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Penso, logo duvido.

Juventude perdida – Editorial

Editorial

Sheila Cristina Nogueira da Silva chora a morte do filho Carlos Eduardo, 20 anos.

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo, com mais de 60 mil homicídios, o que corresponde ao assustador índice de 29,9 homicídios por cem mil habitantes, atrás apenas de oito outros países, segundo a OMS-Organização Mundial da Saúde. Em 2016, foram registradas no Brasil 61,6 mil mortes violentas, crescimento de 3,8% sobre o número já elevado de 2015, o que corresponde a sete assassinatos por hora (IPEA/Forum Nacional da Segurança Pública). As principais vítimas dos homicídios são os jovens, que estão morrendo e matando nas cidades brasileiras. Os homicídios são responsáveis por cerca de 47,8% das mortes da população de 15 a 29 anos, percentual que salta para 53,8% quando se trata dos casos de homicídios na população masculina. Este desastre da juventude corresponde ao enorme percentual de jovens nesta faixa etária que não trabalham nem estudam, cerca de 22,5%, que equivalem a 11,56 milhões de pessoas que deveriam estar sendo preparadas para construir o futuro do Brasil. A realidade da juventude brasileira é ainda pior porque a parcela dos jovens que estuda não encontra escolas com qualidade que os preparem para a vida, para o mercado de trabalho e para a inclusão social. O fiasco do ensino médio do Brasil condena os jovens ao fracasso e compromete o futuro do país, dependente desta juventude. A avaliação internacional da qualidade do ensino (PISA- Programa Internacional de Avaliação de Alunos) joga o Brasil na 57ª posição dos 65 países estudados, caindo para a 58ª em Matemática e 59ª em Ciências. Na pesquisa de 2015, apenas 2,2% dos estudantes brasileiros alcançaram excelência em pelo menos uma das áreas (Leitura, Ciências ou Matemática) e 44,1% tiveram nota baixa nas três áreas. Esta é a juventude do Brasil, vitima da violência, padecendo da ociosidade que alimenta o crime, e com escolas que desestimulam e não preparam para o futuro. A juventude estará perdida, se não houver um esforço concentrado para reverter esta dramática situação. E, com ela, o Brasil  também .

4 Comments

  1. Tão triste, e tão verdadeiro. O que fazer? Tem gente propondo medidas na educação, tem gente propondo controle da fronteira para conter o contrabando de armas e drogas. Mas a sociedade toda está violenta, até na linguagem. Há uma raiva difusa em toda parte, “pavio curto” meio generalizado. As manifestações de rua são violentas, pois em democracia normal não se faz comício sem acordar previamente lugar e hora com as autoridades, até para que estas organizem o trânsito e assistência médica emergencial. Precisaríamos buscar alguma calma e sensatez para discutir medidas e fazer avaliação de política publicas, cancelar as que não estão fazendo efeito.

  2. Belíssimo editorial. Poderíamos continuar com as cifras. São muitas, infindáveis. Ganha destaque na imprensa quem pesquisar mais uma. Fiz um experimento sociológico comigo, como se criasse um laboratório. A ideia surgiu na Serra da Mantiqueira: Isolada do mundo civilizado; Ouvindo somente o vento soprando nas araucárias e os bichos do dia e da noite; Vendo uma das mais belas naturezas de nosso país, em cima das nuvens. Voltei para o mundo civilizado, porém carreguei comigo o gosto pelo isolamento. Não vejo televisão, não acompanho as notícias por nenhum canal. No aparelho de TV, vejo e ouço concertos maravilhosos de jazz, blues, música clássica, MPB. A música ouvida povoa meu espaço, abafando por vezes o som ao redor, se quero sossego para escrever. Fosse isso em 1968, eu mesma me classificaria como alienada. Hoje, com 72 anos, mais perto da porta de saída, acho que mereço (já que posso me dar a esse luxo) viver com mais intensidade o que vale a pena da vida: a beleza, o prazer, o conhecimento. Afinal, além da aposentadoria, esse deveria ser um direito dos velhos, escrito na constituição.
    Pois voltemos ao tema do editorial. De meu laboratório urbano, as notícias que sei do mundo me chegam pelos ruídos da rua, quando paro para escutá-los. Abro a janela de meu confinamento no sétimo andar e espio. Não ouço. É um teatro de surdo-mudos. Nesse teatro, vejo personagens do cotidiano do bairro do Pina, onde moro. Vejo as carroças puxadas a tração humana que provêm o conforto e a bebida para os banhistas. Vejo, nos campos de futebol aqui em frente, com direito a taças e comemorações, os campeonatos mundiais de futebol, a cada semestre, com as cores dos melhores times do mundo e do Brasil sobre bermudas desencontradas e pés descalços.São os moradores do bairro do Bode. Vejo Seu Elias, meu vizinho, que mora no outro lado da rua e teve grande transtorno com sua casa ao relento nesse último rigoroso inverno. Quando preciso entender melhor o script, vou aos atores, viro socióloga, com 40 anos de pesquisa nas costas.
    As notícias me chegam pela rádio peão. Todos os que trabalham hoje ou já trabalharam um dia em repartições, sejam públicas ou particulares, sabem que são um microcosmo da sociedade, com suas divisões de classes e de funções. Nelas, corre a rádio peão. Há uma versão para o que acontece num mundo a que eles servem com os cafezinhos, a limpeza, até o trabalho de datilografia, quando existia. No meu laboratório, sei das notícias somente pelo que ouço na versão da rádio peão. Pode ser por seu Elias, pelo vendedor de coco da barraca aqui em frente, Magno, pelos porteiros do prédio. Mas a fonte principal mesmo é Edinha, minha empregada doméstica, com quem tenho, ademais, grande prazer na prosa, pelo que compartilhamos de assuntos da vida. E que me traz três vezes por semana, para dentro de meu apartamento, a periferia de Barra de Jangada, a vida dos trabalhadores e bandidos que convivem no mesmo bairro, seus vizinhos, sua família.
    Ainda a semana passada, depois de 14 assaltos à mão armada em um mês aos ônibus que transportam passageiros entre Gaibu (outrora uma praia de veraneio e hoje, como outras de nosso litoral, transformada em cidade dormitório) e Barra de Jangada, a polícia tomou uma providência: policiais à paisana entraram no ônibus com ordem para atirar. Um bandido conseguiu fugir pela porta da frente, ameaçando o motorista com revólver. O outro, com a sacola carregada de celulares, relógios e dinheiro, foi morto à queima roupa na porta de saída atrás do ônibus. Seu corpo foi velado na mesma rua de Edinha. “O pai é um homem direito, trabalhador, que deu estudo aos filhos, nunca deixou faltar nada em casa.”
    As vezes também preciso sair de meu laboratório para saber melhor como a prefeitura, por exemplo, controla e determina o setor informal entre os barraqueiros da praia. Aí vou até lá. Chego ao Secretário que cuida desse setor. Um herói do serviço público. Sua secretaria, não por acaso, é apelidada de “Faixa de Gaza”. O que seria a nomeação mais apropriada para aquela secretaria, pois, afinal, ela cuida de, ao modo brasileiro, apaziguar uma guerra civil em curso, também ao modo brasileiro. A Orla, para ele, é um passeio, se comparada à Zona Norte, aos morros que sobem de Casa Amarela, ao entorno do comércio formal, dos mercados. Já que estava na prefeitura para assistir à reunião com uma associação de barraqueiros da Orla, na mesma sala, no restante da manhã (o assunto da Orla se resolveu rápido) assisti a outra, essa sim, a justificar o título de Faixa de Gaza. E não me venham os homens, que não gostam de ler romances de amor e preferem os de guerra, me dizer o que é uma guerra. A nossa, por ser isso aqui o Brasil, é diferente dos modelos convencionais. Até da Guerra Civil norte-americana, onde, com certa semelhança, havia uma profunda divisão de classes e de raças.
    Providências? Nada muito diferente do que já se fez, em outro contexto, no combate aos mocambos: no tempo em que os trabalhadores da cana expulsos pela tecnologia, vieram se instalar nos mangues, preservando-os da destruição desastrosa que deixou a cidade plantada de concreto e impossível de controlar suas águas. Hoje, trata-se de controlar o chamado setor informal. Não mudou nada: a mesma impossibilidade.
    Ainda bem que existem os Léos da vida, que, em Barra de Jangada, todo sábado, chova ou faça sol, tira seu dia de folga para ensinar os meninos da redondeza, inclusive seu filho e sobrinho, a jogar bola. A ver se não entram no time dos bandidos. Consegue, pela mãe que já teve muitos patrões em casas de família, os garrafões de água para a sede dos jogadores mirins, o barbeiro do bairro que, a cada sábado corta de graça os cabelos de dois deles de graça. E por aí vai.
    E, enquanto la nave va, nosotros estamos trancafiados em em nossas fortalezas de concreto e nossos automóveis de vidros fechados, a ver se não somos mais uma vítima da guerra civil.

  3. PS: esqueci de acrescentar: os que não estão trancafiados, submetidos à cultura do medo, que é o tema dos noticiários, estão indo de monte para Lisboa, para Miami. Nada a ver com a nossa primeira leva de migrações para fora do Brasil que estudei e publiquei em “Brasileiros longe de casa” pela Cortez em 1999. Daria mais um tema de pesquisa. Dispendioso. Precisaria entrar de novo na parafernália da burocracia de obter recursos de pesquisa, o que já tirei de minha vida pelos motivos do primeiro parágrafo do comentário.

  4. Bendita reclusão, Teresa. E que maravilha que as comportas agora tenham sido abertas. Pode ser o começo do fim de nossa carência.

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