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Penso, logo duvido.

O Lago dos Cisnes de Tchaikovsky, a quintessência do balé clássico – Frederico Toscano

Frederico Toscano

O príncipe Siegfried e a princesa Odete na produção de O Lago dos Cisnes do Balé Real da Suécia em 2008.

Em 2010 os amantes do cinema foram envolvidos pelo terror psicológico do filme Cisne Negro(Black Swan, em inglês) dirigido por Darren Aronofsky e estrelado por Natalie Portman, que recebeu o Oscar de melhor atriz pelo papel dilacerante que incorporou. O enredo do filme, que recomendo vivamente, gira em torno de uma produção do balé dramático O Lago dos Cisnes, do compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893), por uma companhia de prestígio da cidade de Nova York. A produção exige uma bailarina para interpretar tanto o inocente e frágil Cisne Branco, para o qual a comprometida e perfeccionista Nina (Portman) é a escolha perfeita, quanto o malicioso e sensual Cisne Negro, que são qualidades que se encaixam perfeitamente na recém-chegada Lily. Nina é dominada por um sentimento de imensa pressão quando ela se vê competindo pelo papel, fazendo com que ela perca o senso da realidade e caia num pesadelo vivo.

O diretor de Cisne Negro não podia ter melhor inspiração ao selecionar O Lago dos Cisnes como pano de fundo para a busca da perfeição artística, com todos os desafios físicos e psicológicos que isso poderia acarretar. O filme pode ser visto como uma metáfora poética para o nascimento de um artista; uma representação visual da odisseia psíquica de Nina para alcançar perfeição artística e do preço a ser pago por isso. O balé de Tchaikovsky, neste contexto, foi selecionado por ser talvez a obra mais complexa para ser executada na dança, exigindo da bailarina principal, que atua em dois papeis absolutamente opostos ao longo do enredo, completo domínio técnico da extenuante arte do balé clássico.

O convite para criar a música do balé O Lago dos Cisnes, feito pela direção do renomado Teatro Bolshoi de Moscou, chegou na primavera de 1875. Na carta ao compositor Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908), em 10 de setembro daquele ano, Tchaikovsky reconheceu: “Comecei este trabalho, em parte por causa do dinheiro, que preciso muito, e em parte porque há muito queria experimentar este gênero de música”. E aqui um parêntese para um breve histórico sobre o balé. Este estilo de dança se originou nas cortes da Itália renascentista durante o século XV, e se desenvolveu ainda mais na Inglaterra, Rússia e França como uma forma de dança de concerto com o acompanhamento de música clássica. Os princípios básicos do balé são: postura ereta; uso do “en dehors” (rotação externa dos membros inferiores), movimentos circulares dos membros superiores, verticalidade corporal, disciplina, leveza, harmonia e simetria. A palavra “balé” vem do francês “ballet”. Por sua vez, a palavra francesa tem sua origem na palavra italiana “balleto”, diminutivo de “ballo” (dança). Pela grande popularidade, aperfeiçoamento e valorização desta dança na corte de Luís XIV (1638-1715) em Versalhes, a forma francesa do seu nome se tornou universal.

Voltando à obra de Tchaikovsky, o compositor conseguiu terminar os dois atos do balé ainda em agosto de 1875, ao hospedar-se na casa da irmã, Alexandra. Depois voltou a trabalhar nesta composição no outono, mas, apenas em março do ano seguinte, dedicou-se seriamente à sua instrumentação. Sem dúvida, o seu amor ao balé, revelado claramente desde o início da juventude, desempenhou papel decisivo para que Tchaikovsky aceitasse o convite para compor uma música de um gênero tão novo para ele. Nikolay Kashkin (1839-1920), crítico musical e professor do Conservatório de Moscou, lembra que Tchaikovsky “trouxe da biblioteca teatral muitas partituras de balé, e começou a estudá-las detalhadamente. Conhecia as composições como expectador de balé. Naquele tempo, o seu ideal era Giselle, apaixonado que era pelo enredo poético de Théophile Gautier (1811-1872), escritor francês, e pela maestria da composição de Adolphe Adam (1803-1856).

Longas reuniões com o coreógrafo do Teatro Bolshoi antecederam a composição da música, ajudando-o a elaborar o programa das danças e todo o roteiro do balé. Não foram preservados os dados documentais exatos sobre o autor do libreto, mas alguns indícios levam a supor, segundo os biógrafos do compositor, que foi escrito por Vaclav Reisinger (1828-1892), coreógrafo vindo da Áustria em outubro de 1873, que já havia criado alguns libretos para encenações de balé no Teatro Bolshoi. A escolha do enredo, baseado no folclore alemão, pode ser devida à origem de Reisinger. Os temas do amor “ilusório” que não pôde acontecer, da saudade agonizante, e do ideal não satisfeito soam ao longo de todo o balé. A energia transmitida pela música, extraordinária pela clareza e força do sentimento, pode ser sentida desde a abertura.

Quando começaram os ensaios de O Lago dos Cisnes, Tchaikovsky informou ao seu irmão Modest em 24 de maio: “Ontem, na sala da Escola de Teatro realizou-se o primeiro ensaio de alguns trechos do primeiro ato deste balé. Se você soubesse como era cômico olhar para o coreógrafo, que inventava com o som de um violino as danças, com o ar mais concentrado e inspirado! Ao mesmo tempo, era formidável ver as bailarinas e os bailarinos, simulando sorrisos para um público presumido, e deleitando-se com a possibilidade de saltar e rodar, cumprindo com isso uma obrigação sagrada. Todos estão encantados com a minha música.” Tchaikovsky foi para a propriedade de Konstantin Shilovsky (1849-1893), artista do Teatro Mali de Moscou, em 28 de março e voltou para Moscou em 12 de abril, com a partitura do balé terminada. No final do manuscrito: “Fim!!! Glébovo, 10 de abril de 1876.”

O enredo do balé, que dura pouco mais de duas horas, é relativamente simples. O primeiro ato se inicia num castelo onde se realiza com toda a pompa o aniversário do príncipe Siegfried. A rainha oferece ao filho como presente um baile e pede-lhe que, no dia seguinte, escolha uma esposa entre as convidadas da festa. Quando os convidados saem do castelo, um grupo de cisnes brancos passa perto do local:

Enfeitiçado pela beleza das aves, o príncipe decide caçá-las. Este momento é marcado pela melodia principal do oboé:

No Ato II, vemos o lago do bosque e as suas margens, pertencentes ao reino do mago Rothbart, que domina a princesa Odete e todo o seu séquito sob a forma de uma ave de rapina. Rothbart transformou Odete e as suas companheiras em cisnes, e só à noite lhes permite recuperarem a aparência humana. A princesa só poderá ser liberta por um homem que a ame. Siegfried, louco de paixão pela princesa dos cisnes, jura que será ele a quebrar o feitiço do mago:

O Ato seguinte (III) tem início com um baile no castelo real, no qual o príncipe deve escolher sua esposa diante de várias princesas estrangeiras, que se apresentam em danças típicas de seus países de origem, como a espanhola:

No baile aparece um nobre cavalheiro e sua filha. O príncipe julga reconhecer na filha do cavalheiro a sua amada Odete, mas, na realidade, os dois personagens são o mago Rothbart e sua filha, Odile. A dança com o cisne negro decide a sorte do príncipe e da sua amada Odete: enfeitiçado por Odile, Siegfried proclama que escolheu Odile como sua bela futura esposa, quebrando assim o juramento feito a Odete:

No Ato IV, que encerra o balé, os cisnes brancos tentam em vão consolar a sua princesa, que é destroçada pela decisão do príncipe, aceitando a sua má sorte. Nesse momento, surge o príncipe Siegfried que explica à donzela como o mago Rothbart e a feiticeira Odile o enganaram. Ela perdoa o príncipe e os dois renovam os votos de amor um pelo o outro. Nesse momento, aparece o mago Rothbart e tenta matar Odete. O príncipe corta as asas de Rothbart fazendo com que ele perca seus poderes, e tendo renovado seus votos de amor, se casa com Odete:

A estreia aconteceu apenas em 20 de fevereiro de 1877, durante um espetáculo em benefício da bailarina Pelageya Karpakova (1845-1920). Escreveu uma das testemunhas, segundo o Teatralnaya Gazeta de 21/2/1877: “O teatro estava verdadeiramente repleto, o que se explica pelo interesse do público em escutar a nova obra musical de um dos mais destacados e populares compositores russos. Se julgarmos pelo número de chamadas, ao final, dos aplausos, com que o público saudou o compositor, então, é possível dizer que seu balé teve sucesso. E, efetivamente, há no balé trechos que realmente se destacam, como, por exemplo, a melodia da valsa, repetida várias vezes, que é bonita, sonora, com uma coloração derivada de canções populares russas, que se ouvem na abertura e durante todos os atos […] Não se pode dizer que o balé foi encenado com muito êxito. Às danças faltou movimento, originalidade, interesse”.

Este foi o ambiente da primeira apresentação de O Lago dos Cisnes em Moscou. O balé gozou de sucesso de público, e permaneceu no palco do Teatro Bolshoi por quase seis temporadas e 39 espetáculos. Não há razões para pensar que o compositor pudesse ficar descontente com o seu trabalho, ainda mais porque a crítica em geral revelara uma atitude bem positiva em relação à magnífica música, criticando apenas Reisinger pela má coreografia.

Mas, como acontece com qualquer outra personalidade artística, às vezes parecia a Tchaikovsky que poderia conseguir algo mais. Alguns meses depois, por exemplo, ele escreveu para o compositor Sergey Teneev (1856-1915): “Em Viena escutei o balé Sylvia, de Leo Delibes. Digo mesmo ‘escutei’ porque era o seu primeiro ato, em que a música constitui não apenas o essencial, mas o único interesse. Que maravilha, que elegância, a riqueza melódica, rítmica e harmônica. Senti vergonha. Se conhecesse essa música antes, certamente, não escreveria O Lago dos Cisnes. ” Não podemos considerar justa esta auto humilhação, sempre associada à depressiva personalidade de Tchaikovsky. O balé de Delibes e, principalmente, O Lago dos Cisnes tornaram-se a base do repertório mundial de balé. No íntimo, afirma o pesquisador Alexander Poznansky na mais atual e completa biografia do compositor (Ermakoff, 2012), o mestre russo sabia que havia criado uma obra-prima para a eternidade. Em 9/21 de fevereiro de 1888, em Praga, depois da apresentação do segundo ato do balé, Tchaikovsky, como bom romântico, escreve no diário: “O Lago dos Cisnes. Um minuto de felicidade absoluta. Mas apenas um minuto…”.

É importante salientar que na versão original do Bolshoi de 1877, o final é trágico. Nesta versão, Rothbart obriga Siegfried a casar-se com sua filha Odile. Quando ele se recusa, Rothbart se lança sobre eles e acaba afogando ambos Siegfried e Odete no lago dos cisnes. Ao cair das cortinas, Rothbart termina triunfante. Por sorte, aqueles que perceberam o potencial da história e da música uniram esforços para a criação de novas versões. O coreógrafo russo Lev Ivanov (1834-1901) se juntou com o colega de profissão conterrâneo Marius Petipa (1818-1910) para criar uma nova coreografia complexa e de altíssima dificuldade técnica, combinando graciosidade e grande esforço dos bailarinos. Na década de 1950, sob o regime soviético, o Teatro Mariinsky criou a versão com final feliz que utilizamos no vídeo acima, na qual Siegfried luta e arranca uma asa de Rothbart. Após a luta, o feitiço é quebrado, as donzelas retomam suas formas humanas e Siegfried e Odete terminam juntos ao descer das cortinas. Para o psicanalista paulistano Jorge Forbes, o espetáculo “é universal e atemporal porque dá chance às pessoas de contarem a sua própria história, é aberto o suficiente para cada um se ver na obra. O que define um clássico é que não somos nós que o interpretamos, é a obra que nos interpreta”.

Algo que distingue a tragédia amorosa de O Lago dos Cisnes é o caráter de Odete, heroína que não é mulher nem animal, “um ser totalmente mágico, criatura da imaginação”, como escreve George Balanchine (1904-1983) no livro 101 Histórias dos Grandes Balés. A protagonista mulher-animal remete a contos de fada e mitos espalhados por diversos países, e a identificação do público com seu drama é quase imediata. “O conflito entre o amor intermediado (casar por obrigação) e o amor direto (casar por vontade própria) é da modernidade. Na pós-modernidade, onde vivemos hoje, não há padrão fixo, não se acredita nessa obrigação, mas é um drama que ainda fascina multidões – haja vista a história da princesa Diana”, diz Forbes. Ele aponta ainda outro aspecto contemporâneo: “O drama do príncipe é ter de fazer uma aposta: Odete é um animal, ele tem que dizer ‘eu te amo para sempre’ para essa coisa esquisita. É a aposta que as pessoas fazem até hoje. Quando alguém de 21 anos, como o príncipe do balé, quer casar, tem que bancar ficar com outra pessoa apostando no que vê e no que não vê”.

O Lago dos Cisnes é a metonímia por excelência para o balé clássico. A imagem da bailarina quase etérea, a linha vertical de pernas e braços alongadíssimos dividida pelo saiote armado de Odete, é o símbolo desse gênero no mundo da dança e no imaginário popular. É quase um paradoxo: erudito que é, esse clássico mantém, desde o fim do século XIX, atributos de uma obra pop. O balé mais visto de todos os tempos gera celebridades, inspira produções de outras linguagens artísticas e tem alto valor de mercado, com sucesso de público garantido.

O fato é que as melodias de Tchaikovsky são arrebatadoras. Boa parte dos seus trabalhos, a bem da verdade, é composta por obras sinfônicas. Entretanto, talvez suas composições mais bem-sucedidas sejam os balés, que herdaram o seu colorido instrumental. Com O Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida – a partir do clássico conto de fadas – e O Quebra-Nozes, sempre revivido na época natalina, ele conseguiu exaltar o gênero, que até então era visto com inferioridade. Atuar nos balés de Tchaikovsky, com sua rica musicalidade, é o maior sonho de todos aqueles que encaram a longa jornada de aprendizado nas escolas de dança mundo afora. Nessas obras, destacaram-se e se desenvolveram virtudes orquestrais que nenhum outro compositor havia demonstrado: uma nova dimensão da arte foi revelada.

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One Comment

  1. Irado! Ele voltou e não sairá mais, espero. Interlúdio de beleza em meio ao carma de sofrência desse país às vésperas de não saber em quem votar, afogado pela cupidez rothbariana dos sobreviventes do poder que se esgarça. Eu, que só conhecia o final roliudiano, feliz, soviético, espero que este seja bom augúrio para nós. O intenso romantismo de Piotr Ilich, por mais que tenha sofrido por não ter vivido o liberou geral dos dias de hoje,que nos embale; e que não nos falte Toscano na “Sera?”

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