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Penso, logo duvido.

O encontro de Panmunjom: euforia e ceticismo – Helga Hoffmann

Helga Hoffmann

O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un e o presidente sul-coreano Moon Jae-in.

De repente, mas nem tão de repente, as manchetes dos jornais do mundo inteiro parecem ter esquecido testes nucleares e mísseis cada vez mais poderosos de Kim Jong-un ou ameaças de “fogo e fúria” de Donald Trump do último setembro. Dia 27 de abril o mundo foi surpreendido com o anúncio de paz para 80 milhões de coreanos e muitas fotos do aperto de mão entre o ditador norte-coreano Kim Jong-un e o presidente sul-coreano Moon Jae-in, no encontro em Panmunjom, na zona desmilitarizada entre as duas Coreias. Pela primeira vez desde o fim da Guerra da Coreia em 1953 um líder norte-coreano pisou em solo sul-coreano. A coreografia mostra como Kim leva Moon para o norte para pisar em solo norte-coreano e depois ambos retornam rumo sul. Houve profusão de vídeos e fotos de estudado simbolismo: dos dois líderes com seus filhos, os dois acompanhados das esposas, os dois conversando na mesa informal de um terraço. Não escapou de fotógrafos franceses o carro que levava Kim em Seoul cercado de dezenas dos seus seguranças correndo de terno e gravata para acompanhá-lo.

O desenrolar dos eventos recentes, de reunião em reunião, foi arquitetado pelo presidente sul-coreano Moon Jae-in, eleito há um ano na esteira do impeachment e da prisão da Presidente Park. O encontro não teria acontecido fosse ainda presidente Park Geun-hye, cujo Partido da Liberdade favorecia não o “degelo” mas uma “corrida armamentista” com a Coreia do Norte. Moon Jae-in está tratando de cumprir uma das promessas da sua campanha eleitoral.

Coreanos do sul, apesar do estoicismo dos que se acostumaram a viver em estado de tensão com as ameaças regulares vindas do norte, foram os que manifestaram o maior entusiasmo com a iniciativa de paz de Panmunjom. The Economistdescreve a reação popular na Coreia do Sul quase em tom de espanto: os coreanos parados nas estações de metrô para ver a transmissão ao vivo do encontro, dia livre nas escolas, aplausos até de quem nunca defendera aproximação com o norte, gente chorando, um macarrão mencionado de brincadeira por Kim como vindo de muito longe transformado em moda nos restaurantes. O índice de aprovação do Presidente Moon Jae-in foi a 85% depois da Declaração de Panmunjom.

Pudera! há que recordar a separação das famílias de um lado e de outro, a grande quantidade de refugiados vindos da Coreia do Norte impedidos de contato com quem lá ficou, a guerra de 1950-1953 nunca esquecida, que matou ou feriu mais de 2 milhões e meio de civis coreanos, os alto-falantes gritando propaganda na fronteira. Para os coreanos, a esperança é de que seja o fim da guerra, com um tratado de paz a ser assinado entre as duas Coreias. Pois a guerra ainda não acabou, formalmente o que há é o armistício acordado em 1953.[1]

A Declaração de Panmunjom, assinada durante a Reunião de Cúpula Intercoreana de 27 de abril de 2018, diz textualmente no seu parágrafo inicial: “Os dois líderes solenemente declaram aos 80 milhões do povo coreano e ao mundo inteiro que não haverá mais guerra na Península Coreana e que uma nova era de paz começou.” Entre os itens acordados há o esforço “para resolver as questões humanitárias que resultaram da divisão da nação”: haverá reunião da Cruz Vermelha Intercoreana e programas para reunião das famílias separadas. Prometem-se projetos “para promover crescimento econômico equilibrado e coprosperidade da nação”, e para a conexão e modernização de ferrovias e rodovias. (Ao que subiram as ações de empresas de infraestrutura na Korean Exchange, a bolsa de valores de Seul.)

Faço, talvez, citação excessiva da Declaração, mas 17 anos no Secretariado da ONU me ensinaram que a linguagem dos acordos é essencial, é cuidadosamente escolhida, jamais uma palavra está jogada ali por acaso, mesmo quando tem o objetivo deliberado da ofuscação linguística.[2]

A desnuclearização, o componente do acordo que naturalmente causa mais preocupação, análise e especulação internacional que todo o resto, é o último item da Declaração, e tem quatro componentes: 1)pacto de não-agressão entre Norte e Sul, explicitamente excluindo entre estes o uso da força; 2)Norte e Sul concordam em desarmamento “em fases, à medida que a tensão militar é aliviada e haja progresso substancial em construção de confiança na área militar”; 3)buscarão reuniões trilaterais envolvendo as duas Coreias e os EUA, ou quadrilaterais com a China, “para declarar o fim da guerra”; 4)Norte e Sul confirmam “o objetivo comum  de realizar, via desnuclearização completa, uma Península Coreana livre de armas nucleares” (“a nuclear-free Korean Peninsula”).

Para qualquer leitor cuidadoso está claro que a desnuclearização prometida não é a da Coreia do Norte, mas sim, a da Península Coreana – o que deveria em tese excluir parte das especulações sobre o que esperar de uma reunião de cúpula entre Donald Trump e Kim Jong-un, por ora prometida para breve. Há muita discussão sobre quanta diferença existe entre a ideia de “desnuclearização” de Kim Jong-un e a de Donald Trump, e sobretudo a de John Bolton que – surpresa maiúscula! – é de repente o maior defensor de um encontro Trump-Kim.[3]John Bolton, atualmente Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, afirma que os Estados Unidos não vão mudar sua posição em favor de reforçar sanções contra Pyongyang, porque estas é que teriam levado Kim Jong-un à negociação.

Bolton considera que a Coreia do Norte tem que abandonar totalmente seu programa nuclear antes de qualquer diminuição das sanções. E acrescentou que seu modelo para resolver impasses nucleares era o da Líbia em 2003, 2004. Se de fato for essa a linha defendida por Washington, não haverá desnuclearização. A esperança estaria ligada à imprevisibilidade das ações do presidente americano Donald Trump. Especula-se que ele, tanto quanto o jovem ditador Kim, apreciam a luz favorável com que aparecem na media internacional no presente momento. E Trump reiterou que quer se encontrar com Kim também em Panmunjom, zona desmilitarizada, e não em algum terceiro país. Os mais céticos nos Estados Unidos dizem que as ideias de Bolton são loucura e que os Estados Unidos precisam se preparar para aceitar a Coreia do Norte pelo que ela é, isto é, país com armas nucleares.

Sempre se discutiu, em todos os casos, a eficácia de sanções, já nas famosas sanções contra o apartheid na África do Sul. É complicado medir o efeito longe da palpitologia, pois envolve relações entre variáveis da economia e da política. No caso da liderança norte-coreana, certamente sanções teriam sido inócuas sem a China, com a qual se dão 80% ou mais das trocas do país. Os Estados Unidos estavam começando a propor sanções indiretas contra países que negociassem com a China. Mas, no fim das contas, foi relevante a adesão da China. Felizmente não foi total, no Conselho de Segurança da ONU, pois a proposta americana incluía impedir Kim Jong-un de sair do país.

O presidente Moon Jae-in habilmente creditou ao Presidente Trump e à sua pressão por sanções o sucesso da cúpula intercoreana. Mais surpresa! Mais proposta inusitada! O presidente sul-coreano disse que Donald Trump merece o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços em trazer a Coreia do Norte para a mesa de negociações. Realmente, se conseguir a desnuclearização – da Peninsula Coreana, Sul e Norte – Trump merece o Nobel da Paz. O louvor do presidente Moon Jae-in não chega a apagar as diferenças de posição entre Seul e Washington. Além de que o resultado que veio a tona em 27 de abril teve uma imensidão de reuniões prévias de alo nivel. Basta lembrar os encontros de Panmunjon em janeiro deste ano para preparar a participação conjunta nas Olimpíadas de Inverno de PyeongChang.

E ainda depende de muita negociação futura e mais reuniões de cúpula. A primeira será em Tóquio, 9 de maio, entre Coreia do Sul, Japão e China, com a desnuclearização como tema. É possível que em seguida o presidente sul-coreano vá a Washington informar Trump pessoalmente sobre suas conversações com o líder norte-coreano. E já conversou com António Guterres, Secretario Geral da ONU, sobre a verificação da suspensão de testes nucleares. Por ora, Kim Jong-un suspendeu seus testes e lançamentos e prometeu fechar as instalações de testes de Punggye-ri. Os alto-falantes na fronteira já foram retirados.

As atenções se concentram no tema nuclear. A unificação entre as duas Coreias por ora não é tema da agenda internacional ou de qualquer das reuniões previstas para discutir a Coreia do Norte. É sonho remoto de bem poucos coreanos, ainda que se perceba, da Declaração de Panmungjom, sugestões de que vagamente, em alguma parte do mundo dos sonhos, se trata de um só povo e uma só nação, por exemplo, quando logo no início se fala em “reconectar as relações de sangue do povo” ou se afirma “o princípio de determinar o destino da nação coreana por sua própria conta”.

Por ora, o que se festeja é a paz e a reaproximação entre irmãos. Uma das principais vozes da literatura coreana, Hwang Sok-yong, lembra da guerra, tinha 7 anos de idade quando ela começou, e agora comenta o absurdo: “tenho 75 anos e ainda vivo em estado de guerra”. Espera que sua neta de 8 anos veja a assinatura de um tratado de paz, e, segundo o escritor coreano, isso se deve ao fato de que agora há democracia na Coreia do Sul. Para ele, mais importante que falar de reunificação, sem conteúdo real, é estabelecer relações amistosas como transição para chegar a um tratado de paz. A comparação com a reunificação alemã, segundo ele, não serve, porque na Coreia os dois lados estão pesadamente armados. Hwang Sok-yong diz que está concluindo um romance sobre três gerações de ferroviários e a história da Coreia e, quando a paz entre o Norte o Sul tiver se concretizado, organizará um trem com escritores que partirá de Paris e atravessará o continente euro-asiático até Pyongyang.[4]Eis como Hwang Sok-yong “não sonha” com a reunificação.

 

[1]Na Guerra da Coreia (1950-53), os Estados Unidos formaram o principal contingente das tropas enviadas pela ONU depois que a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul. Morreram quase 37 mil soldados americanos, mas a Guerra da Coreia é pouco lembrada nos Estados Unidos. Curiosamente, é mais lembrada por economistas, por causa do surto inflacionário que provocou nos EUA em seus primeiros anos.

[2]Ainda que seja desperdiçado em parte o cuidado com as palavras se for verdade o que mostrou Michael Woff em Fire and Fury: Inside the Trump White House(Henry Holt and Co. 2018), que o limite de atenção de Donald Trump para a leitura não passa de uma página.

[3]Examinamos na Será?de 8 de setembro de 2017 as ideias de John R. Bolton sobre como “extirpar” (sic) o regime de Pyongyang, conforme expressas em artigo no Wall Street Journalde 2 de agosto de 2017.

[4]www.liberation/fr/planete/2018/05/01

 

One Comment

  1. Lúcido comentário! Como sugeriu, a China tem papel central na resolução dessa questão.

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