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Penso, logo duvido.

O populismo e nova seita no Brasil – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

Lula chorando.

No palanque armado no pátio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, uma nova seita emergiu no sábado, através da fala do profeta Luis Inácio Lula da Silva, com seu carisma e gestual sedutor e mobilizador da militância. O excepcional orador, tanto pelo jogo de palavras do seu discurso quanto, principalmente, pela encenação, produziu um grande espetáculo teatral, com movimento no palco, alteração do tom de voz e dos gestos, dramatização que emociona as massas. Lula abusou da encenação, caminhava, virava para os lados,  abaixava-se para enfatizar a afirmação, complementada pelo movimento das mãos e destaque dos dedos. Um artista que domina o palco e mobiliza as emoções e impulsos dos seus liderados, despertando ódio aos que ameaçam com a prisão do grande líder.

A história mundial tem exemplos notáveis de líderes com o carisma e a encenação populista de Lula, que, combinando o espetáculo com o ataque às instituições, provocaram grandes desastres políticos e sociais. O populismo sempre encontra terreno fértil para se desenvolver em situações de crise social e política, descrédito da sociedade e desmoralização das instituições, precisamente o que experimentamos atualmente no Brasil. Nestas condições, mais valem a retórica e a identificação com o líder carismático que as ideologias, as propostas políticas e as análises e escolhas racionais.

Considerando a formação política de Lula e as diferentes circunstâncias históricas, seria uma desproporção comparar o ex-presidente com Hitler ou Mussolini, dois dos maiores populistasda história que levaram seus países ao totalitarismo. Mas o discurso de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos foi uma preciosa aula de populismo e de encenação dramática, em tudo semelhante ao Führer e ao Duce. Com uma grande vantagem tecnológica para o ex-presidente: os poderosos meios de comunicação de massa de que dispõe o ex-presidente do Brasil, inclusive da imprensa, atacada duramente por ele no seu pronunciamento. A Globonews transmitiu todo o discurso ao vivo, os noticiários divulgaram longos trechos da sua arenga quase histérica, alcançando, desta forma, milhões de brasileiros em todo o território. Ao mesmo tempo em que mobilizou os seus simpatizantes, a fala de Lula, já com ordem de prisão, despertou a indignação dos seus desafetos, ampliando o clima de intolerância e fragmentação politica no Brasil.

Se os movimentos e gestos dramáticos de Lula lembram as manifestações exaltadas de populistas de triste memória, a sua mensagem central contém a mesma forma direta de ligação das massas ao grande líder, situado por cima das instituições. A sua crítica ácida à imprensa e, mais ainda, às instituições jurídicas, Ministério Público e juizes das diversas instâncias (incluindo STF), reforçam esta relação do ídolo com o povo,  por cima e ao arrepio da República. “Eu não sou mais um ser humano. Sou uma ideia”, afirmou o ex-presidente Lula num momento supremo de megalomania. Embora ningúem saiba dizer qual  é mesmo a ideia da “metamorfose ambulante”, como se classificou em algum momento, os milhões de simpatizantes exultam e se identificam com o populista. Na verdade, o que emerge desse discurso é uma religião, perigosa religião, carregada de fanatismo pelo profeta, que gera o ódio contra as instituições republicanas.

7 Comments

  1. Você disse tudo com o apuro de sempre, meu caro Sergio. Por outro lado, muito cá entre nós, de pernambucano para pernambucano, não deixa de ser impressionante a capacidade do garanhunhense Luiz Ignácio de contar uma história. Imagine a mentecapta da Dilma Vana em tal situação, a esgrimir palavras?

    O que quero dizer com isso, antes de soar simplista, tendencioso ou bairrista? Ora, a luta mais fratricida de nove entre dez políticos de certo “establishment” é achar a tal da “narrativa”. É criar empatia com quem o ouve e conferir legitimidade ao discurso por meio do “story telling”, não é isso?

    Nessas horas, embora movido a golinhos de cachaça, Lula bota no bolso todo mundo. O que só torna seus crimes mais indesculpáveis, no meu entender. Como é que um sujeito que é, sim, uma “narrativa viva”, que paira acima dos conselhos de qualquer marqueteiro, defrauda a expectativa de milhões de pessoas no mundo todo por conta dos caprichos de consumo de seu “entourage”?

    Uma lástima, uma pena. Mas estou cansado de ver políticos se exercitar horas ao dia para saber contar uma história que cale fundo na alma da audiência, e nada de plausível sai. É como jogadores que sonham em acertar a bola na veia e só chutam o ar.

    Enfim, o populismo se nutre desses palanques, bem sabemos. Seja como for, Lula ainda pintou e bordou até o último segundo da prorrogação, como se, efetivamente, se achasse investido de uma missão redentora. Foi um escárnio, mas bastante didático a seu modo.

  2. Querido Sérgio fico feliz que continuamos a vivenciar os mesmos sentimentos. Aprofundamos no Chile nossa identidade política e, tendo segido por caminhos diferentes almejavamos um Brasil novo crendo que Lula e o PT nos poderiam proporcionar, ledo engano. O pior é que das movimentações políticas que estão se apresentando as opções são quase nulas.Que Deus nos de sabedoria para não errar nova mente.

    • Grande amigo Flavio. Bom ler seu comentário. O Chile nos ajudou a formar uma visão de mundo que depois, nos descaminhos da vida, vamos apenas refinando. Que bom que tem acompanhado a revista Sera. Grande abraço, Sergio

  3. Sergio
    Voce foi fundo na lógica da comunicação pela via do fetiche. Padrão herdado do marketing comercial como já vislumbrava Marx e que hoje se aplica ao discurso politico, inclusive criando uma carreira profissional de muito sucesso. Lula é autodidata.

  4. Parabéns Sergio. Quem diria que nosso líder operário, para alguns o intelectual orgânico, fosse chegar onde chegou.

  5. Senhores, o Lula tem razão em afirmar que é uma idéia. A soma dos comentários a patir do inicial, ainda não completam o mito em que quer se tornar. Com absoluta certeza, por de encontrar em um país com mais de 200 milhões de pessoas, candidata-se a ser um novo Cristo.Seu despreparo emocional, seu vício no álcool, no entanto, levam-no ao desmoronamento. Fosse vivo Maquiavel diria que é, apenas, mais um. A ira que pode ter provocado nos que nele nunca acreditaram e nos que se desiludiram, que são mais do que os que o seguem, fará com que, fatalmente, venha a se destruir. Mariz Garces

  6. Sergio C. Buarque associou o populismo ao irracional: o populismo manipula emoções, e estas variam de país para país. E é típico de ditadores. Tudo verdade. De fato Lula tem sido genial manipulador de emoções, não só de seus liderados, como se pode ver na lembrança regionalista acima. Sua quase histeria na “missa ecumênica” foi encenada, pois em momento algum perdeu o fio da meada. Mas como explicar que tanta gente honesta continua envolvida por ele? Não são apenas desonestos manipulando militantes, ainda que este seja o caso de vários dirigentes. Há milhares, milhões que sonham com um mundo com justiça e sem pobreza e ainda não conseguiram escapar de uma visão maniqueista, em que “esquerda” é bom e “direita” é ruim, a ideia de um mundo dividido entre bons e maus, que atribui a pobreza ao capital financeiro internacional e à burguesia industrial e outras medonhas manifestações do capitalismo. Fato é que, com inflação fora de controle, déficit e dívida pública em alta, produção e investimento estagnados ou em queda, moeda que se desvaloriza, capitais em fuga, não há inclusão social possível. Não estamos vendo a tragédia venezuelana? É preciso continuar apontando.

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