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Penso, logo duvido.

O Recife pelo olhar e pela câmera de Cláudio Assis

Teresa Sales

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Cláudio Assis nasceu em Caruaru, PE, em 1955. Nessa cidade iniciou sua carreira como ator e cineclubista. Seu primeiro curta metragem (16 mm), a indicar de que lado ele estava na história, foi Padre Henrique – Um crime político (1987). Outros curtas de 16 mm foram: Soneto do Desmantelado Blue (1993), sobre o poeta pernambucano de curta passagem pela vida e que deixou um legado de belos poemas sobre o Recife, Carlos Pena Filho; Viva o Cinema (1996); e Texas Hotel (1999), mais tarde um dos espaços privilegiados em seu primeiro longa metragem, Amarelo Manga.

Com Amarelo Manga (2002) Cláudio Assis despontou na cena cinematográfica brasileira já com grande brilho. No festival de cinema de Brasília, um dos mais prestigiados do país, recebeu 7 prêmios, inclusive de melhor filme. Com esse filme foi premiado também no Festival de Toulouse e pela Confederação Internacional de Cinemas de Arte e Ensaio no Festival de Berlim.

Seu segunda longa metragem, Baixio das Bestas (2006), é um retrato de relações humanas na região canavieira pernambucana, onde se destaca a exploração, inclusive sexual, de uma adolescente pelo seu avô.

Seu último filme, Febre do Rato (2011), retoma a cidade do Recife como cenário. Dessa vez, ambientado em um bairro periférico da cidade, que poderia ser a “Cidade de Deus”, como qualquer outro bairro situado às margens do rio símbolo do Recife, o Capibaribe. Com esse filme, Cláudio Assis foi também premiado em outro importante festival de cinema, o de Paulínia de 2011: melhor filme pelo júri oficial, prêmio da crítica, ator (Irandhir Santos), atriz (Nanda Costa), fotografia (Walter Carvalho), montagem (Karen Harley), direção de arte (Renata Pinheiro) e trilha sonora (Jorge Du Peixe). Recebeu ainda o prêmio de melhor diretor e trilha original no Cine Ceará 2012.

Vou comentar aqui apenas os seus dois filmes que têm a cidade do Recife como cenário e “quase” protagonista: Amarelo Manga e Febre do Rato. Ambos, assim como Baixio das Bestas, são filmes impactantes, belos, difíceis de digerir pela crueza das histórias e das imagens, todas acompanhadas de trilha sonora impecável.

Um elemento importante em Amarelo Manga e Febre do Rato é a palavra, a sonoridade da palavra, a poesia. Há que se ver mais de uma vez esses filmes, para dar conta da imagem e da palavra. Sobretudo em Febre do Rato, onde o personagem principal é um poeta que diz seus poemas desde o começo até o final do filme. Que não se pense, porém, esse último filme, como se fosse uma transposição de uma peça de teatro para o cinema. Não. Febre do Rato intercala as poesias ditas por Zizo com cenas, com músicas, com uma dinâmica própria ao cinema.

Amarelo Manga, qual Mrs Delaway de Virgínia Wolf ou Ulisses de Joyce, é um filme que se passa todo em um dia na vida de alguns personagens que moram no Recife. É um dia da cidade do Recife com suas lojas, seus bares, seu centro comercial que amanhece abrindo as portas para o povo que caminha pelas calçadas, pelo meio da rua, disputando espaço com carros, bicicletas, motos. É uma cidade cheia de gente que os da classe média abastada se acostumaram a passar ao largo no ar condicionado de seus automóveis que vão deixá-los nos destinos certos, sem contato com as ruas.

O que primeiro chama a atenção em Amarelo Manga, até pelo feliz título escolhido, é o colorido do filme, retrato do colorido do Recife. Lembra as cores dos filmes de Almodóvar. Por que não? Depois que João Cabral fez Sevilha dialogar com o Recife?

Amarelo Manga, como os bons filmes, vai sendo construído sem linearidade. Começa com a personagem Ligia (Leona Cavalli) se acordando. Uma bela tomada de cena do alto, o lençol verde, a mulher nua que se despe do lençol para usar apenas um vestidinho jeans no corpo nu e um batom vermelho que passa nos lábios. É Ligia quem enuncia o dia que começa: “As vezes fico imaginando de que forma as coisas acontecem. Primeiro vem o dia. Depois vem a noite, que é a melhor parte. Tudo acontece naquele dia… Eu quero é que todo mundo vá tomar no cu”.

Abrem-se as portas do Bar Avenida, ao tempo em que o Recife pulsa nas ruas, ou nos programas de rádio, tal como “Olha a Sopa” que é ouvido no rádio do velho carro de um dos moradores do Texas Hotel, Seu Isac (Jonas Bloch), um personagem sem nenhum escrúpulo, um verdadeiro crápula de vida desregrada.

Assim como o bar, o hotel é outro ambiente em que circulam os personagens principais do filme. Seu Bianor, o dono do hotel, cujo único ajudante, pau pra toda obra, é Dunga, que não se avexa de ser chamado por todos de veado. Seu Bianor morre ao final do filme, dando margem a uma cena de velório impagável. Os mesmos personagens que num certo momento estão na sala de estar do hotel totalmente passivos assistindo televisão, fazem o velório ao som de velhas canções da igreja católica d’antanho, acompanhados por uma velha sanfona de 8 baixos, enquanto Dunga assume o comando do ritual.

Os personagens do filme vão se apresentando aos poucos. O padre católico, cuja igreja já não tem serventia porque roubaram os santos e porque “o povo gosta de ostentação: ser humano é estômago e sexo”. O padre já se conformou que os templos evangélicos, também mostrados no filme em duas tomadas, assim como os terreiros de candomblé, são hoje a religião do povo. O padre gosta de filosofar e mostrar sabedoria nos almoços preparados por Dunga: “O orgulho da bondade, o maior de todos os pecados”, “Morrer não dói” “Estamos todos condenados a ser livres”.

O trio amoroso Wellington Canibal (Chico Diaz)/Quica, a esposa (Dira Paes)/Dayse, a amante, permeado ainda pela paixão de Dunga, que faz catimbós para tomá-lo das duas mulheres. As cruas e coloridas cenas no matadouro, no açougue, com interpretação magnífica de Chico Diaz. A personagem Quica (Dira Paes), em sua transmutação de moça recatada e crente em devassa, depois que descobre a traição do marido. A boteriana Dona Aurora, que paga seus pecados de outrora em uma crise crônica de asma.

E, usando o mesmo artifício do famoso diretor inglês de filmes de suspense, o próprio Cláudio Assis faz uma rápida aparição, saindo do Bar Avenida, para dizer à recatada Quica, quase como uma premonição de seu futuro: “o pudor é a forma mais inteligente de perversão”.

Em oposição ao intenso colorido de Amarelo Manga, Febre do Rato é um filme todo rodado em preto e branco. Palavrão típico nordestino que significa “aquele que está fora de controle”, Febre do Rato nomeia o tablóide do personagem principal do filme, o poeta Zizo (Irandhir Santos). É nesse jornal, impresso artesanalmente em sua casa, que Zizo publica seus poemas por conta própria, para sair depois pelas ruas de seu bairro/comunidade dirigindo seu carro velho munido de auto-falante, por onde transmite seus poemas. Zizo, que para a sociedade moralista religiosa poderia ser caracterizado como um anti-herói, ali em sua comunidade, onde o amor é livre, é um verdadeiro herói, do qual os amigos contam as aventuras amorosas e dão todo espaço para sua poesia, nas ruas, nas festas. Mesmo que não as compreendam, como é o caso de seu grande amigo, interpretado por Matheus Nachtergaele.

Mesmo com os prelúdios de uma cena de sexo grupal, com as relações sexuais de Zizo com suas gordas e velhas mulheres em uma espécie de ofurô de pobre (na verdade, uma caixa d’água), com as cenas de dança, de sensualidade, mesmo assim o filme não pode ser considerado pornográfico. Pois o ponto alto do filme são questões existenciais que extrapolam o contexto daquela comunidade pobre, expressas tanto nos poemas de Zizo, que podem ser caracterizados dentro da chamada “poesia marginal”, como no movimento de contra-cultura que tem sua expressão máxima na cena final do filme.

Na cena final do filme, Zizo mobiliza um grupo de moradores da comunidade para irem ao desfile militar de 7 de setembro. As filmagens dessas cenas foram feitas simultaneamente no próprio local do desfile, onde Zizo desafia os militares recitando seus poemas; e numa parte isolada das ruas próximas ao desfile, onde se dá o embate do grupo liderado por Zizo com forças policiais que chegam para reprimir a manifestação. A manifestação nada mais é do que um grito de liberdade que vai, espontaneamente, tomando uma forma corporal, na hora em que Zizo sobe no capô de seu carro, ele e Eneida, a jovem por quem ele está apaixonado, e começam a tirar a roupa. Todos em volta vão aos poucos fazendo o mesmo, qual uma peça de José Celso Martinez Correa.
Recife, 3 de outubro de 2012

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Teresa Sales

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Teresa Sales
teresa.sales@revistasera.info

Este texto é de responsabilidade do autor.

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