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Penso, logo duvido.

Políticos de Ontem e de Hoje: Dois documentos históricos e algumas reflexões – Clemente Rosas

Clemente Rosas

Memória de João Pessoa – Anos 30 do século XX.

Carta de Mateus Gomes Ribeiro, Secretário da Fazenda da Paraíba, ao Interventor do Estado, Gratuliano Brito

30/06/1932

Meu caro Gratuliano:  Venho cumprir o dever de apresentar-lhe o meu pedido de demissão do cargo de Secretario da Fazenda, que me foi confiado pelo meu inolvidável amigo Anthenor Navarro. Depois do incidente que me afastou desse cargo, no governo do saudoso e Grande Presidente João Pessoa, a quem, apesar disso, nunca neguei a minha absoluta admiração e de quem nunca me afastei até a véspera do seu tragico desaparecimento, não pretendia mais voltar a exercel-o, desde que tantos sacrifícios materiaes me tinha causado. Veio a revolução, a nossa tão sonhada revolução, e com ella a transformação administrativa que nos deu como Interventor da Parahyba aquelle a principio desconhecido espirito de administrador que foi Anthenor Navarro.  Nos primeiros dias, eu confesso que não acreditava na efficiencia daquelle moço, embora o reconhecesse de grande capacidade no desenvolvimento dos acontecimentos em torno à Campanha Liberal e à Revolução.  Fui por ele convidado para Secretario da Fazenda e, não obstante a surpresa do convite, porque me considerava riscado do mappa das posições, não o aceitei sem o compromisso de que na minha pasta teria absoluta liberdade de acção e, ainda mais, a minha investidura era um imperativo seu e do nosso Grande Ministro José Americo.  Diante disso voltei ao sacrifício a que me impunha sobretudo o dever de cooperar modestamente na administração do meu caro Estado.  Não sei se tenho correspondido à benévola expectativa daquelles dignos amigos, sabendo, entretanto, que para isso muito me tenho esforçado.  Morto tragicamente o meu caro Anthenor, que tão bem me soube comprehender e corresponder à nossa estima comum, considerando-me dentro na bondade de seu grande espirito de justiça, eu me venho sentindo desestimulado para prosseguir nessa luta tremenda e estafante que é a direção dos destinos economicos do Estado.  Não é que me falte animo para perseguil-a pela felicidade da nossa extremecida Parahyba, mas, como você conhece, eu sou um espirito um tanto rebelde, para não dizer independente, e não sei se no seu governo effectivo poderei conquistar aquella mesma consideração e prestigio que me fizeram tão captivo do mallogrado Anthenor. Destruindo explorações, devo dizer-lhe que a sua candidatura ou a sua effectivação foi-me sempre muito simpathica, desde que lhe reconheço muito digno e com muitos predicados para a tarefa de governar.  A maneira por que ella foi lançada entretanto, sem contestação sua, em face dos elementos que a animaram em detrimento dos nossos amigos que nunca pensaram em combatel-a, (tenho disto certeza) motivou-me uma grande tristeza, nessa oportunidade revolucionaria.  Quero dizer-lhe, pois, que sempre o apoiei e aplaudo a sua effectivação, desde que lhe reconheço digno entre os mais dignos, com a ressalva de que esses elementos que combateram ao nosso inesquecivel  Anthenor não se venham infiltrar nos designios de sua provavelmente boa e sábia administração.  Nestas condições, pois, deponho às suas mãos o meu honroso cargo, sem que em qualquer hypothese você deixe de contar com a minha absoluta e particular estima.  Seu amigo certo  –   M. Ribeiro.

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Carta de José de Borja Peregrino, prefeito nomeado da cidade de João Pessoa, ao interventor do Estado, Gratuliano Brito

09/11/1934

Sr. Dr. Gratuliano de Britto.  Accuso recebida e respondo a carta que me dirigiu, hoje, por mãos do seu Secretario, dr. Abdias de Almeida.  Começo a respondel-a, repellindo a grosseira e indigna insinuação que quiz fazer-me, atribuindo-me dever de promover a renuncia do sr. Joaquim Torres, à presidência da Caixa de Aposentadorias e Pensões dos Empregados da Empresa Tracção, Luz e Força.  Mesmo que eu tivesse concorrido para a escolha desse cidadão, o que em nada me desmereceria mas é falso e mentiroso, não poderia deixar sem repulsa a proposta de negociar a minha permanência num posto de confiança do Governo mediante solução de tal natureza.  Esquece, talvez, que propostas dessa ordem não se fazem a homens que sabem presar a honra e dignidade proprias e colocam, acima de tudo, os seus sentimentos de lealdade publica e particular.  Dito isto, a respeito da parte principal da sua carta, da que mais interessa aos seus sentimentos personalissimos, quero revidar o que assevera a respeito de ter eu servido de vehiculo, no caso da Caixa de Pensões, afirmativa na qual, de certo, quer envolver os nomes dos meus ilustres e dignos amigos drs. José Americo e Argemiro de Figueiredo, unicas pessôas com quem conversei sobre o assunto, como é do seu conhecimento.  Sirva de testemunho da minha actuação, nesse caso como em quaesquer outros casos, o valor da palavra de tão conceituados cidadãos, testemunho inegavelmente mais valioso e irrefutavel  do que o de outros que se arrogam sentimentos e qualidades que não possuem.  Acho muito justa a sua vontade de não deixar mal o Geisel e não desejo, absolutamente, contribuir para isto porque sei do empenho desse seu digno e devotado auxiliar em proveito da sua administração.  Por isto e porque não me sentiria bem, moralmente, continuando no posto de auxiliar do seu governo, passo agora mesmo a responsabilidade da direcção da Prefeitura ao Director de Expediente e Fazenda, sr. José de Carvalho.  Do patrício  –  J. de BORJA PEREGRINO  

*  Originais no arquivo particular de Joaquim Inácio Brito, sobrinho de Gratuliano Brito. Eliminados apenas os parágrafos, para adensamento dos textos.

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As reflexões que se nos apresentam,  a propósito destes documentos, dizem respeito à natureza da política brasileira, como a vemos hoje, em comparação com a de oitenta anos atrás.  Evoluímos, em teoria e prática, ou nos degradamos?

Talvez o único aspecto evolutivo seja o fato de que nela não mais prevalece aquela passionalidade pela qual se via no opositor um inimigo figadal, e que levou à morte quatro honradas figuras paraibanas: João Pessoa, João Dantas, João Suassuna e Anayde Beiriz.  Mas, na maneira de encarar o múnus público e as responsabilidades do poder, a diferença é abissal, em desfavor dos políticos de hoje.

Sente-se, nos políticos emergentes dos anos 30 do século passado, um forte sentimento de dignidade pessoal e um profundo desapego aos cargos públicos.  No primeiro caso, o secretário da fazenda do Presidente João Pessoa, que permaneceu no posto no governo do interventor Antenor Navarro, não quis mais continuar, após a morte deste em trágico acidente de avião.  E isso apenas porque o sucessor, cuja probidade e competência não deixou de reconhecer, não lhe parecia ter plena identificação com o ideal revolucionário dos tenentes e seus amigos civis, tendo recebido o apoio dos opositores.   No segundo, o prefeito nomeado da capital, integrante do pelotão de civis que, sob o comando do tenente Agildo Barata, tomou o quartel do 22º BC, no início da revolução, por uma simples  “ fofoca” envolvendo o seu nome numa ação de advocacia administrativa, demite-se altivamente da Prefeitura, proclamando sua honradez.

O que vemos hoje, muito ao contrário, são velhas raposas que, mesmo investigadas por corrupção, processadas, condenadas, permanecem grudadas aos seus postos como cracas no casco de um barco encalhado, protestando inocência e recorrendo a qualquer manobra, legal ou ilegal, para protelar a queda.  Em situações onde qualquer homem honrado se sentiria mal e abandonaria o palco, fingem-se de ofendidos e proclamam inocência.

Não há o que se esperar desses velhos “carcomidos”, como chamavam os “tenentes” de 1930 aos políticos da República Oligárquica que morreu naquele ano.  Esperemos, apenas, que a onda renovadora da Operação Lava Jato possa varrê-los do mapa, abrindo espaço para uma nova geração de homens públicos decentes, que há de surgir.

E se alguém, a pretexto de criticar os jovens procuradores da república que promovem essa faxina, por suas audácias e pretensões, os compara com os “tenentes” de oitenta anos atrás, a comparação, a meu juízo, vem em favor deles.  Afinal, o Brasil mudou muito a partir de 1930.  E, apesar dos percalços de 1932, 1935 e 1937, acabou sendo para melhor.

Em tempo: O Geisel referido na carta de Borja Peregrino é mesmo o tenente Ernesto Geisel, que sucedeu meu avô na Secretaria da Fazenda da Paraíba, e, quase meio século depois, como general, presidiu o país na Ditadura Militar.  Que a História possa bem julgá-lo, em seus dois momentos como político.        

 

4 Comments

  1. Eis uma contribuição original e deliciosa com que você nos presenteia, Clemente. Gostei demais.

    Abraço,

    Fernando

  2. Verdadeiras relíquias as cartas, e nota 10 para a reflexão. Para mim, quem se segura num cargo estando sob suspeita de irregularidades, é quase uma confissão de culpa.

  3. No artigo (excelente) fica muito claro o que hoje é mais doloroso na alma dos brasileiros. A decadência e a morte da ética e da honestidade na política. Será que é possivel uma ressurreição?

  4. Um amigo, um parente, um nobre desconhecido: vejo, pelos seus comentários, que o meu texto despertou o interesse pelas lições do passado, como imaginei.
    Recompensado, agradeço de coração.

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