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Penso, logo duvido.

O paciente de Dr. Simões – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Lucian Freud ‘Man’s Head (Self Portrait II)’ 1963.

Vivi tempos em que chegava à Mercearia São Pedro ainda no meio da tarde. Pedia a França – garçom comandante da casa – uma cerveja Original, lia os jornais que trazia e, lá pelas cinco horas, subia ao consultório do Dr. Simões para uma sessão de terapia, ali mesmo na rua Rodésia, perto do fórum de Pinheiros, em São Paulo. Na mesa agora vazia, França colocava uma plaquinha de “Reservada” – uma primazia rara naquele reduto de intelectuais e boêmios da Vila Madalena – e eu dizia até já, cara, dentro de uma hora estarei de volta e espero que daqui até lá esse calor dos diabos tenha se dissipado. E fique de olho para não deixar ninguém chato sentar ao lado, viu? Você sabe que seu amigo aqui volta mais embalado do que foi, e não tem paciência para aturar qualquer um. A turma do futebol pode ser uma boa pedida, contanto que eles não estejam muito carburados. E então lhe adiantava uma gorjeta de dez reais.         

*

Diante do espelho, passeio as pontas dos dedos pelo couro cabeludo e vou sentindo os fios grisalhos que, aparentemente, pouco mudaram de cor e de volume nos últimos quinze anos, desde quando era paciente do Dr. Simões. Sem ser abundantes, os cabelos da cabeça são relativamente ralos, mas enganam bem. Desde os 40 anos, tenho uma espécie de calva no cocuruto, como é do feitio da família paterna, de que guardei alguns traços flagrantes, especialmente no temperamento irascível. A calvície lateral, acentuada pelas chamadas entradas, parece ter refreado os avanços e, felizmente, já se foi a meia-dúzia de fios que cresciam de cada lado, e que me levavam ao ridículo de achar que eram tão meus quanto todos os demais, de forma que lhes dava uma atenção excessiva, como se temesse perder o último vestígio piloso na região temporal. Quanto à textura dos cabelos, continua como sempre foi. No frio, eles ganham corpo e algum brilho. No calor, transformam-se numa espécie de palha seca que precisa ser domada à base de gel Bozzano, encontrável em qualquer farmácia brasileira à razão de R$14,00 o enorme pote de gosma azul. Quando criança, usava fixador Juvenia, de cor rosa, que brotava de um tubo branco. De tempos em tempos, tinha que me curvar às imposições de minha mãe para que os submetesse a alisamentos em salões femininos de sua frequentação, procedimento doloroso e fadado ao ridículo, especialmente quando os cabelos levavam chuva ou mesmo na sequência da natação. As pontas ficavam espetadas e mais de um aluno do Ginásio de Aplicação – a pátria do “bullying”, segundo alguns – chegou a me chamar de professor Canavieira, aludindo ao corte do personagem de Chico Anysio. Para minha mãe, hoje como então, “cabelo é tudo, é a moldura do rosto”. Se é ou não, para mim foi um tormento. Graças aos cuidados que tinha que tomar, frustrei uma carreira recreativa de nadador. Quando no barbeiro, percebo que ele corta com a ponta da tesoura uns fios que me escapam do nariz e das orelhas. Mas isso vem mais tarde.

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Chegando ao quarto andar, esperava na pequena sala. Ali ouvia Bach em surdina até que, em poucos minutos, emergia do gabinete aconchegante aquele homem angustiado, cabisbaixo, de nariz vermelho, exalando nicotina e sempre assolado pela dúvida se deveria me dirigir um boa tarde ou se era mais recomendável passar direto para o elevador. Então lá vinha o Dr. Simões que, arejando a sala, fazia um gesto característico para que eu tomasse assento. Uma vez em cada três, apontava o divã e, arqueando as sobrancelhas espessas sobre os olhos verdes, assinalava que aquela também era uma possibilidade. “Ainda não estou pronto, prefiro sentar, obrigado. Nossa, teu amigo hoje fumou um bocado por aqui, hein? Se quiser, pode deixar as janelas abertas, está mais fresquinho do que lá embaixo”. Em dez minutos, dissipava-se a nicotina antiga e eu me encarregava de produzir uma carga fresquinha que voltava a empestear os ares  

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“Ele perece que está gozando”, disse certa feita uma prostituta dos lupanares recifenses sobre meus olhos mortiços. “Ele tem olhos pequenos para esse corpanzil, mais parecem os de um elefante”. O que tenho a dizer sobre eles? Quando os fixo no espelho, podem ser esverdeados como os de meu pai, especialmente se passei o dia ao sol, o que quase nunca acontece. Mas de regra, são castanhos claros e ainda funcionam bem, apesar dos óculos de vinte euros que compro às pencas nas farmácias europeias, para tê-los em quantidade suficiente para espalhá-los onde vá: sala, cabeceira, banheiro, cozinha, carro e escritório. Se os olhos nada têm de muito especial, meus cílios são uma unanimidade. Arqueados, nunca pude vê-los de perfil até o dia em que um efeito combinado de espelhos os colocou em meu ângulo de visão. Não gostei. Lembram os de um médico sírio que conheci na Alemanha, cujos cílios revirados eu associava ao homossexualismo latente daquele homem gentil e de imenso nariz. Mas podemos deixar o nariz para logo mais. Ainda sobre os olhos, ultimamente venho sentindo alguns repuxões na pálpebra da vista direita e não sei a que isso possa estar ligado. Muitas vezes tenho também a sensação de que ele fica mais fechado do que o esquerdo, e isso me faz lembrar aquele olho horrendo de Onassis, perto do fim da vida. Se os milhões dele não resolveram a pálpebra arreada, de que me valerá a pouca fé na medicina? Em muitas fotos, vejo que tenho uma espécie de estrabismo, um desvio no olho direito, similar ao que tinha o meu tio Pipe. Longe de ter uma mirada simétrica, o olhar está desbalanceado, e as pessoas podem perfeitamente julgar que falo com uma e olho para outra. Imagino que isso vá se agravar com a idade. Mas, pensando bem, aos 60 anos, que importância mais tem isso? Muitas vezes a vista está bastante cansada e um jejum digital a regenera a ponto de poder ler jornal sem óculos. Que aproveite bem esse bônus inusitado.

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Começávamos a sessão. Rompendo o silêncio, eu tateava os terrenos mais palpitantes e me lançava na proposição de casos que soassem divertidos ou originais, forma de compensar meu terapeuta pelas lamúrias insossas do paciente que me antecedia. Ele quase nunca reagia, mas chegou a dizer que o consultório dele não era o São Paulo Fashion Week. Ou seja, que eu não me preocupasse em trazer novidades ou relatar coisas impressionantes. Eu rebatia que não fora criado para entediar as pessoas, mesmo que lhes estivesse pagando, mas era inteligente o bastante para entender o recado. No final da sessão, chegava a um ponto nevrálgico ligado às mazelas de minha pequena vida. Mas isso quase sempre coincidia com os 50 minutos. Voltando ao bar, laçava o primeiro circunstante à volta e dava vazão ao ímpeto liberado. Da próxima vez, faria o aquecimento no bar e chegaria lá com os conteúdos formatados. E não o contrário.  

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“Isso é o que eu chamo de um belo pau…de venta”, disse jocosa a amante de ocasião, fazendo o suspense devido com a providencial paradinha. Para algumas nordestinas, venta é uma forma desabusada de denominar nariz, emulando o linguajar da gente simples e não raras vezes de falar castiço. É claro que eu preferia que a frase de Elza não tivesse sofrido o complemento que veio depois das reticências. Mas a verdade é que ela só quis dizer que gostava de meu nariz aquilino e, para alguns, levemente semita. Nunca o vira de perfil até o dia em que pude me deter a contento em seu exame, na mesma ocasião da descoberta dos cílios. Tirando uns cabelinhos que vez por outra aparecem na região do lábio superior – as vibrissas, como ensinou mamãe, que ajudam a filtrar o ar inalado -, o nariz não me dá grande trabalho. Nos tempos que era rato de praia, tinha que besuntá-lo com espessa camada de protetor e creio que a pele ali já tenha passado por muitas mudas, tantas foram as camadas que retirei. “Seu nariz está em carne viva, rapaz. Vai cair”, costumava bradar papai com sua proverbial moderação e senso de proporção. Congestionado, bombardeio as narinas com pesada artilharia de remédios até que o ar circule bem. À noite, é por ele que respiro e aprendi a dormir de boca fechada, o que considero um dos únicos feitos de saúde que logrei depois de velho. Em todos os demais domínios que demandam um mínimo de exercício e determinação, só colecionei fracassos. Mas a essa altura, o que importa? Que diferença isso pode fazer? Ah, já ia esquecendo de dizer que gosto do alinhamento de meu nariz com uma pequena cicatriz que tenho no meio da testa. Ela se deve a um cubo de gelo pontiagudo, arremessado por Fernando Nicola do nono andar, há mais de 40 anos, e deixou uma marca eterna. Quando a vejo, agradeço ao destino que tenha poupado um olho de um vazamento, se atingido pela quina fria e fatal. De mais, arianos têm mesmo marcas na testa.

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Certa vez eu disse ao médico: “O tempo que nos falta aqui dentro, eu compenso lá fora. Quem manda você atender no coração de um dos bairros mais alegres da cidade?” Ele sorriu com economia e um laivo de tristeza. Como aquele homem era contido, meu Deus. De sua boca, na verdade, só me lembro de ter escutado uma frase recorrente: “Isso só depende de você”, e lá se iam R$ 250,00, mais do que o que eu gastava no bar com dez cervejas, um prato de carne assada com pimenta e dois pães franceses fatiados. Não era raro que fosse do aeroporto direto para o bar-consultório, o que atestava que prezava muito aqueles momentos. Cá no íntimo, achava que se desembarcava diretamente de uma capital brasileira – ou de alguma outra cidade mundo afora – e antecipava a chegada só para vê-lo no horário aprazado, alguma força transformadora deveria estar em operação dentro de mim. Sobre isso, acho que não me enganei.   

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Custo bastante a conceber que tudo o que comi na vida passou pela boca. Calculando por baixo, são bem mais de 40 mil quilos de comida ingeridos até hoje. Como falar sobre o metabolismo e o duto de saída seria de gosto duvidoso – ademais de visualização inacessível para o dono -, também sou grato de que a boca nunca me tenha pregado peças. Assim, dizem que tenho lábios bem delineados e, dado o formato oblongo do rosto, é claro que a boca hoje parece pequena. Acho que fiz bom uso dela ao longo da vida e concatenei bem os esforços entre os lábios, a língua e até os dentes incisivos nas funções não-alimentares, ou seja, afetivas e sexuais. A primeira vez que beijei como se deve foi, na verdade, uma aula magna da disciplina. Isso porque teve surpresa, técnica e lascívia. Tinha eu 15 anos e ela uns 40. O cenário era o das margens do Sena, e ela acabara de comer um doce açucarado, acho eu que propositadamente. Depois daquele dia de verão de 1973, sempre quis aplicar as tecnicalidades assimiladas a todo beijo amoroso que dei, o que me valeu boa fama num terreno nevrálgico e eliminatório. Com minha boca percorri outras bocas, abrindo caminho com a língua e, graças a esse sutil estratagema, explorei dentes esmaltados, longos pescoços, nucas aveludadas, seios cremosos, ventres acetinados, baixos ventres aromáticos, virilhas sinuosas, nádegas azuladas, costas polvilhadas de sardas, pantorrilhas polonesas e até os sensíveis pés orientais. Nunca me ocorreu perguntar ao Dr. Simões sobre algum ponto estacionário em que eu tenha estacado na tal fase oral, que nunca soube ao certo o que vem a ser. Mas acredito que têm razão os nipônicos quando dizem que todo mal começa pela boca. Tanta razão quanto a que assiste aos húngaros ao afirmar que o peixe começa a feder pela cabeça, quando querem se referir à imbecilidade alheia. Certo mesmo é que coloco na boca mais coisas do que deveria. São elas canetas, hastes de óculos e marcadores de livro. Da mesma forma que testo com a ponta da língua perfumes e fragrâncias várias. O dentista disse que tenho bruxismo acelerado e que um lado das arcadas está mais desgastado do que o outro. Mas então me pergunto: que importância tem isso a essa altura?

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Numa dessas ocasiões de bar, quando a noite estava no auge e eu ia a todo vapor, lá chegou um velho conhecido, figura elegante e agradabilíssima. Ele talvez não soubesse que eu estava ao par de uma temporada prisional que ele purgara por ter violado os cânones aplicáveis aos fiéis depositários, mas isso pouco importava. Se ele quisesse falar do fato, é óbvio que eu teria algumas perguntas a fazer para satisfazer a curiosidade dos escribas amadores. Mas isso só dependia dele. “Tempos atrás fui levar uma televisão de presente para uns amigos que fiz num clube novo, sabe. Você não imagina como tem gente que se sente à margem do mundo, sem conexão com a vida. E digo mais: certas experiências criam uma empatia esquisita”. Estava claro que ele sabia que algo me chegara aos ouvidos. Mas era aquela habilidade em dar voltas que o singularizava. No fundo, nem omitia o tema nem o escancarava a ponto de desequilibrar a noite. Genial.   

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Desconfio seriamente que boa parte de minha audição à direita tenha se apagado. Das poucas vezes que falo ao telefone, jamais o faço levando o aparelho à orelha direita. E, quando chego ao restaurante com algum convidado, sento-o sempre à minha esquerda, caso atribua alguma importância ao que ele vai dizer ou mesmo àquilo sobre que pretende silenciar.  Mas no geral, acho que escuto razoavelmente, o que não vem muito ao caso. Isso porque quero mesmo é falar de minhas orelhas, essas ilustres anônimas. O que têm de especial? Nada. Odeio, naturalmente, quando alguém as aperta, mas contenho a fúria à custa de treinamento e então sorrio. No mais, elas têm grande plasticidade e são feitas de cartilagem de primeira linha. Já foram submetidas a temperaturas árticas muitas vezes e logo readquiriram o calor do corpo, minutos após receber o hálito da lareira. Para não dizer que falamos de perfeição de qualquer ordem, é bem verdade que ultimamente veem nascendo uns pelinhos na superfície que tem atrito com os cabelos, como se fosse uma espécie de implante espontâneo que estivesse se operando. De novo, eles não escaparam ao escrutínio do barbeiro que passou a me pedir permissão para untá-las com uma espécie de cera derretida que, uma vez petrificada, ele arranca com um só puxão. As orelhas ficam vermelhas e a sensação está longe de ser agradável, mas o resultado satisfaz. Quantas vezes já me submeti a esse ritual bizarro? Seis, talvez, nesses últimos anos, o que dá conta da lenta progressão da anomalia. “À medida que o senhor for envelhecendo, eles vão aparecer mais. Mas então a gente passa essa cerinha quente e tudo fica resolvido. Sei que o senhor não gosta, mas é melhor do que ficar com orelha de macaco”, disse ele com pronunciado sotaque caipira. Para desencorajá-lo a repetir a cantilena, desestabilizo-o em sua zona de conforto quando rebato: “Passa da hora de o Judiciário autuar as igrejas evangélicas, não acha? Vai acabar essa sua mamata de ir a Israel todo ano e, sob pretexto de batizar as fiéis no rio Jordão, levá-las para a cama na sequência”. Então quem fica com as orelhas ardendo é ele. Sem gorjeta.

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Então, mudando o curso da conversa, quando eu já me animava a perguntar-lhe sobre o tal clube, ele disse: “Aliás, você percebe o quanto nos tornamos invisíveis, rapaz? Lembra dos anos 1980, quando chegávamos ao Supremo, lá na Consolação, e o mulherio parava de conversar, se cutucava e nos olhava com aquela lascívia? Hoje o máximo que podemos almejar é fisgar uma vovó jovem. Jovem talvez, mas avó inevitavelmente”.  E continuou: “Como a gente se enxerga todo dia no espelho ao fazer a barba, fica difícil perceber o estrago do tempo. Olheiras, calvície, barriga, tudo isso somado nos derruba, meu velho”. Na mesa vizinha, Dr. Sócrates, o ex-jogador, tentava articular um raciocínio, mas travava. Na frente dele, Xico Sá sorria e emborcava uma cerveja. Acenei para Marcelino Freire para que se juntasse a nós. Aquela conversa estava tomando um rumo deprimente. Mas era verdade que tanto ele quanto eu nos tornáramos quase invisíveis.     

*

A caminho do tórax, passando pelo pescoço, impõe-se fazer uma pausa explicativa. Afinal, tenho pescoço ou não? Pois bem, até os anos 1990, não havia grande dúvida que a resposta era afirmativa. À medida que o rosto arredondou e se lhe despencou uma papada indecente, o pescoço sumiu. A ponto de ter vivido cena patética em Portugal, conforme relato. Foi assim: ia comprar uma camisa, mas o colarinho ficara bem abaixo do discreto pomo-de-Adão. O vendedor, decepcionado com minha desistência, insistiu no argumento de que aquele era o tamanho certo: “Este é o que convém a si, homem. Quanto mais baixo o colarinho, melhor. Isso porque já não tem pescoço”. Como? Será que eu ouvira bem? Não tinha pescoço? Ele confirmou. “Não diga que não sabia, ora. Acaso não tem espelho?” Na mesma noite, embriagado no Bairro Alto, liguei para minha mãe e lhe perguntei se tinha ou não pescoço. A resposta não poderia ter sido mais cruel: “Enquanto você morou comigo, você teve, meu filho. Mas depois, você o perdeu. Agradeça ao tal vendedor que foi sincero e veja se toma aprumo”. O tórax, outrora bem proporcionado, era recoberto por fina camada de pelos na altura do osso externo. Por ocasião dos exames cardiológicos, mais de uma enfermeira depilou a região para lá acoplar as ventosas ligadas ao aparelho de eletrocardiograma. Isso fez com que brotassem mais encorpados, o que me leva a apará-los com tesoura uma vez ao ano. O umbigo, igual a bilhões de outros mundo afora, agora está encoberto por uma incipiente hérnia que lhe tolda metade da superfície. Afogado pela proeminência da barriga, esta pontua alto na composição da anatomia e me vale olhares assustados ou divertidos quando caminho pelas ruas. Principal responsável pelas dez arrobas que reboco mundo afora, o ventre dilatado carreia todas as conjuras do mal. A ele me atribuem o risco de morte iminente, de inenarráveis transtornos cardiovasculares e da chegada de um tropel de diabetes que me caramelizará o corpo. É por conta desse ventre bem nutrido e caprichoso que vejo declinar a agenda de convites profissionais e o desvio de olhares femininos que já me interessaram um dia. Who the fucking cares?

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Quanto tempo faz daquele encontro? Bastante. Na época, Dr. Sócrates ainda conseguia articular dois pensamentos. Xico Sá não virara atração da Globo e só falava mesmo de futebol, do Recife e de política, e Marcelino Freire era redator publicitário na agência África, da Faria Lima. Meu vínculo com dr. Simões nada tinha a ver com minha relação com Diana Zylberstajn, que, bem ou mal, encontrara uma zona de estabilidade. Procurei-o porque sentia que ladeava ambientes tóxicos e precisava delimitar com nitidez as fronteiras entre o que eu chamava de meu estadismo nato e o oportunismo alheio. Era inconcebível que onde quer que fosse no mundo, interlocutores de negócios aludissem aos pedágios extorsivos que lhes demandavam clientes brasileiros, a começar pelo Estado. Como poderia orientá-los? Será que os deveria encaminhar ao Ministério Público ou simplesmente sugerir que deixassem o País e seu potencial? Estaria eu ficando louco?      

*

Da zona pubiana para baixo, tudo parece estar bem. As carnes bem fornidas não chegam ao hemisfério sul do corpo, muito embora me impeçam de contemplá-lo se olho em direção aos pés, de que só vejo as pontas das unhas dos dedões, não raro encravadas. Nenhum outro perfil se destacará nessa perspectiva, especialmente se as partes estiverem, por assim dizer, em posição de repouso. O sedentarismo cobra preço alto no vigor das pernas que já não têm o tônus muscular de tempos recentes. A ponto tal que sempre consegui chutar bem com os dois pés e com forte potência, inclusive no canhoto. Essa habilidade me valeu a posição de lateral esquerdo no futebol e o fôlego invejável me permitia apoiar o ataque e marcar o ponta direita adversário. Destes o pior que me tocou parar foi um baixinho que jogava pelo Colégio Americano Batista e que corria como um raio. Quando parecia iminente sua chegada à nossa grande área com a bola dominada, aplicava-lhe um vigoroso sarrafo por trás, que estava longe de ser uma falta técnica. Tenho sim o joelho direito levemente comprometido por uma queda no Carnaval – ou por um acidente de carro no Chile, não sei mais ao certo -, e o médico sugeriu que fizesse uma cirurgia. Quando lhe perguntei o que aconteceria se não obedecesse à recomendação, não achou o que dizer. Isso foi há 30 anos e o leve desconforto é preferível às incertezas de uma sala de operação, que não sei sequer como é. Os braços nunca foram especialmente vigorosos, mas tenho mãos que as mulheres sempre consideraram bonitas porque parecem patas de felino. Em repouso sobre a mesa, são achatadas, carnudas e sem veias à vista. Não lembro de ter cortado as unhas das mãos depois de adulto porque sei roê-las com grande proficiência, preservando-lhes os contornos das pontas. Eventualmente, posso lixá-las em superfícies ásperas caso alguma operação resulte em sangramento leve. Trabalho bem com os cotovelos e eles são grande arma de dissuasão em ambientes aglomerados, mais até do que a barriga que, pelo menos, me garante o lugar de dois onde quer que vá.

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Certa tarde Dr. Simões encadeou mais do que três frases curtas. Não chegou sequer a um minuto de fala continuada, mas as palavras tinham sua eloquência. Enfatizou que quando as pessoas  caminhassem por terrenos movediços deveriam, vez por outra, lançar pedras adiante e ver se elas se mantinham na superfície ou se afundavam. Ademais, era importante assuntar consigo mesmo a componente da fé. Será que acreditava naquilo que estava propondo? Estava eu sendo verdadeiro com meu receituário de certo ou errado? Nunca mais voltei a ver meu amigo que passara uns tempos preso. Diante de tudo o que se abateria sobre o Brasil, a gambiarra que ele fizera com um maquinário que não mais lhe pertencia pareceria uma travessura inocente, típica de um mau gestor que não estava acostumado a viver dentro do orçamento. Dele me ficou de herança o primeiro alerta de que, querendo ou não, uma hora nos tornamos invisíveis. 

5 Comments

  1. Prezado João,

    Uma revista é mais do que uma coleção de textos. No caso da nossa, conquanto seja sóbria e esteja imune a parafernálias que busquem efeito, há de se destacar seu denodo e, como não, o rematado bom gosto na escolha das ilustrações. Foi nisso que pensei ao receber pelo telefone a edição dessa sexta-feira, em que você apôs Lucien Freud no alto de meu texto bisonho. É sem dúvida um traje de gala para um mendigo metido a grã-fino. Obrigado e um abraço.

    Fernando

  2. Impressionante. Alia maturidade e humor num estilo que prende. No final, dá vontade de reler.

    • Pois então releia, Luiz B. Não é todo dia que pego no laço um leitor entusiasmado como você.

      Obrigado,

      Fernando

  3. Sua profecia foi realizada na última linha de seu texto… um vento forte adentrou meu quarto com uma chuva bem molhada! Corri para fechar a janela e senti, com alívio, que começa a estação civilizada! Recorri ao que se costumava chamar de liseuse para cortar o frio repentino. Só então, consegui refletir sobre seu texto! O raio X que traçaste de teu corpo foi bem interessante e engraçado, principalmente quando descreveste o método medieval do teu barbeiro!
    Tirando a desculpa do terapeuta, que nada fala a não ser que depende de você, frase dita em tantas situações, tornou-se nítida tua desconstrução para alinhar-se como um homem charmoso de 60 anos. Interessante notar o quanto alguns aspectos nos incomodavam e hoje já se mostram tão distantes e tolos….
    Gostei! Ficou patente a frase do doutor que , na verdade, tudo depende de você, de todos nós.
    Principalmente, sentir-se cuidadosamente reconstruído para ir à forra em idade seletiva sem as inevitáveis e dispensáveis situações que outrora torturavam nossos corpos juvenis, como alisar os cabelos, que tortura… era só falar “chuva” e os cachos voltavam a desesperar também a menina que fui!

    • Você faz poesia de minha prosa e adoro isso, Maria Teresa.

      Com duas leitoras como você, já estaria realizado.

      Obrigado e um beijo,

      Fernando

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