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Penso, logo duvido.

Memórias de Redação –  Voo cego –  Ivanildo Sampaio

Ivanildo Sampaio

Detalhe de máquina de datilografia.

Naquele verão de 1970 fui escalado para produzir um suplemento tablóide de 32 páginas, sobre o Estado do Mato Grosso, a ser encartado na edição nacional da Revista Manchete. Há meio século atrás, o Mato Grosso, assim como o Estado de Goiás, ainda não havia sido dividido em dois, as belezas naturais do Centro-Oeste eram praticamente desconhecidas da grande maioria dos brasileiros, Cuiabá era uma capital provinciana onde o calor na maior parte do ano assustava e afastava os visitantes. Viajei em companhia do fotógrafo Juvenil de Souza, um dos bons quadros da empresa, calejado de viagens internacionais, tendo, fazia pouco tempo, concluído uma delas pelas então colônias portuguesas na África, com destaque para Angola e Moçambique. Como o pantanal do Mato Grosso carregava sua justa fama de ser, em alguns trechos, perigoso e traiçoeiro – cobras venenosas, onças pintadas, sucuris gigantescas – não havia dúvidas de que Juvenil era o fotógrafo certo para aquela tarefa onde, querendo ou não, se corria algum risco.

Primeira entrevista agendada contemplava o governador do Estado, José Fragelli, que brigava para construir uma rodovia ligando Cuiabá a Porto Velho, cortando a imensidão da floresta amazônica e, em alguns trechos, invadindo reservas indígenas de tribos ainda não aculturadas. Alto, magro, indicado para o cargo com o aval dos militares, José Fragelli comandava o Mato Grosso a partir de Cuiabá, mas tinha consciência de que a cidade de Campo Grande caminhava quase independente da capital e já era muito mais importante, econômica e politicamente, do que a própria capital.

Fizemos em Cuiabá o que tínhamos de fazer, mostramos o início das obras da tão desejada rodovia Cuiabá-Porto Velho, conseguimos com o governador um avião para sobrevoar e fotografar o Pantanal. Foi aí que a coisa começou a complicar: o avião colocado à nossa disposição tinha uma das asas remendada com fita adesiva, uma das portas estava solta e o piloto chamava-se Inácio Bororo, por ser exatamente isso –  um legítimo índio da tribo Bororo.

Tremendo de medo, subimos Juvenil e eu no “teco-teco”, Inácio Bororo amarrou uma corda na hélice e puxou três vezes, antes que ela começasse a girar.  Essa altura, nós já pensávamos em desistir, mas o índio insistiu e lá fomos nós, sobrevoar o pantanal.  Voando baixo, Juvenil fotografa aquela natureza exuberante, milhares de jacarés tomando sol à beira de um rio, rebanhos de veados comendo o capim fresco que brotava do solo, antas e capivaras brincando preguiçosas, aves de todas as cores e rara beleza pousadas em árvores desfolhadas – aquilo parecia um pedaço do paraíso plantado no centro-oeste brasileiro. Descemos em paz e com muito mais fé na misericórdia de Deus.

O Estado do Mato Grosso era muito mais extenso do que vários países da Europa – e depois de uma semana levantando o que havia de mais interessante em Cuiabá, e Campo Grande, tínhamos no nosso roteiro a tarefa de conhecer e relatar o que era e como estava uma nova fronteira agrícola, que começava a se consolidar na Região de Dourados, já na divisa com São Paulo.

Estancieiros gaúchos, cujas terras saturadas já não permitiam a expansão de seus negócios, aos poucos foram chegando do Rio Grande do Sul e ocupando as planícies férteis daquela parte do Mato Grosso, cultivando principalmente trigo e soja, alcançando uma produtividade muito maior do que na região dos pampas, por exemplo. Só tínhamos um problema: não havia, naquela época, qualquer vôo comercial ligando Campo Grande a Dourados, embora a antiga Vasp já fizesse o roteiro São Paulo-Dourados. E ninguém era maluco para se socorrer, mais uma vez, das habilidades de Inacio Bororo.

A representação do Governo do Estado em Campo Grande resolveu o problema:  cederia um avião bimotor, seminovo, comandado por um ex-militar da Aeronáutica, que nos levaria até Dourados e de lá a gente iria em vôo de carreira para São Paulo, de onde regressaríamos ao Rio. Como a pauta era importante, nós topamos.

Embarcamos numa quinta-feira de manhã, do aeroporto de Campo Grande, com destino a Dourados. O avião era um bimotor, era seminovo, o comandante era um ex-oficial da Aeronáutica, conhecido como “Capitão Beto”. E nem eu nem Juvenil tínhamos a menor ideia da distância entre as duas cidades. Lá em cima, ventos fortes faziam o pequeno bimotor sacolejar, “Capitão Beto”, com fones nos ouvidos, buscava contatos em terra e nem sempre era correspondido – a gente olhava lá pra baixo e só via a irregularidade de pequenos morros que dominam a topografia de grande parte daquele trajeto. Com quase três horas de vôo, não havia o menor sinal de qualquer povoado.

Continuamos voando e a preocupação do comandante – que havia perdido a rota mas nada nos disse – era com o nível do combustível, cada vez mais baixo, visto que ele teve de usar mais potência para atravessar as fortes correntes de vento que tivemos  pela frente.

A essa altura, ninguém escondia mais seu desconforto. Nem o medo. A tarde já começava a cair quando vimos, à nossa frente, um imenso tapete verde, plano como um campo de futebol. Com o combustível quase no fim, o “Capitão Beto” aprumou o avião, mirou o pasto que se aproximava e nós mergulhamos na plantação de trigo que, com a graça de Deus e dos gaúchos, amparou a nossa queda.

Demorou pouco e chegou ao local, montando um belo cavalo, provavelmente o dono das terras. Ou o capataz da propriedade, não ficou bem claro.   Chamava-se Cícero,  era  descendente  de alemães e gaúcho,  como se previa, estava sozinho na fazenda pois, segundo disse, a família havia ido passar o resto da semana em São Paulo. Depois de ouvir o relato de nossa triste aventura, ele conseguiu o  transporte que nos levou até um hotel  em Dourados – pois apesar dos imprevistos ainda tínhamos uma pauta a ser cumprida.  O “Capitão Beto”  não foi conosco – preferiu ficar guardando o seu avião e foi essa a última vez que o vimos. Ao longo dos anos, Dourados se tornou aquilo que a nossa reportagem previu: um dos mais importantes centros do agronegócio nacional, com milhares de hectares de terras cobertos de plantações de soja, milho, trigo, feijão e sabe-se mais o que. Eu também jamais  voltei a Dourados. E nunca vou esquecer o ar surpreso do cavaleiro gaúcho, ao ver saindo do meio do  trigal três ilustres desconhecidos, que chegaram e pousaram naquele campo improvisado  sem sequer pedir licença.

 

 

4 Comments

  1. Maravilha de história, Ivanildo. Pois bem, eis um pedaço de chão em que tens até agora 47 anos de vantagem sobre meu repertório de viagens. Isso porque nunca botei os pés no Mato Grosso. Quanto aos apuros aéreos, que continues com a boa estrela.

    Abraço,

    Fernando

  2. Ivanildo

    No inicio deste século, com os cerrados mato-grossenses já devidamente desbravados (e desmatados), fui a Dourados de carro numa estrada boa e segura. Fazia parte de uma equipe de planejamento para elaboração de planos regionais e a região de Dourados era uma das mais dinâmicas. Mas era também uma região de muitos conflitos indígenas. Numa oficina de trabalho para discussão da realidade e definição de prioridades para a região, dois representantes das nações indígenas me surpreenderam pela capacidade de briga pelos seus interesses, argumentos e firmeza de defesa dos direitos. Não passei pelo risco de um pouso de emergência no trigal mas Dourados me ofereceu esta grande emoção política. Tua sorte, Ivanildo, foi que os gaúchos, por onde passam, derrubam a mata e abrem um campo de plantação que serve bem para o pouso de avião. O “crime” ambiental salvou você, meu caro amigo. Pelo que somos todos gratos. Sergio

  3. Um belo pedaço de história do Brasil – e do jornalismo. Aliás, houve um tempo em que o jornalismo, pioneiro, tratava de temas que cientistas sociais iriam tratar muitos anos depois.

  4. Ivanildo, suas memórias são estimulantes. Aguardo o próximo capítulo com interesse. Não falhe. Abraço.

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