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Penso, logo duvido.

O Circo Brasiliense – Editorial

Editorial

The American Circus in France, Frederic Arthur Bridgman (1847-1928).

A Praça dos Três Poderes, este símbolo urbanístico e arquitetônico da democracia e da república brasileiras, virou um grande circo. Um circo triste e deprimente. Os contorcionistas circulam pelo picadeiro e transitam entre os poderes, com a sua habilidade para confundir o “respeitável público”, alternando as posições e revirando as formas, com desprezo pelos espectadores. Com desenvoltura, os trapezistas saltam de um ponto a outro da praça, garantidos por uma larga e confortável rede de proteção, para o caso de provável desequilíbrio e eventual queda. Do alto, leves e soltos, ignoram completamente os olhares desconfiados da plateia. Os mágicos entram em cena, habilidosos na arte da dissimulação, diante dos olhares atônitos, transformando esterco de elefante em dólares, para aumentar o seu próprio patrimônio. E saem, correndo, sorrindo, tripudiando sobre a desolada assistência. Os movimentos rápidos dos acrobatas, malabaristas e equilibristas envolvem o público, confundindo a sua percepção, desviando a atenção das manobras cavilosas dos vários artistas do diabólico circo. Ah! Os palhaços!  Muitos palhaços sem humor, que não alegram ninguém!  Ao contrário, riem de nós, brasileiros comuns, que pagamos a entrada e, portanto, sustentamos o circo. A plateia, indignada, não pode fazer muito, vaia e grita em protesto. Quando aparece o domador, ela torce pelo leão. Humilhado pelas cruéis chicotadas, uma hora, quem sabe, o leão se revolta, salta sobre o seu algoz, solta as outras feras enjauladas, que correm pelo picadeiro, derrubam os trapezistas e contorcionistas, botam pra correr os mágicos com seus mal cheirosos dólares, e empurram os palhaços, numa vingança em grande estilo da degradação da Praça dos Três Poderes transformada em circo. Os animais correm para o cerrado e, antes que o circo pegue fogo, o “respeitável público” retoma a praça, símbolo urbanístico e arquitetônico, resgatado, da democracia e da república.

2 Comments

  1. Excelente! A circunstância requer panfleto, duro e inequívoco na condenação do espetáculo que nos impõem palhaços sem graça, acrobatas desastrados e mágicos em causa própria — canastrões sem aplauso. E este brasiliense (por adoção, há quase cinco décadas) agradece ao editorialista por não confundir, no picadeiro armado à nossa revelia, a ‘urbs’ com a ‘polis’: os urbanos moradores desta amável cidade assistimos a tudo com perplexidade igual à dos compatriotas de Caracaraí ou Uruguaiana e respondemos só por mínima parte dos políticos (atores da ‘polis’) que protagonizam o circo de horrores — elegemos três dos 81 senadores, oito dos 513 deputados e Collor, Lula nem Dilma tiveram maioria aqui (Temer sequer tentaria um lugar na Câmara Distrital).

  2. Que tristeza, um circo que não diverte ninguém: riso não provoca, sequer indignação, pois o público já está cansado, em parte anestesiado, não dá mais atenção aos palhaços e acrobatas que ficam se abraçando e se aplaudindo entre si. Pior que todos são os demagogos, a sustentar ilusões com mentiras as mais espantosas. Como é que não se abre um processo por falta de decoro parlamentar ao mentiroso maior de todos eles, um deputado do PROS que acaba de apresentar um relatório dizendo que não há déficit na Previdência Social no Brasil?! Sim, o circo ainda tem palhaços e acrobatas que tentam anestesiar o público em benefício próprio, como esse farsante do PROS com sua acrobacia contábil. E o mais triste desse circo é que ainda tem público para um bufão desses, das pessoas que só vão acreditar que o sistema previdenciário em seu formato atual é insustentável no dia em que não houver dinheiro para pagar a aposentadoria de ninguém.

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