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Penso, logo duvido.

No limite da esperança – Luiz Alfredo Raposo

Luiz Alfredo Raposo

A Cura da Triteza – autor desconhecido.

Par délicatesse j’ai perdu ma vie (Rimbaud)

O governo Temer durou um ano. E foi um bom governo. Chegou lá sem precisarprometer nada. E seguiu direitinho a agenda certa. Depois, começou a ser demolido. Primeiro, foi a ação do comando formado por três patriotas: Joesley, Janot e Fachin. O que rendeu dois pedidos de impeachment no Congresso. E uma campanha tóxica, feroz de desmoralização vinda de todos os lados: da esquerda (rancorosa, desempoderadacom Dilma), e da direita e do centro (piedosos, de catecismo na mão). Da sociedade civil e de corporações do Estado. E quase não lhe sobraram energias para mais do queescapar aos tiros. Tiros, porém, que atingiram gravemente seu governo. Daí o paradoxo: à medida que a safra de bons resultados surgia, sua popularidade vinha ao rés do chão. E o apoio congressual, por reflexo, caía a ponto de ele não mais conseguir aprovar nenhuma medida importante. Caso da vital reforma previdenciária e da privatização da Eletrobrás, recém-retirada da pauta de votações. (E quem prometerá?… No atraso do último ano, perdeu-se uma década, ou uma geração?).

Agora, nesse ambiente, vem a “ação direta”, soreliana, da greve dos caminhoneiros. Greve à primeira vista visando à queda do preço do diesel (e o IPVA de abril foi o menor do real). Só que, no fim de semana, depois de ganhar no grito, o movimento continuou (com enorme apoio popular e a quase-passividade do aparato de segurança pública). O que deixou claro que, no fundo, mira-se algo mais amplo. O que?! Era evidente que uma ação assim só podia dar ao certo na paralisia da economia. Nosacrifício absurdo de produção, de empregos e de vidas de brasileiros, que o noticiário vem mostrando. E não se viu nada ainda…

Espera-se que isso provoque a imediata substituição do governo?! Quanta impaciência!Não estamos a quatro meses da solução constitucional das eleições diretas?  Na oportunidade, a população por decisão majoritária dirá o que quer. Por que e comonão aguardar? O sintomático é que alguns, de peões a comandantes do movimento, falem, sim, abertamente, com aplauso de boa parte da população, na alternativa militar.É ir longe demais. Combinaram com os russos? Faz 30 anos, depois de 21 no poder, ospróprios militares, e não apenas os civis, acharam melhor o governo civil.  Como encerrou ontem, 29/5, o gen. Etchegoyen, chefe do GSI, “regime militar é pauta do século passado”. Estamos, então, diante de quê? Pelos resultados, de um baita, um giga-ato de sabotagem contra nosso país.

E encerro com dois comentários amargos, que espero reflitam o humor da hora. 1) Para alguns, a culpa é mais uma vez de Temer. Temer, o Calmo, a quem se acusa, agora, pelo errado e pelo certo. E, se não concluírem antes o “serviço”, seu governo vira e vaizumbi até o fim (que está perto). 2) Dizem que o povo tem o governo que merece. E isso, noto agora, vale geral, para massa e glacê, e se comprova também pelo avesso: quando aparece o mais, o povo vai e recusa. E sente saudade de Dilma, sob quem não se viu nada igual. Então, viva Dilma! E viva o Brasil eternamente triste.

7 Comments

  1. Meu querido Luiz Alfredo,

    Confesso que não sei como o historiador do futuro julgará o que foram esses tempos de Temer. Poucas vezes vi uma mescla tão dramática de lambanças – a maioria delas até evitáveis -, de méritos incontestes na manutenção da navegabilidade e de uma agenda mínima, e de uma carga inominável de fatalidades que lhe foram solapando o patrimônio político ralo. Conheço Michel desde o começo de 1990. Lembro com riqueza de detalhes da vez que o alvirrubro Wilson Campos disputou com ele a cadeira de Presidente da Câmara, num prenúncio de que uma hora um pernambucano reconheceria o peso do baixo clero e chegaria lá, o que aconteceu com Severino Cavalcanti. Nenhuma faceta de Michel me era estranha até bem pouco tempo. O que me surpreendeu sim foi que ele se revelasse inábil em montar um ministério tão vulnerável desde a primeira hora, e que, paradoxalmente, tivesse tanto brio para encaixar golpes perversos para os quais a vida de político meio provinciano não o preparara. Mas isso merece meia garrafa de uísque.

    Abraço,

    Fernando

  2. Caro Luiz Alfredo,
    No geral, concordo com as suas considerações. Mas, por favor, não ponha no mesmo saco Joesley Batista, um empresário espertalhão, e Janot e Fachin, que apenas cumpriram o seu dever, na área jurídica. E não desvalorize a luta pela moralidade, que nos dá a esperança de alguma coisa mudar, na nossa prática política, em algum momento do futuro,

  3. Debate sério dá trabalho demais: colocar os dados disponíveis sobre recuperação do PIB, queda da inflação, redução dos juros, reforma trabalhista e resultados, além de algumas outras ações pontuais que são mérito do governo Temer, como salvar a Petrobrás e não atrapalhar excessivamente o setor agropecuário. Pode ser considerado frágil, mas é maior que zero. E Temer pegou uma herança maldita imensa, que nem PT e, desgraçadamente, nem o PMDB dos Vieira Lima et caterva consegue ou quer explicar aos eleitores. E o pior é a incerteza geral sobre a tendência. Então eu vou resumir tudo no dito popular que Ariano Suassuna também usou: “Depois da onça estar morta, qualquer um tem coragem de meter o dedo no cu dela.” Mais ainda se a onça já perdeu até a capacidade de oferecer emprego ou subsídio.

  4. Oi, Helga, gostei muito da sua lembrança da imagem impagável de Ariano sobre a coragem dos que gostam de bater em cachorro morto.
    Confesso que vi a chegada de Temer ao poder sentindo uma grande desolação. Aquelas caras de vitoriosos tomando posse graças àquela patética sessão de votação do impeachment na Câmara me causaram mal estar. E, penso agora motivado por seu comentário, também aqueles deputados votando contra Dilma em nome da mãe, da mulher, das filhas, de Deus – do caralho a quatro! – exemplificam muito bem a coragem de enfiar dedo em cu de onça morta…
    Em que pese isso, desejei que o governo Temer fosse bom para o Brasil, como, num longínquo 1989, desejei que Collor acertasse – apesar do horror que tinha à sua figura de olho arregalado dizendo que tinha os colhões roxos!
    Enfim.
    Tomara que 2018 passe logo!

    Luciano Oliveira

  5. Estou achando boa essa conversa toda, principalmente algumas “colocações” (com a permissão de participantes de assembleias e de audiências públicas) de Helga H.
    Ouvi diversas vezes que Temer “errou na política e acertou na economia”. Cercou-se, isolado ao assumir e ao concluir, do que pensava ser a sua patota de amigos, velhas raposas de locupletadores nos governos anteriores, sua gente do sempiterno PMDB e outros daqui e dacolá e foi, confiado, buscar vestais tucanas, algumas já passadas pelo currimboques de satã, e que pularam fora assim que a coisa ficou complicada. Eu ia escrever a coisa assim ficou preta, tomando emprestado de Chico Buarque, mas temo que acusem a revista de racista.
    Impassível, sem reagir, qual um alkimnista, tomou uma intensa campanha contra o “golpe” e um permanente Fora Temer. Até agora, quando já esta quase fora, ainda se ouve esse mantra, acompanhado de assuadas e pateadas, nas passeatas de quaisquer protestos, nos espetáculos de música e nos festivais de cinema.
    Nesses quase dois anos o que mais me chamou a atenção, no entanto, não foi nada daquilo.
    Foi a tal mídia, senhores e senhoras. Nunca ouvi, li, vi nenhuma notícia das boas, como as citadas por Helga, que não fossem acompanhadas por um mas…, seguido de um comentário maldoso, aparentemente sutil. Doutras vezes, muitas delas, a notícia boa era introduzida por um “em busca de aumentar a sua popularidade” ou “procurando aumentar a sua popularidade que está em xizinhos por cento”.
    E não foi só no complexo midiático da Globo, pois sou um viciado devorados dos mais variados órgãos de imprensa.
    Cheguei a pedir a opinião sobre tal coisa a um dos meus gurus, cognominado- não me perguntem o motivo- Monsieur du Charly. Ele já foi tudo em comunicação, inclusive brilhante publicitário. Ponderou que seria para que não fossem acusados de parcialidade. Assim como ao se exibir o vídeo de facínoras matando cruelmente e citando seu nome e CPF, ou quando
    apresentam donos e donas de malas e apartamentos com milhões de cédulas nativas e importadas, tratam-lhes por suspeito.
    Longe de mim isentar o Presidente de seus pecados e suspeitos malfeitos. Não votaria nele para vereador em Tietê-SP, mas tem coisas para historiadores, cientistas sociais, psicólogos, articulistas, clérigos maronitas nelas se debruçarem.

  6. Luiz
    Parabéns pelo corajoso artigo. Os jacobinos distorceram a revolução francesa cortando as cabeça daqueles que deles discordavam.Essa figura agora aparecem para nos assombrar

  7. Amigos,
    Conversa animada. No fundo, o artigo lastima a chance perdida e a pane que deu no dom (profético) de pensar-nas-consequências.
    Abraço a todos

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