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Penso, logo duvido.

O dia em que perdi o Nobel de Literatura – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Cerimônia do Prêmio Nobel.

Fazia já pelo menos uma semana que eu não dormia direito. Quando escurecia lá fora, escurecia aqui dentro, e eu sentia uma angústia que me subia pelo pescoço e, com ela, vinha uma vontade incontida de chorar. Nessas horas, se falasse, a voz sairia tremida. Então, ficava calado. Mas era só descer até o boteco para que o coração voltasse a bater no ritmo. A essa hora, o pessoal já tinha chegado, mas eu me contentava em fazer um aceno geral e ia para os fundos, onde ficava escondido num cantinho, bem embaixo da televisão. Quem ia ao banheiro, dava uma palavrinha: “Escrevendo muito? Aparece lá daqui a pouco”. Nem precisavam dizer isso, na verdade. Depois de duas cervejas e uma branquinha, eu já me sentia bem e, fazendo como quem não queria, eu me achegava à mesa deles e acompanhava como podia a conversa. Até qu e, em dado momento, o Ezequiel cofiava o bigode, afrouxava o nó da gravata e dizia: “E nosso escritor, o que nos diz da produção de hoje?” Então eu desconversava, acrescentava um detalhe ao fim da conversa deles e, da forma mais sutil possível, começava a falar de meu trabalho, minha razão de viver. E ficava grato ao fato de que eles me ouvissem atentamente.

De uns tempos para cá, deixei de lado a medicação prescrita pelo Dr. Simões. Mais precisamente, desde quando lera que não pode haver arte sem dor ou angústia. E que era seu exercício o que me castigava, e não uma fonte endógena qualquer. As noites passaram a ser muito curtas e desconfio que o trabalho não tenha se beneficiado, seja em quantidade ou qualidade. Por outro lado, era voz geral de que não me faltava mérito e que, a qualquer momento, eu poderia receber boas resenhas que catapultariam a venda de meus livros. Bastou dividir esse pensamento com as pessoas para que alguém dissesse, categoricamente, que eu não ficasse surpreso se o telefone tocasse na manhã do dia 5 de outubro. Alguém me comentara que algumas editoras brasileiras estavam se empenhando junto ao comitê do prêmio Nobel para que um autor brasil eiro fosse agraciado. E que este não precisava ser nome conhecido ou consagrado. Pelo contrário. Especialmente porque faltariam escritores para preencher, simultaneamente, ambos os requisitos. Essa perspectiva me encheu de tanto entusiasmo que tive grande dificuldade em ocultar. E, com apuro renovado, cheguei até a rascunhar um discurso de agradecimento para a ocasião.

*

Vim então à Bahia para esperar o Prêmio Nobel. Achei mais adequado receber a imprensa em minha terra natal, justamente o lugar de onde saí um tanto quanto desacreditado, 30 anos atrás, depois que os primeiros sintomas de um mal-estar abissal me levaram a duas internações em curto espaço de tempo. E cá mesmo fiquei, certo de que minhas chances eram consideráveis. Engastado num andar alto à beira mar, a aerodinâmica do apartamento de minha irmã é bastante original. Emulando uma vela inflada, fica perpendicular ao Atlântico, de forma que as rajadas fortes desses últimos tempos mais parecem fazer tremer a estrutura sinuosa. Cheguei até a dizer durante o jantar que, se estalassem os vidros, todos deviam correr para o térreo pelas escadas porque era sinal de que a estrutura estava se ressent indo das lufadas quase frias, e que a nau estava a ponto de ir a pique. Certo mesmo é que algo no regime de ventos da Bahia mudou de uns anos para cá, a ponto de os dias ditos feios serem tão numerosos quanto os bonitos, o que é boa notícia para mim, já que meus estados de melancolia se agravam com o azul pristino do céu, e se dissipam com nuvens baixas.

Pois bem, os fatos não me deram razão e desconfio seriamente de que houve uma sabotagem deliberada por parte dos agentes formadores de opinião. Tanto os daqui quanto os de fora, os da Academia mais precisamente. Digo-o porque não foi à minha cabeceira que o telefone tocou. Logo não ouvi aquela voz por que ansiava do outro lado da linha: “Are you Ruy? Good news from Stockholm, Sweden. You have just been appointed 2017 Nobel Prize laureate, Mr. Batista. Congratulations, Sir”. E eu diria: “Thank you so much. I am very glad indeed. Just a question: can you give me some cash in advance before December ceremony? Or a new credit card?”. E então eu despertaria minha irmã, diria o quanto devo em estímulo a ela e pediria que chegasse mais cedo do trabalho para irmos confraternizar no Rio Vermelho. Deixaria que ela convidasse quem quisesse, e minha festa seria também a dela porque sei que ela foi voz isolada a me apoiar em tudo, tendo comprado boas brigas com meu cunhado que, visivelmente, julgava fracassados todos os que não eram gordos como ele, e não tinham milhares de cabeças de gado de corte no interior.

Quando chegasse ao restaurante apinhado, até meu irmão estaria à minha espera e Denise teria providenciado uma caixa lacrada de Dom Pérignon. Eu pegaria uma garrafa já gelada e a tomaria no gargalo, deixando escorrer as bolhas em forma de líquido pela camisa branca. E então pediria que todos moderassem nas fotos porque elas estavam fadadas doravante a correr mundo. E embora as bebedeiras não me envergonhem, tampouco condizem com a sobriedade que deve pautar uma voz que passará a ser mais ouvida do que nunca. Antes mesmo das dez da noite, com quórum completo da parentada, e a aclamação discreta até mesmo dos escritores locais, os primeiros jornalistas começariam a se espalhar pelas mesas vizinhas. Eu então diria que os receberia em coletiva no auditório do hotel Pestana, no dia seguinte, que comessem e bebessem, mas qu e se mantivessem à distância. Então, a sempre bela Cecília Medauar apareceria e, orgulhosa, admitiria perante todo mundo que eu fora seu primeiro namorado, e que ninguém me conhecia tão profundamente quanto ela. Eu não a desmentiria, mas tampouco demonstraria o entusiasmo que estava sentindo.

Quando todo mundo tivesse desertado, eu iria tomar uma longa saideira com o primo Zé Gomes, lá em Ondina. E então lhe abriria o coração e diria que aquela era uma boa ocasião para me suicidar. Que poderia fazê-lo na cerimônia, com uma cápsula de veneno letal, diante do rei e da rainha da Suécia, não sem antes denunciar o populismo, a apologia odiosa da estética andrógina na propaganda, o culto insano aos animais domésticos, a entronização da criança como a fonte da vida, a medicina paliativa, a extrema-unção, o Rotary, a casa própria, André Rieux, o consumismo, férias em Dubai, a falácia do Cristo, a álgebra, ACM, a filmagem de casamentos, Steve Jobs, o sistema decimal e a repressão à ejaculação em público. É claro que essa seria a versão que eu tiraria do bolso, nada tendo a ver com as expectativas engessadas do cerimonial. Ingeriria o veneno com um gole de Aquavit e teria o prazer de ler na expressão das pessoas o estupor com a cena. Zé Gomes riria muito e diria que essa ele não perderia de jeito nenhum. E como sempre foi meu parceiro, eu lhe legaria os direitos autorais de meus livros que, mais do que nunca, estavam fadados a encabeçar todas as listas dos mais vendidos do mundo.

*

No dia em que o tal Kazuo Ishiguro foi anunciado como o vencedor do prêmio que me caberia, minha irmã entrou de mansinho no quarto e a recebi com uma expressão firme, quase resignada. Ela disse que não era o fim do mundo e que eu teria ainda muitas chances pela frente. Aconselhou-me a tentar me habilitar aos prêmios locais, mas eu estava tão transtornado que sequer rebati aquele palavrório melífluo, mesmo vindo da pessoa que mais amo no mundo. Então disse que precisaria ficar só e, ato contínuo, escrevi um longo artigo sobre as manipulações que se orquestraram contra mim, desde que saíra daquela terra. E, sem sequer me dar muito ao trabalho de revisar ou deixar o texto descansar, mandei um e-mail de encaminhamento para o editor de uma revista eletrônica com a qual colaboro de vez em quando. Pedi urgência na publicação mesmo porque era matéria de relevante interesse público. E apesar de eles só acatarem um em cada cinco artigos que lhes mando, dessa vez não teriam sequer como pestanejar. Meu manifesto, visto isoladamente, era talvez o principal documento no âmbito da vida cultural contemporânea no Brasil.

Foi então que sofri o golpe de misericórdia que estava reservado para aquela dia malsinado. Impactados pelo teor do que lhes pareceu desproporcional para o tamanho acanhado da revista, e talvez sentindo-se atingidos pelos próprios termos do corporativismo denunciado, eis que não somente esqueceram de agradecer como, pior ainda, pela primeira vez em anos, tiraram o site do ar, sob alegações ocas de que estavam em manutenção. Segundo soube por um raro amigo que tenho no meio, a verdade inelutável era cristalina. Meu artigo-manifesto rachara o comitê editorial. Metade estava a favor da publicação e ameaçara deixar a revista, se ele não fosse publicado nos termos originais. A outra metade era favorável ao veto. Senti então que era chegada a hora de ligar para o Dr. Simões para lhe dizer ao telefone o que estava se passand o. Ele sugeriu que eu procurasse sem tardança uma colega dele que atende no Campo Grande, em Salvador. Ela me ouviu com bastante atenção e prescreveu a mesma medicação que eu tomara durante anos. E minha irmã disse que só me liberaria para viajar quando sentíssemos que estava plenamente recuperado do golpe. Desde então, tenho vivido dias sombrios. Quanto a meu cunhado, parece estar transformado e nunca me tratou com tanta gentileza. Tem gente que acha estranhas formas de se comprazer com o infortúnio alheio.

*

O que é escrever, afinal? Sei que para mim obedeceu a um caminho de sobrevivência identitária. Era muito desengonçado para fazer cerâmica e nunca me interessaram as artes plásticas. Com o passar dos anos, escrevia para entender as coisas que me chegavam pelas conversas ou pelo noticiário. Foi só mais tarde, quando o pessoal da terapia de grupo resolveu publicar algumas de nossas histórias, que colhi elogios. É claro que eles me turbinaram a autoestima e passei a achar que estava dada a senha para que eu me cobrisse de glória. E, segundo a progressão, mesmo as mulheres que foram ficando pelo caminho, a começar pela primeira namorada da Bahia, iriam se render a mim, e ver, afinal, que elas tinham sido precipitadas ao me descartar. E então eu seria magnânimo e daria a entender que todo mundo erra e que estava pronto para perdoá-las. A rejeição última veio portanto de onde eu menos esperava. Para mim, está claro que o resultado decepcionante se deveu menos aos méritos do nipo-britânico Kazuo Ishiguro do que à campanha difamatória que fizeram contra mim. Qualquer noite dessas, vou chamar o bigodudo Ezequiel de lado e pedir uma opinião sincera sobre o que pode ter acontecido. E da próxima vez que me perguntar como foi a produção do dia, vou responder com ambiguidades, até me certificar de que lado ele realmente está.

* * *

11 Comments

  1. Belo texto sobre a natureza humana, nossas ilusões, nossos ressentimentos (aliás, na literatura sobre ressentimento, gostei muito de AS BRASAS, de Sándor Márai), sobre nossas fases maníacas permeadas pelas “insubornáveis melancolias”. Nunca ouvi falar deste Yshiguro, mas depois vi referências ao filme VESTÍGIOS DO DIA, adaptado de um livro dele, muito bom.

  2. Obrigado, Gilda. Em seu comentário, você conseguiu enxergar mais longe do que eu. Li “Vestígios do dia” há alguns anos e achei-o ótimo. Acompanho Kazuo Yshiguro desde 1995, acho eu. É ótimo escritor. Eu teria preferido Oz, Murakami ou Roth. Tanto pior para o personagem acima e suas “insubornáveis melancolias” (adorei a expressão).

    Abraço,

    Fernando

  3. Fernando,

    Não lhe conhecesse tão bem, diria que sua melancolia era verídica.

    Pelo sim, pelo não, razão tem sua irmã, ao afirmar que não é o fim do mundo.

    Outras oportunidades virão.

    Merecidas…

    Abraço forte,

  4. Querido amigo,

    Feliz que tenhas lido as angústias de um personagem atormentado. Que não existiam, aliás, até a última vez que te vi em nossa bela cidade. Agora as paisagens já são outras.

    Abraço fraterno,

    Fernando

  5. Cápsula de veneno com aquavit é o resgate mais trágico que alguém poderia fazer! Perante os boquiabertos Rei e Rainha da Suécia seria o último requinte de vingança.
    Cada parágrafo seu desnuda sentimentos, com sabor e ironia.
    Aplausos, sempre!

    • Muito obrigado, Marly. Quem sabe nosso amigo não tenha melhor sorte no futuro? Se não sucumbir, bem entendido, às tentações mórbidas que atribui à arte. Obrigado pela visita amável, pela
      forcinha solidária.

      Bj,

      Fernando

  6. Meu querido amigo, a cada texto, progressivamente, você se desloca das paisagens geoculturais a incomensurável alma. Você nos presenteia com a saborosa ansiedade dos que esperam a próxima página.

    • Caro Lázaro,

      Obrigado, amigo velho. Pode ser apenas uma tênue evidência de que nossas conversas a respeito da literatura não foram totalmente vãs. Que jamais aprenderei o ofício como se deve, isso me parece cristalino. Mas não tenho força para calar a voz de meus personagens. Se o fizer, serei a primeira vítima. Eles conspirarão num porão e, aturdidos, me executarão.

      Um abraço,

      Fernando

  7. Confesso que eu ri…trocadilho pra dizer que me diverti horrores com sua crônica, imaginando cada cena – e claro – tendo sua pessoa como protagonista.

    • O que eu preciso me explicar é a razão pela qual a irmã do atormentado se chama justamente Denise. De onde terá vindo essa conexão?

      Obrigado, minha querida, você sempre foi uma leitora que me alegra a alma, e graças a quem, eu esqueço que ainda me falta tanto.

      Beijo,

      Fernando

  8. Sr. Vargas,

    Agradeço a consulta, mas devo admitir que minha ignorância no tópico é ciclópica. Estranho, ademais, que o senhor se tenha valido de meu texto para essa estapafúrdia sessão de aconselhamento. Aviso-o que não abri o seu “link” e só não o deletei por não dispor dos meios tecnológicos para fazê-lo. Mas não me espantaria que contenha um vírus. Isso dito, saiba que sua missiva foi a segunda maior mostra de nonsense que recebi neste espaço, em mais de dois anos de colaboração com a “Será?”.

    Fernando

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