia. Na mesma época em que Paganini e Liszt estabeleciam sua reputação ao redor da Europa, desenvolvia-se nos EUA um mercado para celebridades musicais. A soprano Jenny Lind (1820-1887), conhecida como “O Rouxinol Sueco”, por exemplo, cantou para mais de sete mil pessoas em Nova York, em 1850. Ganhou mais de US$ 350 mil nesses concertos, doando para caridade, principalmente para escolas na Suécia. A Orquestra Filarmônica de Berlim, formada em 1882, estabeleceu o que muitos passaram a considerar o padrão mais requintado na execução orquestral.

A partir desse passeio introdutório no universo da música clássica, conversaremos mais detalhadamente sobre as principais escolas da música e suas obras-chave nas próximas colunas.

(*) Frederico Toscano trabalha no Ministério da Ciência e Tecnologia, é mestre em administração e autor do blog Euterpe [http://euterpe.blog.br], especializado em música clássica.

3 Comments

  1. Parabéns Fred pela iniciativa. Excelente texto!

  2. Muito bom!

  3. Gostei muito do conteúdo e fico no aguardo dos próximos.

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  1. As origens da música clássica – Frederico Toscano | Revista Será? - […] parciais (não harmônicos) que nossa imaginação filtra com difícil identificação das alturas (vide artigo anterior). Quem ouve o terceiro…

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