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Penso, logo duvido.

Paixão segundo São Mateus, a mais dramática partitura de Bach – Frederico Toscano

Frederico Toscano

Caravaggio’s painting of The Calling of St. Matthew.

Universalmente aclamada como uma das obras-primas da música ocidental, a Paixão segundo São Mateus (ou Passio Domini nostri J.C. secundum Evangelistam Matthæum, no seu título original em latim) é a obra mais extensa do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Bach é uma das maiores personalidades da história da música. Com mais de mil composições, ele criou uma obra gigantesca e atingiu o ápice das formas musicais de seu tempo. Bach também foi insuperável como cravista, organista e improvisador.

Por falar no lendário talento de Bach ao órgão, aqui faço parênteses para uma curiosa história que se espalhou pela Europa quando o mestre barroco ainda era vivo. Em 1707, o mais famoso organista da corte francesa do rei Luís XIV, Jean Louis Marchand (1669-1732), caiu em desgraça – havia rumores de que ele era muito violento com a esposa, sendo por isso exilado. O músico, então, dirigiu-se a Dresden, na Alemanha. Ali, Marchand foi idolatrado pela sociedade e celebrado como o maior virtuose vivo do órgão.

O violinista Jean Baptist Volumier (1670-1728), influente músico da cidade, irritou-se profundamente com aquilo, pois conhecia um músico alemão que era indubitavelmente superior a Marchand: Johann Sebastian Bach. Organizou-se, então, uma competição musical entre o francês e o alemão. Uma noite antes do grande momento, o curioso Marchand decidiu bisbilhotar seu opositor tocando numa igreja. Sentou-se discretamente no último banco. O que ele ouviu de sons poderosos do órgão não foi nada trivial… E quanto mais ouvia, mais se apavorava com a ideia do que teria de enfrentar.

No dia seguinte, na hora marcada, a plateia enchia o salão suntuoso iluminado por velas. Exatamente com o repicar dos sinos, Bach apareceu. Só faltava o francês, mas ele não chegava. A plateia ficou inquieta. Finalmente, um mensageiro foi enviado para buscar Marchand. Pouco depois, a notícia: monsieur Marchand deixou Dresden de manhã bem cedo com a carruagem do correio, sem esclarecer o motivo de sua partida. Bem sabemos o porquê…

Bach era definitivamente um homem pragmático, e muito de sua produção musical tem relação direta com as exigências de vida de seu tempo. Foi na função de Kantor em Leipzig, no então Sacro Império Romano-Germânico, que ele foi mais requisitado como compositor. Suas obrigações incluíam produzir e dirigir música para eventos cívicos e organizar a música de quatro igrejas principais da cidade, além de atuar como professor em escolas secundárias. A Paixão segundo São Mateus foi apresentada pela primeira vez na Sexta-feira da Paixão de 1727 (ou, segundo alguns autores, em 1729) na Igreja de São Tomás (Thomaskirche) em Leipzig.

A chamada “paixão-oratório luterana” era um tipo de drama sacro popular na Alemanha que já existia no século XVII como uma mistura de corais luteranos (forma cantada em uníssono, isto é, com textura formada por várias vozes que se movem de modo uniforme pelas palavras), árias estróficas (tipo de estrutura musical para um único cantor com texto formado por um grupo de três ou mais estrofes que contém o mesmo número de versos, mesma rima e métrica, na qual geralmente a música se repete sem variações e só muda o texto) e coros (conjuntos vocais com escrita mais complexa). No século XVIII, compositores (incluindo Bach) acrescentaram o brilho da ária de ópera e o recitativo lírico ao gênero, com sua atmosfera sentimental.

Com cerca de duas horas e meia de duração, a Paixão segundo São Mateus juntamente com a Paixão segundo São João são as únicas paixões de Bach conservadas em sua totalidade. O texto da obra é do Evangelho segundo São Mateus, capítulos 26 e 27, narrado pelo tenor solista em recitativo (texto recitado usando o tempo simples da fala, com pouca ou nenhuma melodia) e pelos coros, sendo a narração intercalada por corais, um dueto vocal e numerosas árias (a ária é uma composição musical escrita para um cantor solista), a maior parte das quais precedidas de recitativos em arioso (estilo de solo vocal intermediário entre o recitativo e a ária). O autor dos textos dos recitativos e árias suplementares é Christian Friedrich Henrici (1700-1764), mais conhecido pelo pseudônimo Picander, poeta de Leipzig que também escreveu muitos dos textos das cantatas de Bach.

Na Paixão segundo São Mateus, obra de grandeza épica, Bach empregou todos os recursos de que podia dispor: dois coros (mais um coro de crianças), duas orquestras, dois órgãos que se respondiam dialogando de partes distantes da igreja – tradição herdada de Veneza – e solistas vocais e instrumentais. Podemos considerá-la como a mais nobre e inspirada abordagem deste tema em toda a história da música (*).

A estrutura narrativa é a seguinte: o evangelista revela os fatos à medida que acontecem nos recitativos, com versos ocasionais que são entoados pelos solistas. Solos são usados também para preces e comentários sobre a história. O coro ora tem um papel participativo direto, por exemplo, introduzindo o diálogo no drama pela voz do povo, ora oferece comentários e entoa preces, incluindo corais interpostos. Embora Bach nunca tenha escrito uma ópera, suas paixões mostram clara veia cênica. Nelas, o mestre revela-se “um homem de teatro sem teatro”, como dizem os musicólogos Jean e Brigitte Massin. Sentimos que ele seria capaz de escrever óperas deslumbrantes. Mas que drama poderia ser mais emocionante, para o crente Bach, que o do Calvário? Profundamente religioso, Bach costumava concluir suas partituras com a sigla S.D.G. – “Soli Deo Gloria” (Apenas para a glória de Deus).

Na primeira parte, a obra abre com um Prólogo no qual o coro lamenta os fatos que estão por vir. A narrativa começa propriamente em Betânia, com o Cristo prevendo sua própria e iminente crucificação. A trama segue o episódio da cumplicidade de Judas com os fariseus, os apelos de Jesus a Deus e, por fim, a traição e a prisão. Depois de cada seção da narrativa, um comentário é inserido na forma de recitativo e ária ou coral. Após outro Prólogo, que lamenta a prisão de Jesus, a segunda parte começa com o interrogatório perante Caifás, a negação de Pedro e o julgamento de Pilatos. Bach conclui a obra com a crucificação, morte e sepultamento de Jesus, seguindo-se um coro final de lamento:

Como é típico de composições sobre a Paixão, não há menção à Ressurreição em nenhum desses textos. A crucificação em si é tida como o ponto final e a fonte da redenção; a ênfase é no sofrimento de Jesus. O coro “O Lamm Gottes unschuldig” (“Oh, inocente Cordeiro de Deus”) compara a crucificação de Jesus com o sacrifício ritual de um cordeiro no Velho Testamento, como uma oferta pelo pecado:

Após a estreia, a Paixão segundo São Mateus caiu no esquecimento por 100 anos. Somente em 1829, o compositor alemão Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809-1847) a apresentou numa versão abreviada em Berlim e foi vivamente aclamado. A redescoberta da Paixão através de Mendelssohn reinseriu a música de Bach no centro da atenção pública e acadêmica. Desde então seu renome não parou de crescer.

Essa popularização da obra bachiana teve reflexo até no cinema. O diretor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), entre vários exemplos, usou a Paixão segundo São Mateus na trilha sonora do seu filme Il Vangelo Secondo Matteo (1964) e no seu primeiro filme, Accattone, de 1961. Já o cineasta russo Andrei Arsenyevich Tarkovski (1932-1986) reverenciava Bach e, como escreveu em seu diário, ficava comovido com o sofrimento expresso na Paixão segundo São Mateus. No seu último filme, O Sacrifício (1986), a comovente ária “Erbarme dich” (“Tende misericórdia de mim”) acompanha os créditos de abertura:

Na música popular, o cantor norte-americano Paul Simon baseou sua canção “American Tune” na linha melódica do coral “O Haupt voll Blut und Wunden” da Paixão segundo São Mateus, como podemos perceber nos dois vídeos a seguir.

Encerro este ensaio com uma inspirada frase de outro gênio da música, que nasceria 20 anos após a morte de Bach – Ludwig van Beethoven: “Ele deveria se chamar mar, e não Bach [que significa “córrego, riacho” em alemão], devido à sua riqueza infinita, inesgotável de combinações sonoras e harmoniosas”.

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(*) Para quem desejar se aprofundar na apreciação da Paixão de Bach recomendo esta coleção de artigos publicada no blog Euterpe: http://euterpe.blog.br/historia-da-musica/os-segredos-da-paixao-segundo-sao-mateus-1.

6 Comments

  1. Lindo! Eu não deveria comentar, que não sou do ramo. Mas que histórias maravilhosas conta esse historiador! E sempre com documentação que indica a seriedade da sua pesquisa.

    • Obrigado, Helga! Por favor não hesite em postar suas valiosas impressões. Não existe esse enquadramento “do ramo” rs. O importante, e essencial, é a sensibilidade pela música, que você demonstra de sobra, além de sua bagagem inestimável como analista internacional. Abraços bachianos!

  2. muito bom cara, aprendi muita coisa. qualquer dia vou ouvir a Paixão, toda, de cabo a rabo.
    Só ouvi mementos dela, pelos meios que me foram oferecidos, centrado no que era música e querendo vir a ser um Fernando Dourado para tirar de letra o alemão.
    Do pitoresco, adorei o rabo entre as pernas do organista, por auto crática ou por covardia de machão que batia na sua (dele) mulher. Enfrentar Bach e Maria da Penha, nem pensar.
    Adorei o lance do American Tune. No tempo que ouvia a dupla, não saquei.

    • Caro David, que bom ter despertado sua vontade para ouvir a Paixão inteira. É uma imersão bem profunda, quase um transe. Quando eu vou ouvi-la inteira procuro me preparar bem para a ocasião. Exige uma concentração especial. Também gosto de ouvi-la em meio à natureza. Marchand, o organista fugitivo, teve que correr de Paris, banido pelo rei, e deixou seu salário para a ex-esposa como punição. Acredito que só havia, de verdade, dois organistas capazes de concorrer com Bach na época: Dietrich Buxtehude, de quem Bach era grande admirador (viajou certa vez cerca de 400 km para ouvi-lo, boa parte caminhando) e Georg Friedrich Händel, que escreveu 12 magníficos concertos para o instrumento e outras peças. Abraços!

  3. Coloquei o artigo de Toscano no Face, e olha só a opinião da Márcia Guimarães, jornalista de vasta bagagem e cronista bissexta do Rio de Janeiro. Reproduzo, concordando: “Márcia Guimarães Que maravilhoso ensaio. Uma extraordinária riqueza de informações em um texto claro, direto, sem firulas e requintes desnecessários. Já salvei. Obrigada.”

  4. Que leitura tão prazerosa, Frederico Toscano, prazer que se prolonga nas tuas respostas aos comentários. Melhorou muito o sábado. Obrigada, Frederico.

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