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Penso, logo duvido.

Missão em Neudorf, Alsácia – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Christmas market in Strasbourg – by A. Zvardon.

I

Ir até Estrasburgo e visitar o que ele chamava de seu retiro, nem tinha me passado pela cabeça seriamente. Foi minha mulher que se saiu com a ideia durante uma viagem a Paris, cidade que nos remeterá sempre a ele. Estávamos no “L´Écluse”, da Madeleine, um bar de vinhos onde passáramos memorável tarde de inverno entre primos. Na hora, não disse que sim nem que não. Para me fazer essa deferência, convinha avaliar o que ela queria em troca. Mas chegando ao hotel, verifiquei o horário dos trens e vi que podíamos sair da Gare de l´ Est pela manhã, passar o dia, e voltar no começo da noite. Embora esteja debruçada sobre a fronteira alemã, em pouco mais de 90 minutos se está lá. A questão passava a ser se encontraríamos a tal amiga dele, uma ex-professora da Aliança Francesa com quem reatara contato por rede social e que o recebia regiamente várias vezes ao ano. Pois se era para irmos tão longe, seria frustrante não vê-la. Seria como se nossa homenagem ficasse incompleta. Na mesma noite, mandei uma mensagem para um amigo em comum e ele me passou o nome dela. Mal fui me apresentando em francês ao telefone, me assustei ao ouvir uma voz jovial, gentil e de pesadíssimo sotaque lusitano. Disse que estava às ordens e, relutantemente, aceitou nosso convite para o almoço.

II

Da estação central até Neudorf foram só uns quinze minutos de táxi. À nossa espera, no térreo, uma senhora magrinha e sorridente, dona de um nariz daqueles que se faziam até os anos 1960 e que eram a imagem de marca da beleza francesa. Apertados no pequeno elevador do prédio baixo, ficamos em silêncio, como se a chegada ao apartamento se revestisse de certa solenidade para todos nós. Afinal, eu o conhecia bastante bem pelos escritos dele e, à medida que nos aproximávamos da soleira da última porta à direita, tive a sensação de que daria de cara com ele mesmo lá dentro, de cachecol amarelo, os olhos cravados no jornal e um copo de vinho tinto ao alcance da mão. Deixamos a cozinha logo à esquerda, atravessamos um pequeno corredor com prateleiras de livros e chegamos à sala. Com a claridade que entrava pela janela, vi um quarto e, à direita, o banheiro. Os telhados em “v” da vizinhança estavam nevados, mas a calefação nos aconchegou de pronto. Nossa anfitriã nos poupou das perguntas da praxe dessas ocasiões, mas falou com entusiasmo dos tempos que vivera em nosso país e dos muitos amigos que lá fizera. Muito mais rodada do que eu esperava, manifestei surpresa com roteiros tão diversificados. Minha mulher disse que isso já explicava uma parte da ligação dela com o primo.

III

Ele costumava me escrever às quintas-feiras. Fazia isso de onde estivesse. Se calhava de estar no avião – varando a cartografia do planeta em quaisquer direções -, ou se, por alguma razão, não pudesse cumprir o horário que combinara consigo mesmo, o e-mail chegava mais cedo, o que lhe parecia sempre frustrante. Dizia que, assim fazendo, tinha a sensação de que a consulta ficara incompleta pois a semana não cumprira o ciclo natural. Logo, como avaliá-la a pleno? Até onde contei, foram mais de 10 anos de disciplina férrea e, em certo sentido, também me acostumei àqueles parágrafos compactos, todos do mesmo tamanho, como se medidos com rigor quase milimétrico. Lia-os à hora do almoço, no consultório mesmo, e nem sempre eram divertidos ou prazerosos. Um ou outro podia ser mórbido. Mas importante era que chegavam, o que dava a medida do quanto ele queria que, além de sermos primos, estabelecêssemos um elo a mais, ele como paciente e eu como analista, o que, evidentemente, era uma fantasia. Quando muito, fui um confidente à distância. Aliás, não era fortuito que o ritual se cumprisse às quintas-feiras. Nunca falamos sobre isso, mas era uma forma de ele se fazer presente na reunião da família, que acontece nessa noite. Não, nada nele era lá tão fortuito quanto queria aparentar.

IV

Querido Primo, Saí de Bruxelas há pouco, achei uma preciosa brecha de tempo e vim parar aqui em Estrasburgo, meu refúgio renano de paz. Minha amiga está em Portugal, o que me deixa só nesse apartamento bucólico, palco de tantas alegrias vividas e outras tantas por viver. Lá fora, vejo os amados telhados que se sobrepõem, hoje visitados por gralhas que fazem o circuito da Floresta Negra até Baden-Baden, das montanhas dos Vosges até as nascentes do Reno, lá pelas bandas da Suíça. Aproveitarei as próximas 48 horas para bater perna no centro, passear na Alemanha – a 3 paradas de bonde está a estação de Kehl – e saudar os comerciantes que me conhecem tão bem, como convém aos meios provincianos. Tem o casal da padaria “Le petit gourmet” onde se comem quiches maravilhosas; a velhinha da lavanderia; a caixa do Monoprix e a família do La Scala, no velho teatro, onde como um chouriço negro com purê de maçã, o suculento figado no alho e a deliciosa salada da casa, servida com “foie gras”. Bombardeado na Guerra, funcionou como necrotério e foi para lá que foram levados os mortos do bairro de Neudorf. Hoje a palidez das luzes só ilumina a honestidade da boa culinária, e não mais o olhar vítreo e perplexo dos cadáveres. É uma reinvenção de vocação e tanto. 

V

A conversa foi das mais amenas e não desprovida de emoção. Especialmente quando me despreocupei com a forma e foquei mais no conteúdo do que ela dizia. Isso talvez peça uma explicação. Apesar de toda a familiaridade que temos com Portugal, reforçada agora por termos um neto coimbrense, o mais difícil foi entender o que a simpática mulher dizia. Ainda hoje não sei se lhe atribuo o vocabulário peculiar a um eclético contato com a intelectualidade lisboeta ou se, pelo contrário, ele deriva de suas camadas mais populares, por assim dizer. A todo instante, ela se referia a “datas de gente”, a “água para bacalhau”, a “palurdas”, e dizia “caraças”, o que me levou a acreditar, pelo contexto, e também pela afinidade fonética, que, para ela, era sinônimo de nosso caralho. “Era um gajo do caraças, pá. Cá chegava e já ia ter no Centro, onde entrava no cinema. Saía de casa cedo e chegava tarde. Então tomávamos cá nosso vinito porreiro com aqueles queijos fortes que apreciava. O pão tinha que ser o do panifício da paragem do elétrico e nunca vi alguém comer tantas clementinas. No verão, eu as comprava da África do Sul porque aqui já não havia. Tarde da noite, passava para a cozinha e voltava com o prato cheio. Então lia até altas horas. Era o cúmulo da macacada. Então trocávamos livros quando se ia de viagem”.

VI

Enquanto ela foi pegar a bolsa e levar à cozinha as xícaras de chá verde que nos servira, olhei de soslaio o quarto e quase consegui vê-lo esparramado naquela cama média, ao lado do abajur. Na varandinha, um varal de roupa e o olhar diligente de uma vizinha alsaciana que me fixava da janela em frente. Nas prateleiras, sequer um livro em francês. Por outro lado, Mia Couto estava representado de uma ponta a outra, assim como José Saramago e outros notáveis que nunca li, à exceção de Miguel Sousa Tavares. Perfazendo duas vezes o peso bruto da proprietária, pontificavam nas prateleiras nada menos que 40 volumes de uma certa “Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira”. Naquele endereço, em definitivo, o português reinava inconteste. E assim chegamos ao restaurante favorito dele. A graça da franco-lusitana (ou seria luso-gaulesa?) foi um bálsamo nessas terras de gente arisca e avara com as palavras. E à medida que o vinho Côtes-du-Rhône (era o favorito dele, sabias?) começou a subir, passei a entender melhor o que ela nos dizia. Sabendo quem representávamos ali, a dona veio até nós e ofereceu uma rodada de Cognac. Aceitando nosso convite para que sentasse um minuto, reforçou: “Era um monsieur meio caladão, sempre lendo os jornais. Mas sabia ser muito gentil quando queria”.

VII

Primo, hoje fiquei na cama alguns minutos depois de despertar, a escutar a água chapinhando nas calçadas. Como chegou um alerta da empresa telefônica de que é bom desligar o equipamento informático por conta da borrasca, apresso-me em te mandar o boletim da semana, sob pena de não poder fazê-lo mais tarde. Não há muito lugar a dúvida de que viver em função de si mesmo e dos pequenos prazeres que a vida proporciona não pode ser um caminho de todo sustentável. Dos rematados solitários em quem me inspirei para abraçar esse modelo de vida – se é que poderia ter abraçado outro -, eles dificilmente levaram a extremos o isolamento a que gosto de me submeter. O certo é que viver à margem dos palpites e das palpitações de outras pessoas pode ser também um caminho para a doença no sentido mais geral do termo. Não somente porque passamos ao largo dos alertas triviais como também porque talvez não sejamos uma unidade tão autossuficiente quanto gostaríamos de nos julgar. Mas se o preço a pagar por uma sobrevida passa por fazer concessões a torto e a direito a gente amalucada, prefiro mesmo uma vida mais breve. São tão sublimes os momentos que passo em minha companhia que, de tanto conversar comigo mesmo, tenho a sensação de que vivi em bando.   

VIII

Ela fez questão de nos levar de volta à estação. Como ainda era cedo, aceitei que déssemos uma volta pela região da bela Catedral e não tardou para que o passeio evoluísse pelo cais dos canais que me fizeram pensar em Amsterdam. Nossa nova amiga disse que tinha planos de visitar nossa terra e lhe colocamos a casa à disposição: “Ah, vosso bairro é por acaso dos poucos de que gosto na cidade. Os demais estão desfigurados pela especulação imobiliária. São franceses aqueles gajos de uma construtora predadora?” E disse que não vê a hora de ir viver em terras mais quentes e mais conviviais, palavra que percebi que adora. Já no trem, optamos por ficar no vagão do bar até o destino e tomar mais vinho. Em paz com a consciência, mas ainda contagiado por um detalhe de apreensão difícil, foi só quando desembarcamos em Paris que me dei conta do que se tratava. Então, puxei minha mulher pelo cotovelo e lhe disse: “Hoje é quinta-feira. Era o dia do tal encontro virtual”. Ela então me fixou nos olhos e fez um gesto no ar: “Muito bem, a missão já está cumprida. Mas hoje quero dormir cedo. Tem mais: chegando a Lisboa, vamos seguir direto para Coimbra, está entendido? E como eu não xeretei a vida de seu primo, não pergunte por quê quero ir mais cedo para lá”.

IX

Foi só no dia seguinte, portanto, a bordo do trem alfa-pendular, à saída da estação de Santa Apolônia, que soube que meu segundo neto estava a caminho. Então, as lágrimas represadas em Neudorf respingaram no blazer azul-marinho. E, pensando em Santo Antônio, fiel depositário da fé de minha mãe, me veio à mente um bom nome para batizar o rebento. Mas isso eu não preciso contar.

4 Comments

  1. Gostei muito. Você, como eu, sempre muito ligado aos primos. Tive a impressão de ver muito do Fernando Dourado no tal primo.
    Uma delícia a leitura. Parabéns!

    • Obrigado, Lizá! Esse tipo de texto faz cada vez menos sucesso junto ao seleto leitor da “Será?”, não sem razão cada vez mais afeito ao bulício da crônica política, e agora mal-acostumado ao padrão elevado da pena de Paulo Gustavo e de Clemente Rosas.

      Ler suas palavras sobre minha historinha,contudo, traz um baita alento a este escriba por saber que alguém a percorreu de uma ponta a outra. Não tenho lá muita certeza sobre a presença do tal Fernando no tal primo. Mas nunca se sabe…

  2. Fernando tece o texto com linha firme e o arremate se concretiza na boa geografia e a grata cultura de cada povo de perto ou muito distante! Ser confidente é ter sempre um segredo mesmo nos deliciosos rituais a relembrar da infância à mesa. E o mistério do assíduo ouvinte fica envolto em elocubrações , jamais revelando totalmente o conteúdo tão sagrado.

    • Juro que não captei todas as sutilezas de seu comentário, Maria Teresa. Mas suponho que você tenha gostado, e isso me alegra.

      Um beijo,

      Fernando

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