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Sinfonia da Ressurreição de Mahler, a busca pelo sentido da vida – Frederico Toscano

Frederico Toscano

O maestro italiano Daniele Gatti rege a Sinfonia da Ressurreição de Mahler diante da Orquestra Real do Concertgebouw, fundada há 130 anos e eleita recentemente a melhor orquestra sinfônica do mundo, em Amsterdã, na Holanda.

Em novembro de 2016, o manuscrito da Sinfonia n.º 2 de Gustav Mahler(1860-1911) foi vendido por 4,5 milhões de libras esterlinas, batendo o recorde segundo a Sotheby’s por ser o manuscrito musical mais caro da História. A casa de leilão em Londres disse que o documento de 232 páginas, escrito à mão pelo próprio Mahler, é notável, pois mantém sua forma original e mostra o processo de composição, incluindo alterações e comentários. A sinfonia foi tocada a primeira vez em 1895, com regência do próprio compositor diante da célebre Orquestra Filarmônica de Berlim, na capital alemã.

A Sinfonia n.º 2 foi escrita entre 1888 e 1894, sendo publicada no ano de 1897 em Leipzig. A obra passou por uma revisão em 1910, penúltimo ano de vida de compositor. Também é conhecida como “Sinfonia da Ressurreição” (ou “Auferstehungssinfonie”, em alemão) por fazer referências ao Cristianismo.

Em fevereiro de 1894, durante os funerais do grande pianista e regente Hans von Bülow, Mahler ouviu um coro de meninos cantar o hino “Die Auferstehung” (A Ressurreição), de autoria do poeta alemão Friedrich Klopstock (1724-1803). O hino impressionou tanto Mahler que ele resolveu incorporá-lo ao final da sinfonia que, naquele momento, estava em preparação. Ao mesmo tempo decidiu que a Ressurreição seria o tema principal da obra.

A “Sinfonia da Ressurreição” é a primeira sinfonia em que Mahler usa a voz humana, que aparece na última parte da obra, no clímax, tal qual a Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven (1770-1827). Além da influência de Beethoven, percebem-se traços de Anton Bruckner (1824-1896) e Richard Wagner (1813-1883) na composição.

Compositor austríaco, de origem boêmia e de ascendência judaica, Mahler nasceu em Kaliste e faleceu em Viena. “… três vezes apátrida. Como natural da Boêmia, na Áustria; como austríaco, na Alemanha; como judeu, no mundo inteiro. Por toda parte um intruso, em nenhum lugar desejado”, declarou. Apesar da origem judia, Mahler sentia fascínio pelo tema da morte e pela liturgia cristã, principalmente pela crença na Ressurreição e Redenção. A Segunda Sinfonia propõe responder à pergunta: “Por que se vive?”. Simbolicamente ela narra a derrota da morte e a redenção final do ser humano, após ter passado por uma período de incertezas e agruras. É como um abismo que nos causa vertigem ao buscarmos o fundo. Sedento da ideia de perdão proposta pelo Catolicismo, Mahler iria converter-se para assumir a direção da Ópera Imperial de Viena, cargo restrito a católicos. Não foi um ato meramente oportunista; Mahler tinha real convicção de suas dúvidas.

A “Sinfonia da Ressurreição” narra a queda e morte do herói, as suas dúvidas, sua fé e a ressurreição no Dia do Juízo Final. O primeiro movimento é sobre a morte, no segundo a vida é relembrada, e o terceiro apresenta as dúvidas quanto à existência e ao destino. No quarto movimento o herói readquire a sua fé e a esperança. No quinto e último movimento ocorre a Ressurreição, na forma imaginada por Mahler. Na sua forma final, a sinfonia, cuja duração aproximada é de 80 minutos, é formada por cinco movimentos distribuídos da seguinte forma:

  1. Allegro maestoso: Mit durchaus ernstem und feierlichem Ausdruck (Rápido e majestosamente: Com expressão muito grave e solene)

O impacto dos primeiros acordes já é devastador. Na atmosfera da imobilidade provocada pelo impacto da morte, a música do primeiro movimento nos coloca em contato com a maior dúvida existencial do gênero humano, transformada em uma música poderosa, inquietante, urgente. Uma enorme marcha fúnebre se inicia em largas proporções, cuja impressão é de relutância, a própria relutância da aceitação ou não das perdas da vida, do adeus à pessoa amada, da luta e do sofrimento:

  1. Andante moderato: Sehr gemächlich, Nicht eilen(A passo de caminhada, moderadamente: Muito vagaroso, sem pressa)

O segundo movimento, que por vezes toma ares de trilha-sonora da Belle Époque numa valsa indecisa,alterna o Ländler(dança popular germânica pouco movimentada) e a atmosfera dramática de seções intermediárias. Traz as lembranças, a reflexão pós-morte, a melancolia de quem fica. Há passagens de extrema beleza e delas somos conduzidos a outras que, de longe, sugerem angústia. Vale a máxima do próprio compositor de que “uma sinfonia tem que ser como o mundo e conter tudo”:

III. Scherzo: In ruhig fließender Bewegung(Scherzo: Movimentado mas fluindo tranqüilamente)

Este movimento traz à tona a negação, típica dos momentos de perda, pela qual todos nós passamos. Recusamo-nos a acreditar; o mundo agora parece sem sentido, e Mahler é implacavelmente irônico com isso. Há uma informação de bastidores importante para se compreender esta passagem: Mahler usa a mesma melodia de uma canção tradicional sobre um sermão de Santo Antônio aos peixes; ou seja, sarcasticamente ele nos coloca em contato com a realidade sugerida no texto – os peixes ficaram encantados com a retórica do santo, mas nada puderam compreender do que foi dito. A mensagem é clara: há um sentido no caminho da vida, mas pouco podemos entender ou aproveitar do que é oferecido, uma vez que estamos encantados com o aspecto superficial das coisas:

  1. Urlicht: Sehr feierlich, aber Schlicht(Luz original: Muito solene, porém simples)

O quarto movimento é, na verdade, uma canção pré-existente que ele havia escrito para a voz da contralto solista: “Urlicht” (Luz Primordial, ou Luz Original). Este é o epicentro da sinfonia. É a tradução comovente dos sentimentos mais simples – a ingenuidade, a crença e a fé:

Tradução do texto cantado:

“Ó rosa vermelha!

O homem encontra-se em grande necessidade!

O homem encontra-se em grande dor!

Como eu gostaria de estar no céu.

Eu vim por um largo caminho

Um anjo veio e queria me afastar.

Ah não! Eu não serei afastado!

Eu vim de Deus e retornarei a Deus!

O Deus amoroso me dará um pouco de luz,

Que me iluminará para a abençoada vida eterna!”

  1. Im Tempo des Scherzo: Wild herausfahrend “Aufersteh’n”(No mesmo tempo do Scherzo: Condução feroz até o coro “Ressurreição”)

Após a afirmação de fé do quarto movimento (“Venho de Deus e quero retornar a Deus”), o movimento conclusivo lembra-nos o caminho já percorrido, mas, em seu terço final, as reminiscências são transfiguradas. Retorna a reflexão a respeito da morte, num aterrador retorno ao clima inicial. Texto e música conclamam o ouvinte a participar da mensagem da sinfonia e permitem experimentar, para além das tristezas e alegrias cotidianas, um caminho fé e de esperança, de vida, morte e ressurreição. O movimento representa a segunda metade da obra, com duração quase igual aos quatro movimentos anteriores. Mahler faz uso de instrumentação distante (geralmente colocada atrás do palco, onde não se pode ver) para representar o aviso dos céus, enquanto a orquestra reproduz o desespero da condição humana. Como na Nona de Beethoven, alguns temas dos movimentos anteriores são relembrados. Após um bom tempo de música puramente instrumental (outra coincidência com o final da Nona de Beethoven), entra em cena o coro, com o poema de Klopstok, sobre o qual Mahler acrescentou trechos da própria pena:

Tradução do texto cantado:

“Ressuscitará, sim,

O meu pó ressuscitará

Após um breve repouso!

Vida imortal! Vida imortal

Será dada por aquele que te chamou.

Para florescer novamente tu foste semeado!

O Senhor da colheita

Recolherá seus feixes,

Nós, que morremos.

Ó crê, meu coração, crê:

Não perderás nada!

Alcançou aquilo que desejaste,

Aquilo que amaste

Aquilo por que lutou!

Ó crê, tu não nasceste em vão!

Não viveste nem sofreste em vão!

O que foi criado deve perecer

O que pereceu deve ressuscitar!

Não trema mais!

Prepara-te para viver!

Ó dor, que penetra tudo

De ti fui separado!

Ó morte, que conquistas tudo,

Agora foste conquistada!

Com asas que ganhei,

Na dura batalha do amor,

Alçarei voo para a luz que nenhum olho penetrou!

Morrerei para poder viver.

Ressuscitará, sim,

Meu coração ressuscitará em um instante!

Tudo o que sofreste,

Te levará a Deus!”

O amplo diálogo que a “Sinfonia da Ressurreição” estabelece com elementos característicos do universo mahleriano não para, entretanto, nos textos. Na obra encontramos, por exemplo, um dos arquétipos da música de Mahler: a marcha, de cores trágicas e fúnebres no primeiro movimento, onde alusões ao “Dies irae” gregoriano convivem com passagens de tons mais serenos, em um tecido composicional de fortes contrastes, também característico da linguagem do compositor.

Sua invenção orquestral, integrada organicamente aos demais elementos composicionais, não conhece limites e explora, com verdadeira atitude investigativa, novas sonoridades, extraindo de cada instrumento ou naipe uma força expressiva, um páthos que o distingue como o compositor que fez o elo entre a tradição romântica e novas linguagens do século XX. O apátrida encontrou seu lugar no curso da História e a aurora que ilumina suas novas paisagens sonoras emerge desse ocaso do Romantismo e desperta a verdadeira veneração de que foi objeto por parte dos músicos da Segunda Escola de Viena, grupo de compositores modernos cuja música é caracterizada pela atonalidade e dodecafonismo.

Em 1910, Mahler terminou a Nona Sinfonia (seu último trabalho completo) e começou a escrever a Décima. Nesse ano, sua esposa Alma precipitou uma crise conjugal. Em Leyden, Mahler teve uma consulta com Sigmund Freud (1856-1939). Numa viagem aos Estados Unidos, em fevereiro de 1911, Mahler ficou extremamente doente. O médico da família diagnosticou uma infecção estreptocócica. Por sugestão do médico, no começo de abril, Mahler partiu para Paris para consultar um bacteriologista. Por um breve período, Mahler teve uma pequena melhora. Contudo, ele não conseguiu se recuperar. Um médico especialista em hematologia sugeriu que Mahler fosse internado em Viena e para lá ele foi levado.

A 18 de maio de 1911, com quase 51 anos, Gustav Mahler faleceu de uma infecção estreptocócica no sangue. Suas últimas palavras foram: “Minha Almschi” (referência à sua esposa Alma, literalmente traduzida como “Minha Alminha”) e, finalmente, “Mozart”, seu compositor favorito. Como Beethoven, Mahler morreu durante uma trovoada.

Entre as inovações introduzidas por Mahler estão o uso de melodias com grandes implicações para a harmonia, a combinação expressiva de instrumentos, em grande e pequena escala e combinação da voz e do coral à forma sinfônica. Além de compositor, Mahler foi também um grande maestro e suas técnicas de regência sobrevivem até os dias de hoje. Em sua época Mahler encontrou dificuldades em ver seu trabalho aceito. Por bastante tempo ele ficou mais conhecido por suas excepcionais habilidades como maestro de orquestra do que como compositor. Porém, ele confiava em seu talento e dizia: “Meu tempo há de chegar!” E, de fato, seu tempo chegou.

4 Comments

  1. De novo espetacular e surpreendente. Não sei o que é Frederico Toscano, um historiador da música erudita, ou encantado erudito da música clássica? E sempre se percebe o cuidado da pesquisa. Uma preciosidade. Já tive uma fase de paixão por Mahler. E por Sibelius. Alguma semelhança?!

    • Cara Helga, obrigado pela acolhida sempre gentil. A honra é toda minha em estar ao seu lado neste projeto. Curiosamente, em 1907, Mahler teve um encontro com Sibelius, cujas sinfonias tinham concepções radicalmente opostas às do colega: intimistas, lineares, puristas. Eles discutiram, na ocasião, o significado de uma sinfonia. Sibelius enfatizava sua “profunda lógica e conexão interior”. Mahler discordou completamente: “uma sinfonia deve ser como o mundo; deve envolver tudo.” – como citei no texto. O fato é que criaram obras grandiosas e eternas. Confesso que o meu mundo musical é mais clássico, porém a Segunda de Mahler me é especialmente impactante. Este registro que usei com Bernstein é lendário. Dame Janet Baker se supera no quarto movimento. Arrebatador.

  2. Fantástico!!! Parabéns à revista e ao Frederico Toscano

  3. Sim, Frederico, reparei o quanto está impressionante de teatral o Bernstein. Só mesmo um homem bonito p’ra fazer aquele gestual todo.

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