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Penso, logo duvido.

Raízes de um desterrado – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Estação Ferroviária da "Gret Western" em Garanhuns - 1910.

Estação Ferroviária da “Gret Western” em Garanhuns – 1910.

 

Tão longe quanto a memória pode me levar, vou lembrar sempre do quanto meu pai insistia em que tínhamos que amar Garanhuns sobre todas as cidades do mundo. Mais até do que Paris, se a tanto as circunstâncias nos obrigassem. Assim sendo, por menos que lá tenha vivido e por muito que estivesse entregue aos encantos do Recife dos anos 60 e 70 – um lugar iluminado -, sob nenhuma hipótese poderia esquecer que fora naquele ponto do Agreste Meridional que tinha vindo ao mundo. E, antes de mim, meus pais, avós, tios, tias e a maioria dos primos. Lá, pensava eu, não gozávamos do indulto do anonimato. Mas tínhamos como compensação o respeito das pessoas e o carinho daquela gente que falava cantando, alteando a voz no final das frases.

Como se tamanho engajamento não fosse o bastante, se impunha louvar a cidade não somente sob os aspectos mais aclamados – a qualidade do ar e da água; a beleza das flores e do hotel famoso, conhecido em todo o estado pelo nome de Sanatório – como também sob outros menos visíveis. Era o caso de venerar alguns dos grandes homens que lá tinham vivido. Sobretudo lideranças políticas de viés de estadistas, algumas delas ligadas a nós por laços de sangue. Para mim, valia até um episódio que entrou para a História pela truculência. Foi o caso do padre que matou o bispo. Quantas cidades podiam se jactar de ter incomodado Roma a ponto de o próprio Papa decretar a excomunhão do prelado ensandecido? Falava-se de um único precedente na história da igreja.

Mas não ficava aqui nosso cartel de glórias duvidosas. Isso porque tivéramos um simulacro de guerra civil em estilo bem próprio. Afinal, o que foi a chamada Hecatombe, senão isto? Não obstante as aberrações da fatalidade que a mente juvenil consagrava, as lembranças que me assaltam hoje são mais amenas. Quando me debruço sobre esse passado, me vêm à mente as passagens da infância e adolescência. Alguns protagonistas desse período permanecem vivos, mas a maioria já se foi – o que me dá liberdade para evocá-los. Muitos deles posso ter visto apenas umas poucas vezes. Mas de tanto ouvir meus pais e tios comentarem a respeito, eis que foram se incorporando a um acervo bem entesourado e policrômico.

 

 

*

 

 

Se a experiência me ajudou a esquecer de imediato a última escala, devo confessar que nem sempre foi assim. Quando mamãe anunciava uma viagem a Garanhuns, eis que as rotinas do Recife pareciam insubstituíveis. O que iríamos fazer no interior se era na capital que tínhamos amigos, escola e referenciais de toda ordem? Se o pretexto era ver a família, por que não vinham eles ao Recife para tomar banhos de mar, provar um sorvete decente e nos acompanhar nas matinês do cinema São Luiz? Por que éramos nós sempre que íamos para o sacrifício? É claro que essas perguntas eram para consumo próprio e jamais ousei formulá-las a meu pai. Mesmo porque traíam o vício da insinceridade, do muxoxo gratuito e do comodismo.

 

Dessa forma, todas as resistências se evaporavam quando chegávamos à altura de Vitória de Santo Antão, tangenciando a fábrica da Pitu. De olho na paisagem, convinha fingir certo desprezo por Gravatá, cidade cortada pela estrada e que começava a querer rivalizar com a nossa no que mais tarde seria conhecido como o Circuito do Frio. Tal aspiração nos parecia forçada e petulante. Que ficasse com seus chalés triangulados à espera da neve. Caruaru impunha respeito. Mas eu só a olhava de esguelha, à direita do pontilhão que cruzava a pista. Invariavelmente, meus pais diziam que era uma cidade de comerciantes, uma forma afetada de enaltecer a nossa, cada dia mais provinciana quando comparada com a rival próspera, robusta e próxima da capital.

 

O ponto alto desse trecho era a chegada a São Caetano onde pontificava o posto da Polícia Rodoviária. Ali meu pai desacelerava e dizia ao guarda nosso destino. Este – para não variar, usava óculos escuros e tinha uma enorme barriga dependurada sobre as calças amarfanhadas, como se fora um traço da categoria profissional – frequentemente batia continência e desejava boa viagem. No mesmo balão onde embicávamos para a esquerda, parávamos para comprar uma arribaçã assada cujos ossos eu roeria até o destino. Era o trecho final da estrada. Ao cruzar Neves, papai se referia a uma tia que lá morara, dada a tomar aguardente e surrar o marido delegado. Em Lajedo, diziam que tínhamos parentes, mas era Jupi que assinalava que chegávamos de fato ao destino.

 

 

*

 

 

Se Garanhuns estivesse despida do tradicional manto de garoa, muitos quilômetros antes da chegada já divisávamos o prédio do hotel Monte Sinai, na parte alta do que lá era conhecido como o Arraial ou Heliópolis – no anúncio das lotações. “Lá está meu Garanhunsinho”, dizia papai no mesmo ponto da estrada. Se bem-humorado, entoava uma ária de Augusto Calheiros ou recitava um poema que começava assim: “Garanhuns, terra de meus avós, Onde as manhãs são frias…” Excitados com a chegada, perguntávamos a mamãe quanto tempo faltava. Isso porque a região não era plana e, de repente, parece que o hotel de referência sumia. Será que erraríamos a entrada e iríamos bater naquele caminho empoeirado que levava a Paulo Afonso e Palmeira dos Índios?

 

Não, a rota estava certa. Isso porque logo ele reaparecia majestoso e víamos à esquerda o quartel, por nós conhecido como o 71 – por ser o septuagésimo-primeiro Batalhão de Infantaria, o que quer que isso significasse nas casernas. Mais à direita, assomava o posto Kennedy e, sentindo os paralelepípedos vibrarem sob os pneus da Rural, víamos a rádio à esquerda e a AGA, logo à direita. O mais comum era que chegássemos quase à hora do almoço e que já fossemos direto para a casa de tio Vilberto onde nos esperava a fava mais deliciosa do mundo. Mas, se chegássemos à tarde, era provável que passássemos já na entrada pela casa de tio Pipe, logo atrás do busto de meu avô que fora prefeito. A escala se prestava a uma atualização rápida e uma vênia ao patriarca.

 

Irmão mais velho de papai, agasalhado numa malha puída, ele nos recebia sentado e a tosse do enfisema acusava os cem cigarros Carlton que fumava diariamente. Invariável também era o chão atapetado de revistas e livros. Ao lado da poltrona, a escarradeira. No ombro, não raro descansava o papagaio que tinha o triplo de minha idade e lá se ia tia Bubu coar café que logo seria servido numa imensa bandeja. A do marido era a xícara maior e vinha acompanhada por um copo de leite de magnésia já diluído. Isso porque ele tinha uma úlcera. Abrir mão do prazer, contudo, estava fora de questão. À tarde, tomava um copo de água quente e ia ao quintal vomitar nicotina, alegava. “Como vai aquele inferno?”, perguntava sobre o Recife mal entrávamos, a título de introdução.

 

 

*

 

 

Tio Pipe se chamava José Maria Dourado. Não sei bem a origem do apelido, mas parece que foi tia Zezé – de educação francesa – que o cunhou. Talvez porque ele tenha fumado cachimbo em dada época. Tido como usurpador da herança do pai – papel inelutável do primogênito -, ele viveu segundo regras que se fixou desde rapaz. Formado em direito por vontade alheia, jogou os livros e o diploma no Capibaribe depois da colação de grau e foi para Garanhuns construir casas a um ritmo alucinante. Mudava de ares passando dois meses no Jorro, Bahia. “Aquilo é que é lugar”. Mais tarde, se encantou por São José da Coroa Grande. A cioba de tia Bubu era lendária e o pescador confidente passava o dia ao pé da varanda. “É um sábio”, dizia como Hemingway de Gregório.

 

A úlcera levou-o um dia a uma cirurgia na capital, mas se evadiu de roupão, expondo as partes pudendas em plena Conde da Boa Vista, à procura de um carro de praça. Quando com raiva, atirava nos pés dos pedreiros. Apesar do narigão vermelho, da moto Harley-Davidson e do autoritarismo, adorava pessoas inteligentes e que não o temessem. Janete Costa, sobrinha de tia Bubu; Estherzinha, a prima casada com Adelmar da Costa Carvalho e mamãe, formavam o trio eleito. Já tia Bubu tinha facetas surpreendentes. Quando faltava ao tio o nome de algum político, ela consertava lá de dentro o lapso de memória: “Alexei Kosygin”, berrava – para espanto das visitas. Só usava sapato Conga para não incomodá-lo com o barulho do salto e foi feliz.

 

Dizem que as doenças venéreas contraídas nos lupanares o impossibilitaram de ter filho, mas foi ela que assumiu a culpa. Destemido e desbocado, tinha marcada aversão a impostos, como todo homem independente. Diagnosticado com um câncer de pulmão, ignorou os tratamentos e voltou para Garanhuns onde morreu numa casinha de vila. Por via das dúvidas, sendo a esposa a autêntica mulher do lar – odalisca solitária de um sultão combalido -, comprou caixão antecipadamente e colocou-o na sala de visitas para ir se acostumando à nova morada e para que não ludibriassem a viúva. As visitas se assustavam. Diferente do que foi em vida, morreu mais querido do que temido. Mesmo assim, jamais desgrudou do revólver, o que não era incomum na época e na região.

 

*

 

 

A caminho do centro, era inevitável passar diante da casa de tio Ivan, na praça Souto Filho. Para mim, ela sempre mexeu com sentimentos atávicos mesmo porque foi lá que vim ao mundo pelas mãos de Dr. Otoniel – como não cansavam de me lembrar. Três anos depois, na assim chamada rua do Recife, nasceu meu irmão, num dia quente de fevereiro em que a casa de meu avô cheirava a hospital. Foi tia Dulce quem o trouxe para que eu o visse e fiquei perplexo com o tom arroxeado da pele de um bebê nascido há minutos. Dei a entender que esperava mais do tal irmão e fui repreendido por externar ciúmes mal camuflados. “Onde já se viu, seu cabra? Ele é seu irmãozinho e você vai gostar dele sim”. Diferenças à parte, nunca um desafio me foi tão fácil.

 

Mandava o ritual de chegada que déssemos duas voltas pelo centro, na avenida Santo Antônio. Meu pai podia eventualmente parar para saudar um transeunte e era comum que conversasse com mamãe sobre alguém que remontasse aos tempos de juventude. Sendo ele de 1927 e ela de 1932, foi sintomático que tenham começado a namorar em 5 de agosto de 1945 – enquanto Hiroshima ardia num inferno. O fim da guerra assinalou, na verdade, a eclosão de outro conflito – este entre eles -, fadado a se arrastar por mais de meio século. Assim sendo, ambos se debateram em torno do equívoco clássico: o homem acha que a mulher não vai mudar nunca. E ela muda. Já ela acredita que conseguirá moldá-lo. Nem a morte dele em 2000 apagou a brasa do mal-entendido banal.

 

Tio Vilberto morava a caminho da Boa Vista, na Júlio de Melo, rua da escola D. Expedito Lopes, de propriedade da irmã Valdecir. Casado com tia Lígia, era um homem devotado ao trabalho e à família. Crescido na vizinha Lagoa do Ouro, acolhia com bonomia as excentricidades de papai que abusava a mais não poder da hospitalidade que ele nos proporcionava. Isso porque se atrasava para o almoço em dias de comércio efervescente e, mesmo assim, chegava não raro com um convidado. A essa altura, tanto meu irmão quanto eu já estávamos relaxados por saber que a presença de tantos adultos por certo faria nossos pais moderarem nos juízos radicais e nas condutas mutuamente provocadoras. Recife virava uma abstração distante e éramos felizes. Estávamos no paraíso.

 

*

 

Depois de um dia de passeios de bicicleta, carrinhos de madeira movidos a rolimãs e eventuais banhos de chuva, era de se esperar que logo tivéssemos joelhos ralados, cotovelos em carne viva, cortes na sola dos pés, espinhos nos dedos e queimaduras. Ademais de estados febris e amidalite. Nada, contudo, que seu Amaro não resolvesse. Dono de “A seringa”, todo final de tarde esse enfermeiro mulato e calvo, de andar rápido e humor superlativo, passava para trocar curativos, rir com nossas aventuras e, assim como chegava, já se despedia levando a malinha onde carregava algodões, mercúrio, injeções, gaze, esparadrapo, uma tesoura e pomadas. “Meninos, meninos. Só não me vão cair de uma árvore”, era como fixava a fronteira da ciência paliativa que abraçara.

 

Quando íamos à feira, diante do correio, eu me comprazia em observar um senhor cujas pernas tinham sido cortadas pelas rodas do trem. Nos tocos que lhe restaram, levava um calçado de couro redondo, moldado para o passeio. Sempre de quepe, roupa cáqui, óculos de grau e bengala, não parecia se ressentir da tragédia. No bar de Mirabeau, papai conversava com o mecânico João Renault, cujo filho cursava engenharia no Recife. Quando menos se esperava, eis que aparecia lá fora Bode Cheiroso, bêbado lendário cujos grandes olhos injetados ardiam sob o cabelo afogueado e avesso à água. Em andrajos, berrava sandices, estacava no meio da rua, divertindo uns e apavorando mulheres e crianças. Sempre havia alguém para lhe pagar uma lapada de cortesia.

 

As reações às figuras da rua mudavam quando assomava de uma esquina uma dupla de homossexuais cujos meneios a tornava caricata. Rosinha usava calça boca de sino de cores aberrantes. Matéria Plástica era mais contido. Ambos ignoravam os apupos. Tentando desviar nossa atenção de ébrios e pederastas, mamãe falava de seu Matos que usava suéter sob o calor e saía em mangas de camisa no frio. Quando papai dizia que só homossexuais dançavam sem estar embriagados, ela rebatia com o exemplo de um certo seu Colimério que tinha filhos, era pé de valsa e só tomava guaraná. Na feira, encontrávamos Dadai. Ex-escrava, era madrinha de meu irmão. De beiços caídos, usava argolas nos pulsos e exalava bondade. “Foi ela que me criou”, papai repetia meditativo.

 

*

 

Não obstante os familiares e os primos mais velhos, certo é que eu gostava mesmo de passear a pé. Caminhava longas horas desde o Pirulito da Boa Vista até o Monte Sinai, fazendo aqui e acolá uma pausa no Sanatório, num banco de praça em frente ao Colunata, na padaria Royal ou na alameda arborizada do colégio Quinze de Novembro, onde remanesciam famílias americanas. Quando cansado, subia numa lotação e só aparecia em casa para fazer as refeições e dizer que estava vivo. Em seguida, voltava a sair. Ia muito à livraria de seu Manuel Gouveia e trocava livros já lidos por exemplares novos. Ele os examinava e me olhava de soslaio: “Mas já deu tempo de ler “O conde de Monte Cristo”? Muito bem. Acho que você puxou à sua tia Alice”.

 

No fim da tarde, encontrava mamãe na Joia Magazine, o brinco de loja que meu tio montara com esmero. Ali provava roupas novas e, na calçada adjacente, onde paravam os ônibus do Recife, transitavam conhecidos que me beliscavam a bochecha, falando de ancestrais que eu não conhecera. “Vai ser alto como o avô”, diziam. Na sequência, íamos à sapataria onde me fascinava ver as caixas de chapéus Prado empilhadas sobre as prateleiras inalcançáveis. Ver a barriga do dono – amigo de vovô – e o cinturão que lhe passava a centímetros do queixo era hilário. Um dia teria uma daquela. À noite, íamos ao cinema Jardim ou ao Veneza. O Eldorado, só de carro. Ao final, o destino era a rua São Francisco, onde funcionava o meretrício – salvo na sexta-feira santa.

 

É claro que tudo mudava quando se tratava do Natal. A avenida Santo Antônio ficava tomada de brinquedos, roletas e bingos. Enjoava com as barcas de corda e com o carrossel de cavalos fixos e bancos estáticos. Movido à força manual de homens cheirando a suor, a função era entretida por um trio de zabumba, sanfona e triângulo que só agravava a náusea. Muitos desciam para vomitar. Tudo melhorou quando tomei a primeira cerveja. De súbito valente, urinei com um primo na porta da loja de seu Minervino com as mãos na cintura, como faziam nossos pais. Vez por outra cruzávamos com João do Ovo e o Mudo, com quem outro primo falava com gestos tão convincentes que parecia se sentir mais à vontade com a língua de grunhidos e mãos do que com o verbo.

 

*

 

O tempo foi soterrando algumas lembranças, mas ainda restam muitas. Como esquecer, por exemplo, Dona Fernanda, a professora de piano portuguesa que mais parecia levar o mundo nas cadeiras? Ou aquele senhor bonito, mas estranho, que abria o desfile de ex-alunos do Diocesano com passo determinado, botas de cano alto, uniforme azul-escuro e mais medalhas no peito do que um oficial russo? Papai o chamava de Rommel – uma homenagem à Raposa do Deserto – e, quando o via, o saudava militarmente, no que era reciprocado com inusitada seriedade. “Bata continência para o marechal”, me sugeria. Era uma forma de me fazer participar da brincadeira. Mas era também um desafio à timidez lendária que logo esvaneceria em Paris, aos quinze anos.

 

As viagens para lá foram ficando escassas. Ainda cedo, acompanhei o pensamento de mamãe em suas linhas mestras. A cidade estava sendo tomada por forasteiros. As lideranças políticas eram manietadas por interesses do Recife. As negrinhas do Castainho já não vinham muito à feira vender fava e ervilha debulhada. Até o clima parecia que vinha mudando. Morriam as últimas freiras do Santa Sofia que conhecera – onde sua mãe, logo minha avó, fora laureada da primeira turma de professores – e os vestígios do passado se evaporavam. Ademais, muitas das velhas famílias tinham se mudado para o Recife por conta da educação dos filhos. Sempre haveria o parque, as praças e, mais tarde, até festivais. Mas o tempo soterrara nosso legado que vinha do século XIX.

 

Certo dia, premido pelas delícias do Recife – cidade dos pecados anônimos e do bulício das ruas congestionadas pelos ônibus elétricos cor laranja – devo ter saído de Garanhuns sem olhar para trás, indiferente à silhueta do Monte Sinai. Na altura de Cachoeirinha, o pensamento já estava na rotina da capital onde pontificavam passeios ao porto, incursões aos sobrados da rua Vigário Tenório, tardes de domingo no aeroporto e o silêncio da biblioteca da Faculdade de Direito, onde gostava de ir ler quando gazeava aula. Era lá que estava no dia em que um burburinho veio da rua e as pessoas começaram a correr como desesperadas. Desci curioso e uma mulher, em plena Riachuelo, me aconselhou a correr porque Tapacurá tinha estourado. Mas essa já é outra história.

 

***

47 Comentários

  1. Fernando,

    Em tempos de redes sociais, textos curtos e conceitos formados com 140 caracteres, suas crônicas soam como bálsamo para mim. Aguardo ansiosamente cada publicação para ler em um só fôlego. Viajamos com você, por linhas redigidas de maneira requintada, com um bom humor incrível e surpreendente, seja numa narrativa sobre Garanhuns, como a de hoje, ou sobre a Tailândia.

    • Obrigado, Paula.

      Vindo de uma profissional polivalente como você, fico muito feliz. Especialmente porque como jornalista, o texto integra sua história.

      Levo vez por outra uns puxões de orelha de nossa atenta editora pela extensão. De resto, muito benevolente comigo.

      Saber, contudo, que você leu essas passagens memorialistas de um fôlego só, me enche de motivação nessa largada de 2016.

      Abraço,

      FD

  2. Fernando ,

    Papai correu da Conde da boa vista pra Rio Doce no dia que Tapacurá “estourou”…mas isso é outra história !!!!!

    • Eu devo ter disseminado o boato para umas vinte vítimas e fiquei correndo entre a praça Adolfo Cirne e a ponte Duarte Coelho. Como num terremoto, não saberia dizer quanto tempo durou a histeria. Mas foi inesquecível.

      Abraço, amigo , e obrigado pela visita.

      FD

  3. Meu caro Fernando Dourado.
    Falo sobre oi seu artigo. Comentá-lo? Ainda não estou em nível para tal.
    Na verdade, ele me trouxe boas e velhas lembranças dos tempos de menino, que la vivi, embota seja caruaruense. Vários tipos e locais por você citados, conheci;
    entre tantos a Livraria Gouveia, onde comprei meus primeiros livros para estudar no Diocesano, antes tendo comprado Tabuada e Carta do ABC para estudar na escola de dona Elisa. Obrigado por esse momento de devaneio.
    Trovabraço

    • Prezado Nealdo,

      Como fico contente que esse arrazoado tenha remetido o amigo aos verdes anos. Aliás, tenho lembrança sim da família Zaidan em Garanhuns, na pessoa de um senhor chamado Michel. Seriam parentes teus?

      Mas quem pode dar nome a todas essas referências aqui aludidas será tio Ivan – um poço de memória invejável e talvez o maior acervo vivo da Garanhuns do século passado.

      Faço aqui apelo a ele que me identifique pelo nome o senhor que teve as pernas cortadas pelo trem e o outro que tinha o garbo de um oficial germânico em sua indumentária impecável de guerreiro.

      Abraço,

      FD

  4. Meu interesse é maior pelas histórias do desterro, mundo afora. Mas sou movida a curiosidade, fui ler, e tentei situar tudo isso no tempo com mais precisão. Confesso o meu choque: é isso o interior pernambucano ainda nos 1960s?! É claro que no final Fernando Dourado abre um suspense. Então, fui checar “estourou Tapacurá” no Google, pensando: será que foi assim que os recifenses apelidaram o golpe? Mas como é que então o Celso Furtado (o conterrâneo do Clemente Rosas) nunca contou isso? Pois eis o que li no Google: “… em 21 de julho de 1975, a capital de pernambuco parou em desespero, caos e correria. Uma noticia devastadora anunciou (sic) o rompimento da barragem de Tapacurá e a onda que devastaria’. Sim, a “jornalista ninja” disse “a noticia… anunciou” e “a devastadora …. devastaria”. Vai ver ficou tão assustada que passou ao “dilmês”. Mais não digo, para não estragar de todo o suspense do Dourado, que, nas memórias, virou Fernandinho.

    • Querida Helga,

      Acredito que a essa altura o tal estouro da represa esteja devidamente esclarecido. Foi nossa versão de alucinação coletiva da invasão dos marcianos do cineasta americano. Cafe pequeno para quem já teve até boi voador, alguns séculos antes.

      Quanto a mim, fico a gosto tanto com as histórias do desterro quanto com essas de Garanhuns. Isso porque, como haverás de ter concluído, são meras variações em torno do mesmo tema: o estar fora do lugar, de Edward Said. Sim, Pernambuco era assim nos anos 60. Pelo menos pra mim.

      Por volta dessa época, Lula já tinha saído de lá, é bom que se diga. Nascido num distrito de nome Caetés, hoje cidade, deu um depoimento sobre nossa cidade eivado de clichês a Denise Paranaguá, no livro que originou o filme sobre ele. A morte do bispo, a Hecatombe e o nascimento do próprio compõem nossa trilogia apocalíptica. Que cidade, não é mesmo?

      FD

  5. Lembro bem do dia em que Fernando me apresentou Garanhuns.Tão detalhadamente descrita durante a viagem de Recife pra lá, nos idos anos 70, que me pareceu familiar ao chegar. A praça com o busto de seu tio avô, ruas com nome da família Dourado, teatro, e o Monte Sinai, que não tinha vagas para aquela noite. Festas juninas. Cidade lotada. Ficamos os 4 num pequeno quarto de outro hotel na cidade. Boas lembranças desta Suíça brasileira, tão presente na história dos Souto Dourado, de Fernando Dourado!

    • Obrigado por evocar lembranças tão bonitas , Tamara. Dentro em breve serão 40 anos – e eis do que ficar mortificado. Ou, do contrário, deveríamos nos regozijar? Jamais saberei. Lido mal com a passagem do tempo.

      De qualquer forma, acho que o feriado era o da Semana Santa – tanto é que voltávamos de Nova Jerusalém – uma ironia para você já que vem da velha e original capital espiritual das três religiões.

      Aquela viagem assinalou uma das últimas vezes que lá estive. Depois disso, praticamente não contou porque se resumiram a um dia – exceção feita ao Festival de Inverno de 2008. Amanhã, 20 de janeiro, estarei lá com meu irmão.

      Veja como são engraçadas as coisas nas mentes confusas como a minha – que você tão bem conhece. Não escrevo sobre a cidade porque contava ir até lá. Isso estava fora dos planos. Vou lá porque escrevi a respeito. Então veio uma vontade incontida e inadiável. Obrigado pelas recordações.

      FD

  6. Garanhuns que terrinha boa
    garanhuns terra de Simoa
    garanhuns onde o nordeste garoa

  7. um dos seus melhores momentos. irretocável

    • Obrigado,Paulinho, uma lisonja e tanto vindo de você, o único escritor de verdade da família. Aliás, adorei as histórias que me contaste no e-mail privado sobre tio Pipe
      Mas se tentasse escreve-las aqui, a revista sairia do ar.
      Pois um simulacro de Armando Falcao ressurgiria das trevas e nos empastelaria.
      Mas elas são ótimas, obrigado.

      Abraço,

      FD

  8. Insuperavel como memorialista

    • Obrigado, Dr. Augusto, irmão mais novo da geração dourada da família Coelho e depositário de uma infinidade de histórias sobre sua amada Petrolina natal. Tenho certeza de que no dia em que nos brindar com suas reminiscências, Pernambuco e o Brasil testemunharão da beleza de ter nascido e crescido à beira do São Francisco.

      Um grande abraço,

      FD

  9. Fernando muito bom voltar a ler suas crônicas sempre tão cativantes.

    • Veronica H.? É você?
      Mas que notícia boa.
      Fico honrado com essa ilustre leitora de Santa Catarina.
      Apareça mais vezes.

      FD

  10. Delícia de texto, delícia de histórias!

    • Obrigado, Denise, minha fiel leitora.

      Depois de uma viagem longa até o outro lado do mundo, onde me encontro hoje, nesse exato dia 20? Aqui mesmo, em Garanhuns.

      Depois de duas voltas pelo centro da cidade, eis que me sinto como se nunca tivesse deixado de visitar a terra. E já se iam quase 8 anos desde a última vez.

      FD

  11. Deixei Lula p’ra lá ao comentar as memórias do Fernando Dourado, que hoje também em Garanhuns é desterrado (pelo que entendi do que ele disse). Mas como Fernando lembrou de Lula em relação a Garanhuns, aviso que não vi esse filme sobre Lula (do Fernando Barreto) nem o livro em que se baseou. Ouvi dizer que o filme foi fracasso de bilheteria. A história de Lula que acho mais confiável é do paraibano José Nêumanne Pinto, O que sei de Lula, Topbooks, Rio de Janeiro, 2011. Ali Garanhuns aparece no primeiro capítulo – na realidade, mais Caetés – mas não consigo ver a relação daquela com a Garanhuns de Fernando Dourado, além de que a época é bem anterior, fim dos anos 1940s e começo dos 1950s.

    • Helga,

      No livro em que se baseou o filme caça-níqueis -na cola do sucesso de uma dupla sertaneja -ele admite que esteve duas ou três vezes na cidade, antes de rumar para São Vicente, no litoral paulista. Ele fala de Garanhuns como uma cidade feia e desolada, o que é bastante compreensível na ótica sofrida de dona Lindu e seus filhos. O que me incomodou foi a descrição forçada de uma cidade deserdada da sorte por completo, o que não condiz com Garanhuns. Mas tenho que admitir o império da subjetividade aqui. Basta ler a primeira linha de meu texto para entender que tenho também uma visão viciada.

      Abraço,

      FD

  12. Minhas lembranças são distintas das de Fernando. Porém algumas delas coincidem. É o caso, por exemplo, do senhor das pernas amputadas; do homem cheio de medalhas que parecia ser a maior das autoridades. Principalmente por ocasião da Exposição de Animais, de que Fernando não se lembra talvez porque nunca tenha sido morador.

    Já procurei em minha lembrança Rosinha e Matéria Plástica mas eles não fazem parte de milhas recordações. Mas em compensação vivia apavorada com Bode Cheiroso que, quando aparecia, eu já me escondia, morrendo de medo dele. Quanto a tia Bubu, lembro pouco. Mas tenho lembrança da figura de tio Pipe como uma figura excêntrica.

    E quem era a viúva engraçada que morava perto dele? Uma senhora que tinha uma fazenda onde íamos comer jaboticabas?

    Lavinia

    • Lavínia

      Suas indagações quanto ao primeiro parágrafo já estão bem esclarecidas por tio Ivan. A do último parágrafo parece que quem tem uma pista quente é Zé Eduardo. Ele disse um nome na noite da quinta-feira, mas não o fixei. Quem sabe ele não acuda até aqui em nosso socorro?

      Beijo,

      FD

  13. Belo texto. Trouxe-me lembranças e redescobertas.

    Abraços,

    Demerval

    • Demervalzinho,

      Mais fácil nos vermos nessas páginas em torno de Garanhuns do que em São Paulo onde somos quase vizinhos. Coisas da vida que, aliás, vai ficando curta. De todos nós, você é o primo que mais deve entesourar lembranças claras de tudo o que antecedeu meu relato. Vamos colocá-las em dia qualquer hora dessas para a parte dois – se ela sair um dia. E mande uma cópia para Vilma, sua irmã, outra desterrada como nós dois.

      Abraço,

      FD

  14. Outra lembrança bem viva que tenho é que quando entrei no Colégio Quinze de Novembro já não havia o fervor das turmas que lá tinham estudado uns cinco anos antes. Isso talvez resultasse do fim da chamada Missão Americana. Tanto é que pedi para ser transferida para o Santa Sofia, mas não fiquei sequer por uma semana. Como diz Fernando, era hora de vir para Recife,o que aconteceu com muitas famílias.

  15. Fernandinho: No curto comentário que fiz no editorial desta edição, mencionei a sua busca ao passado (como diria Clara minha neta). Pra não desmerecer sua referência esclareço que Seu Manoel Cotó, servidor dos Correios e respeitado cidadão, tinha perdido as pernas num acidente do trem. Sua honrada descendência continua lá na santa terrinha. O amedalhado cidadão era Eriberto, um dos doidos mansos e maravilhosos (e quem não é?) de Garanhuns. Se dizia fiscal do governo e vivia anotando num caderninho todos os mal-feitos que julgava encontrar, para fundamentar as denúncias. Como refere Lavínia, gostava de gado e não perdia uma exposição de animais por nada no mundo. Lá demonstrava a força de sua autoridade, sobretudo, numa implicância mortal que tinha com Dr. Haroldo Amaral, velho amigo e funcionário do Estado já falecido.

    • Obrigado, tio Ivan. Seu Manoel Cotó, precisamente. E Eriberto – o nome estava me queimando a língua, mas não saía.

      Hoje estou visitando nossa cidade. Sua casa continua linda, florida, bem pintada. Só não sabia que tínhamos uma pizzaria como vizinhos.

      Quando o sol esfriar, vou descer com Zé Maria para uma romaria aos pontos de ancoragem tradicionais. Estou feliz de estar aqui.

      FD

  16. Helga: O Recife sofreu quatro grandes cheias, em 1966, 1970, 1975 e 1977. As piores foram as de 1966, totalmente imprevista, e a de 1975, a maior de todas. O absurdo boato do estouro da represa de Tapacurá foi após a cheia de 1975. Dr. Celso Furtado estava longe, desde 1964, e não entendi a lembrança do nome dele, a propósito de tal fato.
    Assisti a todas as cheias, mas não fui afetado por nenhuma delas: morava em Boa Viagem. A origem do pânico com o suposto arrombamento da represa até hoje é desconhecida.

    • É isso aí, Clemente, acho que ele estava em Nanterre. Em 1977 lembro que veio visitar FHC em Cambridge onde eu então estudava e o ex-presidente comandava uma cátedra chamada Simon Bolívar, de estudos latino-americanos. Lembro das visitas de Celso Furtado e de Severo Gomes.

      Abraço,

      FD

    • Tem razão, Clemente: para algo nos 1970s em Recife, não faz mesmo sentido lembrar do Furtado. Mas ele continuava muito ligado ao Recife mesmo depois de “expelido” da SUDENE. Vai ver só lembrei porque ele estava em Cambridge, England, nos anos em que lá estive (1973-1975), esteve em Hamburgo em 1976 a convite do Institut fuer Iberoamerika Kunde, no qual eu estava trabalhando, e ele continuava falando do Nordeste brasileiro de quando em vez.

  17. Querido Primo,

    Deliciosa a crônica sobre o “nosso Garanhusinho”, como se referia o velho Fernando Dourado e tantos aldeões como tio Ivaldo e Zebatatinha. Uma maravilha passear pela terra de Simoa com seu mergulho afetivo; só faltou o canto das cigarras do parque Euclides Dourado e de tantos recantos como o tabuleiro do sítio Pau Amarelo de meu avô. Foram dois anos que lá passei no “ginásio” Diocesano, suficientes para adotá-la como minha cidade, além das férias inesquecíveis que passei na primeira infância lá mesmo no Pau Amarelo.

    Antonio

  18. Pois bem, Tonho, aproveito sua missiva para aqui divulgar o endereço eletrônico da dedicada bibliotecária de Garanhuns : Rosileide Couto Soares – rosinhacs@gmail.com

    O telefone dela é 087 – 9 8837 3641. Ela é a responsável pela principal biblioteca do município e fiquei de mandar uns livros.

    Aproveito e dou a sugestão a Clemente, Teresa e Fernando Motta – homem de grande produção intelectual – para que enviem exemplares de suas publicações para ela.

    A biblioteca é bem razoável e, segundo me disse, bem frequentada. É minha homenagem a você, um gestor público competente e brioso, cuja formação também se deu por aqui.

    Abs,

    FD

  19. Ontem a Biblioteca Comunitária Ler é Preciso Prof. Maurílio Matos em Garanhuns, teve a honra de recebe-lo e também o privilégio de conhecer você Fernando. A conversa tão informal nos fez parecer que eramos velhos amigos. A curiosidade mata por isso escavei algumas das suas cronicas e textos. Voltei no tempo ao ler sobre sua infância, por ser uma legitima Garanhuense, nas entre linhas pareceu que eu também estava ali. Foi fantástico o deleite.
    Obrigada pela oportunidade e aguardamos novas visitas.

    • Que alegria, Rosi

      FD

  20. Fernandinho, primo e sobrinho querido: Em comentário acima, dirigido a mim, você fala em “sua casa” referindo-se à Praça Souto Filho, 71. Esqueceu que você e Pedro Leonardo nasceram lá, bem como os filhos de Cícero e Vicentina – meus queridos e leais empregados por muitos e muitos anos? Que fui morar nessa casa no dia em que me casei com Dulce, 66 anos lá atrás? Que lá se criaram meus filho queridos? Que ela está lá e apesar de sua simplicidade, continua linda como você afirmou? Ao longo dos anos, por lá passaram, continuam passando e passarão os Rodrigues, os Dourados, os Pebas, os Lucenas, os Burgos, os Brancos e os muchileiros de todas as origens e etnias. Resiste, bem como a casa de Seu Thompson (o mais garanhuense dos americanos que aqui aportaram). Essa casa já deixou de ser “minha” casa há muito tempo e preparo essa institucionalização, para que lá permaneça servindo aos nossos descendentes por muitas gerações.

  21. Bacana, tio Ivan, de sua parte não se poderia mesmo esperar outra coisa. Nesse contexto, nunca será demais ressaltar a procedência do provérbio albanês. Ele reza que uma casa não se assenta sobre o solo, mas sobre uma mulher. O carinho que tia Dulce sempre devotou a esse endereço de alegrias, onde boa parte da vida era levada na varanda, a transformará pelos tempos do porvir no quartel general de nosso núcleo e no da imensa família estendida que seu coração magnânimo incorporou. Fico contente, tio, que um artigo tão singelo quanto despretensioso, tenha galvanizado em poucos dias novas amizades, velhas reminiscências e depoimentos como o seu, em especial, que nos enche de amor pelo ontem e pelo amanhã.

  22. Dourado,
    Texto rico, detalhado, emotivo.Brilhante mesmo.
    Tive, quando criança, a oportunidade de passar muitas maravilhosas férias no Hotel Tavares Correia – o Sanatório.
    Naqueles tempos de uma infância inocente – em que meus pais, imagine!, costumavam passar uma semana descansando em Águas de Lindóia, Poços de Caldas ou Garanhus, depois de um mês passeando na Europa – eu e meu inseparável velocípede , nos deslumbrávamos com o gigantismo dos eucaliptos do Parque Euclides Dourado ( seu avô ), também chamado de Parque dos Eucaliptos, com o chão totalmente coberto de folhas secas, o estridente canto das cigarras ( muitas, depois de mortas, pregadas nos troncos das árvores, que eu adorava colecionar ), são imagens e recordações que guardo com muito carinho em minhas memórias de infância .
    Grato pelo nostálgico passeio, de tantas distantes, mas profundas alegrias.
    Abraço forte, já com saudade.

    • Querido Hélio,

      Está rendendo muitos dividendos emocionais essa história de falar de minha aldeia na primeira pessoa. Julgava, de coração, que essa página de memória estava fadada a duas ou três manifestações de conterrâneos mais próximos. Eis que nosso rincão também falou ao coração de um homem cosmopolita como você. Até a boa gente de Caruaru tem escrito, numa manifestação de grandeza, malgrado meus azedumes confessos. Obrigado.

      Abraço,

      FD

  23. Fernando:

    Como diz Francisco Azevedo (recomendo seu “O Arroz de Tia Palma”), família é prato que emociona, de alegria, de raiva ou de tristeza. E uma família fria é insuportável, impossível de se engolir. Felizes os que têm matizes a contar.

    Abraço,

    Gilda Kelner

    • Você sempre sábia e atenciosa, Gilda.

      Vou procurar Francisco Azevedo.

      Acho até que já tenho o livro, presente da amiga Isabela Curado. Muito obrigado.

      Abraço,

      Fernando

  24. Como mãe e vítima, ri de chorar muitas vezes. Era isso mesmo.

    Lucy

  25. Vítima que nada, mamãe. A Sra. era (e é) a cereja do bolo desse desregrado.

    Beijo,

    F

  26. Fernando
    acabo de ler o texto acima, gostei bastante, já que sai de Garanhuns com 3 anos, minha mãe tinha propriedade no Castainho, lugar de quilombolas.
    Meus irmãos Gilson e Geraldo estudaram no Diocesano, minha irmã Geny no Santa Sofia, papai tinha uma oficina mecânica na Boa Vista (Odilon Rodrigues de Vasconcelos), a nossa cidade era sempre assunto na mesa, os seus tipos, o clima agradável, as curiosidades, o carnaval na AGA, a boa educação que os colégios ofereciam, tudo que acordo com o seu relato.
    Repassarei com o maior prazer a sua crônica para meus parentes e que eles desfrutem deste momento tão especial que você nos proporcionou.
    Abraço
    Glaucio

    • Glaucio,

      Como você viu, eu também saí cedo de Garanhuns mas, em dado tempo da vida, não deixei de bater o ponto por lá periodicamente. Conheci bem as alturas onde ficava a oficina de seu pai e por certo que você encontrou nos comentários precedentes um ou outro conhecido da velha guarda. Nós podemos até ter mudado, Glaucio, mas Garanhuns permanece a mesma no seu ramerrão de cidade única. Junto a suas irmãs Poços de Caldas, Araxá e Campos do Jordão, ela toca a vida altiva e, nos dias de hoje, vive agradecida pelo manto verde que a chuva deu à região.

      Dá muita vontade de passar uma longa temporada por lá. Quem quiser passar ao largo da tentação, melhor não visitá-la, já vou dizendo. Pois se visitar, vai querer ficar. Nada me surpreendeu tanto quanto a autoestima do povo. Mesmo tendo perdido bobamente o Festival de Jazz do Carnaval, o ânimo é grande. Para almas extraviadas como a minha, dada a errâncias, nada como revisitar e tempos em tempos o CEP do coração. Vagando pelas ruas ao entardecer, ouvindo as cigarras, a sensação de pertencimento é a de um soldado que, depois de desenganado, voltou vivo à aldeia.

      Abraço,

      FD

  27. Fernando,
    Muito bom teu artigo. Passei o mesmo para meu amigo de infância, também, de Garanhuns, Urbano ROCHA , filho de Álvaro Rocha ,ex-Prefeito da Cidade e ex-tabelião. Aliás, há 10 dias o Urbano esteve em Garanhuns
    Esclareço que quanto o Padre Hosana matou o Bispo, naquele instante, eu estava em frente ao PALÁCIO do Bispo, sentado no banco, namorado. Fui um dos primeiros a pegar o Bispo, mas logo me afastaram por ser menor-adolecente.
    O homem sem pernas trabalhava nos Correios, cuja filha Marluce mora perto da minha residência no Rio.
    Meus amigos de infância em Garanhuns: Jarbas Vasconcelos, David da dona Almerinda, Airton Diógenes, já falecido , Edson e. Sílvio Apolinário, filhos de Minervino, Roberto Tavares Souto Maior, Juarez da Padaria Royal, Arnaldo Brito e tantos outros. Quantas saudades! E sua crônica reativou tudo. Também tinha um Dourado no nosso grupo.
    A pouco estive em Guaramiranga-CE e me lembrei muito de Garanhuns, da infância que não volta mais!
    Parabéns pelo belo artigo
    Flauberto Cardozo de Góes

  28. Tive grande alegria em receber seu comentário, Flauberto. Maior ainda em sabê-lo amigo de pessoas como Roberto Souto Maior, referência de afeto em minha família. Li recentemente um livro sobre o crime do Padre Hosana (A bala e a mitra, de Ana Maria César) e vou folheá-lo para ver se não há nenhuma referência a você, tão detalhado ele consegue ser. Se tiver, te aviso. Um abraço, Fernando

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