Pages Navigation Menu

Penso, logo duvido.

Quais são os meios? – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

Início da construção da Ponte do Brooklyn, 1870.

Passado o reveillon e a confraternização dos brasileiros, o ano começa já olhando para o momento crucial da história política do Brasil, as eleições de outubro, quando serão escolhidos os futuros governantes do país. Os potenciais candidatos devem, a partir de agora, acelerar os movimentos e as articulações na busca do poder da República. Embora seja muito cedo para especular sobre as chances eleitorais, o quadro de desestruturação social e moral do Brasil cria um campo fértil para os discursos e as propostas populistas e messiánicas. Ao longo do ano, os brasileiros vão ser bombardeados com promessas e retóricas de um país mais justo, sem pobreza e desigualdade, muita saúde, educação e segurança. Quase todos falam a mesma coisa em relação aos fins, sendo Jair Bolsonaro a única voz destoante com sua ideologia autoritária.

Se existe convergência em relação aos objetivos finais do Brasil, o que permite distinguir entre os candidatos e suas ousadas, e quase sempre inviáveis, promessas? São os meios que fazem a diferença. Segundo Isaiah Berlin, “quando existe acordo sobre os fins, os únicos problemas que restam são os referidos aos meios, e estes problemas são técnicos e não políticos” (da versão em espanhol)[1]. Sendo assim, a discussão deveria concentrar-se em torno dos meios mais adequados e eficazes para alcançar os objetivos que, supostamente, são semelhantes. No debate político, entretanto, as divergências em torno dos meios contaminam qualquer análise técnica porque, em última instância, existe uma enorme distância entre o efetivo compromisso com os fins e a sua manipulação com o propósito de conquista do poder.

Desta forma, a escolha do futuro presidente da República (e dos outros cargos) deve ser feita com base na análise dos meios prometidos e considerados nas suas propostas, na definição do que deve (e que pode ser) feito para, de forma eficaz e viável, transformar a realidade com a redução das desigualdades sociais e o equilíbrio das oportunidades sociais. Todos querem e prometem enfrentar a pobreza, distribuir renda, aumentar o emprego, melhorar a saúde e a educação e enfrentar a violência. Mas quais são os instrumentos e mecanismos adequados e efetivos para alcançar estes objetivos? Todos passam pelo Estado e pelas ações e políticas públicas, tudo depende, antes de tudo, de meios (legais, regulatórios e financeiros) das instituições públicas que podem promover as mudanças que levam ao desenvolvimento. E este Estado, convenhamos, está falido, fragilizado e fragmentado. Por isso, qualquer candidato a presidente que não apresente propostas consistentes e relevantes que reestruturem o Estado brasileiro, recuperando a capacidade de investimentos e de gastos públicos, estará enganando os brasileiros.

[1] Dos conceptos de libertad y otros escritos – Alianza Editorial – Madrid – 2008

2 Comments

  1. Tem razão: todo mundo quer melhorar as condições de vida da população toda, acabar com a pobreza e as doenças, viver em um país com saneamento básico para todos e infraestrutura moderna. Quais as política públicas que podem trazer isso? Aí é que são elas! como se dizia antigamente. Será que o eleitorado tratará de analisar os resultados de cada política pública para não ficar repetindo as que deram errado? E saberá distinguir entre resultados de curto prazo e longo prazo? Como nos estímulos que animam a economia no curto prazo e em seguida trazem inflação e recessão? Saberá rejeitar as mentiras deslavadas, como essa que diz que a reforma da aposentadoria está tirando a aposentadoria dos mais pobres?

  2. Tão elementar… Se (praticamente) todos prometem a mesma coisa – saúde, educação, segurança – a pergunta, ou no mínimo a curiosidade de eleitores e jornalistas deveria ser sobre “e como a sra/sr pretende alcançar esses objetivos”? Mas os próprios jornalistas se detêm na “análise” dos números prometidos, como breves e superficiais observações sobre quanto isso custaria em termos financeiros (e chegar a esse ponto já é um avanço). Normalmente, perde-se mais tempo analisando a personalidade dos candidatos, a linguagem audiovisual do programa eleitoral, as intrigas entre membros da alianças e a agenda de compromissos de campanha. Se isso é o melhor que se obtém dos jornalistas, esperar o que dos eleitores? Aderem à persona que lhes parece mais convincente, e lá vamos nós eleger personagens, mais que lideranças políticas.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *