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Penso, logo duvido.

Prospect Park – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Snow at Prospect Park.

Tantos anos passados, acredito que jamais voltaria a pensar em Malka Geld, não tivesse o acaso feito com que fosse fuçar os arquivos à procura de uma resenha do escritor Laub – hoje rabino, residente em Safed, nos contrafortes da Alta Galileia -, sobre os bastidores do mercado editorial brasileiro nos anos 2010. Segundo me comentou o sobrinho do falecido Paul Auster, meu vizinho de bairro, Laub escrevera uma síntese espirituosa daquela época quase estéril em que a literatura anódina do país tivera bem poucos expoentes, além do próprio. Dentre eles, segundo o estudo, só sobreviveram ao tempo o mineiro Evandro Affonso Ferreira, menos conhecido do grande público, e Cristóvão Tezza. Com a diferença, aqui fundamental, de que este último alçou voo internacional de verdade, depois de ganhar um Prêmio Nobel que surpreendeu meio mundo, a começar por ele mesmo. Já no fim de sua vida, lembro que recebi-o aqui no apartamento de Prospect Park e, de tão boa que foi nossa conversa, Tezza foi o único visitante que entretive para além da meia-noite. Discreto, não me deu trela quando, cedendo à impulsividade que apendera a cultivar nos anos que vivi no Brasil, perguntei-lhe sobre o filho especial, figura central do maravilhoso livro “O filho eterno”. “Como vai ele?” “Bem, obrigado”. Ato contínuo, desconversou, observando que jamais vira tanta neve quanto aqui no Brooklyn. Tirando este tópico, discorreu sobre todos os outros com alegria e autoridade.

Mas é bom que eu retome o fio narrativo. Como venho constatando ultimamente, a idade não tem ajudado em nada minha capacidade de contar bem uma história, tantos são os parênteses que vou abrindo à medida que a empolgação subjuga o pouco de racionalidade e clareza que me sobrou. Pensando bem, isso é de somenos na medida em que nunca me arvorei de ser escritor, apesar de ter vivido muito entre eles. Não tenho dúvida de que esse gosto foi adquirido nos tempos em que trabalhei com Geert Van Melle, um homem de saúde de ferro, vivo até hoje, e que exerce seu savoir faire nas três casas que mantém mundo afora. Pois bem, como dizia no começo desse relato, a pessoa daquela mulher estava fadada a total esquecimento, até que vi seu nome ao pé da página virtual, em enquadramento escuro, como era comum na época: “Chevra Kadisha – Associação Cemitério Israelita de São Paulo – Malka Geld Z”L – Yahrtzeit”. Então quer dizer que já fazia um ano que falecera? Cá no íntimo, me alegrei por ela. Pois da forma como a conheci, nas circunstâncias tão únicas daquele quente verão de 25 anos atrás, achei que Malka não sobreviveria por muito tempo. Hoje me pergunto: como será que viveu mais um quarto de século? Como contornou os transtornos íntimos que pareciam afligi-la? Do tanto que foram ricas as situações, venho desde então pensando nela. E só ao fazê-lo, dei-me conta de que ela foi um no start que, em dado momento, do promissor, logo chegou ao decepcionante, tudo em tempo vertiginoso.

*

Geert Van Melle era um holandês bem apessoado e, pode-se dizer, um desses banqueiros de sangue batavo que farejavam negócios no mundo todo. Na virada de 2018, na verdade, depois de multiplicar uma fortuna que todos já davam por gigantesca, achou que o ambiente de negócios em São Paulo começava a despontar como especialmente atrativo. A eleição de um novo Governador – que ele conhecera em Harvard – foi música para seus ouvidos já que, depois de passar a década anterior distante do Brasil  – país que amava -, por achar que o populismo sangraria a América Latina, sentiu chegada a hora de realizar alguns sonhos secretos. Feito esse diagnóstico, Geert adquiriu uma confortável casa numa bela região da capital, equidistante das avenidas Paulista e Faria Lima, e dali passou a operar seus negócios mundo afora. Atuante nas principais bolsas, industrial de tabaco na Indonésia, acionista de duas companhias de energia elétrica do sudeste asiático, concessionário de rodovias na América do Sul, e protagonista da mineração desde a Sibéria até Angola, Geert ainda não tinha completado 50 anos, e queria a todo custo se enfronhar na comunidade de negócios paulistana, logo brasileira. Com as pessoas certas, dizia, realizaria seu sonho de juventude de plantar frutas no vale do São Francisco, no semi-árido do Nordeste, e de ganhar dinheiro com a ampliação da infraestrutura do continente.

Nessa época, sem jamais ter tido as ambições de Geert, eu também já passara muitas noites em claro como diretor de uma das mais reputadas consultorias do mundo – para não dizer a melhor – e, por razões que não eram as mesmas que o moviam, também tinha me estabelecido em São Paulo. Quando nos encontramos num coquetel na casa do Governador, Geert me sugeriu uma partida de golfe para o fim de semana seguinte, convite que aceitei de pronto. Durante o almoço no clube de campo, ele me deu conta de seus planos e eu não hesitei em lhe franquear minha agenda de contatos que, não tenho porque ter modéstia, era imensa. Chegando a seu escritório dias mais tarde, ao cabo da semana de Ação de Graças que vim passar com meus filhos aqui em Nova York, compareci ao escritório dele, uma espécie de family office no bairro do Itaim, e foi lá que ele me apresentou à imponente Malka Geld, sua assessora especial. Confesso que dada a indefinição de título ou posição de linha, por um momento pensei que se tratava de um affair, muito embora ele tenha me parecido pragmático demais para perder tempo com certas veleidades. Ademais, sendo casado com uma patrícia holandesa de enorme charme e encanto, deixei a cargo do futuro arbitrar que papel efetivo Malka Geld tinha encontrado no universo multifacetado daquele homem efusivo e culto, tão sagaz quanto agradável, uma combinação nada trivial.

*

Fria à minha presença nas reuniões do Conselho, convite com que ele me distinguiu em semanas, logo percebi que Geert não tinha qualquer interesse sexual naquela mulher alta e imponente, de cabelos bem encorpados e trigueiros, dentes protuberantes, mas bem cuidados, e ossatura sólida como marfim. Para não dizer que suas proporções eram perfeitas, tinha sim o que se chama de quadris rebaixados. A falta de nádegas polpudas – lacuna grave no Brasil, que as cultua como fetiche nacional -, descobria-lhe a bunda vez por outra, especialmente quando se levantava bruscamente para atender uma chamada, o que me deu mais de uma vez o vislumbre de uma calcinha rendada minúscula, que tinha lá seu encanto. Apesar desses predicados, nem tudo ia bem para Malka Geld. Isso porque tinha dias em que ela chegava ao escritório transfigurada. De rosto pálido e sem a mais leve sombra de maquiagem, a mulher de mais de 50 anos se apresentava de rosto lavado, o que na Itália de minha juventude se chamava de cara “água e sabão”. Os olhos, de um castanho banal, eram belamente amendoados. Mas nos tais dias terríveis, vinham carimbados por olheiras de insônia. A bem da verdade, até o hálito de Malka se ressentia de seus maus dias, quando via-se que sucumbira a seus demônios. De mentolado e cálido – para quem não sabe, os brasileiros são muito tácteis e, mesmo os arredios, se aproximam muito ao falar -, o seu hálito parecia azedar, se estava mal.

Na verdade, se tive algum entusiasmo por Malka, confesso que logo se esvaneceu. Amigos que fui apresentando a Geert, que logo eram expostos aos apertos de mão distantes de Malka, chegaram a me dar piscadelas, achando que eu estava tendo alguma coisa com ela. Eu desconversava e, para não levar o ônus por aquilo que não vinha fazendo, explicava-lhes que era uma mulher bem nascida e preparada. Solteira, até onde sabia e, ao que tudo indicava, desimpedida. Mas não me furtava a segredar que Malka tinha uma dimensão inexplicável. Isso porque tinha o péssimo hábito de dar um sorrisinho ao cabo de cada frase emitida, e de sussurrar pelos corredores como uma beata de paróquia calabresa. Ora, eu não precisava ser mestre em psicologia – o que também sou -, para inferir que aquela mulher era uma das figuras mais inseguras que eu conhecera na vida. Esse traço inexplicável foi ficando patente quando dei-me conta de que ela obstruía, sistematicamente, toda e qualquer pessoa que estivesse ganhando a atenção de Geert por mais de trinta segundos. Até Margrit, esposa de Geert – que o tempo me ensinou a admirar muito além de ser a mulher de um homem vitorioso -, foi mais de uma vez obstruída por Malka ao sugerir que fizessem um programa em família no sul do Brasil: “Desculpe, Margrit, mas Geert não vai poder ficar lá até o domingo. Já pedi o avião para voarmos para a Bahia logo cedo, onde ele vai ver agricultura irrigada”. Conciliador, nosso chefe disse então que iria pensar. Naquele dia, Malka caiu no radar de Margrit. E, talvez, no seu conceito.

*

Foi por volta da Copa do Mundo da Rússia que sugeri a Geert que reservássemos um camarote para a partida inaugural do torneio, já que ele tinha excelentes relações com Roman Abramovich, à época o dono soberano do Chelsea. Ademais desse elo, ele também já ombreara com Putin, e uns dias em Moscou seriam positivos para os negócios globais. Quando ventilamos o assunto em casa de Geert, Malka não deixou que eu terminasse o raciocínio. Com um vigor inusitado, levou-me até o pavilhão da piscina e, rebarbativa, tentou me enquadrar: “Minha vida com Geert virou um inferno desde que você cruzou a porta de nosso escritório. Geert Van Melle é um homem ocupado, que não pode perder tempo com partidas de futebol na Rússia. Além do mais, é um programa perigoso porque Putin pode cair em desgraça a qualquer momento, e isso respingaria na imagem dele. Geert precisa cuidar da saúde, dormir cedo e confiar nas pessoas que estão com ele há mais tempo. Eu sou uma estrategista de negócios e queria ser ouvida como tal. Trate de me respeitar”. Tentei argumentar que Geert era homem de grande sagacidade e pragmatismo, como sabem ser os holandeses. E que não precisava da tutela dela, até onde eu podia ver. Furiosa, ela disse que era sim uma mulher de índole maternal. E valendo-se de um tom que levaria Geert a dar boas risadas, murmurou entredentes que eu verificasse melhor quem era ela antes de desautorizá-la em público. Louca, pensei.

Semanas depois, para minha surpresa, vi Malka Geld pela última vez no escritório. A essa altura, já corria a história de que sua instabilidade emocional era lendária. Dias depois do pedido de demissão, como se por milagre, sumiram os sussurros, os cochichos irritantes e as panelas de fofoca tão comuns aos ambientes corporativos brasileiros, onde impera a relação interpessoal por sobre a crueza do comprometimento profissional. Jantando com Margrit pouco tempo depois disso, ela me confessou que jamais apreendera de todo as contradições de uma mulher que parecera passar a vida a urdir manipulações de poder. Observadora mais arguta do que eu imaginava, Margrit diagnosticou tudo com clareza solar: “Ela seria um prato cheio para uma terapia. Na verdade, ainda é tempo”. Quando um dia encontrei com um familiar seu que já fora conselheiro de Geert e, indiretamente, perguntei sobre ela, dele ouvi uma resposta desconcertante. “Malka tem um filho, sabia? Não sei se você está inteirado, mas ela passou três anos morando na Bélgica, e lá casou com um nobre chamado Paul de Bolle. O casamento não durou. O nome do rapazinho, muito bem sucedido, é Geert. Daí que quando soubemos que ela achara um chefe com o mesmo nome do filho, ficou claro para todos nós que afloraria uma relação maternal. Relação esta que ela não tinha podido exercitar junto ao próprio filho”. De repente, tudo para mim ficara claro. Quanto a Geert, nosso chefe, ele não deu a mínima para essa versão. Só sorriu e acendeu um daqueles charutos horrendos que recebia de Sumatra, na Indonésia. “Tenho saudades da Ásia, sabia? Lá Freud não entra”.

*

Hoje em dia, mal saio da velha casa de Prospect Park. Atendendo a convite de amigos, vez por outra vou até Manhattan para participar de um jantar beneficente. A essa altura da vida, nada me agrada tanto quanto um passeio ao Jardim Botânico do Brooklyn e, duas vezes ao ano, levo meu neto para um almoço domingueiro no Peter Luger, onde o vejo comer com prazer os steaks monumentais que outrora integravam uma rotina semanal. No inverno, acendo a lareira já em novembro e ela mal tem trégua até as primeiras semanas de março. Moritz, o ucraniano, se encarrega dos serviços de casa; e Nadia, a romena, cuida da cozinha frugal e da arrumação leve, duas vezes por semana. Meu espaço favorito é o da biblioteca onde já recebi escritores ilustres. Poucas conversas podiam ser tão agradáveis quanto as do causeur Vargas Llosa e, por incrível que pareça, desfrutar do humor corrosivo do sul-africano J.M. Coetzee, ambos infelizmente já falecidos, um deles de forma tão tola. Ter sido amigo de Paul Auster e Siri Hustvedt – que têm a cara deste bairro que amo – ainda é motivo de grande orgulho. Dia desses, vi Siri num café, mas não forcei-a a me reconhecer porque teria sido uma tentativa vã. E depois, que diferença fazia? Quanto a Roth, acho que morreu em paz consigo mesmo e, acreditem em mim, ele já não vinha dando a mínima para o reconhecimento supremo de sua obra, como tantos trombeteavam. Phil planava, de fato, bem acima de tudo isso.

Hoje nevou uma enormidade em pleno março e, talvez pela primeira vez, Moritz saiu de sua habitual discrição e me perguntou o que me atormentava. Íamos de carro até a ponta de Brooklyn Heights, de onde sempre gostei de admirar o perfil hoje ameaçador – e outrora tão sedutor – de Manhattan. Contei-lhe que lera num obituário a nota de falecimento de Malka Geld, uma velha conhecida. “Entendo como se sente, senhor. Sei o quanto os velhos amores deixam marcas”. Ainda pensei em lhe dizer que não era nada disso. Que Malka fora só uma mulher infeliz e que eu jamais chegara a ter real proximidade dela. Como, de resto, de mulheres em geral. Mas ao perceber que isso poderia decepcioná-lo, preferi que acreditasse em seu próprio enredo. Então, ele me contou uma história acontecida em Donetsk, nos anos terríveis em que Putin resolvera se assenhorar do leste de seu país.  Custei a entender o nexo do que dizia. Mas ao final, ele disse: “Essa senhora talvez não tenha sido muito feliz na vida”. E sem que eu perguntasse a razão de diagnóstico tão acurado, ele se saiu com uma explicação divertida: “Na língua de meus avós, sei que malka significa rainha. E geld, não preciso sequer esclarecer para um germanófilo como o senhor, é dinheiro. Daí eu digo, se me permite: pode alguém que nasceu sob a junção desses nomes encontrar paz verdadeira nas alegrias terrenas? Ou não será que passará seus dias à procura de plutocratas e de gente de poder?” Ri com a trouvaille e pedi que voltássemos para casa. No fundo, amo saber que nunca mais sairei de Prospect Park. Sequer depois de morto.

6 Comments

  1. Puxa vida, Fernando, a amplitude e a profundidade das suas vivências e referências internacionais acaba produzindo sobre mim um “efeito perverso”: estou perdendo a coragem de falar sobre a minha província e sobre as minhas experiências de infância e juventude. Só posso me socorrer de Tólstoi, no desejo de ser universal cantando a minha aldeia.

  2. Ri de seu comentário, Clemente, justo eu que só acredito em quem fala de sua província. Minha vastidão de repertório, a bem da verdade, me dá pontos de apoio para recriar um mundo de fantasia que comporta, sim, pedaços de mim.

    Mas, contrariamente a seus escritos esbeltos e enxutos, os meus só esboçam uma aquarela pálida de uma vida horizontal, que cedo se viu fadada a grande dispersão. Mas muito obrigado. Enquanto você der o ar da graça, persistirei no ofício.

    Grande abraço,

    Fernando

  3. Interessante a construção da personagem que seduz mas, na verdade, afasta-se por tamanha necessidade de estar ao lado de um homem poderoso. Adorei a parte discreta da esposa que, delicadamente coloca tudo no devido lugar.
    Agora, a sutileza do narrador é impar em não se precipitar a dar explicações desnecessárias sobre o pseudo affair!
    Sempre surpreendendo, Mr. Dourado!

    • Obrigado, Maria Teresa. Sabe por que nome atende a maior das inspirações? Prazo. Às 16 horas da quinta-feira, ainda não sabia que caminho tomaria. Mas em respeito a meu amigo João Rego, e a essa revista de ilustres que me acolhe com tanta benevolência, articulei esse texto. A chancela de sua leitura, compensa o par de horas intenso e incerto. Continue aparecendo.

      Beijo.

  4. Afora obrigatórios elogios ao conto — um achado!, a perspectiva desde um impreciso momento a partir da “virada de 2018”, além do anúncio algo soturno das mortes de Mário Vargas Llosa, J. M. Coetzee, Philip Roth e (hélas!) da premonição de um primeiro Nobel brasileiro –, intrometo-me no diálogo do autor com Clemente Rosas só para lembrar uma frase do paraibano José Joffily, em entrevista que me concedeu nos anos 1970 (talvez desenvolvimento da máxima de Tólstoi): “O universal pode estar no Cariri como em Nova Iorque.”

    • Estupendo, Marco Antônio, tinha carradas de razão o Joffily. E muito obrigado pelas palavras de incentivo. O conto, como você o chamou, tem me rendido mais alegrias do que imaginei ao escrevê-lo.

      Abraço,

      Fernando

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