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Penso, logo duvido.

Maio de 1968: para além de “ostras para todos” – Helga Hoffmann

Helga Hoffmann

Tariq Ali and Vanessa Redgrave during an anti-Vietnam War.

Qual é o legado do 68? É possível resumir os acontecimentos daquele ano e efeitos de longo prazo? Até que ponto vale tratar 1968 como marco mundial de significado comum para eventos diferentes em países diversos e que tiveram em cada país consequências próprias? Verdade que 1968 foi ano de forte turbulência no mundo todo, e revelou um peculiar choque de gerações, mas é cedo para uma avaliação histórica. Não porque devamos adotar a percepção de prazos históricos de Zhou Enlai. Como é bem conhecido, alguém perguntou a Zhou, durante a visita de Nixon à China em 1972, como avaliava o legado da Revolução Francesa (a de 1789) e ele se saiu com “é cedo para dizer”. Essa resposta do elegante líder chinês virou chavão para ilustrar a diferença na percepção de tempo entre chineses e ocidentais. Mas há quem diga, agora, que quem perguntou falava de 1968, e não 1789, e a resposta, perdida na tradução, virou lenda.[1]

1968 é difícil de avaliar porque os jovens, revolucionários ou não, celebridades de hoje ou não, que participaram dos movimentos – então com 20 anos de idade, pouco mais, pouco menos –  estão vivos contando aos netos e jornalistas suas estórias. Os protagonistas divergem até sobre fatos e, mais que um cidadão qualquer, tendem a ler o passado com lentes do seu cotidiano de agora.

Um dos líderes das grandes manifestações de 1968 em Londres – em março contra a guerra do Vietnam, em outubro contra a invasão da Tchecoslováquia pelos tanques da União Soviética – foi Tariq Ali, paquistanês, hoje britânico e celebridade internacional da “esquerda radical”. Chegara à Universidade de Oxford em 1964, aos 20 anos, porque os pais, comunistas pró-Moscou e latifundiários no Punjab, acharam que ele corria perigo depois que um tio no Serviço de Informação mostrou o tamanho da ficha corrida que ele já tinha, por liderar manifestações antiamericanas e antibritânicas de estudantes em Lahore. Destaca-se à frente nas fotos de 1968 em Londres, alto e vestido de túnica ou jaqueta branca, mas hoje relata indignado que as ideias que prevaleceram não foram aquelas de tomada de poder e de governo que ele, membro do Grupo Marxista Internacional, defendia (e defende até hoje).[2]

No caso da Inglaterra, segundo ele, “porque a hegemonia no movimento da classe operária e o monopólio total da representação da classe operária no Parlamento detidos pelo Partido Trabalhista (Labour) impediram que o movimento se ampliasse, até a greve dos mineiros”. E desde então, em suas palavras, as “regressões dominaram a Grã-Bretanha neoliberal”. Ou seja, o Labour Party não permitiu a revolução, além de que alguns nesse partido eram a favor da Guerra do Vietnam. Em 1970, a vitória foi do Partido Conservador.

A antiga ligação institucional entre sindicatos e Partido Trabalhista não existe mais, porque não há mais sindicatos, que teriam sido destruídos por Margaret Thatcher. Agora está apostando em Jeremy Corbyn, atual líder do Partido Trabalhista, porque este promete algo como um governo socialista com reestatização de ferrovias e serviços públicos e a volta da Universidade gratuita. Tariq Ali fez campanha por Brexit porque a União Europeia é “máquina de capitalismo” e enfrentou a crise “salvando bancos”, mas contornou a contradição (pois Corbyn foi contra Brexit), ao sugerir que com um governo “de esquerda” a Grã-Bretanha poderia beneficiar-se da União Europeia.[3]

Segundo Tariq Ali não ficou nada de 1968, “aquele foi o ano que foi”: “Internacionalmente… a única vitória foi no Paquistão, onde um levante de três meses, liderado por estudantes, aos quais se juntaram trabalhadores, e camponeses em algumas partes do país, virtualmente todas as profissões, funcionários públicos, advogados – todo mundo, inclusive, devo dizer, prostitutas. Saíram às ruas e marcharam por democracia, socialismo e o fim da ditadura. Um slogan popular era ‘Capitalistas e latifundiários, afastem-se. O Paquistão pertence a nós.’ Isso começou em novembro de 1968 e terminou em março de 1969. A ditadura foi derrubada, e pela primeira vez foram permitidas eleições livres.”[4]

Surpreende a menção ao “excepcionalismo paquistanês” daquele ano, país de extremos de pobreza e riqueza, onde dominava uma ditadura corrupta, e onde os estudantes reivindicaram sobretudo redução nos preços dos alimentos. Na Grã-Bretanha, que tinha um governo trabalhista, e onde não houve greves operárias tão generalizadas quanto na França, o legado foi a interação mais intensa entre atividade cultural e política e a ajuda aos vietnamitas.

Daniel Cohn-Bendit conta que quando chegou à Alemanha – transformado em “Danny, le Rouge”, expulso da França quando  De Gaulle retomou o controle – os “camaradas” alemães (aspas dele) lhe perguntaram “o que é socialismo para você?”. A resposta de Danny, le Rouge, foi “ostras para todos”.[5]Segundo ele, isso teria chocado os líderes puritanos da SDS (Sozialistischer Deutscher Studentenbund), a União Socialista de Estudantes Alemães. Uma resposta dessas não teria melhorado a imagem de Danny, le Rouge, entre os operários franceses que tinham encerrado sua greve.

Maio de 1968 registra a maior greve operária da história da França. Mas não existiu uma união operário-estudantil. Estudantes tinham seus lemas, operários tinham outros. As diferenças estão documentadas.[6]Os estudantes ansiavam pela adesão dos operários ao seu movimento e não entenderam porque os operários que ocuparam as fábricas fecharam os portões e não permitiram a entrada dos estudantes. Roland Leroy, dirigente do Partido Comunista Francês (PCF), declarou na Assembleia Nacional, em 21 de maio de 1968, “Os comunistas não são anarquistas cujo programa tende a destruir tudo sem construir nada.”[7]Cohn-Bendit jamais perdoou alguns franceses xenofóbicos que o menosprezaram como “o anarquista alemão”, mas hoje é intensamente pró-União Europeia, algo que não era tema nos 1960s.

Curiosamente, a explicação de Cohn-Bendit e vários outros líderes estudantis para o fato de que a revolta na França foi absorvida, e não resultou em mudança de governo, tem semelhança com a de Tarik Ali. No caso britânico o culpado foi o Partido Trabalhista, no caso francês, o PCF: os operários traíram os estudantes porque os sindicatos eram controlados pelo PCF e seus membros nas fábricas e na Confederação Geral dos Trabalhadores recomendaram que aceitassem a oferta do governo De Gaulle (aumento de 35% no salário mínimo e de 10% nos salários em geral) dos chamados Acordos de Grenelle, que encerraram a greve. Essa interpretação da posição do operariado industrial é a-histórica, ignora que o PCF de fato representava a posição majoritária do operariado e que o declínio dos velhos partidos comunistas começou mais tarde, e no final marcada pelo esfacelamento do império soviético que deixou os comunistas órfãos de Moscou.

Os operários consideraram que a greve tinha valido a pena e ainda em 1970 o PCF aumentou sua votação na França. O fato de os líderes estudantis classificarem o fim da greve como “traição” sugere que se tome cum grano salisa declaração de outro líder estudantil do maio francês, Serge July, hoje editor do jornal Libération, de que as manifestações “não eram para tomar o poder”.[8]Fato é que, com sua difusa “revolução imaginária”, os estudantes não tinham condições para mudar o governo e tomar o poder, que De Gaulle conseguiu recuperar pela via democrática.

Na Alemanha, assim como na Grã-Bretanha, as manifestações mais importantes do 68 foram contra a guerra do Vietnam. Já em 1966 imensas manifestações contra a guerra do Vietnam foram dispersas pela polícia em Berlim Ocidental. O movimento estudantil na Alemanha nos 1960s era mais ativo que na França, e se ampliou e se radicalizou depois que o estudante Benno Ohnesorg foi morto a tiros por um policial em junho de 1967, em manifestação em Berlim Ocidental contra a visita do xá do Irã. Havia entre os estudantes alemães particular interesse pelos movimentos no chamado Terceiro Mundo. O evento de maior repercussão foi o congresso estudantil organizado pela SDS em janeiro de 1968 em Berlim Ocidental, para protestar contra a guerra do Vietnam. Tem-se a impressão que a esquerda jovem de todos os países, de diferentes matizes, céticos do Vietcong ou apoiadores de Ho Chi Minh, esteve lá nesse congresso de Berlim. Até os que na década seguinte passaram à guerrilha urbana.

Existiu também a rebeldia que já vinha de 1960 inspirada pelos Beatles, mas o choque de gerações na Alemanha Ocidental teve a característica de protesto contra a permanência de nazistas em postos de chefia nas empresas e na administração pública. Uma faixa pendurada na Universidade de Hamburgo ficou famosa e seria uma alusão ao nazismo: “Sob a toga acadêmica, o mofo de mil anos”. Os universitários eram muito influenciados pela SDS, enquanto Rudi Dutschke foi o líder. Em abril de 1968, Rudi Dutschke foi baleado na cabeça por um jovem anticomunista. Sobreviveu, mas foi embora para Londres para se tratar, e depois disso o movimento estudantil alemão se despedaçou em diferentes grupos hostis entre si (maoistas, leninistas, trotskistas, guevaristas e outros) inclusive grupos terroristas como RAF, Baader-Meinhof e outros, que foram, nos 1970s e início dos 1980s, um legado maldito do 68 estudantil na Alemanha.

Rudi Dutscke morreu cedo, por sequelas do atentado de 1968, e já não é discutido, mas suas ideias estão registradas em vários livros, sobretudo editados por seus filhos.[9]Defendia métodos democráticos de transformação da sociedade e, vindo de família evangélica na Alemanha Oriental (de onde escapara um dia antes de ser fechado o Muro de Berlim), acreditava em algo como um “socialismo cristão”.

A avaliação histórica por fazer terá que considerar em cada país o governo que havia: trabalhista na Inglaterra; conservador na França da era De Gaulle; ditaduras como no Brasil ou Paquistão, uma endurecida, outra derrotada; ditadura soviética na Alemanha Oriental, de um lado do Muro de Berlim, e Grande Coalizão (CDU,CSU,SPD) com oposição extraparlamentar do outro lado, na Alemanha Ocidental. O Muro de Berlim tinha 7 anos e duraria mais 21 e, por isso mesmo, o que alimentou na Alemanha Oriental alguns protestos e a esperança de liberalização foi a “Primavera de Praga”, sepultada em agosto. Em Portugal ainda havia a ditadura de Salazar e a revolução que merece o nome só chegou em abril de 1974, a Revolução dos Cravos, que marca o fim do salazarismo. Na Espanha ainda era ditador o General Franco, eram ínfimos os sinais de uma tentativa de transição, e os bascos do ETA embarcaram de vez em atos terroristas.

Na Itália havia um governo de centro-esquerda constituído pelo Partido Democrata Cristão e o Socialista e, nas eleições de maio de 1968, o Partido Comunista Italiano tornou-se o segundo maior partido na Câmara, depois dos cristão-democratas. Ali o movimento estudantil que integrou o Sessantottoera particularmente heterogêneo (talvez porque os comunistas italianos não seguiam a linha de Moscou) e havia grupelhos que sonhavam com a guerrilha de Guevara, Tupamaros, a Revolução Cultural de Mao, e em anos subsequentes degeneraram em extremismo e violência, como as Brigate Rosseque viam na guerrilha urbana a possibilidade de revolução na Itália e assassinaram o Primeiro Ministro cristão-democrata Aldo Moro. Os antigos partidos já nem existem, mas ficou ao menos o legado de maior participação política dos jovens e das mulheres.

Nos Estados Unidos, o Presidente Lyndon Johnson, do Partido Democrata, levava os gastos militares e as atrocidades no Vietnam a níveis inéditos. Lá se deram tanto os maiores protestos contra a guerra, como as manifestações mais fortes da contracultura e da mudança de costumes. Lá foi mais forte e dolorosa a luta por direitos civis e contra o racismo. Lá foi assassinado, em abril de 1968, o Reverendo Martin Luther King. De lá veio a faísca mais forte para os movimentos dos jovens na Europa e a rebelião de costumes em geral. Os líderes do Maio de 1968 reconheceram essa liderança e seu caráter pioneiro.

Não sei o suficiente para uma avaliação de conjunto. Mas a variedade das situações políticas é tamanha que não basta classificar os movimentos da época como rebeldia contra a sociedade patriarcal e por mudança de costumes. E ainda seria necessário entender em cada lugar como funcionou a repressão policial, sem ignorar a violência extrema de alguns grupos, o sofrimento, os mortos e os feridos.

Verdade que Janis Joplin, tão rebelde e tristemente anticonvencional, só se tornou sensação em 1968, e seu anárquico lamento, “liberdade é apenas uma palavra que diz que já não há nada a perder” (“freedom is just another word for nothing left to loose”, na canção Me&Bobby McGee) só alcançou o público em 1971. Mas cabelo comprido p’ra homem, biquini e minisaia, pílula anticoncepcional, perda de virgindade antes do casamento, movimento hippie com suas comunas e amor livre, Rolling Stones, Beatles, Joan Baez e Bob Dylan no movimento pelos direitos civis, Simon & Garfunkel cantando que a vida pode ser dura, a contracultura dos “beatniks” nos campus das universidades americanas  – tudo isso já era conhecido e difundido desde os primeiros anos dos 196Os, não foi conquista antipatriarcal francesa do Maio de 1968.

Por que ainda se acredita que 68 virou cifra por causa do Maio em Paris? Talvez essa revolta libertária, a “revolução imaginária”, concentrada em um slogan tão anárquico e contraditório quanto “é proibido proibir”[10]tenha sido fenômeno mais especificamente francês, de uma França onde convenções, regras de conduta, formalidade e pompa eram mais sufocantes. E porque essa é a história contada por um intelectual carismático, ícone a posteriori, uma narrativa com mais charme que a de um movimento político fracassado em que o vitorioso foi Georges Pompidou.

[1]Dean Nicholas, “Zhou Enlai’s Famous Saying Debunked”, History Today, 15 de junho de 2011

[2]Tariq Ali talks to David Edgar, “That was the year that was”, London Review of Books, 24 de maio de 2018.

[3]A distorção é coerente para alguém que tem defendido a “Revolução Bolivariana” e que ainda em 9 de maio de 2018 anunciava no seu twitter que “Jeremy Corbin, líder do Partido Trabalhista do Reino Unido, recebeu a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, deposta por um golpe”.

[4]Tariq Ali talks…, op. cit.

[5]Daniel Cohn-Bendit & Claus Leggewie, “1968: Power to the Imagination”, The New York Review of Books, 10 de maio de 2018.

[6] Mitchel Abidor “When the Communist Party Stopped a French Revolution”, The New York Review of Books, 19 de abril de 2018.

[7]Mitchel Abidor, op.cit.

[8]Entrevista de Serge July a Andrei Netto, O Estado de S.Paulo, 27 de maio de 2018.

[9]Rudi Marek Dutschke, Spuren  meines Vaters(Vestígios do meu pai), Kiepenheuer und Witsch, Colonia, 2001

[10]A expressão “É proibido proibir” nasceu como piada do humorista Jean Yanne na rádio. Algum estudante bem humorado gostou e o lema se espalhou pelos muros da universidade, pichado junto com os outros dois slogans mais usados, “Sob as pedras do calçamento, a praia” e “Sejam realistas, peçam o impossível”.  Virou expressão poética de rebeldia jovem, como a que havia na Inglaterra em grupos mais extremos ,“Não confie em quem tem mais de trinta anos”. Vide Roger-Pol Droit, “Il est interdit d’interdire: une erreur de Mai 68”, Les Echos, 9 de fevereiro de 2018.

3 Comments

  1. Bom! Recomendo a leitura

  2. Esse ensaio de Helga Hoffmann me tira de velhas certezas. Salvo engano meu, ela vê nas manifestações de rebeldia juvenil da primavera de 68, repetidas nos maiores países europeus e nos EUA, sobretudo o dedo demográfico. O Ocidente teria ficado mais jovem (e sabemos que, 20 anos antes, houvera o “baby boom” do imediato pós-guerra). E essa injeção de juventude teria dado à “canção” dos acontecimentos uma “letra” que variava de país para país (embora no geral, marcada pela conjuntura histórica: pelos vários sinais que pareciam indicar o avanço da onda vermelha do socialismo). Mas a “melodia” que eles cantavam em todo lugar era a mesma da rebeldia jovem. O que já vira um alerta aos homens do futuro: observem bem a pirâmide etária! Muito jovem de repente é sinal certo de turbulência.
    Sob o ponto de vista dos resultados, Helga faz ver o parco legado desses movimentos. Mais duradoura lhe parece (a mim, idem) a “revolução conservadora” ocorrida naquela década: o movimento dos direitos civis nos EUA, a revolução na música e nos costumes (nas modas, na conduta sexual). Os acontecimentos na França (o Mai/68) aparecem como representativos. A ação do movimento estudantil (ao lado de uma pauta específica, que a autora não aborda) teria sido pouco mais do que uma tentativa frustrada (imatura que era) de tomar das mãos do Establishment operário, partidário e sindical a direção de um vasto movimento reivindicatório (uma greve geral). Resultou esta, que era algo independente, em melhorias salariais, no fortalecimento da representação operária tradicional e no surgimento de um delfim para o gaullismo. (Lembro do General, numa hora de aturdimento, refugiado numa base francesa no sul da Alemanha, E Pompidou na gerência da crise. Da qual sairia para a presidência da República). Foi o legado. A nós, que éramos jovens na rua do Hospício, restam as lembranças: os slogans (“é proibido proibir”, “seja realista, queira o impossível”), fotos inapagáveis como a de Cohn-Bendit (Dani, o Vermelho), misturadas com as nossas. Um legado de saudade.
    No mais, noto pelas referências que os jovens protagonistas daqueles reboliços ficaram presos a eles. Parecem ter gasto o mês passado inteiro (e a vida inteira) a falar deles. E é um pouquinho esquisito ver um progressista a viver do passado… Como não deixa de surpreender que um Tariq Ali tenha se refugiado na Inglaterra pelo resto da vida. E mudou de país, não de pensar. Bicho estranho o capitalismo, que paga bem para se falar mal dele. Marx já avisara que ele tem o condão de transformar tudo em mercadoria.
    Enfim, a informação de Dean Nicholas, reproduzida no artigo, me trouxe um desencanto: eu preferia que Chou En Lai estivesse mesmo falando da Revolução de 1789. Referida a ela e não aos eventos de 68, a afirmação do “cedo para julgar” teria ficado mais interessante. Seria uma boa boutade. E simbolizaria melhor o que tenho como o modo chinês de ver o mundo ocidental e compreender o ritmo histórico (não será isso outra ilusão?).
    É. Perder as ilusões. Beber o vinho machadiano da verdade. E mais do que parabéns, dizer obrigado a Helga Hoffmann, por ensinar e desensinar.

  3. Comentário que depende de leitura atenta dá trabalho. Vou fugir do debate, da réplica e da tréplica. Agradeço ao meu colega economista Luiz Alfredo Raposo por ter se dado ao trabalho. Vai só um desabafo: como é difícil conseguir clareza na escrita! Eu pensei que tinha mostrado o contrário, que não foi desencontro entre jovens e velhos, e sim, que a natureza da revolta, além de não ser apenas juvenil, dependeu das condições sociopolíticas em cada país: não no mundo em geral, em cada país. Por exemplo, Tariq Ali fala pelos cotovelos sobre a sua juventude de 68 e ignora que em junho de 1968 houve uma greve de mulheres na indústria do vestuário na Grã-Bretanha que pediam salário comparável para homens e mulheres. Eu quis apenas provocar. Então imagino que será mais uma provocação, em uma revista que tem tantos homens (e uma mulher) de literatura, dizer que, se alguém quer entender os 1960s e especificamente 1968 nos Estados Unidos, leia “American Pastoral” de Philip Roth. É de 1997, mostra um conflito de gerações, é genial, e existe em português desde 2013. E por falar em literatura do 68, devo admitir a lacuna de não ter lido o livro de Zuenir Ventura, o sucessor de Ariano Suassuna na ABL, “1968: O ano que não terminou”. Mas ainda espero fazê-lo.

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